Notas iniciais
Oie gente que eu amo demais, desculpem pela demora nas postagens, mas esse fim de ano foi mais corrido do que eu podia imaginar, em todo caso estou aqui e espero que vocês gostem. Beijos e boa leitura Juh

“Hoje eu acordei sabendo que não era possível, porque você era perfeito demais, e eu não passava de uma caricatura disforme.”

“Respirei o ar da verdade e verti minhas mãos nas águas do lamento eterno, você era perfeito, perfeito demais para existir.”

(June Oliveira)

Casarão Drácula – Sul da Inglaterra

Sete dias haviam se passado, durante esse período Kim ficou presa entre a consciência e os sonhos, ela recebia visitas diárias de Anastácia que aparecia com coisas para que ela se alimentasse e a ajudava com o banho, durante esse período Vlad tentou ficar afastado, não queria correr o risco de perder o controle na presença da jovem, por isso passou a caçar nas redondezas sem despertar suspeitas, era uma forma para se fortalecer para não se tornar um problema para a jovem, ele sabia que se ela soubesse o que ele era jamais iria ficar ali e ele precisava de tempo, precisava ganhar espaço no coração dela se queria mesmo ter certeza sobre quem ela realmente era.

–Meu senhor está brincando com o fogo. – Disse Josep fazendo uma careta ao ver Vlad colocando sua capa pesada para mais um de seus passeios, Vlad apenas riu, ele encarou o velho amigo e por um minuto ficou feliz por ainda existir pessoas leais a ele.

–Meu caro amigo, as pessoas temem tudo aquilo que não compreendem, você sabe que vivemos em tempos sombrios, eu não posso correr o risco de assustar nossa cara convidada. – Vlad falou enquanto o vento da noite fazia uma dança ágil com seus cabelos, ele caminhava por um grande corredor central em direção aos estábulos, o lugar parecia ter sido um jardim em outros tempos, talvez quando a primavera voltasse o lugar fosse abençoado de beleza, mas naquele momento e em especial naquela noite tudo parecia perfeitamente morto.

–Não deve se focar demais na jovem meu senhor, pode acabar despertando suspeitas, o senhor sabe que grandes homens de Londres gostam de perder suas riquezas com garotas como ela, isso pode ser considerado normal, mas nenhum deles jamais levou uma dessas jovens para casa, muito menos se preocupou com sua saúde, o senhor sabe que por mais que tenhamos poucos empregados ainda sim estamos sempre correndo o risco de fofocas. – Josep parou um minuto para recuperar o ar, ele era um homem velho e sentia dores no joelho, ele nem de longe podia acompanhar o ritmo do Conde, principalmente quando o mesmo andava cheio de determinação. – Precisa proteger sua imagem se quiser viver mais tempo nessa região do que viveu nas outras. – Vlad encarou o amigo e depois montou em seu cavalo negro com um só impulso, ele sorriu ao sentir a força do animal. Vlad sabia que não precisava do cavalo, mas se queria manter ao menos uma imagem mais discreta precisava tentar fazer as coisas como uma pessoa normal, podia até ser estranho um nobre andando a cavalo a noite e sozinho, mas seria muito mais estranho se ele fizesse isso a pé.

–Não se preocupe comigo Josep, eu prometo que os rumores serão o menor de nossos problemas, e sobre a jovem, eu posso comprar uma casa para ela, pelo que sei essa pratica é bem comum entre os nobres, quase todos os homens dessa província tem uma jovem bonita como acompanhante, a única diferença entre eles e eu é que se ainda tivesse meu grande amor comigo jamais veria a necessidade de ostentar tamanha infidelidade. – Vlad havia sido um homem casado, um príncipe de honra e nome, ele amava sua esposa acima de tudo como também amava o filho, seu povo era sua obrigação e ele nunca sentiu a necessidade de manchar sua dignidade com bobagens humanas, sua esposa era seu anjo e ele só precisava dela para ser salvo.

–Sinto muito por sua perda senhor, todos nós sabemos o quanto o senhor é dedicado. – Josep estava com Vlad a anos, mais de 50 para ser exato, Vlad havia salvo sua vida quando ele ainda era uma criança e depois disso Josep passou a servi-lo por todos os anos que vieram, mas no fundo essa união se tornou uma amizade duradoura.

–Esta tudo bem Josep, ela voltou para mim. – E sem dizer mais nada Vlad atiçou as rédeas e saiu pela noite como vinha fazendo nos últimos séculos.

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Noticias do Jornal de Londres – Dois dias depois

Foi encontrado hoje o corpo de um jovem rapaz sem nenhuma gota de sangue sequer, esse é o terceiro corpo encontrado em menos de dois dias, ás autoridades de Londres estão pensando que pode ser um novo tipo de animal, já os cientistas acreditam que pode ser uma doença rara, ainda existem muitas perguntas sobre essa nova ameaça, por isso todos os chefes de segurança pedem para que ninguém saia á noite após o entardecer para maior segurança.

As noticias estavam por todas as partes, o jovem menino vendia freneticamente seus jornais impressos na calçada, ele estava ganhando boas gorjetas, era sempre lucrativo quando um novo assassino surgia nas redondezas. Os mais religiosos diziam que era um mal enviado pelo demônio, Vlad apenas ria da falta de certeza das pessoas e principalmente de como o ser humano era ligado a suas superstições, séculos se passaram desde sua transformação e ainda sim o ser humano ainda tinha medo do monstro da caverna.

Nas noites que seguiram Vlad passou a freqüentar alguns lugares conhecidos pelos nobres de Londres, aquela era a melhor forma de saber o que os moradores estavam pensando a respeito de todas aquelas mortes, ele sabia que estava exagerando, nunca caçava tão rápido, mas a presença de Kimberly em sua casa não estava ajudando, na verdade ele nunca havia sentido tanta cede desde sua primeira transformação, por isso resolveu se misturar aos homens que fumam charuto e falam sobre riquezas, ele nunca gostou muito, mas era uma chance de descobrir o que eles tramavam.

–Vamos ficar de olho em cada movimento suspeito, as pessoas estão ficando com medo e isso não é bom para os negócios. – Disse um senhor chamado Jorge que trabalhava com investimentos na marina, ele era responsável por grande parte do vinho que era vendido ali e esse toque de recolher não iria fazer nenhum um pouco bem para ele.

–Sugiro que todos os estranhos que chegaram antes das mortes sejam interrogados, isso não esta nada bom para mim, nem as prostitutas estão querendo trabalhar. – Disse Marcos, um espanhol dono de uma casa de jogos, ele passou a mão por seus bigodes enquanto Vlad apenas observava o rosto de cada um ali, ele precisava estar pronto para saber quem devia viver e quem seria um problema.

Já na mansão de Vlad as coisas permaneciam em silencio, apenas Kim com seus pensamentos e sonhos estranhos, sonhos confusos que a faziam pensar em um rio profundo, ela muitas vezes se via em queda livre sendo seguida por Vlad até o abismo, aquilo a deixava apavorada e ao mesmo tempo entristecida demais, era uma dor que ela não conseguia entender, por vezes se pegou chorando só em pensar naquela imagem, sem falar que tinha um menino, um rosto de uma criança que ficava aparecendo o tempo todo chamando por ela, o que estava acontecendo afinal?

–Onde está, onde está ele? – Eram as únicas palavras que Kim conseguia dizer no início, sempre se perguntava quando seu salvador misterioso iria retornar a vê-la, mas durante semanas isso não aconteceu.

–Ele é um homem muito ocupado querida, as coisas são difíceis. – Essa era a frase mais dita por Anastácia nos últimos dias, e aquilo deixava Kim chateada por algum motivo que não compreendia direito, era como se ela necessitasse da presença do Conde mais do que qualquer outra coisa naquele momento, mas do que a própria vida.

Na manha do vigésimo dia Kimberly conseguiu se levantar sem maiores problemas, ela encontrou sobre um velho baú, um lindo vestido azul de veludo, naquela época do ano tudo era muito frio, se antes ela tivesse condições de usar algo daquele nível teria enfrentado qualquer inverno no píer.

–Fico feliz que já esteja se sentindo bem para uma caminhada senhora. – Disse Anastácia sorrindo sincera enquanto Kim descia as escadas com cuidado, Kim sentiu um frio na espinha com aquela menção “Senhora”, aquele titulo era apenas para grandes mulheres da sociedade, mulheres que já conheciam Paris, que já estiveram em Veneza, mulheres que usavam vestidos caros e fitas no cabelo, mulheres de pele clara por causa do uso de maquiagem e pó de arroz, mulheres que se casavam com homens de cartola e tinham vinte e duas babas para cuidarem de seus filhos.

Ela não era uma dama, estava longe de merecer aquele titulo, e quanto mais era tratada dessa forma, mas se sentia estranha por isso.

–Se não for pedir muito Anastácia, eu gostaria que me ajudasse com esse vestido, não estou acostumada a usar esse tipo de acessórios. – Disse a jovem um pouco sem graça se virando de costas para revelar o espartilho aberto, ouve um momento de silencio estranho, mas Kim não ousou olhar para trás, ela ouviu passos pesados se aproximando do nada, ela sentiu um aroma amadeirado no ar capaz de mudar as coisas a sua volta, e por um instante que pareceu uma eternidade ela sentir mãos firmes e habilidosas puxando as cordas delicadas de seu espartilho com uma força capaz de tira-la do eixo, ela sabia quem estava ali com ela, e quando Anastácia passou de forma discreta por ambos Kim teve absoluta certeza.

O Conde.

Kim deu um passo para á frente mais foi impedida de se mover, aquilo a fez respirar um pouco mais acelerado que o normal, sentiu um frio na espinha cada vez mais forte e quando mãos experientes tocaram seus cabelos com delicadeza sentiu vontade de gritar.

–Sinto muito se a assustei, não queria fazer isso. – Disse a voz grave do homem com um meio sorriso se sentindo satisfeito pela reação que causara na jovem.

–Se não queria me assustar não devia fazer isso novamente, não estou acostumada com pessoas sendo gentis comigo, normalmente elas sempre desejam um preço por suas ajudas. – Kim falou séria pensando em todo o medo que vivera no píer momentos atrás com David.

–Aquele homem no píer, qual era sua divida? – Vlad perguntou sobre David, na verdade ele não queria nem ao menos pensar naquele dia, mas era algo que não podia evitar.

–David é dono de quase tudo no píer, para pessoas como eu ele pode ser um anjo ou um demônio, isso depende do que você está disposto a fazer. – Kim falou sentindo as bochechas corarem, ela não queria ficar ali tão perto daquele homem misterioso falando sobre assuntos indiscretos.

–Compreendo, mas você é uma ladra e não uma prostituta. – Vlad falou baixo sabendo que Kim não queria nenhum dos dois títulos.

–Ninguém devia ser rotulado meu senhor, sou apenas uma pessoa que teve uma vida difícil, mas infelizmente o mundo prefere me adicionar outros valores, porque me chamar de vitima da pobreza quando podem me chamar de prostituta? – Kim falou de forma amarga pensando em todas as vezes que precisou fugir de homens bem vestidos querendo pagar uma bebida para ela.

–Fico feliz que tenha se recuperado tão bem, eu tive medo que não agüentasse. – Vlad falou de forma discreta como se não quisesse dar muita importância aquele momento, mas era impossível fingir indiferença enquanto Kim usava aquele belo vestido azul, enquanto ela o encarava com aqueles olhos inocentes, feliz com a mudança de assunto, ele nunca havia sentido uma ligação tão forte com alguém, talvez fosse mesmo á oportunidade que estivera buscando por todos os séculos.

–Obrigada por tudo, devo dizer que ninguém nunca se importou com minha saúde dessa forma, mas em todo caso senhor, não acredito que devo permanecer aqui, sei que ando sendo um fardo em sua vida e não quero atrapalhar mais, sua esposa provavelmente deve estar odiando essa situação e eu não sou esse tipo de mulher, sinto muito por ter perdido seu tempo, eu prometo pagar pelos remédios assim que conseguir um emprego. – Kimberly tinha dignidade, Vlad ficou chocado com as palavras dela, ele era um nobre, rico e estava ali oferecendo comodidade a ela, no entanto, Kim queria apenas ir embora o mais rápido possível, mas ele entendeu o porque, “Não sou esse tipo de mulher.” Ela estava se referindo as prostitutas do cais, ela queria deixar claro que não iria se vender como a maioria das mulheres ali faziam.

–E como pretende pagar, com furtos? – Vlad falou cruzando os braços sobre o peito e deixando Kim com o rosto vermelho.

–Pretendo encontrar um trabalho e....

–Você sabe que eles não costumam empregar pessoas como você, não inspira muita confiança. – Vlad falou ainda rindo de forma debochada o que deixou Kim ainda mais perdida, não iria ficar ali para ser criticada dessa forma.

–Como ousa? – Disse a jovem constrangida, o Conde percebeu que Kim estava ficando perturbada e resolveu dizer a idéia que lhe veio em mente.

–Me desculpe senhorita, eu não quis parecer atrevido, meus empregados dizem que tenho esse péssimo habito, mas a verdade é que sinto a falta de empregados de confiança, como pode ver eu acabei de chegar em Londres, não sou daqui assim como a maioria dos meus funcionários, então acho que seria bom ter alguém que conhece os perigos desse lugar por perto. – Vlad fez uma pausa indo até uma grande estante de madeira nobre e tirou de lá um cálice de cristal com uma garrafa de vinho igualmente antiga. – Gostaria que trabalhasse para mim enquanto eu estiver pelas redondezas, assim pode conseguir um dinheiro para melhorar sua vida. – Vlad falou como se não tivesse interesses pessoais naquilo, precisava deixar a jovem Kimberly acreditar que tudo era apenas um interesse de negócios, assim ela não iria bloqueá-lo tanto.

–E porque devo acreditar que o senhor é apenas uma boa alma querendo me ajudar? – Disse a jovem dando alguns passos para trás incerta, ela não era tola, conhecia todo o tipo de gente.

Vlad atravessou a grande sala em passos largos mais contidos, ele olhou profundamente para ela como se encarasse sua alma por alguns minutos, Kim sentiu mais uma vez o corpo estremecendo, ele sorriu para ela, deixou a mão brincar discreta por seus cabelos soltos e por fim deixou seu polegar acariciar o rosto da menina que estava presa em uma espécie de transe.

–Não sou um homem bom, não pense isso, sou apenas um homem que gosta de ter o controle das coisas, principalmente quando isso envolve as pessoas que estão em meus domínios, então apenas fique e pague sua divida, depois pode fazer o que quiser, eu não vou forçá-la a nada. – Vlad se afastou entregando o cálice para a jovem que não sabia se bebia ou apenas encarava aquele liquido convidativo. – E a propósito senhorita, eu não sou casado, sou viúvo. – Vlad disse isso já de costas subindo a longa escadaria, por alguma razão ele tinha certeza que se olhasse para trás veria Kim com um grande sorriso nos lábios.

Notas finais
E agora será que Kim vai querer trabalhar para Vlad?????? O que será que as pessoas de Londres irão fazer em relação ao assassino????