Notas iniciais
Oii meninas, tudo bem?
Todas com raiva do Theon? haha
Espero que gostem do capítulo.

A neve caía sobre Winterfell naquela manhã. Tudo era gelado, apesar do acalorado combate do dia anterior. Robb tinha a cabeça encostada na parede de pedra, os olhos fundos pela noite mal dormida, um corte na testa que sujava seu rosto com sangue seco. Olhou para o lado na pequena cela onde alguns de seus homens permaneciam vivos, alguns machucados. O cheiro de sal, água e ferro irritava seu nariz. Um dos homens de Greyjoy apareceu, olhando de forma superior para o Rei do Norte e seus homens. Apontou para Robb e abriu a cela, puxando-o pela gola de veludo. Subiu as escadas de seu conhecido castelo e andou até onde costumava ser sua sala pessoal. Theon olhava pela janela quando ele entrou no cômodo e demorou algum tempo em silêncio até virar-se para Robb.


"Winterfell é minha"


"Não por muito tempo"


"Sem você suas tropas não tem escolha a não ser ajoelhar-se para Stannis"


"Sabia que você era puta de alguém. Não conseguiria isso sozinho"


"Eu tomei Winterfell sozinho. Pela segunda vez"


"A pergunta é se você fugirá dessa vez como fez da primeira"


"Dessa vez eu tenho você e logo terei sua cabeça"


"E o que espera?"


"Você precisa me dizer algumas coisinhas" Theon tinha o usual sorriso em seu rosto. Robb permaneceu em silêncio, consumido pelo ódio. "Pode começar a me dizer onde está sua esposa e seu filho"


Foi a vez de Robb de sorrir. "Se você não sabe significa que eles estão muito longe daqui"


"Ela não irá muito longe sozinha. Já mandei meus homens vasculharem a área"


"Não subestime-a, Greyjoy. Ela matou com um punhal o rato que mandou para me matar nas justas"


"Sim, eu ouvi isso. Vamos ver se ela sobrevive à minha espada"


"Aposto meu reino que ela ganha"


"E o resto da corte?"


"Estava muito ocupado matando homens seus para ver para onde fugiram"


"Pena que não ficou ocupado por tanto tempo assim" Theon bebeu um grande gole de vinho e mordeu um pão antes de continuar. "Pode voltar pra sua cela. Mas não fique feliz, Stark. Logo terei a cabeça de sua mãe, seus irmãos, seu filho e sua esposa. E então a sua"


Theon chamou um guarda que levou Robb de volta a uma cela. Estava mais tranquilo. Eles não acharam sua família, nenhum deles. Era a melhor notícia que poderia receber naquele momento.


-x-


Mykhaela segurava Eddard em seus braços, enrolando a pequena criança no cobertor de pele. Caía bastante neve naquela manhã e o pequeno tinha as bochechas vermelhas pelo frio. Jon voltava da ronda que fez pelo perímetro com uma expressão não muito boa.


"Os homens de Greyjoy estão vasculhando a área. Precisamos andar logo"


Ela acenou com a cabeça e passaram a caminhar na direção norte. Não sabiam muito bem para onde, mas sabiam que deveriam continuar. O estômago de ambos doía de fome, mas resolveram reservar o pão para quando tivessem mais fracos. Avistaram uma pequena vila e resolveram parar ali, pedindo comida. Algumas pessoas que estavam em Winterfell no dia anterior reconheceram a rainha e uma família de lavradores os recebeu em sua casa. Era de pedra, pequena, mas estava quente pela lareira acesa. A mulher, uma senhora de meia idade com cabelos grisalhos e o corpo redondo, serviu-os água e pão preto. Colocou também o pequeno Eddard perto da lareira para que ele pudesse se aquecer.


"Não estava lá, mas meu senhor e meus filhos sim. Disseram que Vossa Graça lutou bravamente"


"Eles estão bem?"


"Sim, sim. Só meu filho mais novo que se machucou um pouco na queda em uma das justas.


"Rezarei pela boa saúde dele" Mykhaela parecia tão cordial e treinada como uma verdadeira rainha, pensou Jon.


"Posso pegar roupas de minha filha, se quiser, Vossa Graça. São roupas simples, é claro. Mas estão limpas ao menos"


"Eu adoraria, minha senhora"


Mykhaela foi encaminhada para um cômodo no segundo andar da casa e Jon ficou na sala, com o pequeno Eddard em seus braços. A criança dormia com uma expressão inocente de quem não sabia o perigo que passava. No cômodo apertado e simples, Mykhaela se desfez do vestido de veludo e colocou um de lã, com corpete de couro fervido e um manto de pele quente. Queimou na lareira do quarto o vestido sujo de sangue e ofereceu a capa dos Stark como forma de agradecimento, mais dois veados de prata. A mulher agradeceu e ambas desceram as escadas de pedra. Jon mal podia reconhecer a rainha do norte naquelas roupas simples. Era um ótimo sinal, já que seriam procurados por suas características mais peculiares. Um irmão negro com uma mulher com manto Stark e uma criança de um ano. Não seria tão difícil assim reconhecê-los.


Não poderiam se demorar, então agradeceram a hospitalidade e partiram para seguir viagem. A mulher agradeceu a visita da rainha e do jovem príncipe, mas se dependesse dos desejos de Mykhaela, nunca haveria colocado os pés ali. Não naquela situação pelo menos, fugindo de seu castelo com seu filho e sem saber se o marido estava bem. Jon já estava mais a frente quando ela pediu para ele esperá-la e voltou até a mulher, sussurrando-lhe algo. Jon passou algum tempo se perguntando sobre aquilo, mas precisavam viajar rápido e não havia tempo para conversas.


Andaram pelo resto do dia, esquivando-se dos olhos de outras pessoas e escondendo-se como se fossem animais. Naquele dia não acharam uma caverna, mas sim uma estalagem que estava quase aos pedaços no chão. Era abandonada e a madeira rangia entre as paredes, mas era melhor do que dormir ao relento. Mykhaela colocou Eddard em uma poltrona velha e empoeirada. Seus braços doíam muito de carregá-lo o dia todo e as pernas queimavam nos músculos pelo esforço que há muito não fazia. Jon acendeu a lareira com alguma dificuldade e tentou tampar as janelas com as cortinas que se desfaziam para ninguém saber que estavam ali. Mykhaela se sentou numa cadeira velha e pegou um antigo livro de registros que estava jogado no balcão de recepção, lendo os nomes de quem já havia passado ali. Jon parou logo atrás dela e apoiou as mãos nos seus ombros, fazendo uma massagem gostosa.


"Posso te perguntar uma coisa?"


Ela parou de folhear as páginas e olhou para ele por cima dos ombros.


"Sim"


"O que disse àquela senhora?"


Ela hesitou por um momento antes de começar a falar. "Eles passarão por aquele vilarejo perguntando por nós. Disse para não mentir"


"Por que raios você fez isso?" Jon parou o carinho, um tom rude e severo em sua voz.


"Não vou pedir à ela ou a qualquer um que arrisque sua vida por nós"


"São súditos seus. É o que acontece"


Mykhaela levantou-se, irritada.


"Não vou comprar minha vida com a dos outros, Jon"


"Não é com sua vida que estou preocupado se ainda não entendeu"


"Não é seu filho para se preocupar" Mykhaela irritou-se e disse as palavras no mesmo tom que ele.


"Ah não? Pois é meu sangue que corre nas veias dele. Se isso não faz dele meu filho..."


"Eu sei como cuidar dele, Jon. Sei melhor do que você, melhor do que qualquer um. Eu dou minha vida por ele e sei o que estou fazendo"


"Parece que não sabe"


"Não sou mais uma criança, Jon. Não sou a garota que achava possível fugir com você e ser feliz para sempre"


"Não comete mais erros estúpidos então?"


"Não, aquela garota já morreu"


"Posso ver mesmo que despreza tudo o que aquela garota foi e fez"


"Para de agir assim, Jon Snow!"


"Assim como?"


"Como se o que aconteceu entre nós não foi importante"


"Foi?"


Os olhos de Mykhaela brilhavam com as lágrimas que começaram a cair pelo seu rosto a medida que a raiva aumentava.


"Como pode duvidar disso?"


"Como pode chorar por ele em meus braços?"


"Sabe quantas vezes já chorei por você nos braços dele?"


"Você o ama agora"


"Você não me ama mais"


"Não é verdade! Eu só aprendi a viver sem você"


"Então não me condene por ter aprendido a viver sem você também, Jon"


Ambos se encaram por algum tempo, os olhos já não estavam mais acusatórios. O silêncio caiu e eles só ouviam o som dos ventos passando por entre os corredores do prédio abandonado.


"Por favor, não faça mais isso" Mykhaela quebrou o silêncio e suspirou de forma melancólica.


"O que?"


"Não acabe com o que restou entre nós. Não mate nossa amizade, Jon. Eu só posso contar com você agora e sem você eu estou sozinha no mundo" Ela soltou um pequeno soluço e Jon se sentiu mal pelas cobranças que fez mais cedo.


"Eu nunca vou te abandonar" Jon disse com certo receio, mas a abraçou, encaixando o corpo pequeno nos seus braços fortes.


"E se um dia tentar eu vou te perseguir até que desista da ideia, Jon Snow"


Jon sorriu contra os cabelos dela, beijando-os. "Nunca precisará chegar a tanto, pequena"


Mykhaela saiu do abraço de Jon e o olhou nos olhos. Eles estavam cansados e pequenas linhas de expressão já os marcavam. Pensou que também deveria parecer mais velha agora. Era esposa, mãe, rainha. Sentaram-se perto da lareira e permaneceram em silêncio algum tempo.


"Você se pergunta como será nossas vidas em dez, quinze anos?"
Mykhaela olhou para Jon de forma enigmática e pensou um pouco antes de responder.


"Exatamente igual?" Os dois sorriram. "Eu continuarei a ser rainha ao lado de Robb, você terá um cargo mais alto na Patrulha e Eddard me deixará louca com suas rebeldias da juventude"


"Você terá outros filhos..."


"Sim" Mykhaela suspirou, pensando na criança que crescia dentro dela naquele instante. Não pretendia contar a Jon aquilo. Só o machucaria. "Eles estarão crescendo e Eddard irá se preparar para seguir seu caminho"


"Acha que ele escolherá que caminho?"


"Infelizmente ele não terá que escolher, seu caminho já está traçado"


"O que quer dizer?"


"Eddard não é filho legítimo de Robb e por mais que seja reconhecido como tal pelo reino todo, não é de seu direito o trono. Porém, ele é o filho mais velho de Robb Stark. Robb lutou uma guerra contra um filho ilegítimo que assumiu o trono. Seria uma ofensa contra todos os homens do Norte que morreram por essa causa colocar Eddard na sucessão do trono"


Jon encarava Mykhaela pensativo. Concordava com tudo aquilo, mas se preocupava com o destino daquelas palavras.


"Eddard nasceu antes do tempo. Robb e eu estávamos com problemas e um episódio na Floresta Sagrada adiantou o parto. Foi bem difícil na verdade e ele nasceu tão pequeno e frágil. Graças aos deuses ele sobreviveu e ficou cada vez mais forte. A situação, assim que passada, se encaixou em meus planos. Pedi uma audiência a Meistre Luwin e disse a ele que enquanto Eddard lutava para se fortalecer fiz uma promessa aos deuses"


"Que promessa?" Jon juntou as sobrancelhas, suas vozes não passava de um sussurro.


"Se Eddard sobrevivesse, em forma de agradecimento aos deuses, faria dele um protetor do Reino. Catelyn não gostou nada da ideia e Meistre Luwin também não ficou muito contente, mas Robb me apoiou. Ele sabia que deveria me apoiar. Era algo que conversamos havia muito tempo"


"O que quer dizer um protetor do Reino?"


"Eddard está destinado a ser um Patrulheiro da Noite, Jon"


"Você prometeu isso?"


"Sei que pode me julgar mal, mas fiz isso pensando no melhor. Talvez não o melhor, já que o privei de ter uma mulher e filhos, mas dessa maneira ele passará uma parte da vida comigo e todo o resto dela com você. Eu já te tirei a oportunidade de ouví-lo chamar de pai, queria pelo menos que você vivesse com ele, ensinasse a ele sobre honra, sobre ser um bom homem"


Mykhaela finalmente teve coragem para olhar Jon. Seus olhos estavam num misto de sentimentos. Emocionado, talvez. Um pouco confuso.


"Fez isso por mim?"


"Sim, também"


"Mesmo que ele possa te odiar por ter tomado essa decisão por ele?"


"Jon, eu já tomei tantas coisas de você. Não me importa se Eddard me odiar um pouquinho para que você tenha ele ao seu lado"


"Robb concordou com isso?"


"Não é uma decisão de Robb. Eddard é meu filho, nosso filho"


"Eu estou feliz, mas ao mesmo tempo é tão radical, Mykha. Tirar dele a oportunidade de ter uma mulher, de segurar um filho recém nascido nos braços"


"E como eu o faria entender que não pode assumir o trono sem contar a verdade? Ele está protegido sem ela, Jon. Além do mais, será um príncipe. Duvido muito que nunca se deite com uma mulher antes de partir pra Muralha"


"Se ele não puxar o pai" Jon sorriu e Mykhaela o encarou com as bochechas vermelhas.


"Ele é meu pequeno pedaço de você, Jon. Meu pequeno floco de neve"


Jon sorriu e virou-se para admirar o filho, que dormia pesadamente entre as peles quentes. Admirou o apelido que Mykhaela deu a ele. Era mesmo um pedacinho de Jon Snow que estaria para sempre com ela, cuidando dela, fazendo-a feliz, fazendo-a lembrar-se dele. Era a prova do amor deles, a consequência mais bonita que poderia tirar daquela imprudência que foi o amor proibido dos dois na Muralha. E ele seria a lembrança de Mykhaela entre as paredes geladas do Castelo Negro por todos os dias que andasse naqueles corredores. Seria sempre o raio de sol que Mykhaela um dia foi para ele. Um raio quente de sol em meio ao gelo.

Notas finais
O que acharam da "promessa" da Mykhaela? Será que o Eddard ficará com muita raiva quando chegar a hora dele saber? Será que eles viverão pra contar a ele?
Beijos meninas, espero os reviews de vocês.