There's no Way
3 Capítulo 3
*Rosie*
Na manhã seguinte, quando desço para a cozinha, percebo que meu pai está cozinhando suas famosas panquecas. As panquecas que tanto amo, do jeitinho que ele fazia quando tínhamos nosso café da manhã especial enquanto mamãe ainda estava viva.
— Pai, acordado e cozinhando? — tento escolher as palavras com cuidado.
— Acredite, eu acordei bem disposto, mesmo depois do porre de ontem. E sonhei que fazia panquecas, então porque não fazer? — ele me lança um grande e largo sorriso em meio a sua barba para fazer.
— Eu fico feliz. Meu estômago principalmente. — vou até o armário buscar pratos e canecas para arrumar a mesa.
Logo que coloco tudo na mesa, sento e olho meu Twitter. A maior parte das notícias dos blogs que sigo é sobre Alec Scott e sua ação "solidária" no hospital San Rose. Reviro os olhos e bloqueio a tela do celular. Zoe então desce.
— Papai? — ela para nas escadas com uma cara de confusão, alegria e dúvida. Eu e papai caímos na risada.
— Em carne e osso querida. Sente-se que já está pronto.
— Sabia que esse cheiro maravilhoso não tinha como ser causado pela Rosie — ela senta e me olha com cara de deboche, e eu, retorno uma cara de ofensa.
Pela primeira vez desde toda a turbulência todos nós estávamos tomando café da manhã juntos. Em tanto tempo, nunca me senti tão disposta para trabalhar como hoje.
Ao chegar no hospital, vejo que não há jornalistas, nem fotógrafos, ou qualquer tumulto. Provavelmente meus dias de paz vão finalmente começar.
Mas ao entrar na ala, vejo que as crianças não estão dispersas como normalmente estariam, mas estão todas na brinquedoteca.
— Todas resolveram brincar hoje? — pergunto a Kristen enquanto coloco meus pertences no armário.
— Não. O boy magia está ai.
Talvez eu tivesse falado cedo demais. Mas se ele ainda estava aqui, onde estavam todos aqueles jornalistas?
— Mas não vi nenhum jornalista lá fora.
Alec então chega, interrompendo nossa conversa.
— Bom dia meninas. — ele olha para mim — Bom dia, Rosie. — e lança um sorriso pequeno.
— Bom dia — dizemos juntas.
— Rosie, posso ter uma ajuda sua?
Kristen me olha com um olhar malicioso. Como estamos atrás do balcão, dou um pisão em seu pé.
— Claro.
Ele então segue para a brinquedoteca e sigo atrás, ainda sem entender no que ele pode precisar de minha ajuda.
— As crianças tem medo de algum personagem? Digo, eu queria me vestir de palhaço, mas não sei se alguma vai sair gritando.
Antes de responder, vejo um rapaz no canto. Com uma câmera. Ainda que não tivesse os jornalistas, ele estava documentando. Isso me irrita. Bastante. Olho para ele que está esperando minha resposta.
— Tem algumas roupas no armário ali atrás.
Enquanto ele olha para o armário, eu sigo de volta para o balcão. Quando ele vê que eu saí, chama meu nome, mas finjo não escutar. Preciso trabalhar.
***
Quando o período da manhã termina, atendi metade da minha cota de pacientes, o que era o esperado, então estou feliz.
— Kristen, vou almoçar agora, tudo bem?
— Claro, estou sem fome, então provavelmente vou pular essa refeição. — ela me dá um sorriso e tenho minhas dúvidas de que ela realmente esteja sem fome, mas creio que deva falar disso com ela mais tarde.
Pego minha bandeja e vejo que hoje é um dos dias que mais gosto. Purê de batata e carne. Como de costume, sento na mesa do canto do refeitório. É de praxe que eu fique escutando música ou lendo algo enquanto almoço. Hoje escolhi ler. E escolho um romance, gênero que não leio a muito tempo. Para Todos os Garotos Que Já Amei. Zoe ama ler livros e sempre que dá ela compra alguns. Esse de algum modo me chama atenção. É um clichê do gênero, mas quando ela me contou sobre a personagem principal, vi um pouco de mim em certa época, então coloquei os prós e contras de querer ler esse livro e dá pra ver que o pró ganhou.
Não sei quanto tempo se passou, sei que consegui terminar meu almoço e já tinha lido 30 páginas do livro, mas duas pessoas se sentaram na minha frente. Alec e o outro rapaz que estava gravando. Alec me olhava atentamente, talvez escolhendo as palavras com cuidado. Já o outro, apenas segurava a câmera.
— Posso perguntar o porquê de ter sido rude comigo quando te perguntei sobre a roupa?
— Poder pode, mas isso não significa que eu precise responder não é?
— E olha só, tá fazendo de novo — o tom dele é mais de surpresa do que de raiva.
— Achei que tinha resolvido seu problema.
— Meu problema?
— Você basicamente me disse ontem que o problema de eu estar aqui eram os jornalistas.
Bom, sempre achei que os homens precisavam ouvir as frases sem enrolação, pois parece que a capacidade interpretativa de alguns é horrível.
— Você escutou a parte em que eu disse que o amor é pra ser sentido e não só demonstrado?
— Claro que escutei.
— Mas não entendeu pelo visto.
— Como pode dizer isso?
Olho para dentro dos olhos dele e então dirijo meu olhar firme para o câmera ao seu lado, documentando toda a nossa discussão até agora. O olhar de Alec segue até o câmera. Ele olha pra mim e eu olho pra ele, ainda firmemente. Ele olha novamente para o câmera e volta ao meu. Abre a boca para falar algo, mas parece desistir. Ele bufa e então pede que a câmera seja desligada. Estou surpresa, mas não deixo isso transparecer.
— E agora? Será que podemos começar de novo?
Seu olhar parece sincero e cansado desse atrito. E talvez se eu finalmente der trégua, ele me deixe em paz. Então estendo a mão até ele.
— Claro. Bom, olá meu nome é Rosie.
— Bom Rosie, prazer, meu nome é Alec Scott.
Lanço um pequeno sorriso e então pego minha bandeja, meu livro e me levanto. Mas ele vem atrás.
— Agora posso perguntar porque ficou tão brava por eu estar no hospital com os jornalistas?
Coloco minha bandeja no descarte e me viro pra ele.
— Pra mim tudo o que pessoas como você querem com tudo isso é publicidade para bem próprio, se não, qual outro motivo de estar aqui ao invés de estar em um hotel 5 estrelas se refrescando na piscina? O que parece que vocês não entendem é que estão se beneficiando de vidas, vidas que tem histórias incríveis, que se você sentasse e escutasse uma por 5 minutos, repensaria toda a sua vida. A ala de oncologia é conhecida sim na cidade, mas ninguém procura saber sobre as necessidades que passamos, alas que nos auxiliariam, mas estão sem recurso e muitas daquelas crianças não terão como continuar o tratamento por muito tempo, pois as famílias já não tem dinheiro pra todo o tratamento, já que as alas estão precárias. Quanto disso você sabia?
Ele não consegue dizer nada. Apenas fica imóvel enquanto vê que uma lágrima desce pelo meu rosto. Não consigo dizer se seu rosto demonstra tristeza, culpa ou qualquer outra emoção ruim, sei que foi um pequeno choque de realidade para ele.
Mas enquanto estou ali tentando descobrir o que se passa, já que ele não diz nada, meu bip toca. É Kristen me chamando.
— Eu preciso voltar. — digo a ele enquanto seco a lágrima.
Começo a andar de volta para a ala e vejo que ele vêm atrás, mas não diz uma palavra sequer. Ao entrar no corredor principal, vejo Kristen mais a frente, e ela indica com gestos que eu vá rápido para a porta de recebimento de emergência.
Então eu corro sem imaginar o que possa ser. E então a vejo. Cloe está chegando em uma maca, está desesperada, não consegue respirar. Cloe é uma das pacientes mais antigas da ala. Quando comecei a trabalhar aqui, ela já tinha 5 anos de tratamento. Sempre que conhecia um paciente, buscava ter uma amizade, pois assim era mais fácil auxiliar no tratamento, já que enfermeiros passam mais tempo com os pacientes do que os médicos.
Rapidamente pego um par de luvas, coloco e vou até ela. Procuro acalmá-la e verificar seu pulmão e coração.
— Ela tem falta de ar! Preciso de aparelhagem!
Logo corremos com ela para a área de emergência da ala. Kristen busca o histórico. Enquanto isso, ligo Cloe aos aparelhos. Vejo que Alec está na porta, assustado e observando tudo.
— Pressão diminuindo! Vou inserir um litro de soro livre agora!
Todo o procedimento tem que ser falado em voz alta, mas minha voz sai menos assustada do que eu realmente estou. O médico ainda não chegou e nenhuma das outras enfermeiras chegou do almoço ainda.
— Onde está o médico? — pergunto a Kristen. Ela está tão receosa quanto eu.
— Não sei. Mas olha — ela aponta para o monitor — a pressão está subindo de novo.
Cloe parece melhorar da crise e Kristen ausculta o peito, verificando se pode ou não haver infiltração do pulmão. Mas felizmente ela me dá um bom sinal.
Geralmente não passamos por grandes coisas como esse momento, na verdade em todo esse tempo que trabalho aqui, ainda estou montando o "top 10" piores momentos da ala. Mas fico feliz que tudo deu certo no final.
O médico chega e encaminha Cloe para exames, enquanto eu e Kristen buscamos finalmente tomar um ar e percebo que Alec não está mais por perto.
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