*Rosie*

Assim que saímos da pizzaria, dá pra ver o quanto Zoe está cansada. Quando chegamos em casa, que não é muito longe, ela está dormindo.

— Zoe, chegamos. — Encosto em seu braço e a balanço.

— Me deixa dormir. — ela empurra minha mão.

— Não posso. Vai dormir fedorenta? Vamos! — a empurro mais forte.

— Chata! — ela diz, mas logo sai do carro.

Assim que entramos, nosso pai está sentado no sofá cochilando.

— Zoe vá para o banheiro que logo eu subo, ok?

Ela então sobe as escadas e vou até meu pai para acordá-lo e fazer com que ele também tome um banho e vá se deitar.

Ao me aproximar, vejo que há duas garrafas de cerveja no chão, mas para o estado dele, deve ter bebido muito mais na rua. Pego as garrafas e coloco em uma caixa no canto, já colocada lá para isso.

— Chegaram tarde — ele diz de modo meio embolado.

— Não papai, sua noção de tempo que está fraca — dou um leve sorriso.

— Pode ser, mas como foi?

— Foi bom. — pego seu tênis e meias que estão largados pela sala.

— Rosie, converse comigo. Venha cá — ele sinaliza com a mão para que eu sente ao lado dele, e assim o faço.

— É bom estar de volta a ativa papai. Amanhã vou levar o atestado a faculdade, pra que na próxima semana eu possa voltar.

— Isso é bom. Mas qual a sensação de ter terminado o tratamento?

— Ainda não consegui digerir tudo isso — dou um fraco sorriso — esperava pensar nisso agora durante a madrugada. Então quando eu souber descrever eu te digo. — ele me olha calmamente e então sorri.

— Tudo bem. Eu acho que devo subir, não é? — ele começa a levantar.

— Acho que sim — me levanto e o ajudo a se equilibrar. — eu te acompanho.

Pacientemente subimos as escadas, o deixo na porta do banheiro e caminho para o quarto da Zoe. Nesse pouco tempo, ela conseguiu tomar banho e já estar dormindo. Isso facilita as coisas pra mim. Um tempo a mais sozinha comigo mesma.

Durante o banho, sentada na banheira, fico olhando a marca de cada agulha que já entrou em meu braço. Dias e dias em que estava mais sensível e o tratamento doeu, aqueles dias em que meu braço não me deixava pegar nem uma caneta. Acabou. Eu estou voltando a minha rotina antiga. Trabalhar no hospital, depois ir a faculdade, então estar em casa. Ainda sou eu mesma? A mesma Rosie que tinha essa rotina antes?

Entro em meu quarto, coloco minha camisola e então desligo as luzes e ligo meu projetor. Fecho a porta e o coloco em direção ao teto, produzindo um pequeno céu estrelado particular. Me deito em minha cama e fico observando.

Imagino que cada estrela projetada é uma célula. Somos um universo celular. E em algumas pessoas, há tipos estranhos de estrelas e corpos celestes. Associo meu câncer com um buraco negro, que sugou boa parte de mim. Minha força, minha luz (como os buracos negros realmente fazem), parte da minha alegria, em alguns momentos, até minha vontade de continuar vivendo. Mas agora, eu sou uma nova galáxia. Novos brilhos, novas descobertas. A partir de agora meu universo segue o rumo natural.

Então penso em minha mãe. Seu universo entrou em colapso rapidamente com a vinda do câncer, como uma colisão de duas galáxias. O mesmo câncer que o meu. Porém mais agressivo. O buraco negro dela cresceu e sugou tudo rapidamente. Suas estrelas foram morrendo, perdendo brilho. E então restou o vazio. Então ela se foi. Em poucos meses nosso céu estrelado virou um céu nublado. Pela dor, pela perda.

Mas poderia ter sido eu. Mas foi ela. Eu tinha apenas 11 anos quando ela se foi, a idade que Zoe tem hoje. Quando descobrimos o câncer, de algum modo ele tinha crescido silenciosamente por meses antes de se manifestar. Em poucos dias, minha mãe, de uma mulher forte, alegre, amorosa, de cabelos longos incrivelmente brilhantes, passou para uma mulher que perdia mechas de cabelo ao longo dos dias, que de repente não podia mais correr comigo no quintal, que passava a maior parte dos dias olhando a rua da varanda, sentada em uma cadeira balançando enquanto as lágrimas caíam, ainda que ela achasse que eu não via. Sua rotina não era mais amamentar, dar carinho, escrever seus livros, me levar e buscar no colégio, dar amor ao marido e as filhas. Sua rotina agora era quimioterapia e se sentar em algum cômodo da casa ou dormir.

Vi pouco a pouco minha mãe ficar cada vez mais debilitada. De repente, nem na cadeira de balanço ela se sentava mais. De repente, nossa casa precisou de espaço, pois ela poderia andar em casa com uma cadeira de rodas. Vi seus braços incharem, sua pele demonstrar sinais claros do ataque do câncer, e então ela perder a voz. De repente, tínhamos que estar sempre atentos, pois em qualquer coisa que ela precisasse, ela não poderia gritar apenas buscar fazer barulho, fosse batendo uma colher na parede ou na cama.

E então num dia, ela acordou, mas não conseguiu fazer barulho. Suas forças se foram. Quando meu pai conseguiu a encontrar, ela estava dando uma parada cardio respiratória. Meu pai chamou nossa vizinha, a senhora McLaren, pra ficar conosco enquanto corria para o hospital com a mamãe. Mas a noite, ele voltou sozinho. E até hoje não sei exatamente como ela se foi, se sofreu ou não. Apenas lembro o que eu sofri.

Então quando descobri ter o mesmo câncer que minha mãe, meu pai ficou arrasado. Perdas seriam comuns na nossa família? Estávamos prevenindo através de exames regulares, então isso me garantiu que quando eu descobri o câncer, ele ainda estava iniciando, então seria menos agressivo que o que minha mãe teve. Mas ainda assim, o medo prevalecia. Meu cabelo caiu como o de minha mãe. Meus cabelos eram longos também, e lisos, como o dela. Minha força para fazer as atividades do dia a dia se foi também, como a dela. Era como ver a história se repetir. Em certo ponto, meu câncer tirou minha vontade de viver. De repente, tudo que eu queria era ir para poder estar com ela.

Mas hoje eu estou aqui. Viva e querendo viver mais. Porque com certeza ela iria querer que eu lutasse se tivesse chance. E como eu poderia deixar Zoe e meu pai? Então aqui, agora, olhando esse céu projetado, eu sinto a vida mais do que nunca. Eu estou viva e venci.