Os portões se abriam aos poucos, enquanto uma luz branca cegava quem estava do lado de dentro. Quatro cavalos partiam, os homens empunhavam habilmente suas espadas enquanto cavalgavam em direção à mancha negra que se aproximava. Permaneciam parados em frente aos portões pesados de ferro esperando o que viria. Cerca de quinze homens pararam há alguns metros de distância dos quatro guerreiros. Eles observavam e esperavam. Os cavaleiros usavam armaduras num tom escuro de marrom. O cavalo branco no centro só era notado pela pequena figura de vestes escuras que montava nele, destacando-se em meio a tanta neve. Desceram do cavalo cinco cavaleiros. Um deles andava na frente ao lado de um homem muito baixo, os outros, o cercavam mais de longe. Os quatro ainda observavam em cima de seus cavalos, cautelosos, quando puderam ver, assim que se aproximaram, que o pequeno homem ao meio na verdade era uma garota. Entreolharam-se e desceram de seus cavalos, ainda empunhando suas espadas. O pequeno grupo que caminhava até eles parou a um metro ou dois de distância. A garota tirou o gorro de sua capa, mostrando um rosto delicado e jovial. Ela fez uma reverência com a cabeça e os cavaleiros retribuiram o comprimento. Observaram o olhar dela encontrando os diversos cavaleiros em posições de atenção mais a longe.


"Olá. Eu e meus homens estamos viajando há muito tempo. Gostaria de falar com seu líder e pedir abrigo até a tempestade passar, se for possível"
Ela falou cordialmente as palavras com um sotaque diferente que eles nunca haviam ouvido.


"Nós não deixamos selvagens entrar" Um dos cavaleiros deu um passo a frente, pronunciando-se. Ela sorriu e deu um passo a frente também. O homem ao seu lado tentou segurar-lhe, mas ela não o deixou.


"Eu entendo, senhor, mas não somos selvagens, o que quer que isso signifique pra você" Ela revirou seu bolso e retirou uma bandeira de trinta centímetros mais ou menos, com um brasão pintado nela. Não era um brasão que eles conheciam, mas podiam ver que pertencia a alguma família importante.


"Eu não posso permitir que entre com um pequeno exército aqui"


"Muito bem. Posso entrar para conversar com seu líder então?"


"Sozinha, vossa graça?" O homem ao lado dela pronunciou-se pela primeira vez, mas ele não possuía sotaque algum. Pelo contrário, ele falava como um genuíno homem de Westeros.


"Não, é claro. Eu gostaria de entrar com um cavaleiro ao meu lado pelo menos"


"Um cavaleiro, tudo bem" O homem pronunciou e ela chamou o mais próximo dos seus homens. Ele caminhou junto a ela e ao homem ao seu lado, mas o cavaleiro que conversava com eles espalmou a mão no ar, fazendo um gesto para que parassem.


"Você disse um cavaleiro"


"Sim, ele é um cavaleiro. Este é meu conselheiro"


Ela sorriu como uma verdadeira diplomata e ele acabou por aceitar. Pediu que seus homens permanecessem ali, e o cavaleiro que conversava com ela disse o mesmo para os outros três que permaneciam ao lado de seus cavalos.


Caminharam para o lado de dentro do grande portão de ferro, atravessando alguns metros até chegar do outro lado da grande muralha de gelo. Os homens que ali trabalhavam olhavam para eles com curiosidade. Todos usavam roupas negras e pesadas, por conta do frio. Ela já ouvira sobre eles, os homens da muralha, a Patrulha da Noite. Acompanhou o cavaleiro até uma porta de madeira pesada, onde o Comandante daqueles homens já a esperava. Ele a mandou entrar e assim ela o fez, acompanhada dos dois homens que ficaram mais atrás. Ela reverenciou o homem a sua frente e sorriu.


"Olá, meu Lord" Assim que encontrou o olhar do velho homem, viu que atrás dele se encontrava um jovem de rosto longo e cabelos escuros. Ela sorriu para ele também, fazendo uma leve reverência com a cabeça.


"Meu nome é Mykhaela da casa de Orleans de Lumiar"


"Eu nunca ouvi falar de tal casa"


"Eu sou de um reino do sul, além do deserto Dothraki"


"E no que posso ajudar, Lady Orleans?"


"Estou viajando há muito tempo com meus homens e precisamos de abrigo por alguns dias. Também trago uma carta de meu pai com seu pedido para que autorizem minha entrada a Westeros"


Mykhaela estendeu um pedaço de pergaminho enrolado e entregou a Lord Mormont, que olhou desconfiado, mas pegou a carta.


"E qual a intenção do Lord Orleans com isso?"


"Rei Moryn Orleans, meu Lord" Corrigiu o conselheiro de Mykhaela, que o olhou como que repreendendo-o.


"Então devo chamá-la Princesa Mykhaela"


"Estou em seu reino, meu Lord. Não sou princesa aqui"


"Felizmente esse não é meu reino, Princesa" Lord Mormont disse enquanto lia a carta. Mykhaela mordeu o lábio inferior em nervosismo. Ela detestava ter que usar na prática suas aulas de política. Achava tudo aquilo muito desinteressante. "É muita coragem de seu pai mandá-la sozinha para procurar um marido. Não há homens suficiente em..."


"Iberia. Sim, há homens o suficiente lá. Mas meu pai busca uma aliança além reino."


"Bom, isso não faz parte do meu departamento. Você pode descansar com seus homens aqui e seguir viagem assim que possível. Snow, diga a Lord Smallwood que encaminhe os cavaleiros de Iberia até os aposentos dos patrulheiros. A Princesa será bem vinda no Castelo Negro"


"Sim, Lord Comandante"


"Obrigada" Ela reverenciou-os mais uma vez. "Me desculpe, mas ainda não sei seu nome, meu Lord"


"Lord Jeor Mormont, ao seu dispor"


–x-


Os patrulheiros estavam sentados no refeitório, nas mesas de madeira. Em uma delas estava Mykhaela. Os homens estavam curiosos, olhavam e comentavam coisas entre si. Fazia muito tempo desde que viram uma figura feminina. Mykhaela se sentia intimidada, mas tentava não demonstrar. Seus homens sentavam-se na mesa ao lado da dela, a não ser por Sor Arthur Davies, seu conselheiro, que sentava ao seu lado.


A princesa então sentiu alguém se aproximar atrás de si e olhou por cima de seus ombros e então para cima até encontrar os olhos negros do jovem que vira na sala de Lord Mormont.


"Princesa" Ele fez uma reverência e ela sorriu.


"Lord Snow"


O moreno olhou para ela com pequeno sorriso no rosto ao ver que ela lembrara seu nome e logo voltou à expressão séria.


"Você não precisa sentar aqui com os patrulheiros. Lord Mormont mandou alguns homens para serví-la em seu quarto"


"Não há necessidade. Eu comerei com meus homens"


"Lord Comandante apenas pensou que preferiria assim"


"Agradeça a ele, mas com tanto tempo na estrada já não me lembro das mordomias o castelo. Você gostaria de se sentar conosco?" Ela apontou o lugar vazio a sua frente e Jon acenou que sim com a cabeça, dando a volta na mesa e sentando-se em frente a ela. Ele serviu-se de sopa e um pedaço de pão. "Então me diga, Lord Snow: há quanto tempo é um Patrulheiro da Noite?"


"Há um bom tempo, Princesa, mas sou relativamente novo aqui. E por favor, me chame de Jon"


Ela sorriu, servindo-se de vinho de uma jarra de barro e então servindo uma taça a Jon.


"Princesa Mykha, você já tomou sua taça da noite" Sor Arthur disse, segurando a taça dela antes que ela pegasse.


"Oh, por favor, Arthur. Meu pai não está aqui"


"Eu ainda o sirvo"


"Achei que me servisse" Ela sorriu. "Oh, vamos lá, não seja tão velho" Ela rolou os olhos, tirando a taça da mão dele. Jon reparou nas feições do conselheiro. Ele tinha uma expressão séria e responsável demais pra alguém da idade dele. Não parecia ter mais que 25 anos.


"Por favor, Jon, beba. É um vinho de meu reino"


"Obrigado, Princesa" Jon agradeceu com um sorriso enquanto bebericava o vinho. Era menos ácido que os vinhos que tomara em Winterfell e um pouco mais forte.


"Você não precisa me chamar de princesa o tempo todo. Pode me chamar de Mykha"


"Como quiser" Jon sorriu à garota, encantado com sua beleza e humildade. Ela era como uma luz que iluminava a tempestade de neve. Um raio de sol em plena noite. Talvez ele só estivesse entorpecido com a visão de uma mulher finalmente, ele pensava. Mas a cada vez que colocava os olhos sobre ela ficava mais e mais encantado.


"Princesa Mykhaela" Uma voz masculina veio de uma figura que parou atrás de Jon. Ela reconheceu ser de um dos homens que a recebeu mais cedo.


"Lord Thorne"


"Está apreciando sua refeição?"


"Sim, meu Lord. Há muito não tinha uma refeição quente e tão boa" Ela sorriu cordial.


"Que bom. Vossa Graça não deveria estar sentada com um bastardo" Thorne deu dois tapas fortes nos ombros de Jon, que fechou os olhos em raiva, então passou a encarar seu prato.


"Um bastardo?" Jon olhou para Mykha tentando decrifrar o que viria no seu olhar. Ele procurava qualquer indício de rejeição na expressão dela. "O que eu vejo é um bom cavalheiro que foi convidado por mim pessoalmente para jantar aqui"


"Como quiser, Princesa" Allister disse com uma expressão nada feliz e se retirou. Jon olhou para ela surpreso, então voltou a olhar para seu prato.


"Obrigado"


"Não há o que agradecer, Jon. Eu apenas disse a verdade"


Os dois continuaram se olhando enquanto Mykha bebia um grande gole de vinho. Não demorou muito para que a mesa fosse esvaziando-se a não ser por Sor Arthur, Jon e Mykha. Arthur acabou por se cansar da conversa dos dois e sentou-se na mesa dos cavaleiros de Iberia, levando consigo a jarra de vinho. Jon estava ouvindo histórias sobre o reino da jovem princesa e sobre como ela aprendera a língua comum.


"Lord Davies, pai de Arthur, fugiu de Westeros pelo sul assim que a rebelião estava prestes a chegar a sua capital. Ele conseguiu levar seus filhos e esposa até um navio comerciante e chegou a Iberia. Arthur era um menino e seu irmão mais novo ainda não havia nascido. Foi ele que me ensinou a língua comum"


"Que você fala muito bem"


"Eu tive um professore muito bom" Ela sorriu olhando de canto de olho para Arthur, que a observava.


"Ele cuida muito bem de você"


"Ele leva a sério o juramento que fez ao meu pai. Arthur sabe, no fundo, que eu não vim aqui procurar um marido"


"O que veio fazer então?" Jon juntou as sobrancelhas enquanto observava Fantasma entrar e parar ao lado de Mykha, curioso. Ela levou um susto quando sentiu o focinho gelado de Fantasma encostar em sua mão. Sor Arthur levantou em um segundo com sua espada.


"Fantasma, não" Jon disse e o lobo sentou, a boca entreaberta e a língua caída de lado. "Me desculpe, ele só ficou curioso sobre você"


"Ele é seu?"


"Sim"


"Arthur, está tudo bem" Mykha levantou a mão e lentamente a direcionou até a cabeça de Fantasma, percebendo as reações do animal enquanto ela se aproximava. Ele fechou os olhos assim que sentiu a delicada mão pequena dela afagando seu pelo alvo e ela sorriu. "Ele é lindo" Jon apenas sorriu apreciando a visão. "Como foi que você domesticou um lobo tão grande?"


"É o símbolo da minha casa e nós encontramos Fantasma e seus irmãos quando eram apenas filhotes. A mãe estava morta. Eu sugeri para Lord Stark que desse um para cada filho seu. Fantasma foi encontrado depois e eu o ganhei"


"Lord Stark é seu pai?"


"Sim. Era meu pai"


Mykha percebeu certa mágoa no olhar dele, até um traço de ódio atrás da tristeza.


"Eu sinto muito"


"Tudo bem" Ele olhou para baixo e ficou quieto por um instante. "Mas você ainda não me disse o que veio fazer aqui então"


Mykha desviou o olhar de Fantasma para encarar Jon, então suspirou.


"Bom, eu já passei da idade para casar, mas sempre dispensei os homens que meu pai queria que eu arrumasse. Eu não nasci para ser propriedade de alguém. Então eu já não tinha como enrolar meu pai e tive a ideia de propor a ele um casamento além reino. Ele aceitou na hora e arrumou uma viagem para Westeros após uma longa conversa com Lord Davies. Eu só queria ver o mundo" Ela sorriu como uma criança que foi pega no meio de uma travessura e Jon riu.


"É um grande plano, mas... o que você fará quando seu pai descobrir?"


"Ele não irá, está muito longe daqui"


"Ele tem homens juramentados a ele que viajam com você"


"Eu vou me casar um dia. Sou a segunda herdeira do trono e meu irmão não tem talento algum pra política. Talvez eu ache um marido aqui, nunca se sabe"


Ela encarou Jon com um olhar intenso, que o jovem sustentou até que ele recuperou seu bom senso. Havia feito um juramento e não pretendia quebrá-lo bem abaixo do nariz de Lord Mormont. Além disso, não pretendia colocar outro bastardo sem nome no mundo, então limpou a garganta e terminou seu vinho.


"Me desculpe, Princesa, mas acho que está na hora de Vossa Graça dormir"


Mykha piscou alguns segundos sem entender a grosseria repentina dele e assentiu com a cabeça, levantando-se em silêncio e saindo do cômodo. Sor Arthur fez menção de acompanhá-la, mas ela fez que não com a mão. Ele encarou Jon com desprezo enquanto voltava à mesa de jogos que os cavaleiros de Iberia haviam feito junto a alguns homens da Patrulha da Noite.


Mykhaela caminhava a passos rápidos pelo chão de pedra tentando descobrir o caminho até seu quarto, mas já não tinha ideia de quantos corredores havia virado. Sua mente martelava a forma grosseira como Jon a dispensou e seus olhos enchiam-se estupidamente de lágrimas quando ela lembrava. Ela detestava os homens que a bajulavam demasiadamente só pelo fato dela ser uma princesa, mas nunca havia sido tratada com tanta grosseria e aquilo a machucou, afinal, havia sido gentil com ele todo o jantar. Ela virou outro corredor a esquerda quando viu Jon, então virou novamente, andando para o caminho oposto. Tarde demais, pois ele a viu e a passos rápidos logo a alcançou. Ele a chamou algumas vezes até conseguir parar a seu lado, mas a princesa não respondeu.


"Princesa"


"Lord Snow"


"Está perdida?"


"Não. Estou bem"


"Tem certeza?"


Ela não entendia nada. De repente ele estava preocupado com ela e sendo gentil?


"Sim" Mykhaela voltou a andar, ignorando Jon, que a acompanhava. Ela chegou no fim do corredor e não tinha ideia de onde virar.


"Vem, eu te levo"


"Eu não preciso de você"


"Ah, não?"


"Eu já disse, estou bem"


"Não seja orgulhosa"


"Eu estou sendo orgulhosa? Já é o segundo insulto da noite, Lord Snow"


"Quando eu a insultei?"


Ela riu em surpresa pela dissimulação de Jon e virou à direita no corredor. Jon pegou em seu braço, virando-a para o sentido contrário. Mykhaela arfou com o contato e Jon logo a soltou.


"Seu quarto é por aqui" Ele sorriu sarcástico para ela e apontou o caminho. Mykha fechou a cara e andou na direção que Jon apontou, sendo acompanhada por ele. Ficaram em silêncio até ele abrir uma porta e revelar o cômodo que Lord Mormont cedeu à ela. Mykha estava decepcionada por depender dele para achar seus aposentos.


"Obrigada, Lord Snow"


"Eu já disse para me chamar de Jon"


"Eu não me importo"


"Quem está sendo rude agora?"


"Oh, por favor! Você ao menos se desculpou" Ela virou-se, entrando no quarto e deixando a porta aberta, andando até a cama e retirando a capa pesada de pele e deixando ali. Jon fechou a porta ao entrar no quarto e observou o vestido verde claro que ela usava esculpir suas formas. Ela tinha o quadril largo, a cintura fina e assim que virou de frente, pode ver que ela tinha seios relativamente fartos, proporcionais ao seu corpo. Um corpo magro, atlético, mas voluptuoso. Corpo de mulher com rosto de menina. Seus cabelos castanhos emolduravam seu rosto e seus olhos amarelo esverdeados brilhavam com o fogo que crepitava ao lado dela.


"Me desculpe, Vossa Graça" Jon falou após um longo período de silêncio observando a beleza dela, e corou levemente ao ver que ela o olhava com dúvida. "Eu não quis insultá-la"


"Tudo bem, mas você terá que me compensar" Ela disse com jeito despreocupado enquanto desfazia as tranças de seus cabelos e os deixava soltos ao redor de seu rosto.


"Eu farei o que pedir"


"Você poderia me mostrar as coisas por aqui amanhã. O castelo e as redondezas"


"Seria um prazer"


"Então está combinado" Ela caminhou até Jon e parou na frente dele.


"Boa noite, princesa"


"Boa noite, Lord Snow"


Ambos fizeram uma reverência e Jon saiu do quarto enquanto Mykha sorria. Sor Arthur estava parado em frente a porta e olhou friamente para Jon, pedindo permissão para entrar no quarto em seguida.


"Claro, Arthur" Mykha voltou a caminhar até a cama e colocou a capa que jazia ali em um das cadeiras perto da janela.


"Tome cuidado com sua honra, princesa"


"O que quer dizer com isso?" Mykha virou-se rapidamente para ele com os olhos confusos.


"Apenas quero cuidar para o seu bem. Não é de bom tom uma donzela ficar trancada no quarto com um homem"


"Eu não estava trancada. Lord Snow apenas me mostrou o caminho até meu quarto"


"Desculpe a intromissão, princesa. Boa noite" Arthur fez uma reverência leve e se retirou.


Mykhaela deitou-se na cama e cobriu-se em seguida. Apagou as velas do quarto e passou horas encarando o escuro enquanto seus pensamentos estavam frenéticos. Pensava em todo o percurso desanimado de sua viagem até Westeros e em tudo que veria a partir daquele dia. Ela finalmente conheceria outras pessoas, outros modos. A novidade era tudo pra ela. O cansaço demorou, mas em meio aos pensamentos ele chegou e cobriu os olhos dela com um pesado sono. Foi uma noite sem sonhos.

Notas finais
Espero que gostem! Beijos.