Theres No Winter Without Summer

40 Capítulo Trinta e Nove


Notas iniciais
Oi gente, como vocês estão?
Eu sei, eu sei. Eu demorei bastante né?
Mil desculpas, mas eu estou empacada exatamente no final do último capítulo. Ótimo ponto pra empacar, né?
Mas vou postando e tentando, tomara que quando chegar a hora de postar o último capítulo eu tenha conseguido terminar.
Obrigada pelos reviews, pelos novos leitores, pelos que estão aqui desde o começo! Obrigada mesmo.
Espero que apreciem a leitura.

Boom. Boom Doom. Boom. Boom Doom.

O som parecia distante, mas não o bastante. O vento salgado batia em seu rosto, fazendo seus cabelos chicotearem fortemente contra a pele alva. Ao seu lado estava a Rainha Daenerys, os fios de prata trançados não faziam uma confusão emaranhada como os cabelos de Mykhaela. Ambas vestiam-se como guerreiras. Calções grosseiros de lã, túnica de linho, colete de couro fervido e cota de malha. Mykhaela podia ver que Daenerys estava incomodada com o peso em seus ombros, assim como ela. Vestir cota de malha era algo comum quando ela começou a treinar com espadas de aço, mas havia tanto tempo desde que aquilo acontecera e nos últimos anos o único peso em seus ombros era do pesado manto de pele com o lobo Stark.

Em algum lugar mais a frente, os sons da batalha se desenrolavam. Stannis Baratheon tinha sua frota na Água Negra apenas esperando o ataque de Daenerys e seu exército. Se sua preciosa feiticeira do Senhor da Luz ainda não havia previsto, tinham o elemento surpresa contra o usurpador. Os dragões de Daenerys estavam de volta em seu poder e seriam armas cruciais naquela batalha. Os três filhos da rainha Targaryen aguardavam em rochedos afastados, esperando sua vez de atacar. Mykhaela segurou o botão da espada em sua cintura e checou se o punhal se encontrava no lugar. Ao seu lado, arco e flechas incendiárias prontas para serem usadas. Se atacassem aquele navio, era seu papel comandar a defesa da rainha. Os irmãos de sangue de Daenerys ainda ficavam desconfortáveis em águas salgadas, enquanto Mykhaela conhecia o mar tão bem quanto a palma de sua mão.

Ao passo que o tempo parecia parado, ele também passara rápido. Viram o ardor das chamas ao longe e Daenerys olhou para Mykhaela com intensidade. Ela estava feliz, ela estava em casa novamente. Desceram os pequenos botes, dois, e remaram na direção dos dragões. Os tripulantes do navio seguiram na direção da batalha quando os botes estavam numa distância segura. Quando saltou na pedra, os dragões de Daenerys apressaram-se na direção dela, muito maiores do que qualquer criatura que Mykhaela já havia visto. A rainha Targaryen subiu em Drogon, enquanto dizia ordens em valiriano aos seus outros dragões. Viserion levava Mykhaela e Rakharo, enquanto Jhogo e Aggo montaram Rhaegal. As asas vermelhas de Drogon lideraram o voo, seguido por uma formação perfeitamente paralela de Viserion e Rhaegal. O vento bateu no rosto de Mykhaela e seu coração estava fortemente acelerado enquanto se agarrava às escamas do dragão. Em seu ombro o arco e a aljava balançavam-se violentamente enquanto ganhavam velocidade. Milhares de asas borboleteavam em seu estômago e ela sentia gotículas de água batendo em seu rosto. Não sabia se chovia ou se era apenas a umidade oceânica. Talvez estivesse voando no meio de nuvens, talvez estivesse a centímetros acima da água. Seus olhos não conseguiam ficar abertos sem lacrimejar. Ela estava completamente entregue àquele animal tão perigoso e selvagem, seu destino lançado à sorte e a gosto do que o dragão de Daenerys decidisse fazer. Se naquele momento ela ordenasse que Viserion a jogasse no mar, o dragão prontamente o faria; se bem que suspeitasse que o animal não fosse grande entendedor de valiriano. De qualquer forma, seu coração martelava em suas costelas e a adrenalina da batalha enchia seu peito.

Foi só quando os três dragões, obedecendo simultaneamente às ordens de sua mãe, deixaram o fogo subir de suas gargantas e invadir Porto Real que Mykhaela descobriu que havia chegado à capital do Sul. A luz do fogo fez arder os olhos dela, mas a rainha Stark se forçou a continuar olhando. Aquela cidade, onde tudo terminaria. Quando os dragões pousaram, Rakharo a ajudou a descer do flanco de Viserion, mas Daenerys continuava nas costas de seu dragão mais forte. Os irmãos de sangue de Dany puxaram uma ainda atônita Mykhaela pelo pulso, entrando por uma janela de torre. Ela estava ainda atordoada quando os três resmungaram em dothraki e trancaram as portas, empurrando móveis para frente da madeira. Duas janelas foram abertas e o fogo iluminava a cidade em laranja e vermelho, aterrorizantemente refletindo as pedras vermelhas do castelo. Os dragões voavam para longe junto com Dany e Aggo ajudou Mykhaela a incendiar uma flecha, que ela atirou contra soldados que viu a distância, lá embaixo. Ela não sabia em quem atirava, se era inimigo ou não. Ela só queria lutar. Lutar até que tudo acabasse.

-x-

Garret abriu o visor de seu elmo desejando poder limpar o suor que caía por sua testa e entrava em seu olho, fazendo-os arder. A fuligem também não ajudava e a cidade ardia em fogo de dragão, fazendo a fumaça espessa atrapalhar ainda mais a visão do soldado. Tinha dezenove anos e havia entrado para a Patrulha da Cidade naquele mês, um favor que seu pai arranjara com o chefe da patrulha. Desde a subida ao trono do Rei Stannis, os bordéis foram proibidos em Porto Real, mas os homens tinham suas maneiras de burlar as leis e o pai de Garret os ajudava nessa tarefa, que produzira praticamente toda a renda da casa desde o Segundo Saque de Porto Real. Mas agora, lá estava ele, com uma espada pesada demais nas mãos e a responsabilidade de proteger sua cidade. Ele passou pelos portões de Maegor antes deles fecharem-se e correu na direção dos outros homens, sob comando de algum capitão de Stannis que ele não recordava o nome. Eram muitos sores, até demais.

“O Portão do Dragão! Ele passou pelo Portão do Dragão”

“Como você sabe?”

“Porque ele está tentando entrar pelos portões do castelo”

“Quem?” Um terceiro homem gritou, aproximando-se a cavalo, numa armadura brilhante e ornamentada de pedras preciosas.

“Robb Stark”

“Pelos Sete, dois ataques simultâneos”

“Não diga o nome dos Sete aqui, quer morrer queimado?”

“A cidade já está queimando e não é pelas chamas de R’hllor. É pelos dragões!” O homem afastou-se a cavalo e Garret segurou no botão da espada com mais força. Foi colocado em formação em frente ao portão enquanto um estrondoso bater ameaçava quebrar a única proteção contra o exército nortenho. Os homens gritavam coisas, palavras, tentando aumentar a coragem dos soldados, mas tudo que Garret sentia era o medo congelando suas veias lentamente, cegando sua visão e ensurdecendo seus ouvidos. Não, não posso. Não posso envergonhar meu pai, sou a única esperança de honra que minha família pode ter. Se me sair bem, Rei Stannis pode me tornar cavaleiro.

Enquanto imaginava a cerimônia de unção, o portão partiu-se pela primeira vez e mostrou por uma fresta o exército nortenho, que gritava do outro lado. De repente tudo voltou a ficar claro e ele ouvia os exércitos urrando. “Stark!” “Winterfell” “Rei no Norte” “Stannis!” “Porto Real” “Baratheon”. Garret ficou aliviado por não ouvir ninguém gritar Targaryen. Se havia alguém com vitória garantida, ele sabia que eram os dragões. Quando o portão estourou, centenas de nortenhos pularam os escombros para atacar, o que os dava certa desvantagem. Mas os homens que detinham o exército naquele portão eram insuficientes e a guerra estava dividida em dois pedaços. A maioria protegia a capital pelo ataque marítimo de Daenerys Targaryen, enquanto outra metade fora deixada em aviso desde que souberam da aproximação do Jovem Lobo. Outra parte encarregou-se de assegurar a Fortaleza de Maegor, onde estavam a rainha e a princesa. A temível mulher vermelha estava comandando uma fogueira sobre os escombros do Grande Septo de Baelor, entoando suas canções malignas a favor dos homens de Stannis. A fúria nos olhos vermelhos flamejaram-se quando ela viu os dragões se aproximando de Porto Real e queimando a cidade. Surpresa e medo também passaram pelos enigmáticos olhos, mas ela logo os escondeu e juntou alguns homens para ir com ela até a grande fogueira rezar pela causa de Stannis. De repente, a certeza dela havia fugido, e, a partir daquele momento, Garret sabia que a cidade arderia e que, ao amanhecer, Stannis Baratheon estaria morto. Sentiu uma dor aguda quando uma espada caiu sobre seu ombro, afundando a cota de malha em sua carne, mas forçou-se a continuar lutando. Seus olhos ardiam e seus movimentos eram lentos. Mas ainda assim conseguiu golpear o soldado nortenho, fazendo-o cair no chão. Virou-se para outra direção, procurando outro inimigo e foi quando o viu. Estava no alto de seu cavalo, com o lobo gigante ao seu lado, como todas as canções diziam. Robb Stark empunhava a espada de aço valiriano que fora de seu pai, e que fora do pai de seu pai antes. A espada de Garret nada mais era do que um pedaço inútil de aço comum que se encontrava mais ou menos decente. Era uma espada sem nome, sem glória e usada. Garret não sabia o nome de seu dono anterior, nem do seu dono antes desse. Também sabia que não deveria merecer uma armadura tão boa quanto a de Robb, um cavalo tão bom e uma espada tão heroica. Seu pai tinha uma loja de tecidos, e nos fundos, gerenciava um bordel ilegal e vergonhoso. Conseguira a posição de Patrulheiro por favores conseguidos através de prostitutas ilegais. Que glória havia naquilo? Robb Stark empunhava a espada de um homem que foi condenado injustamente quando tentava provar a indecência da Rainha Lannister e seu irmão Regicida. Eu nunca serei como ele.

Um segundo golpe caiu sobre Garret e ele tropeçou num corpo moribundo, seu elmo batendo com força no chão e o ensurdecendo. Sentiu um líquido espesso descendo por sua espinha e, com dificuldade, levou a mão até a nuca. Sentiu o elmo estilhaçado ali e o sangue quente jorrar com mais força do que deveria. Uma dor agonizante o fez guinchar quando um cavalo pisou em sua perna, quebrando-a em dois lugares. Puxou o visor do elmo para cima e tentou focalizar a visão. No final de contas, não seria ungido cavaleiro, nem daria um pouco de honra para sua vergonhosa família. O exército nortenho havia massacrado seus companheiros, lordes ou plebeus, e avançava pela Fortaleza Vermelha como um homem pisava em um formigueiro, esmagando tudo com facilidade. Logo entrariam em Maegor, e logo a rainha Targaryen queimaria Stannis e a mulher vermelha em fogo de dragão e não haveria gente para cantar a R’hllor. Gostaria de saber como seria a luta entre o Jovem Lobo e os Dragões, mas sabia que não viveria para presenciar aquilo. Se pudesse, teria apostado na garota Targaryen. Porém, mais depressa do que esse pensamento encheu sua mente, ela se apagou em seguida, para nunca mais retornar.

-x-

Grande parte da cidade havia incendiado e o cheiro de morte e carne queimada era quase insuportável. A noite já havia caído há algumas horas quando Robb Stark e o seu exército viram os portões de Maegor abrir-se para eles. Homens usando escudos e lanças estavam enfileirados como estátuas nos pátios e Robb olhou para todos eles com curiosidade. Estava exausto, queria apenas acabar com aquilo. Seus lordes falaram exaustivamente que ele deveria ter cuidado, mas àquela altura, Robb realmente não se importava. Prometeu a Mykhaela que voltaria para casa vivo, ouviu uma voz preencher sua mente, mas a ignorou. Mykhaela estava morta, não havia por que cumprir a promessa. Rickon mancava ao seu lado, com dificuldade para acompanhar seu ritmo, mas ele disfarçava a dor que sentia na perna muito bem. Robb mesmo tentava ignorar o ferimento em seu ombro, metade da flecha ainda saía da carne perfurada e atravessava o vão de sua armadura. Não teve tempo para cuidar de seu ferimento, se preocuparia com isso mais tarde. Sentia-se estranho por andar ali, onde seu pai passara seus últimos dias. Em seus sonhos entrava ali para arrancar a cabeça loira e bastarda de Joffrey, ou então a de Stannis, mas não havia conseguido realizar nenhuma das tarefas. Stannis matara Joffrey e Daenerys matara Stannis, a mulher vermelha e a Rainha Selyse. A filha de Stannis permanecia cativa em sua cela, ou pelo menos fora isso que Robb ouvira algum dos lordes dizer. No alto de uma das torres, dois dragões bateram com os rabos um no outro. Robb desviou o olhar e bufou, contrariado. Mykhaela tinha razão o tempo todo. Quando chegou à cidade e viu voando sobre sua cabeça os três dragões, teve uma urgência irracional de matar qualquer criatura viva. Ela o avisou o tempo todo. Ela o disse para não caminhar para morte. Mas já estava ali, e Mykhaela havia morrido para leva-lo aquele recado novamente. Era apenas justo que ele morresse queimado por aquelas chamas. Seu orgulho preferiu ignorá-la e ela estava certa. Por favor, Robb, ela pedira.

Quando entrou no Grande Salão da Fortaleza Vermelha, Robb observou o quanto seu próprio salão parecia minúsculo perto daquele. Havia aglomerações de pessoas em todos os cantos. Alguns feridos sendo cuidados, outros movendo escombros ou estandartes Baratheon, mas em nenhum lugar havia sinal da tal Rainha Targaryen. Robb e seus homens continuaram a adentrar o salão, aproximando-se do Trono de Ferro. Alguns homens paravam para olhá-lo, outros pediam misericórdia enquanto recebiam tratamento de seus ferimentos, mas a maioria mantinha-se calada. Robb viu um homem ter o pé serrado sem soltar uma interjeição de dor. Antes mesmo de desviar os olhos, pôde sentir um calor subir por sua nuca e quando as orbes azuis encontraram as esverdeadas, seu coração parou. Ela estava praticamente irreconhecível, e, não fossem os inconfundíveis olhos, Robb passaria por ela facilmente sem nota-la. Ela levantou-se imediatamente, dando um passo na direção dele quando soltou uma interjeição de dor. O homem que a segurava pelo braço olhou para trás e encarou Robb com desaprovação. Parecia de alguma forma familiar, mas o rei não se demorou muito tempo nele. O ombro dela mostrava a cota de malha estilhaçada e suja de sangue seco, enquanto sua testa tinha um pequeno corte ensanguentado. Seus cabelos e sua pele estavam sujos de fuligem e a trança que mantinha as madeixas presas estava praticamente desfeita. Da última vez que a vira, Mykhaela estava vestida como uma rainha, mas naquele dia Robb enxergava um soldado. Não sabia dizer o que sentia ou o que era mais forte: o ódio, a raiva ou a sensação de traição. Para a surpresa de todos, virou-se na direção oposta e ignorou completamente a voz dela o chamando pelo nome. Naquele mesmo momento Daenerys Targaryen entrava pela porta do rei e aproximava-se de Robb, descendo os degraus da elevação em que se encontrava o Trono de Ferro e o rei fez uma exagerada reverência a Daenerys.

“Vossa Graça”

“Rei Robb. Pode se levantar” Robb assim o fez e seus lordes o imitaram. Rickon encontrou alguma dificuldade, mas Grande Jon o ajudou a ficar de pé. “Sua Rainha está ali, não a viu?” Daenerys apontou Mykhaela, no canto, mas Robb não fez nem menção de olhar em sua direção.

“Disse que quer discutir termos de uma aliança” Sua voz era fria e dura, e nos olhos vivos da rainha Targaryen, Robb viu nascer uma súbita raiva que não estava ali.

“A única razão de você estar vivo é sua rainha, Robb Stark, eu sugiro que você ao menos pergunte se ela está bem”

Robb encarou a rainha por alguns segundos e, a contragosto, virou-se na direção de Mykhaela. Ela tinha os olhos cansados e cheios de mágoa, a mão esquerda apoiada no ombro do homem que a ajudava, enquanto mancava com dificuldade para se virar à direção contrária.

“Como está, minha rainha?” A voz de Robb continuava igualmente fria. Ele estava sim com raiva. Como ela teve coragem de o fazer entrar em luto por ela, prestes a lutar numa guerra, quando esteve viva o tempo todo, junto com um inimigo? Como pretendia que ele a recebesse? Ela o traiu.

“Viva” Foi tudo o que Mykhaela respondeu, enquanto Robb observava suas costas afastando-se.

“Eu posso te ajudar, Vossa Graça” Ouviu o homem sussurrar e Mykhaela negar com a cabeça, mas três passos depois sua perna falhou e ela quase caiu, não fosse os braços ágeis do homem segurá-la em pé. Robb, instintivamente, deu um passo na direção dela, mas então resguardou-se.

“Sor Jorah, leve Mykhaela para uma câmara confortável” Daenerys comandou e o cavaleiro passou o braço pelas pernas de Mykhaela, carregando-a no colo. Robb pensou no quanto ela deveria estar odiando aquilo, orgulhosa como era. Aquilo quase o fez sorrir. Quase. “Você não deveria trata-la desse jeito. Sigam-me”

Robb seguiu Daenerys e seus guardas pessoais pela porta do rei e entrou numa sala pequena, junto de seus lordes. Observou a rainha sentar-se e esfregar as têmporas, visivelmente cansada. Os cabelos platinados estavam escurecidos pela fuligem e os olhos lilases mostravam a exaustão por trás do breve traço de euforia.

“Sua esposa, Mykhaela, fez um acordo comigo, Vossa Graça” Ela suspirou, analisando Robb e seus homens. “Ela me devolveu meus dragões em troca do Norte e de uma declaração de paz”

“Suponho que queira discutir esses termos?”

“Não. Eu cumpro o que prometo e acontece que sua esposa tem grande jeito para política, vocês deveriam respeitar isso” O olhar de Daenerys era duro e incisivo. Robb sentia aquele olhar penetrá-lo com dureza. Ela era, em cada parte de si, uma verdadeira rainha. “Toda a terra ao norte de Correrrio é de poder Stark e dos Reis do Norte. A Muralha continua sendo responsabilidade de ambos os reinos. Selo também um acordo de paz com o Norte, desde que não haja invasões às terras do Sul nem ameaças à Dinastia Targaryen. Vocês, Stark, ajudaram a tirar meu pai do trono e eu espero que respondam a esse voto de confiança com honra. Nossos reinos viverão em paz enquanto vocês estiverem do lado da paz e não acordarem o dragão”

Robb assentiu regiamente com um breve meneio e Daenerys colocou a sua frente um pergaminho contendo todas as cláusulas de seu acordo. Robb leu as palavras com cuidado e assinou, despejando cera branca e marcando o lobo gigante da Casa Stark. Daenerys fez o mesmo, colocando ao lado de sua assinatura o dragão de três cabeças de sua casa. Mais tarde, Robb foi encaminhado a uma câmara na Fortaleza de Maegor e, quando entrou, Mykhaela estava acompanhada do cavaleiro que a ajudara e de um meistre.

“Eu não quero” Ela virou o rosto e quando encontrou Robb parado à porta, abaixou os olhos.

“Rainha Mykhaela, vai ser bom para a dor” Sor Jorah disse de forma quase paternal.

“Ela disse que não quer” Robb estava cansado e não gostava do modo como o cavaleiro olhava para Mykhaela. O homem levantou-se e olhou Robb com insolente reprovação.

“Leite da papoula apenas fará bem” O meistre disse metodicamente, mas Robb não deu sinal algum de que cederia, então o homem recolheu suas coisas e preparou-se para se retirar. “Se mudar de ideia, mande me chamar, Vossa Graça”

“Ficará bem, Mykhaela?” A permissividade na voz do cavaleiro tirou Robb do sério.

“Desejo ficar a sós com minha esposa, Sor, será isto tão difícil de entender?”

Sor Jorah fitou Robb por longos segundos até fazer uma reverência rígida e murmurar algo com Vossa Graça, retirando-se do quarto. Robb fechou a porta e retirou o cinto da espada, colocando-o em cima da mesa. Ali havia algumas maçãs, e seu estômago roncava de fome, mas tinha coisas mais importantes para resolver antes. Juntou ambas as mãos em conchas e jogou água de uma bacia no rosto, tirando a sujeira e fuligem da pele e dos cabelos. Rickon entrava no quarto no instante em que ele limpou a água dos olhos e o irmão o ajudou a retirar a armadura.

“Nossos homens estão instalados?”

“Sim, estão todos acampados no pátio e a rainha pediu para lhes enviarem meistres, água e comida”

Robb assentiu e se livrou da cota de malha, então das camadas de couro fervido até ter a parte superior do corpo livre de roupas. Rickon também já não usava armadura e deixou-se cair numa cadeira, exausto.

“Você está bem?” O irmão lançou um olhar tímido para Mykhaela e Robb permitiu-se olhar pra ela pela primeira vez. Usava apenas uma túnica de linho larga demais pra ela, deixando o ombro ferido a mostra. Havia um curativo no lugar do ferimento e ela estava mais ou menos limpa. Em sua coxa havia outro curativo sujo de sangue.

“Mais ou menos” A voz dela estava carregada de alguma dor. “E você?”

“Estou indo” Rickon apontou para a perna. “Lança, na coxa direita” Ele deu de ombros.

“Você não vai cuidar disso?” Mykhaela tinha a voz fraca, mas Robb ainda podia sentir a censura por trás dela. Rickon não entendeu a princípio, mas então a viu olhando para o irmão e calou a indagação antes dela subir à garganta. A flecha ainda estava alojada no ombro de Robb, no lugar onde entrara naquela tarde.

“Eu ainda não tive tempo” Foi tudo o que Robb disse, enquanto abria a janela que dava para uma pequena varanda e deixava o vento gelado entrar.

“Feche isso, o cheiro está insuportável”

“Achei que já estava amiga dos dragões o bastante para estar acostumada com o cheiro”

Robb estava de costas, mas ouviu um baque surdo no chão quando Mykhaela deixou cair um pote de madeira vazio ao se levantar. Rickon prendeu a respiração e ficou observando os dois apreensivamente.

“Você é mesmo um ingrato, Robb Stark”

Ele percebeu a fúria em seus olhos quando olhou nos de Mykhaela e a viu com a face repleta de surpresa e raiva. Andou até ela a passos pesados e agarrou seus braços, sem se importar com a dor que ela sentiria e com a queimação que ele próprio sentia no ombro.

“Eu pensei que estava morta. MORTA!”

“Mas eu não estou. Eu vim até aqui pra nos salvar, Robb”

“Eu não preciso que você me proteja. Eu sou o maldito rei” O Jovem Lobo gritou de volta, chacoalhando Mykhaela pelos braços e sentindo sangue descer por seu braço.

“Robb, você a está machucando” Ele ouviu Rickon dizer, já de pé, ao lado deles, e aquilo o enfureceu ainda mais.

“E eu não preciso de você me dizendo o que fazer a cada segundo”

“Você precisa de mim tanto quanto eu preciso de você” A esposa o respondeu e Robb suspirou, abaixando os braços em silêncio. De seu ombro, sangue escorria numa fileira fina. “Ela sabe que se ameaçar nos atacar, eu tiro os seus dragões de seu poder” Mykhaela suspirou, tocando o rosto do marido. “Nós estamos a salvo, Robb”

“O que você quer dizer?” A voz dele era baixa, um sussurro cansado e rouco. Mykhaela puxou os ombros de Robb para que ele sentasse na cama e em seguida andou até a bacia de água que jazia na mesa. Rickon carregou-a até a cama e Mykhaela limpou o sangue que escorria com um pedaço de linho rasgado. Robb suprimiu um grito quanto ela retirou os restos da flecha de seu ombro, enquanto ouvia tudo o que havia acontecido com ela desde que deixara o acampamento dele meses atrás.

“Você pode me odiar por ter vindo, mas tem que admitir que se isso não tivesse acontecido, nenhum de nós estaria vivo”

“Você estaria com nossos filhos, em casa”

“E com você morto, era só uma questão de tempo até irem matar seus herdeiros também”

“Você poderia pelo menos ter me mandando uma carta, Mykhaela” Robb passou a mão pelos cabelos e a observou ainda contrariado. “Eu não poderia fazer nada com você já em Pedra do Dragão, mas ao menos eu saberia que estava viva”

“Eu sinto muito que tenha pensado que eu havia morrido”

“E o que mais esperava que eu pensasse?” Ele afastou gentilmente as mãos dela e deitou-se na cama, sentindo os músculos das pernas doloridos. Mykhaela suspirou, jogando o pedaço de linho sujo de sangue na bacia e levando-a de volta à mesa.

“Você deveria descansar também, Rickon”

“Vou me ajeitar em algum lugar do pátio, não há muitas câmaras sobrando na fortaleza”

“Não, deite-se aqui. A luta lá fora foi mais dura do que aqui dentro. E eu não estou com sono” A rainha andou em direção a porta e Robb limpou a garganta.

“Onde você está indo?”

“Tenho que checar uma coisa” No momento em que sua mão tocou a maçaneta, Robb levantou-se irritado.

“Assim? Desse jeito? Está pedindo pra ser violada?”

“Pelos deuses, Robb” Mykhaela rolou os olhos e jogou na direção dele os calções que usara, completamente rasgados. “Eu não trouxe um baú de roupas” E antes que ele pudesse protestar, ela deixou o quarto. Desceu as escadas com dificuldade, sentindo o linho em sua coxa cada vez mais empapado de sangue. Estava na metade dos degraus quando Sor Jorah surgiu das sombras.

“Rainha Mykhaela” O cavaleiro tentou desviar o olhar das pernas nuas da rainha do norte, sem sucesso.

“Sor Jorah. O último navio chegou em segurança?”

“Sua Elye está bem, Vossa Graça. Posso mandar trazê-la. Ela está no pátio com o lobo de seu marido”

“Eu gostaria de vê-los agora. Mas não se incomode, Sor Jorah, deve estar cansado. Eu posso achar meu caminho”

“De maneira alguma” Ele sorriu, tirando o manto dos ombros e colocando-o em Mykhaela, cobrindo todo o corpo dela do pescoço para baixo. A rainha sorriu e seguiu o cavaleiro até o pátio externo. Quando Vento Cinzento sentiu seu cheiro, correu até ela e enfiou o focinho entre a capa, lambendo o sangue que escorria da coxa dela. Elye corria logo atrás, suas patas curtas demais para acompanhar o lobo mais velho. Mykhaela pegou a cria no colo. Apesar de seu crescimento, ela ainda era leve o bastante para ser carregada. O ombro de Mykhaela, porém, não estava ajudando, e ela logo colocou a lobinha no chão.

“Essas criaturas não são perigosas?”

“Convive com dragões, senhor, e vem me falar de perigos?” Mykhaela sorriu e Jorah a imitou em seguida, olhando para os pés.

“Minha rainha” Mykhaela ouviu uma voz solene e virou-se para encarar Lord Bolton com seu filho bastardo ao lado.

“Lord Bolton” Mykhaela não se deu ao trabalho de fazer uma reverência. Estava cansada e dolorida demais para cordialidades.

“Eu acredito que Rei Robb está bem?”

“Sim, ele está descansando”

“Deixou-o sozinho no castelo?” A censura nos olhos dele não agradou Mykhaela.

“Rickon está com ele. Há alguma tenda para mim, senhor?”

“Não dormirá com seu marido?”

“Ele e Rickon precisavam mais de uma cama do que eu, Lord Bolton. Dormirei aqui”

“Claro. Ramsay, arrume uma tenda para a rainha”

Os lobos acompanharam Mykhaela e ela dormiu numa tenda pequena, numa esteira estendida no chão. Não era confortável, mas ao menos ela se sentia feliz. Voltaria para casa e veria os filhos. Era tudo o que importava. Estou indo para casa, meus anjos. Ned, Bryan e Marissa. A mamãe está voltando para vocês.

Notas finais
E aaaí, o que acharam? Me contem tudo!
Obrigada por lerem, meus amores.
Beijos.