Theres No Winter Without Summer
36 Capítulo Trinta e Cinco
Notas iniciais
Capítulo novo pra vocês, com algumas novidades. Espero que gostem.
Boa leitura.
Quando Mykhaela entrou na sala de leituras de sua torre para encontrar Rickard, não sabia como ele ia agir. Por mais desprezível que fosse, Valerya era sua esposa e mãe de sua filha. No dia seguinte à morte de Jaden, ela havia acordado e mandado uma carta para Rickard, que cuidava da costa oeste do Norte para evitar novas invasões por parte dos Greyjoy. E ele havia chegado à Winterfell uma semana depois. O olhar cauteloso de Mykhaela mostrava a insegurança que ela não conseguia esconder de Rickard. Ele era o melhor amigo dela e sempre seria. Ele a conhecia muito bem. Queria abraça-lo, mas não podia.
“Como está Alyssa?” Ele quebrou o silêncio de forma preocupada.
“Está bem, dentro do esperado” Mykhaela abaixou os olhos, encarando o piso de pedra.
“Eu te entendo, Mykha” Ele disse por fim, após um longo silencio. “Não me perdoo por ter colocado Alyssa em perigo”
“Não foi culpa sua”
“Eu nunca deveria ter obedecido seu pai. Se fosse Yara no lugar dela-“
“Mas não era” Mykhaela interrompeu. “Eu te chamei aqui porque não posso tomar essa decisão sozinha”
“Não pode me pedir isso. O que vou contar pra minha filha daqui alguns anos? Que eu autorizei a morte da mãe dela? Eu não vou dar opinião nenhuma, Mykhaela”
“Você não entende! Eu não posso arriscar perder você. E minha decisão pode afetar o que nós temos”
“Mykha, por favor, eu não vou ter papel nenhum nessa decisão. Ela é inteiramente sua e eu vou respeitá-la”
“Vai?”
“Você é minha rainha”
“Eu sou sua amiga”
“Não. Você é minha rainha. Nesse momento você é minha rainha e eu acatarei o que disser”
“E quando você encontrar sua amiga? Se eu sentenciar Valerya a morte, quando você encontrar sua amiga você irá perdoá-la?”
“Não há nada pra perdoar. Valerya cometeu seus crimes sozinha. É justo que ela pague por eles”
“Eu não quero que sua filha me odeie”
“Eu não quero nem pensar no risco que Valerya colocaria Alana deixando o monstro do irmão dela perto da minha filha. Foi Alyssa, mas poderia ter sido Alana, ou quem sabe Marissa”
“Você me entende, então? Entende o porquê eu tenho que fazer o que eu tenho que fazer?”
“Dever. Eu entendo, Mykha” Rickard massageou as têmporas, cansado. “Eu gostaria de descansar agora, foi uma longa viagem”
“Claro, Rick. Descanse”
Ela suspirou e observou o amigo sair da sala. Assim que a porta se fechou, ela tirou a caixa de carvalho da grande gaveta de sua mesa e a colocou sobre o tampo de madeira. Quando abriu a tampa o cristal ainda brilhava intensamente, iluminando seu rosto. Ainda ficava maravilhada por aquele brilho surreal. Tocou o cristal translúcido e ele continuava quente como uma chaleira esquecida no fogo. Soltou uma interjeição de dor e colocou a ponta do indicador na boca, tentando amenizar a dor da queimadura. Àquele ponto seus dedos já estavam doloridos.
Os deuses do Norte haviam entregado à Mykhaela as respostas, mas nada estava muito claro. Quando retornou ao seu quarto depois de rezar aos deuses no dia da morte de Jaden Visseu, Mykhaela tropeçou em seu baú e viu a caixa que jazia embaixo de sua cama. Havia trazido consigo para Westeros, mas ao menos se lembrava daquilo. Era apenas uma tradição boba que ela nunca dera muita importância. A princesa de Iberia era guardiã dos altos segredos do reino e Mykhaela deveria defender aquela caixa velha com a sua vida. Se lembrava de ter aberto para espiar o conteúdo quando era criança, mas não passava de livros antigos quase esfarelados numa língua que ela não entendia. Não se recordava, porém, do cristal. Mas quando abriu a tampa de madeira naquela noite o brilho intenso iluminou seu rosto. E agora ela não sabia o que fazer com aquilo.
Tocou a corrente que prendia o cristal num colar longo, e apesar da queimação ser suportável, ela ainda existia. Mykhaela fechou os olhos e pediu por sabedoria. Suas mãos pegaram a corrente enquanto o cheiro de carne queimada invadia suas narinas e levou-a até o pescoço, onde deixou o colar descansar. Parecia leve, mas sentia sua nuca pesada. Assim que o cristal tocou a pele de seu peito, Mykhaela sentiu a queimadura e abriu os olhos cheios de lágrimas. Mordeu o lábio para não gritar enquanto o cristal parecia fundir-se em seu peito. Durou apenas alguns segundos e quando Mykhaela estendeu as mãos para tirar o colar, o cristal ficou tão gelado como aço na neve e abrandou a dor. Quando olhou para o decote, viu a vermelhidão sumir ao redor do cristal e a pele queimada curar-se. Ficou um pouco tonta, perguntando-se se era o vinho, mas então se lembrou de que não havia tomado uma gota da bebida desde a morte de Jaden. Seus olhos estavam embaçados por uma luz branca que quase a cegava. Ela olhou em volta e pouco viu do cômodo. Em sua cabeça ecoavam vozes numa língua estranha, mas que ela entendia cada vez com mais clareza. Eram vozes de mulheres, misturadas umas nas outras. Sentiu o mundo girar ao seu redor e segurou um prelúdio de ânsia. Abaixou a cabeça, ofegando forte, tentando colocar ar em seus pulmões. Os olhos encontraram a caixa e ela viu uma capa de livro num couro velho e desgastado com símbolos estranhos. A Natureza. Ela leu. Piscou algumas vezes, pegou o livro nas mãos, mas logo um amontoado de pergaminhos chamou-lhe atenção. A Sabedoria dos Deuses. Equilíbrio. O Fogo e o Gelo. A Luz e a Escuridão. Ela leu os títulos com cuidado, passando os olhos pelos papéis farelentos que ela agora entendia.
Na luta das quatro forças da natureza o equilíbrio vem do oeste. O Veado tropeça, o Lobo também. O Leão se vai, mas deixa um membro pra trás. O Dragão ressurge, o Lobo se ilude e o Veado se vende ao calor e ao sangue.
As palavras faziam um sentido vago na cabeça de Mykhaela. Ela estava tão tonta e confusa. O cristal doía em seu peito. Ela não sabia exatamente o que lia.
O Fogo e o Gelo irão se encontrar. Ambos têm poder para acabar com o outro. O destino dirá a quem as forças da natureza dará vitória.
Fogo e Gelo. Sua vida parecia resumida a essa antítese unida. O que significava tudo aquilo? Pelos deuses, por que era tão difícil entender? Parecia tão simples.
A Luz que vem das chamas rouba o poder do Dragão. O Dragão deve ter poder sobre ele mesmo. As forças devem equilibrar. Nenhum homem deve ter mais poder do que merece. Cada homem nasce na natureza que lhe cabe.
Nada daquilo fazia sentido. Mas ela sabia que era importante. Era importante saber e era importante entender. Da guerra. Aquilo falava da guerra. Mas era tão antigo, como eles sabiam?
No tempo de trevas a luz parece mais forte. Mas nada deve ser mais forte do que realmente é. Equilíbrio.
Mykhaela fechou os olhos, mas ao invés de escuridão, viu luz. Uma luz vermelha que a cegava e agonizava. Num segundo pareceu ver Robb e no outro ele havia sumido. Ele sofria. E tudo estava vermelho novamente. Abriu os olhos com o peito ardendo e a luz branca havia desaparecido junto com a vermelha. Olhou os papéis e continuava a reconhecer os símbolos, mas a vertigem havia passado. Ela leu com mais calma as palavras. Eram instruções. Feitiços, poções, magias desconhecidas e profecias antigas. E a todo momento equilíbrio na natureza aparecia diante de seus olhos. O cristal não pesava mais e Mykhaela ouviu uma voz que há muito tempo não ouvia, que ao menos se lembrava.
Tem que ser forte, filha. Tem que devolver o equilíbrio. É o seu papel. Você é uma Orleans.
Ela quase podia ver a mãe, mas não havia fantasmas para enxergar. Mykhaela levantou-se e fechou a caixa, guardando-a e trancando-a novamente. Escondeu o cristal dentro do vestido e saiu da sala. A cada passo que dava o colar tocava um pedaço de pele, queimava e gelava logo em seguida, curando a vermelhidão. Era agonizante. Mas Mykhaela não conseguia tirá-lo. Ela não sabia claramente por que.
Quando entrou na sala do conselho, todos já a esperavam. Ela dividia a posição de regência com Bran, que se sentava no trono de Robb. Grande parte do conselho partira com Robb para a guerra, mas alguns poucos restavam e alguns foram colocados no lugar de outros. Sor Rodrik, Meistre Luwin , Sor Dickon e Lady Catelyn sentavam-se à mesa junto do jovem Stark.
“Já tomou sua decisão, minha rainha?” Bran indagou. Havia ódio em seus olhos, uma ferocidade que ela nunca havia visto nas íris do jovem. Ele esperou pacientemente o tempo que Mykhaela determinou, mas por baixo da máscara de frieza ela via a raiva quente que corria em suas veias.
“Sim” Mykhaela suspirou, engolindo o gosto amargo do poder que tinha em mãos. “Valerya Davies será executada por traição”
“Vossa Graça, por favor, me escute. A mulher não traiu lei nenhuma ao trazer o irmão até Winterfell. Entendo o mal que o irmão fez, mas ela acreditou que ele havia mudado. Vossa Graça nos disse aqui nesta mesma sala sobre a conversa que teve com ela no Bosque Sagrado”
“Ela não será perdoada!” Bran bateu o punho na mesa fazendo o tampo tremer e Sor Rodrik pular no lugar.
“Meistre Luwin, eu entendo sua preocupação. Mas não estou sentenciando Lady Davies pelas leis do Norte. Eu a estou sentenciando de encobrir um fugitivo de Iberia pelas leis do meu reino”
“O seu reino é o Norte, minha rainha”
“Theon Greyjoy viu a morte em Iberia tendo cometido seus crimes em Westeros. Valerya verá a morte em Westeros tendo cometido crimes iberianos. Assim está decidido e assim será”
“Como minha rainha comandar” O meistre fechou os olhos em um meneio, mas seu rosto mostrava que não concordava.
“Sor Dickon, quero que junte alguns homens de confiança para me escoltar”
“Quantos homens, minha rainha?”
“Poucos. Não quero chamar atenção. Dez, quinze no máximo”
“Aonde Vossa Graça deseja ir, se me permite perguntar?” Lady Catelyn juntou as sobrancelhas.
“Sul. Vou encontrar Robb”
“Vossa Graça não pode ir” o velho meistre falou, quase sem cortesia. “É perigoso e o rei a quer segura”
“O rei quer a segurança do reino. É por isso que eu devo partir”
“Mykhaela” Lady Catelyn disse, também desarmada das cortesias de lady que tanto adorava. “Você tem que ficar ao lado dos seus filhos. Não pode se arriscar nessas estradas perigosas”
“Eu estou fazendo isso pelos meus filhos. Não serei questionada. Sor Dickon, eu pretendo partir em uma semana”
“Espere mais alguns dias” Bran disse, levantando os olhos, criando uma coragem súbita. “Preciso de você aqui só por mais alguns dias”
“Por que?”
Bran pegou no bolso do seu gibão um pergaminho amassado que ele parecia ter lido e relido muitas vezes. O selo do lobo Stark estava rompido e Mykhaela reconheceu a letra de Robb quando lhe foi entregue o papel.
“Leia. Em voz alta” A voz de Bran parecia tão decidida que Mykhaela por um momento esqueceu-se de quão jovem ele era.
“Bran. Fico feliz por sua escolha e quero que saiba que eu a apoio. Se Alyssa possui metade das qualidades da irmã, lhe fará um homem muito feliz. Como guardião de Alyssa Shore eu lhe concedo a mão dela em casamento. Seja feliz, meu irmão. Rickon manda felicitações. Robb Stark” Quando Mykhaela terminou de ler as palavras olhou para Lady Catelyn, com o rosto pálido como a neve. Mykhaela também estava surpresa com a notícia. Ela não esperava que Bran estivesse tramando aquilo o tempo todo.
“Eu já havia enviado a carta antes de tudo isso acontecer, mas agora tenho apenas mais motivos para querer proteger a sua irmã. Mykhaela, quero pedir a mão dela a você também”
A iberiana olhou de forma cautelosa para Lady Catelyn, ainda em choque, sem saber o que responder. Bran era um homem formidável e ela via sua irmã feliz com ele. Não tinha motivos para negar-lhe aquilo, mas era tão protetora de Alyssa que quando pensou na possibilidade da pequena virar esposa de alguém a doeu o coração.
“É claro, Bran. Você tem minha benção”
“Quero que você fique. Quero que você esteja no nosso casamento e a leve até mim em nome de Robb, do seu pai e do seu irmão”
Mykhaela estendeu o braço para segurar a mão do jovem cunhado. Bran era muito mais do que Alyssa jamais esperara ter. Ela tinha tanta sorte.
“Eu ficarei, Bran” Ela sorriu para o jovem lobo e ele a sorriu de volta. Lady Catelyn esboçou um pequeno sorriso quando disse que desejava que o filho fosse feliz. Mykhaela a agradeceu com o olhar. Deixe-os ser feliz. Eles merecem. Alguém merece ser feliz nesse castelo.
Rickard não compareceu à execução de Valerya. Ele ao menos se despediu dela. Aquele que dá a sentença deve brandir a espada. Mykhaela lembrou-se das palavras de Robb e segurou a arma bem acima de sua cabeça antes de descer ao encontro do pescoço de Valerya. O sangue quente molhou a terra junto com as lágrimas da falecida mulher de Rickard. Mykhaela quase sentiu pena. Três. Podia agora contar três mortes em suas mãos. Três sombras que sempre a seguiriam. Elas tinham justificativa, mas não eram mais fáceis por isso. Dentro de seu vestido o cristal queimou sua pele pela milésima vez e ela inspirou o cheiro de morte.
Notas finais
E o casamento de Bran e Alyssa? Ficaram felizes? Pelo menos uma coisa boa acontecendo na vida da irmã da Mykha, né?
E no fim Rickard aceitou mais ou menos bem e Valerya teve o final que vocês quiseram. Satisfeitas?
Sei que vocês estão impacientes, mas no próximo capítulo terá Robb e um convidado inédito nessa história. Alguma ideia de quem será?
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