Notas iniciais
Continuo sozinha, mas sou brasileira e não desisto nunca!

O sol aparecia timidamente entre as nuvens pesadas, mas seus raios não eram capazes de aquecer. Alguns flocos de neve caíam timidamente, resquícios da tempestade do dia anterior. Mykhaela vestiu suas botas e um vestido rosado. Deixou o cabelo inteiro solto, a não ser por algumas mechas da frente, que trançou e prendeu para trás. Pegou sua capa e vestiu, abriu a janela e a fechou em seguida, o vento gelado cortando sua pele. Suspirou e abriu a porta, tentando se recordar do caminho até o salão de refeições. Comprimetou os dois homens que guardavam a porta de seu quarto e eles a acompanharam até o cômodo. Arthur conversava com Lord Mormont, que estava acompanhado de Jon. Estavam de pé em frente a uma das mesas do salão.


"Bom dia" Mykha parou ao lado de Arthur com um olhar curioso.


"Bom dia, Vossa Graça" Arthur fez uma reverência formal demais e os outros dois o copiaram.


"Algo de errado?"


"Não, só estava acertando sua estadia aqui, Vossa Graça"


Mykha desviou os olhos de Arthur para olhar para a mão de Lord Mormont. Lá estava um saquinho com o brasão de sua família, uma quantia boa de ouro para bancar a hospitalidade da princesa. Ela acenou afirmativamente com a cabeça e deixou os homens ali, sentando-se na mesa mais próxima. Serviu-se de pão e algumas outras coisas e logo foi acompanhada por Arthur. Jon e Mormont já haviam se retirado do cômodo.


"Está tudo bem mesmo, Arthur?"


"Sim, agora está. Você sabe, eles não vão utilizar o dinheiro escasso da Patrulha da Noite para sustentar Vossa Graça e seus homens"


"Sim, eu entendo. A quantia é justa?"


"Sim, Vossa Graça"


"Arthur, não tem mais ninguém aqui" Mykhaela rolou os olhos e ele sorriu de leve.


"Me desculpe, princesa"


"Arthur!"


"Mykhaela. Me desculpe"


"Quando você acha que podemos continuar viagem?"


"Ainda não. As tempestades estão muito fortes e nossos homens ainda não estão preparados para voltar à estrada. Nos dê algum tempo"


"Sem problemas" Ela sorriu, terminando sua refeição e levantando. "O que há pra fazer aqui?"


"Para a senhorita? Acredito que não há muita coisa, principalmente com esse tempo"


"Eu posso aguentar o frio" Ela sorriu, olhando pela janela os flocos que rodopiavam no vento.


"Eu sei que pode, Mykha, mas não digo o mesmo de mim" Ele sorriu divertido e Mykhaela riu.


"Tudo bem, você deve ter coisas para fazer. Voltarei ao meu quarto e procurarei algo pra fazer. Com licença, Arthur"


A manhã passou sem muitas novidades. Mykha teve finalmente um tempo para escrever sobre sua viagem em um diário que trouxe consigo. Escreveu sobre os três meses e meio de viagem até chegar aos portões da Muralha, com todos os perigos, o frio, o cansaço e a ansiedade. Após o almoço voltou a seu quarto para escrever, mas logo ouviu uma batida na porta. Seus cabelos estavam soltos e bagunçados, mas ela não se importou e caminhou até a porta para abrí-la. Ao lado de seus dois guardas estava Jon Snow, que sorriu para ela assim que a viu.


"Lord Snow"


"Vossa Graça" Jon fez uma reverência e Mykha achou engraçado.


"Por favor, entre" Ela apontou para o cômodo e Jon entrou. A princesa fechou a porta e virou-se para olhar Jon.


"Vim aqui cumprir minha dívida"


"Achei que havia esquecido"


"Não, de maneira alguma. Mas eu tive uma manhã agitada, princesa. Agora tenho tempo para te mostrar tudo por aqui"


"Eu queria ver o lado de fora, mas com sua demora, Lord Snow, e o tempo lá fora, me contento em conhecer apenas o Castelo Negro hoje. Você pode me mostrar as redondezas outro dia"


"Sem problemas, princesa"


Jon e Mykha saíram do quarto e ela pediu para seus homens descasarem enquanto ela saía com Jon. Andaram pelos corredores e Jon explicava tudo sobre o castelo, levando ela para vários lugares que ela ainda não havia visto.


"Onde está Fantasma?"


"Dormindo, como o bom preguiçoso que é"


Mykhaela riu.


"Ele dorme com você?"


"Sim"


"Nós podemos ir vê-lo?"


"Ele não vai gostar de alguém o acordando"


"Você que o ensinou a ser tão preguiçoso?"


"Ele foi muito mal acostumado em Winterfell"


"Winterfell?"


"É de onde eu venho"


"Winterfell é muito longe daqui?"


"Não muito. Winterfell é de onde se comanda o Norte"


"Você sente falta de lá?"


"Sinto falta dos meus irmãos, mas meu lugar é aqui"


"É bom que você se sinta completo aqui"


"Não há outro lugar no mundo para mim. Aqui é minha casa"


"Por que diz isso?" Ambos já haviam parado de andar e estavam mais preocupados com a conversa e a presença um do outro do que com a visita ao castelo. Pararam em frente a uma janela grande que dava para o lado leste.


"Qual anseio um bastardo pode ter?"


"Você dá muita importância pra isso"


"O que quer dizer?"


"Eu não te conheço bem, Jon. Mas posso dizer isso de qualquer um. Nenhuma pessoa se resume a uma característica. Você não é filho da senhora de seu pai, mas isso não diz tudo sobre você. Você também é muitas outras coisas. Gentil, por exemplo, por tomar seu tempo para preencher o meu"


"É bonito assim, as palavras saindo de sua boca, mas o mundo não é desse jeito, Mykha"


"Porque você não o vê assim"


"Porque a realidade é assim"


"As pessoas não mudarão a opinião sobre você até que você a mude também"


Jon permaneceu calado por alguns segundos antes de responder com um sorriso tímido no rosto.


"É uma boa resposta"


Mykhaela retribuiu o sorriso de Jon de forma tão tímida quanto ele. Se olharam por um tempo e ela desviou o olhar para a paisagem lá fora, um pouco constrangida com o silêncio. Nunca ficara tanto tempo sozinha com um homem que mal conhecia e a forma natural com que ela e Jon levavam suas conversas a assustava um pouco. Gostava, apesar do estranhamento.


"Então, você que ver Fantasma?"


"Ele não ficará bravo se o acordarmos?"


"Não, eu acho que ele gosta de você"


Jon guiou o caminho até o dormitório e abriu a porta. Uma fileira de camas bem precárias de cada lado das duas paredes maiores se estendiam até o final do grande retângulo de pedra que formava o cômodo. Fantasma dormia em cima de uma das camas, bem afastada, no final do quarto, roncando pesadamente. Mykha riu e olhou pra Jon como que pedindo permissão para ir até lá. Ele logo a encorajou, andando pelo corredor que as camas formavam até chegar na sua e se sentar. Fantasma soltou um rosnado irritado com a movimentação na cama e abriu os olhos preguiçosamente, encarando Jon.


"Hey" Jon deu dois tapinhas leves na cabeça de Fantasma, que levantou a cabeça olhando para ele e abrindo a boca, jogando a língua de lado. Mykha sentou-se entre o lobo e o dono, no espaço pequeno que havia entre eles e aproximou a mão vagarosamente até o pescoço de Fantasma, onde acariciou o pelo macio e alvo. O lobo, agradecido, deitou a cabeça no colo dela e fechou os olhos, a língua de lado espalhando a saliva do animal pelo vestido da garota.


"Fantasma!" Jon riu e fez menção de tirar o animal do colo da Mykha, mas esta deu um tapa na mão de Jon o fazendo se afastar.


Fantasma nem percebeu, ele já estava envolto num sono inocente. Mykhaela continuava a acariciar a cabeça de Fantasma enquanto Jon se limitava a observar as expressões do rosto dela enquanto olhava para o lobo. Em sua mente Jon imaginava como seria tocar a pele dela enquanto olhava para o pescoço nu da jovem desejando experimentá-lo de diversas formas. Seus dedos tamborilavam em seu joelho, contendo a vontade de tocar o rosto dela ou até mesmo um alvo mais fácil, a mão pequena e branca que jazia tão perto da de Jon, descansada na coxa dela. Guardava, porém, suas vontades para si. Jon levava a sério o juramento que fez e o que ele significava. Respirou fundo e clareou a mente. Logo ela iria partir e achar um marido e ele poderia se focar novamente em suas tarefas na Muralha. Mas se concentrar parecia muito difícil quando o corpo dela estava tão próximo do dele. Há quanto tempo não sentia aquele perfume adocicado de mulher? Era como um feitiço irreversível. Jon foi retirado de seus devaneios bruscamente quando a mão dela apertou a dele e o jovem foi puxado de volta para o que se passava a sua volta. Ela encarava Fantasma com um sorriso no rosto enquanto ele roncava em alto e bom som e franzia o focinho vez ou outra.


"Olha a cara que ele ta fazendo"


Ela ainda segurava a mão dele, divertida com o lobo e sem se dar conta do que fazia até que olhou para Jon, que a encarava com olhos nevoados de mistério. Foi então que percebeu que segurava a mão dele. Sentiu a pele áspera dele contra a pele fina dela. Olhou para baixo e viu a diferença de tamanho entre elas; a mão dele era bem maior que a sua. Enrubresceu e fez menção de puxar o braço de volta, mas Jon parecia perceber a intenção dela e segurou mais forte sua mão, que nada fez a não ser se render ao toque grosseiro do jovem patrulheiro que acabara de conhecer. Jon entrelaçou os dedos deles e observou o encaixe, absorto naquilo sem pensar realmente no que fazia e se aquilo assustava a jovem. Ela usou o polegar para fazer movimentos de vai e vem, timidos e leves, na lateral da mão dele. Ambos pareciam segurar suas respirações, como se qualquer movimento fosse capaz de quebrar a mágica daquele momento inocente, mas ao mesmo tempo tão cheio de luxúria. O coração de Jon batia descompassado e ele puxou a mão dela para cima, tocando a pele macia e alva com os lábios, roçando-os ali em seguida. Mykha não controlou a proximidade e desvincilhou-se da mão dele para poder tocar seu rosto. A barba por fazer contrastava com a pele surpreendentemente macia do rosto dele e seus dedos traçavam caminhos até a testa dele, afastando as mechas de cabelo caídas ali. O cabelo era grosso, como ela imagirara, e ela gentilmente enroscou os dedos nos fios, colocando-os para trás e admirando o rosto dele. Era lindo. Como nos seus sonhos, o rapaz educado que não era lord ou ninguém de importante, era apenas alguém com quem ela podia dividir seus desejos aventureiros e seus anseios bobos. Era tudo aquilo que ela sabia que nunca poderia ter e isso queimava em fogo dentro dela com desejo de tê-lo para si e ser somente dele.


Foram retirados de sua realidade fantástica quando ouviram vozes se aproximando do cômodo. Jon puxou-a pela mão e Fantasma tombou com a cabeça, acordando e rosnando baixo para o casal que se apressava até os fundos do quarto, onde havia uma porta. Jon entrou ali e puxou Mykha junto a ele, fechando a porta antes dos homens que entravam no quarto vê-los. Tudo ficou escuro. O espaço era curto e Jon ainda segurava a mão de Mykha junto ao peito dele. Era o que separava o corpo de ambos. Parecia um armário e tinha um cheiro enjoado de umidade e madeira.


"Jon?" Ela sussurrou muito baixo e ele pôde sentir a respiração dela na pele dele.


"Sim"


"Você acha que eles vão ficar aí muito tempo?"


"Não sei, por que?"


"Não estou confortável"


"Me desculpe, é que não há mais espaço"


"Sim, eu sei. Há algo apertando minhas costas"


Ela afastou a mão que segurava a dele e aproximou seu corpo ao dele, deixando entre suas peles as roupas que usavam apenas. Ela segurou no ombro dele para se equilibrar e Jon pediu permissão para segurar na base das costas dela. Ficaram em silêncio novamente, encarando o escuro e esperando uma oportunidade de sair dali. O escuro se tornava cada vez mais confortável e perigoso. Causava em ambos uma infinidade de emoções e o inexistente anonimato que o escuro trazia os deixava mais corajosos. Jon não se continha, trazia pela mão na base das costas dela o seu quadril pra mais e mais perto da garota; que não o afastava e Jon se sentia assim encorajado. Diziam um pro outro que aquela proximidade era justificada, que nada tinha a ver com a vontade deles e sim com o pouco espaço no local. Mykhaela deitou sua cabeça no ombro de Jon, suspirando contra a pele do pescoço dele e se acomodando ali quando ele levou sua outra mão para os cabelos dela. Seu coração de menina disparava ao inspirar aquele cheiro de homem que o patrulheiro possuía. Um cheiro que jamais sentiu assim, tão perto, vindo direto da pele para suas narinas e inflando seu peito. Era erótico em todos os sentidos e já não havia espaço para as emoções de ambos. Sentiam o quanto aquilo era errado, que mal se conheciam e agiam com uma liberdade de um velho casal; mas era bom e o armário era tão apertado.


Os homens se demoraram por longos minutos. Os dois podiam ouvir pelo armário que conversavam baixo e remexiam em baús até ouvirem algo sobre o jantar quando alguém abriu a porta. Jon ouviu os homens saindo, mas Mykha preferiu que esperassem mais um pouco para ter certeza. Assim que abriram a porta para a luminosidade o anonimato acabou, eles podiam se encarar, se reconhecer, enrubrescer. Não sabiam lidar com o que acabara de acontecer, permaneceram quietos e com o olhar longe, constrangidos.


"Eu devo me arrumar para o jantar"


"Sim! Você conhece o caminho para o seu quarto né?"


"Eu me viro"


Mykhaela virou-se em direção à porta e caminhou a passos largos. Jon só conseguiu olhar para aquela direção quando a porta se fechou. Seu corpo não aguentava todos os pensamentos sujos que lhe enchiam a cabeça e as calças.
Quando Jon chegou para o jantar encontrou Mykhaela sentada ao lado de Arthur e com seus homens enchendo uma mesa. Sentou-se o mais longe possível e não olhou para a garota mais que o necessário. Ela conversava baixo com Arthur o tempo todo, cabisbaixa e com vincos de preocupação na testa. Quis perguntar se ela estava bem, mas então pensou que talvez ele fosse o motivo disso tudo. Havia sido extremamente inapropriado e invasivo, aproveitou-se da situação e de uma donzela. Culpa corroía seu interior e ele não podia evitar pensar o que seu pai diria sobre aquilo. Não era um Stark, mas fora criado como um. Tinha sangue Stark, mas se sentia tão desonrado quanto um selvagem. Passou a temer então que ela tivesse contado a seu conselheiro sobre o que ocorrera. Ele seria considerado um desertor, isso se Arthur e os cavaleiros de Mykha não arrancassem sua cabeça antes. Ficou sem fome, tomou um grande gole de vinho e levantou-se bruscamente, indo em direção a porta. Assim que passou pela mesa a princesa, ouviu a voz dela chamando seu nome. Seu rosto ficou vermelho como sangue e ele se virou na direção dela.


"Sim, princesa"


Seus olhos encontraram-se e ela parecia séria, impenetrável como uma pedra.


"Eu preciso falar com Lord Mormont, você pode me levar até ele?"


"Claro"


Mykhaela levantou-se da mesa e Arthur olhou-a com desaprovação, mas nada disse. Jon andou ao lado dela enquanto saíam do refeitório e andavam pelos corredores frios, até que Mykhaela parou em um ponto onde não se ouvia mais nenhuma voz.


"Jon" Ela disse o nome dele de forma vaga e olhou para ele.


"Me desculpe. Eu agi sem honra alguma e você não deveria ser tratada assim"


"Obrigada. Mas você não agiu sozinho. Não sei o que aconteceu ali, mas quero te dizer que essa não sou eu"


"Eu sei, Mykhaela. Me desculpe se te levei a ter essas atitudes, foi impensado"


"Nós deveríamos apenas... esquecer. Apagar e agir como se nada tivesse acontecido. Você consegue fazer isso?"


"Sim. Eu me manterei afastado, se é o que deseja"


"Não. Você ainda me deve um passeio pelas redondezas, não se esqueça de suas dívidas, Jon" Ela esboçou um sorriso tímido no canto dos lábios e Jon sorriu, ainda nervoso com a conversa toda.


"Claro. Como quiser, princesa"


"Obrigada" Ela sorriu, ainda tímida para ele e fez uma reverência, virando na direção contrária em direção a seu quarto. Jon sorriu para a sombra dela que se afastava e arrastou-se até seu quarto menos enraivecido consigo mesmo. Demorou para dormir enquanto encarava o teto e evitava a porta do armário onde lembranças proibidas se escondiam.