There is always hope for Love
6 The desire shone in the eyes of Count
Notas iniciais
“Porque os anjos também são feitos de carne, e seus desejos são um tanto incomuns.”
“Olhe para mim essa noite, veja o vestido que escolhi, meu sangue está em cada bordado.”
“Diga olhando em meus olhos que não é a visão mais perfeita que já teve neste dia, diga que não se sente atraído, eu desafio você.”
(June Oliveira)
Casarão Drácula – Sul da Inglaterra
A noite havia chegado rápido demais para Kim, ela havia tomado o banho mais demorado de toda a sua vida, Anastácia havia levado os sais de banho importados da Itália como Vlad havia pedido, as jóias mais luxuosas de sua coleção pessoal também estavam a disposição de Kim, a jovem estava ansiosa, sentia a adrenalina correr por seu sangue, sentia que algo grande iria acontecer, o medo estava presente assim como a emoção.
O vestido longo permanecia sobre a cama encarando Kim com um sorriso debochado, ela nem ao menos sabia se conseguiria vestir aquilo sozinha, ele era longo, justo e aveludado, algo muito ousado para as convenções Inglesas, provavelmente aquele vestido não pertencia á moda de Londres, devia ser um dos achados magníficos do Conde, devia vir de sua terra natal, Kim ruborizou só de se imaginar com aquele decote volumoso, onde o Conde estava com a cabeça? Afinal, onde ela estava quando aceitou o convite dele?
....Na manhã do mesmo dia....
Kim entrou de forma desconfiada no velho escritório do Conde, o lugar era cheio de livros e estantes de madeira velhas, aquilo podia ser considerado luxuoso, mas em sua humilde opinião aquilo era assustador.
–Entre. – Disse o homem encarando a jovem de forma séria, por um minuto Kim pensou que seria despedida, ela ainda estava chateada por tudo o que havia acontecido no dia anterior, mas nunca passou por sua cabeça que o Conde poderia querer mandá-la embora, agora esse medo perseguia seus pensamentos.
–Deseja alguma coisa senhor? – Perguntou a jovem olhando para o chão de forma simples, como ele gostaria de dizer, mas o Conde apenas fitou a expressão ainda chateada da jovem.
–Você sabe ler? – Vlad perguntou de forma discreta, ele não queria ofender Kim com a pergunta, mas para sua surpresa a menina sorriu.
–Sei um pouco senhor, quando minha mãe era viva eu freqüentava a igreja e as freiras me ensinaram algumas coisas, eu não pude ir muito, minha mãe ficou doente e eu precisei cuidar dela, meu tempo passou a ser dedicado a sua doença e no final eu perdi. – Kimberly não gostava de pensar no sofrimento da mãe enquanto lutava contra a tuberculose, ela fez de tudo para salvar a mulher que tanto amava, mas infelizmente a sorte não estava do seu lado.
–Leia isso. – Vlad entregou um pedaço de papel com contorno dourado para a jovem que leu de forma cuidadosa. –Em voz alta. – Disse o homem fazendo um gesto com a mão para que ela seguisse com a leitura.
–O Duque Thomas D. Milton convida vossa senhoria e sua acompanhante para sua comemoração de 40 anos em sua mansão de verão no centro de Londres. – Kim parou por um minuto e olhou para Vlad que sorria divertido. – Não entendo senhor, o que isso tem haver comigo? – Kim perguntou de forma curiosa entregando o papel de volta para Vlad.
–Simples, veja meu dilema, no convite diz vossa senhoria e sua acompanhante, bem, eu não tenho uma acompanhante no momento. – Vlad falou se levantando lentamente enquanto encarava os olhos brilhantes de Kim.
–Tenho certeza de que isso não é um problema para o senhor. – Kim sabia que um homem como Vlad poderia conseguir qualquer mulher para andar ao seu lado em uma festa assim, provavelmente todas as moças de Londres deviam estar ansiosas por esse convite.
–Não creio que seja algo tão simples, as jovens solteiras dessa cidade são tediosas, elas não tem o brilho das mulheres da Transilvânia, lá as mulheres são diferentes. – O Conde fez uma pausa pensando em sua esposa, pensando em como ela sorria para ele quando retornava de uma batalha, como a pele dela brilhava sobre a luz do sol nas manhãs de verão e como seus olhos sempre sabiam a verdade sobre ele, assim como Kim o encarava agora, com os mesmos olhos sagazes. –Bom, em todo caso não quero ser visto com nenhuma dessas jovens, provavelmente seus pais estão muito interessados em fazer negócios comigo e vão tentar me arranjar uma noiva a todo custo, e sinceramente não gosto de misturar negócios com questões românticas, não ajuda muito na hora de tomar decisões.
–Não quero ser grosseira, mas o que eu tenho haver com isso senhor? – Kim ergueu a sobrancelha de forma desconfiada enquanto Vlad se aproximava dela, ele riu internamente pensando em como ela era petulante, qualquer outro senhor ali mandaria ela embora, mas ele gostava daquele desafio.
–Quero que me acompanhe, você viveu nas docas por anos, sei que conhece todos os nobres que já passaram por lá, vai poder me dizer coisas sobre eles, assim não ficarei entediado e não serei forçado a dançar com nenhuma outra garota cansativa. – Vlad sorriu para ela que sentiu as pernas falharem, ela nunca sequer poderia imaginar algo daquele tipo. –E não se preocupe, tenho certeza que usando um vestido caro e jóias, ninguém irá associar você aos roubos do cais. – Disse Vlad por fim sorrindo com suas conclusões.
–Porque despreza tanto as jovens de Londres? – Kim perguntou com a voz falha, era obvio que todos os homens nobres de Londres queriam se casar com uma jovem virgem de pele clara e olhos brilhantes, uma jovem com vários títulos e com uma conta bancária altíssima, mas porque Vlad não? Será que ele era tão rico assim? Será que ele era muito mais nobre que um Conde e estava escondendo isso das pessoas? Tinha que haver um motivo maior.
–Veja só, eu estou aqui oferecendo não apenas um emprego, mas nesse momento a minha companhia, o direito de rir da sociedade desse país, a chance de freqüentar um mundo que qualquer jovem da sua idade gostaria de conhecer e, no entanto, você não se acha digna disso e reluta em aceitar, por quê? – Vlad realmente parecia perturbado com aquilo, Kimberly não era gananciosa e isso era o que mais admirava nela.
–Não quero me iludir, não quero fantasiar demais, eu já sofri muito e não pretendo sofrer ainda mais com falsas ilusões de uma vida que não mereço, e quer saber? Acho que é por isso que ignora tanto as jovens da cidade, acho que não acredita merecer nenhuma delas, talvez se sinta um homem ruim, um homem que feriu a esposa em algum momento e não quer fazer o mesmo com elas, por isso veio até mim, porque eu não tenho importância. – Kim falou de forma melancólica, suas palavras eram muito verdadeiras, mas a verdade é que Vlad sabia que poderia se controlar em sua presença, mas que talvez não fosse capaz de fazer isso com as outras jovens, isso poderia ser um desastre, porque matar um desconhecido é uma coisa, agora matar uma jovem da alta sociedade é bem diferente.
–Nunca mais diga isso, todas as pessoas são importantes, não deve pensar dessa forma, eu só não quero um compromisso com ninguém agora, você estaria me acompanhando como parte do seu trabalho, será apenas minha acompanhante, agora se eu for obrigado a ir com uma dessas garotas serei obrigado a deixar claro que estou interessado nela, esses costumes Londrinos são tediosos, mas devem ser respeitados, por isso preciso de você. – Vlad segurou o braço de Kim com leveza e deixou que sua mão pesada escorresse até a mão da jovem, ele a segurou entrelaçando seus dedos o que despertou um desejo em Kim de chorar como se aquelas mãos já estivessem entre as suas no passado, um passado que ela nem ao menos tinha já que era tão jovem.
–Tudo bem, eu aceito, mas por favor não me deixe sozinha lá, sei que os homens costumam se reunir em uma sala no meio da noite para falar de negócios, isso é muito frustrante, se acha aquelas garotas tediosas com certeza vou achar também. – Kim falou pensando nas vezes em que passava em frente a grandes salões de festa esperando que alguém deixasse algum dinheiro cair, ou que fosse embora bêbado o suficiente para que ela pudesse roubar alguma coisa.
–Tudo bem, então temos um acordo, nós vamos ficar apenas o suficiente para ser educado e depois voltamos para casa. – Vlad puxou a mão que ainda permanecia entrelaçada a sua e deu um beijo gentil na mesma, Kim sentiu os olhos se encherem de lagrimas. –Fiz algo errado?
–Não senhor, eu é que sou uma tola, é melhor eu ir, nos vemos a noite então. – Kim saiu praticamente correndo do escritório deixando Vlad pensativo, talvez ela estivesse se lembrando de alguma coisa, talvez a alma de sua esposa ainda estivesse viva ali, em algum lugar, ele não tinha certeza, mas iria fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para manter Kimberly ao seu lado.
{...}
Quarto de Kimberly – Mansão Drácula
–Minha senhora, eu vim ajudá-la com o espartilho. – Disse Anastácia muito animada com tudo aquilo tirando Kim de seus pensamentos sobre a manhã daquele mesmo dia, tudo parecia perdido antes, com Vlad sendo tão grosseiro com ela e depois pedindo desculpas, as coisas estavam tão confusas, e agora parecia que seu mundo tinha ficado de pernas para ar.
–Estou apavorada Anna, eu não devia ter aceito isso, eu devia sair correndo daqui agora mesmo, acho que vou me jogar por essa janela. – Kim falou de forma dramática fazendo Anna rir.
–Não seja ridícula, e acima de tudo, não seja burra, pense, o Conde deseja sua presença, aproveite isso ao máximo, use isso para seduzi-lo, eu sei que consegue, o Conde é um homem honrado, ele jamais abandonaria você se fizesse isso. – Anastácia puxou as cordas do espartilho e Kim ruborizou só de imaginar algo como ela sendo sensual, ela jamais iria conseguir isso.
–Não seja tola Anna, isso é absurdo, eu não saberia fazer isso.
–Não precisa fazer nada criança, apenas deixe a beleza do vestido e o seu olhar inocente falarem ao mesmo tempo, eu tenho certeza que ele não vai resistir, aproveite essa noite ao máximo, seria maravilhoso ver o Conde feliz outra vez e eu sei que ele seria com você. – Anastácia havia percebido que apesar dos passeios noturnos do Conde terem aumentado ainda sim, ele parecia muito mais feliz agora, era como se fosse uma outra pessoa, parecia até menos pálido.
–Bom, seja o que Deus quiser. – Kim respirou fundo e se olhou no espelho, usava um vestido de veludo vermelho com uma renda delicada negra por cima, a renda era toda trabalhada com pequenas rosas bordadas o que dava um contraste muito bonito entre o preto e o vermelho, a cintura de Kim era pequena como um anjo, seus seios agora apareciam ainda maiores com o espartilho lhe dando volume, o decote também ajudava, seus cabelos presos em um coque solto deixando alguns fios de cabelo caírem displicentes sobre a face formando uma moldura delicada, assim como a maquiagem enchendo os lábios em um tom rubro.
–Parece uma mulher decidida, elegante, poderosa, uma verdadeira Condessa. – Anastácia falou eufórica, Kim apenas sorriu discreta, estava se sentindo sensual demais para ser apenas uma acompanhante.
–Eu tenho medo do que isso possa me custar, uma coisa que minha mãe me ensinou foi sempre desconfiar dos nobres, principalmente dos homens poderosos, eu não quero pensar que o Conde seja uma má pessoa e não quero me magoar com ele, acho que sou uma tola Anna. – Kim sorriu de si mesma, estava ali desejando que o Conde a visse como uma mulher de respeito que era, mas aos olhos da sociedade ela não passava de uma ladra de rua.
–Tenho certeza que o Conde irá fazer a parte dele como um verdadeiro cavalheiro, o senhor Vlad vem de uma família antiga de fortes tradições, eu sei que ele não gosta de falar muito do próprio passado, nem do passado de seus ancestrais, mas ainda sim é um grande homem. – Anastácia sempre foi a favor do Conde por seu lado nobre de ajudar pessoas perdidas e agora tudo o que ela queria era ver Kim ao lado desse homem.
Na grande sala principal da casa Vlad andava de um lado para o outro em sua roupa preta oficial, ele tinha um brasão vermelho, um dragão, símbolo de sua família, a cartola de lado era apenas um sinal de respeito ás tradições Londrinas, mas ele não usaria ela por muito tempo.
–O senhor vai fazer um buraco no chão Conde. – Disse Josep com um ar divertido.
–Fiz algo ridículo ontem e compensei nossa hospede com uma proposta absurda hoje, não sei se fico feliz por ela ter aceitado, ou se mudo de idéia com tudo isso. – Vlad estralou os dedos das mãos com cuidado, ele estaria ficando louco?
–Bom, eu se fosse o senhor não pensaria isso. – Josep olhava admirado para o alto da escada, lugar onde Vlad manteve seus olhos fixos.
Kimberly descia de forma lenta como se cada passo fosse uma missão impossível devido o sapato de salto importado que usava, tudo nela parecia brilhar, as jóias eram discretas, um colar de diamantes justo ao pescoço e brincos pequenos, mesmo assim era como se tudo tivesse sido minimamente feito para ela, uma jovem órfã que tanto sofreu na vida.
–E então? – Kim falou com um sorriso nervoso, Vlad olhou admirado para ela e Kim teve vontade de rir, mas quando encarou os olhos do Conde viu algo que ainda não conhecia, seus olhos estavam escuros, ele a encarava de uma forma diferente, era algo estranho, mas ela conhecia os homens e sabia o que se passava ali, aquilo a ruborizou e a deixou com um pouco de medo, aquele olhar era incontrolável, possuía o pior dos homens e dificilmente seria possível lutar contra ele.
Desejo. O desejo brilhava nos olhos do Conde.
–Vamos, o cocheiro está esperando. – Vlad estendeu o braço para Kim como um cavalheiro, Kim pensou por um minuto e por fim aceitou, ela estremeceu com o toque tão próximo do Conde, sentir seu perfume amadeirado, sentir o músculo firme de seu braço por baixo de todo aquele tecido, aquilo a deixava sem ar.
–Não vamos demorar certo? – Kim falou de forma ansiosa, não queria correr o risco de ser reconhecida também.
–Não se preocupe, nada de mal irá acontecer. – Vlad sorriu e ambos saíram juntos, Josep fez uma oração em silencio para que Vlad não perde-se o controle em relação ao seu problema, Kim havia ganhado sua simpatia, ele não queria ver seu senhor cometendo um erro fatal.
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