Notas iniciais
Oi meninas, tudo bem?
Ficaram com tanta raiva do Robb no capítulo passado que resolveram sumir e não deixar nenhum reviews? :(((
Bom, se ainda tiver alguém aí, estarei disposta a continuar postando.
Beijos

A sala comum ecoava com o gritos finos. Rickon tampava os ouvidos, irritado, e Lady Catelyn falava para ele que não tinha motivo para fazer tanta cena. Sansa e Alyssa tagarelavam sem parar perto da fogueira e Robb descansava no chão, as costas apoiadas nas pernas de Mykhaela, que segurava o pequeno Ned nos braços, sentada numa poltrona. O bebê já tinha cinco meses e se comunicava em forma de gritos e monossílabos incoerentes. Agarrou com as mãozinhas gordas e brancas os cachos ruivos do pai e os puxou com toda a força de uma criança. Robb reclamou de dor e Mykhaela riu, desvencilhando dos dedinhos os fios de cabelo do marido.


Haviam melhorado muito desde o nascimento de Eddard. Robb parou de ver Talisa, ou quando a via, apenas conversavam como dois amigos. Achava que era melhor assim e ela entendeu. Não queria prejudicá-lo de forma alguma e sabia que cuidar de sua palavra era importante para ele. Com o nascimento de Eddard, Robb sentiu finalmente que havia se tornado um homem. Não fora a coroação ou o casamento, mas a paternidade. O sentimento de que uma vida depende de você, de seus ensinamentos e seus conselhos. Não era mais sobre ele, sobre Jon ou sobre Mykhaela; tudo agora era sobre a pequena criança que lhe puxava os cabelos sempre que podia. E ao invés de escolher a urgência de beijar Talisa quando a via, escolheu a família, escolheu a maturidade. E aqueles momentos ao redor de todos eles na sala comum fazia tudo valer a pena.
Ouviram uma criada entrar no cômodo e ela limpou a garganta antes de fazer seu anúncio. Mykhaela virou os olhos rapidamente para a porta, a tempo de ver Jon entrar em suas vestes negras e surradas da Patrulha da Noite. Ele sorriu e fez uma reverência. Robb levantou-se e andou até ele, abraçando o irmão e lhe perguntando como estava. Logo atrás entrava Lord Mormont, que fez uma reverência para todos.


"Estou bem" Jon disse com a voz um pouco rouca e contou que o frio não o ajudou muito em sua viagem.


"Vossa Graça, espero que nossa visita não seja um incômodo"


"De modo algum, Lord Mormont"


"Snow me disse que sua criança nasceu. Infelizmente não pudemos prestar uma visita antes"


"Sem problemas, meu lord. Eu e minha senhora apreciamos a visita. Por favor" Robb apontou o centro da sala comum, onde a lareira esquentava a todos e os dois andaram até lá.


"É uma criança muito bonita, minha senhora"


"Obrigada, Lord Mormont" Mykhaela sorriu sem prestar muita atenção nele, que sentou-se em uma poltrona que Robb apontou após reverenciar o resto das pessoas que estavam na sala comum.


Jon finalmente se aproximou, analisando o bebê com adoração. Parecia-se mesmo com ele, era assustador. E os olhos, tão lindos como os de Mykhaela. Escuros, mas com um profundo tom de verde que você só via se prestasse bastante atenção. Misteriosos como os dela. Assim que Jon estava próximo o bastante, o pequeno Eddard estendeu os bracinhos para ele, soltando um gritinho infantil. O casal riu e Mykhaela entregou a criança para Jon, que o segurou um pouco desajeitado. Eddard não demorou muito a se agarrar nos cabelos de Jon e puxar com força.


"Ned, querido, não" Mykhaela sorriu, tirando os dedinhos dos cabelos de Jon. Alguns fios ainda jaziam na mãozinha dele, que sorriu de forma sapeca para o pai. O verdadeiro pai.


"Vejo que será um bom soldado. Tem força nos braços" Jon disse com a voz um pouco rouca demais, limpando a garganta em seguida. Tinha os olhos brilhando de lágrimas, mas lutava para não derrubá-las. Robb abraçou a esposa pelos ombros, observando com certa admiração a cena. Amava a criança como seu filho, mas via ali uma conexão paterna que não existia realmente entre ele e o pequeno Ned. Desejou poder sentir logo o que era ser pai. O que era saber que há um pedacinho de você em uma pessoa. Não se ressentiu, apenas admirou a cena. A criança brincava com os pelos do manto negro de Jon e agarrava-se com firmeza no dedo indicador do pai.


"O garoto gosta de você, Snow" Mormont disse após beber um grande gole de vinho. "Leva jeito para a coisa, pena que nunca terá isso"


"Sim, é uma pena" Jon disse após um longo silêncio, sorrindo de forma tão bonita e sincera como ninguém ali jamais havia visto.


Sentaram-se novamente e uma criada trouxe pão preto, peixe, bacon e vinho para os dois visitantes, que agradeceram e comeram com vontade. Bran contava para o irmão que melhorou sua montaria e Alyssa concordou. Os dois passavam muito tempo juntos, passeando pelos arredores de Winterfell, sempre sob os olhos cautelosos de Lady Catelyn. Ela nunca interferiu no amor infantil pois tinha certeza que não duraria muito. Ainda assim era cautelosa. Jon ouvia o irmão com atenção e comentava coisa ou outra com Alyssa e Bran. Sansa rolava os olhos e tinha prazer em discordar de Jon, apenas para irritá-lo, e depois sorrir para ele. Sansa e Jon nunca foram muito ligados, mas após todo o tempo que passou em Porto Real e o abraço que recebeu do meio irmão quando conseguiu retornar para casa, sua relação melhorou muito. Sansa ainda gostava de irritá-lo e Jon deixava que ela tivesse esse pequeno prazer apenas para ver a irmã sorrir.


Aos poucos todos ficaram com sono. Sansa e Alyssa foram dormir, logo depois uma criada levou Bran e Lady Catelyn levou Rickon, que adormecera em seus braços. Robb acompanhou Lord Mormont até a Torre dos Hóspedes. Assim que as criadas tiraram as bandejas sujas, Jon aproximou-se de Mykhaela, sentada enquanto embalava a criança Snow, que dormia. Apoiou as mãos nos braços da poltrona, deixando seu rosto a centímetros do dela. Mykhaela sustentou o olhar, seu peito apertando sobre o quanto sentia saudades daqueles olhos. Jon colou sua testa na dela, deixando seus lábios quase juntos, mas não o bastante.


"Eu só quero ficar assim por um momento, se não te incomodar" Ele falou finalmente, os olhos fechados.


"Não me incomoda" Mykhaela sussurrou, mordendo o lábio inferior e consumindo aquele momento. Era o mais perto que estaria dele pelo resto de sua vida e não era o bastante. Jon segurou o rosto dela entre as mãos e beijou-lhe a testa.


"Obrigado por ser a mãe do meu filho" Disse por fim, acariciando o rosto dela e beijando a cabeça do bebê, saindo da sala comum, em silêncio.


–x-


O pequeno Eddard dormia nos braços de Lady Catelyn enquanto Mykhaela estava no pátio, andando de um lado para o outro. Fantasma a seguia com os olhos, deitado num canto, apenas observando. Pegou o arco novamente, apontou para o alvo e atirou. Errou mais uma vez. Respirou fundo e lembrou das palavras de Rickard, mas não conseguia relaxar o braço nem nenhum músculo de seu corpo. Não havia sido fácil, não mesmo. Precisou tomar uma atitude drástica, casar-se com Robb para salvar Jon e o bebê, e agora os tinha a salvo. Ela sabia que escolhia perdê-lo para salvá-lo quando deixou a Muralha, mas também nunca imaginou que ficaria ligada a ele todo o resto de sua vida.
Naquele um ano de casamento foi tranquilo. Aprendeu a abrandar os sentimentos por Jon, apesar deles arderem em seu peito quando o via, mas era tão mais fácil. Havia se apaixonado por Robb sem perceber. Amava o modo que ele olhava para ela, como a beijava, como recorria à ela quando não sabia o que fazer com uma questão ou outra. Conseguia balancear aqueles sentimentos, não era fácil, mas era possível. E então o amava ainda mais por amar o filho dela como dele. Por pegar o pequeno Eddard em seus braços quando ele chorava de madrugada, dizer a ele para não chorar pois "o papai está aqui e nada vai lhe acontecer". Como poderia não amar alguém que amava e cuidava de seu filho como se fosse dele?


Os últimos oito meses haviam sido tranquilos como as águas do Lago Negro. Mas Jon reapareceu. E não bastava só aquilo. Olhou para o filho, pegou-o em seus braços. Mudou. Estava irresistivelmente apaixonável. Estava mais lindo que nunca com a criança nos braços, com o olhar de amor, com a expressão de dor quando Ned puxou seus cabelos. E Jon, porque tinha que olhar-me daquele jeito? O rosto dele a centímetros, enquanto ele falava era como se ela sentisse o gosto dele pelo hálito quente. Despertou sentimentos que há muito estavam enterrados. Não conseguiu ao menos olhar para Robb naquela noite sem se sentir culpada. Segurou-se o máximo que podia para não fugir de seu quarto no meio da noite e correr até Jon, pedir que ele a tomasse em seus braços, que a invadisse, que a matasse de amor e prazer. Mas não podia e isso a matava. Não queria ver Jon ou Robb ou quem quer que fosse naquela manhã. Era perigoso demais olhar para qualquer um deles.


"Você sabe, precisa relaxar seu braço" Ouviu alguém se aproximar e olhou para trás com certo receio. Mas era apenas Lord Mormont, então estava a salvo.


"Sim, eu sei" Forçou um sorriso e voltou a posicionar a flecha no arco, respirando fundo e tentando mais uma vez. Estava tensa, não acertou.


"Há algo lhe deixando tensa, se me permite perguntar, Vossa Graça?"


"Não, Lord Mormont. Só achei que poderia me exercitar um pouco"


O homem fez um breve aceno com a cabeça e silenciou-se por um tempo, mas logo voltou a falar.


"Sua criança é realmente um Stark"


"O que quer dizer?" Mykhaela tentou não parecer muito afetada.


"É uma pequena cópia do avô"


"Ah sim, é o que todos dizem. Mas infelizmente nunca conheci o senhor meu sogro"


"Jon se parece muito com ele"


Mykhaela repousou o arco e olhou para o Velho Urso.


"Lady Catelyn diz, mas nunca poderei fazer a comparação eu mesma"


"A criança tem muito pouco do pai"


"Assim como, segundo Robb, ele mesmo tem pouco do Lord Eddard Stark"


"É um traço de família, acredito eu"


Mykhaela sorriu sem muita sinceridade. Não gostava do rumo daquela conversa.
"Snow pareceu muito apegado ao sobrinho"


"Talvez porque seus sobrinhos serão as únicas crianças de sua vida"


"Sim, apesar de eu pessoalmente não recomendar essa proximidade com a família que Jon tem. Não é saudável para um Patrulheiro" Mormont tomou mais uma pausa antes de continuar. "Snow guarda muita afeição por você"


Mykhaela limpou a garganta enquanto coçava as orelha de Fantasma, que se aproximou dela de forma protetora.


"Assim espero, já que somos família. Somos irmãos"


"Irmãos, claro. Acho curioso como engravidou tão rápido após casada"


"Acredito que a semente dos Stark é forte" Mykhaela já não sorria mais. As insinuações de Lord Mormont estavam cada vez mais incômodas.


"Sim. Dizem que sobrevivem até os mais inóspitos invernos, como os que temos na Muralha"


"Este assunto não é apropriado para uma senhora, Lord Mormont"


"Claro que não, peço desculpas pela minha atitude, Vossa Graça. Com licença"


Mykhaela viu o Velho Urso flutuar para o corredor externo e sumir rumo ao castelo. Tão sorrateiro se foi como chegou. Pediu para que Sor Rodrik guardasse seu arco e correu os degraus, dois por vez, até o quarto de Jon. Bateu três vezes na porta, apressada, sem se importar realmente em esperar. Logo entrou no cômodo e encarou o moreno, que vestia apenas seus calções e nada mais.


"Mykhaela. Está tudo bem?"


"Não" A respiração dela era rápida e cansada. "Você tem que ir embora, Jon" Ela tentava não olhar muito para ele, mas ele se aproximou, tornando tudo ainda mais difícil.


"Por que? O que aconteceu?"


"Ele sabe. Sobre nós. Ou desconfia pelo menos"


"Ele quem?"


"Mormont"


Jon parou alguns segundos para absorver a informação.


"O que te faz dizer isso?"


"Tive a conversa mais estranha do mundo com ele. Ficou insinuando que Eddard parece-se muito com seu pai, que você é o filho dele que mais se assemelha a ele. E então ficou falando sobre como o pequeno Ned não se parece em nada com Robb e que eu engravidei rápido demais. Tentei desconversar o tempo todo, dizendo que a semente Stark era forte. Ele respondeu que ela era forte o bastante para resistir ao frio da Muralha. Ele sabe, Jon"


Mykhaela encarou, finalmente, os olhos de Jon e tentava recuperar o fôlego, a mão repousada no estômago. Ele tinha ganhado uma expressão mais velha nos últimos meses, que ela havia reparado apenas naquele momento. As sobrancelhas estavam juntas, sombrando os olhos nevoados.


"Ele não pode provar, Mykhaela. Não tem com o que se preocupar" Disse por fim, virando de costas para ela pra encarar a janela.


"Não! Ele está sondando, Jon. Ele quer algo com isso"


"Está imaginando coisas. Não há nada de errado"


Mas havia, e ela podia perceber na voz dele. Andou até Jon e o puxou pelo braço para olhá-la.


"Diz pra mim, Jon. O que está acontecendo?"


"Nada, eu já disse"


"Eu não acredito"


"Pare de imaginar coisas que não existem, Mykhaela"


"Não mente pra mim, Jon"


"Eu não estou mentindo"


"É claro que está"


"Mykhaela..."


"Por favor, só me conta o que está acontecendo"


Jon se irritou, segurando-a pelos dois braços.


"Eu não sou mais problema seu, entendeu? Agora deixe que eu lide com meus problemas sozinho"


Doeu ouvir as palavras rudes dele, mas sabia que Jon precisava de ajuda e era orgulhoso demais para pedir. Não o abandonaria por causa de uma grosseria ou duas.


"Caso não tenha notado, Jon Snow, não está sozinho nessa. Estou com você desde o princípio. Não deixo de estar agora"


"Você resolveu os problemas do seu jeito, agora me deixe resolver do meu"


"Ele sabe?"


"Ele vem perguntando coisas. É tudo o que precisa saber, nada mais. Agora vai, Mykhaela. Me deixa sozinho"


Era a vez dela de se irritar. Empurrou Jon pelos braços até ele bater as costas contra a parede de pedra, encurralando-o com seu corpo pequeno.


"Diz pra mim. Eu não vou sair daqui enquanto não me contar"


"Ótimo, então eu saio"


Jon a tirou de seu caminho da forma mais delicada que podia, indo até sua túnica para vestí-la e sair. Mykhaela irritou-se ainda mais, olhando em volta e pensando numa forma de fazê-lo ficar. Não se importou muito com as consequências daquilo para ela, o que importava era ele. Subiu no baú que jazia nos pés da cama dele, ficando de frente para Jon. Passou as mãos pelos ombros dele, chegando à nuca, agarrando-se aos seus cabelos e puxando sua boca para si. Quando seus lábios tocaram os dele, após tanto tempo, parecia que todo seu mundo havia parado e que todo o último ano não havia passado de um sonho de uma noite. Parecia que estava novamente entre as pedras frias da Muralha, na Torre do Rei, onde ele a envolvia em seus braços e a beijava como ninguém nunca havia beijado. Não era igual, era mais faminto. Era cheio de desejo reprimido por tanto tempo. Era um misto de tudo, mas ao mesmo tempo não era nada. Seu corpo pareceu relaxar como há muito não relaxava quando Jon envolveu sua cintura nos braços e a puxou para seu colo. Mykhaela arfou quando seu quadril colidiu com o dele enquanto ela entrelaçava as pernas na cintura de Jon. Ele finalmente separou os lábios de ambos, ofegando forte contra o pescoço dela. Abriu os olhos, colocou Mykhaela no chão e se afastou, passando as mãos no rosto, tentando recuperar seu bom senso, tentando clarear a mente.


"O que você fez?"


"O que tinha que fazer para não sair daqui sem me dizer o que está acontecendo"


"Percebe o que fez? Não sabe o esforço que venho fazendo esse tempo todo? E então você joga tudo fora com isso?"


"Me desculpa, Jon, mas eu precisava fazer você ficar"


"Você quer saber o que está acontecendo? Ótimo. Mormont ouviu algumas brincadeiras de alguns irmãos negros sobre eu e você e ficou curioso. Ele mesmo já tinha suspeitas quando você estava lá mas em nada deu, não é mesmo? Não temos com o que nos preocupar. Robb pode garantir a ele que você ainda tinha sua honra em sua noite de núpcias e tudo ficará bem"


"Você não corre riscos?"


"Na Muralha? Não. Aqui eu já não sei. Acho que estava certa, preciso mesmo ir embora"


"Lord Mormont não vai desconfiar dessa sua vontade repentina de partir?"


"Mykhaela, isso não é mais problema seu. Por favor, sai do meu quarto e não atrapalha ainda mais as coisas" Jon virou-se de costas para ela, sua respiração ainda fora de ritmo. A rainha saiu do quarto em silêncio, reconhecendo que o que fez não era justo nem com Jon, nem com Robb. Trancou-se em um aposento sem uso e passou o resto da manhã chorando, tirando aquela agonia do peito. Mas nada — nem o choro, nem as flechas — parecia acalentar a dor.