There is always hope for Love
14 I belong to one Man
Notas iniciais
Eu vi o sangue no chão, percebi que o sangue era meu, eu me vi no chão.
Olhei para os olhos da noite, senti o beijo da morte e disse NÃO. Hoje não.
Quando meu corpo não era mais meu entendi,
Quando meu corpo não era mais meu percebi,
Era seu. Seu era o corpo, seu o Coração.
(June Oliveira)
Casarão Drácula
Ainda na mesma noite...
O barulho do tiro estremeceu Kimberly por dentro, ela sabia que tinha alguma coisa errada, desde a visita de Thomas, aquele homem que se escondia por trás de seu titulo nobre era na verdade um carniceiro como todos os outros, seu maior medo era a possível aliança que aquele maldito havia feito com David Turner, eles eram homens perigosos demais sozinhos, e juntos, seriam praticamente deuses criando o caos e o medo por onde quer que passassem, ela tinha seu Conde, isso era um fato e ele lhe faria justiça onde quer que fosse, ele jamais a deixaria sozinha, jamais a deixaria sofrer.
Seu coração estava apertado, um pressentimento de que algo muito maligno iria acontecer, ela sabia que aquela noite não iria acabar bem.
—Tem fogo nos estábulos. – Disse Beth olhando pela janela principal do quarto de Kim, ela precisava se espremer para enxergar alguma coisa. –Estou ouvindo o barulho de pessoas por lá. – Beth olhou séria para Kim, em sua mente tudo aquilo era culpa daquela menina.
—Não se preocupe, provavelmente Peter vai resolver esse problema, ele sempre está de olho nos cavalos do Conde. – Disse Anna preocupada com a situação, era obvio que aquele fogo não havia surgido do nada.
—Se alguma coisa acontecer eu quero que vocês fujam ok? Não quero que tentem me ajudar. – Kim falou indo até Anna e segurando suas mãos com força. – Corra o mais rápido que puder e tente encontrar o Conde, mas não fique no caminho. – Kim tinha medo, não queria que ninguém pagasse por seus pecados.
—A senhora sabe que eu jamais faria isso, se eu deixar que alguém faça mal a você o Conde me mataria. – Disse a mulher enquanto Beth revirava os olhos, ela até então não estava acreditando que algo de ruim pudesse mesmo acontecer ali.
—Não se preocupe Kimberly, se algo acontecer eu saio dessa casa nem que seja pela janela. – Disse a mulher de forma debochada ganhando um olhar de desaprovação de Anna que odiava aquela forma de Beth agir.
—O que foi Anna? Você sabe que a culpa de todos os problemas da casa nos últimos meses tem sido ligados a essa menina. – Beth falou apontando seu dedo na direção de Kimberly.
—Como ousa dizer isso, se o Conde ouvir ele...
—O Conde é um tolo, tanto poder, tanto dinheiro, tantos anos de experiência e ainda sim é um tolo como todos os homens, rendido por um par de pernas bonitas. – Beth disse indignada, o que deixou Kimberly constrangida, seria verdade? O Conde só se interessava por ela por ser jovem e bonita? Era só isso que ele queria? Não, ela sabia no fundo de seu coração que aquelas palavras não eram a verdade.
—Está enganada, sei que a vida não foi justa com você Beth, sei que passou por coisas horríveis em sua vida, mas precisa entender, o Conde me ama e... – Mais Kim não disse nenhuma palavra a mais, sentia seu coração disparar a cada passo pesado que ouvia no andar de baixo, a escadaria era velha e mesmo com o barulho da chuva era possível ouvir um homem subindo calmamente.
Anastácia estava rezando, ela não tinha nenhum treinamento para se proteger ou proteger Kim, normalmente mulheres não aprendem sobre isso, naquele momento se sentiu uma tola por não ter nenhuma arma por perto, devia ter pensado nisso, afinal, o que seus santos poderiam fazer?
Naquele momento um silencio se formou, Kim fechou os olhos enquanto só o som do seu coração era suficiente para preencher o vazio do ambiente, um chute forte contra a porta, um baque surdo da mesma ao chão e o barulho de um disparo direto no coração de Beth, a mulher tentou se equilibrar, ela foi a primeira a fazer uma menção de correr para a porta, ela não queria lutar por Kim, ela só queria estar livre, ela olhou para a menina que tinha lágrimas nos olhos, olhou para Anastácia que havia colocado as duas mãos na boca para abafar o grito, Beth ainda tentou andar mais perder o equilíbrio e as forças lhe faltaram, acabou caindo já sem vida pela janela, uma queda longa, sem volta, direto para a morte.
—NÃO. – Gritou Kim horrorizada, ela não queria que mais ninguém morre-se por sua culpa, Anna tentou entrar na frente, mas David a pegou pelos cabelos batendo sua cabeça com força contra a parede, ela caiu desmaiada no chão e Kim por um minuto entrou em pânico.
David sorriu como um lobo faminto e foi em direção a sua presa, mas dessa vez Kim não iria sem lutar, já não devia nada aquele homem desprezível.
—Nunca mais vai tocar em mim. – Disse entre dentes se tomando de toda a coragem que possuía, David viu uma força, uma fúria dentro daquela menina delicada que jamais havia visto antes e aquilo o deixou ainda mais possuído pelo desejo.
—Você é minha Kimberly, isso não se trata apenas de luxuria, isso se trata de poder, de força e de quem é o dono de quem afinal. – Disse o homem se aproximando lentamente, ele segurava uma arma nas mãos, mas quando estendeu seu braço para puxar Kimberly ela o surpreendeu com um golpe de faca no mesmo, ela não tinha ido para o quarto sem nada nas mãos, ela já havia resolvido que lutaria até o fim dessa vez e não deixaria David sair triunfante.
—Achou mesmo que eu não lutaria? Você é um monstro Turner, se der um passo eu juro por Deus que mato você. – Kim não queria matar ninguém, isso era verdade, mas iria atrasa-lo ao máximo até seu amado retornar, se ela conseguisse ganhar tempo sua história poderia ser totalmente diferente.
—Acha mesmo que pode me enfrentar? – David riu alto jogando a arma no chão e erguendo os braços para cima. – Vou adorar ver você tentar jovem dama. – Falou debochado deixando Kim ainda mais furiosa.
—Eu não tenho mais medo de você, não estamos mais no velho cais, não lhe devo mais nada, não pode mais me ferir. – Kim tinha lágrimas nos olhos, mas estava em paz, sabia que estava lutando pelo que era certo, e sua virtude era o certo, seu coração e a chance de um casamento honrado, ninguém iria tirar isso dela, ninguém.
—Isso é o que você pensa. – Kim desferiu mais um golpe na direção do homem, mas ele se defendeu dessa vez, estava preparado para aquilo, desviou do ataque e tirou a faca com força das mãos de Kim, mas ela não demonstrou desespero ou fraqueza, a ideia de saber que seu Conde iria lhe salvar dava cada vez mais gana para sair daquela situação, sem pensar duas vezes ela esmurrou o rosto deformado do homem que foi obrigado a dar alguns passos para trás, ele sentiu seu nariz arder e o liquido quente de seu sangue escorrer por seu rosto até seus lábios, estava confuso, aquela jovem era muito mais forte, ainda muito atordoado com aquela nova Kimberly, corajosa, impetuosa, mas ele tinha um objetivo e cada vez mais sentia vontade de mostrar a ela quem devia se ajoelhar.
Ela tentou passar por ele mais o mesmo agarrou seu ombro rasgando uma parte de seu vestido, ela caiu com um baque no chão, ele sorriu saliente dobrando um joelho e tocando a face da menina deslizando os dedos sujos pela pele macia de seu dorso, ela ainda estava um pouco atordoada, tinha batido a cabeça, mas naquele momento ela viu Anastácia jogada ao chão, desmaiada, sua cabeça sangrava e a mulher estava com um rosto sem expressão.
—Eu já disse para não me tocar. – Ela esticou o braço esquerdo até uma estátua de São Miguel Arcanjo e acertou com força no joelho ferido do homem, afinal, David mancava de uma perna por conta dos ferimentos que o Conde havia feito.
—Sua vadiazinha do cais, vai pagar por tudo isso. – O homem puxou Kim pelo pescoço rasgando com força seu vestido deixando-a apenas com uma mistura de trapos e sua combinação intima. –Veja só, agora você usa mais panos do que da ultima vez. – Ele riu debochado, como se aquilo fosse algum tipo de piada, as damas da corte sempre usavam varias peças por baixo do pesado vestido de nobres tecidos, havia uma camisola bem fechada, espartilhos e uma combinação, apenas mulheres nobres se vestiam assim, Kim jamais havia tido aquela oportunidade, já as prostitutas tinham o mínimo de tecidos para “facilitar” seus trabalhos.
—Não vou permitir que roube meus sonhos. – Kim falou entre as lágrimas, ela preferia a morte ou qualquer coisa além dela do que permitir que aquele monstro lhe roubasse aquilo que mais valorizada.
Com todas as suas forças deu uma joelhada nas partes mais sensíveis de David fazendo o mesmo urrar de dor, de uma só vez correu até a janela de onde minutos atrás Beth despencara sem vida, ela só podia contar com um milagre, tinha que tentar.
—Não ouse fazer isso vadia. – David se levantou com dificuldade, ele pensou que as coisas seriam mais fáceis e falhou vergonhosamente.
—Só pertenço a um homem. – E com aquelas palavras se jogou pela janela, de costas, seus olhos fechados, a brisa da noite em seu rosto, seu corpo caindo como se estivesse em câmera lenta era o fim, era um adeus até abrir seus olhos.
O Conde sorria para ela enquanto ambos pareciam presos em uma nuvem negra que se movia com vida e graça, eram criaturas da noite, assim como Vlad e ele tinha um lindo sorriso.
Kim pensou estar morta, porque era assim que imaginava o paraíso, no entanto as dores em seu corpo lhe chamou para a realidade dura.
—Por todos esses séculos eu a procurei, uma forma de me redimir por meus pecados, uma forma de me redimir por minhas falhas com você, agora estou aqui, e estou pronto, você é minha vida pequena Kimberly Jones, porque essa é quem você é agora, eu devo aceitar isso, e ama-la uma vez mais, vamos para a Romênia essa noite ainda, e você será minha esposa, e dormirá em meus lençóis e poderá dizer mais uma vez o que disse á pouco. – O Conde falou com sua voz protetora e apaixonada arrancando arrepios e lagrimas da jovem que finalmente tocava o chão com seus próprios pés enquanto Vlad parecia flutuar a sua frente.
—Só pertenço a um homem. – Repetiu Kim vendo seu amado voar até o alto da janela pela qual havia caído.
David olhou para fora na esperança de ver Kim ainda rastejando por ela, ele desceria e a defloraria do mesmo jeito, era uma questão de honra, nenhuma prostituta de Londres tinha a audácia de zombar dele, nenhuma mulher da vila jamais havia desrespeitado tanto sua imagem, ele tinha um nome, ele colocava medo nas pessoas e isso não iria mudar.
Quando olhou pela janela viu que o demônio havia ficado do lado da jovem menina, Vlad surgiu com sua capa esvoaçante encarando o homem com as presas a mostra e olhos sanguinários, ninguém iria saber o que aconteceu ali, ninguém além dele e das suas pessoas de confiança.
—Você ousou invadir meu lar. – Disse Vlad se aproximando como o vento e arremessando o homem contra a parede, David sentiu que sua perna havia quebrado de vez. –Você atentou contra a vida dos meus aliados. – Vlad puxou com toda a força arrancando o braço esquerdo do homem que gritou desesperado. –Ousou agredir a mulher que eu amo pela segunda vez, mas agora acabou, você se juntará ao pântano quanto tudo isso acabar, seus membros será separados por toda a propriedade e sua alma vai me pertencer, seus ossos vão me pertencer e jamais terá um enterro digno, jamais vão saber o que aconteceu com você ou seus homens, todos eles terão o mesmo destino, e o seu sangue me manterá mais vivo. – Vlad puxou a cabeça do homem com força para o lado e cravou seus dentes com força fazendo uma enorme mordida no homem que se debatia como um peixe em meio a sua morte, por fim Vlad arrancou a cabeça com força e encarou o rosto vazio por uma ultima vez.
No canto do quarto, Anastácia olhava para seu senhor com os olhos assustados, mas não com medo de Vlad, ela apenas assentiu a cabeça com um gesto de gratidão e cumplicidade.
—Prepare as malas Anastácia, cuide dos feridos, Josep ainda vive, posso sentir seu coração batendo, Peter está com ele no andar de baixo, mas o cheiro do sangue é forte, hoje mesmo iremos embora, não a nada nesse país que me faça ficar, e vocês também vem comigo.
—Meu senhor... á jovem senhora...ela...
—Não se preocupe Anastácia, Kimberly está no jardim, eu a deixei em segurança, estamos todos bem, infelizmente não posso dizer o mesmo de Beth. – Disse Vlad com tristeza, ele sabia que Beth era uma mulher difícil mais ele sempre dava oportunidades ás pessoas perdidas.
—Vou providenciar um enterro cristão a ela senhor. – Anastácia falou em lágrimas e Vlad assentiu com a cabeça, eles teriam um dia inteiro para ver todos os últimos preparativos, e enfim ele teria sua paz.
Estábulos – Propriedade do Conde Vlad
Com a ajuda da chuva Peter conseguiu apagar o fogo a tempo antes que algo horrível acontecesse aos cavalos, ele havia arrancado a própria camisa para ajudar a conter as chamas que cresciam pelas vigas de madeira, por sorte tudo se resolveu. Quando as coisas pareciam mais tranquilas e os animais já estavam guardados em segurança mais uma vez, ele ouviu um disparo vindo de dentro da casa, seu coração se preocupou, alguma coisa ruim estava acontecendo.
Ele deixou os corpos dos invasores no chão em uma espécie de pilha, deixaria o Conde resolver o que fazer com eles, sem pensar mais, correu para a entrada da casa e percebeu, com tristeza as trancas arrombadas, todo aquele fogo, todas aquelas coisas não passaram de uma distração para tira-lo de seu posto.
—Josep?! – Disse num misto de medo e esperança ao ver o velho homem no chão envolvido por uma poça de sangue. –Ei velho amigo, não está na sua hora ainda. – Disse o rapaz procurando com os dedos a veia principal do pescoço do homem até que pode constatar seus batimentos, Josep ainda estava vivo.
Naquele momento Peter ouviu barulhos no andar de cima, ele sabia que devia proteger Kimberly, a amada do seu senhor, mas Josep havia sido como um pai para ele durante todos aqueles anos desde que foi escolhido para viver ali, como iria abandonar o pobre homem a própria sorte? Se continuasse sangrando daquele jeito ele não teria chance.
—Vamos salvar a sua vida amigo, e que o Conde me perdoe. – Peter correu até a cozinha e alguns minutos depois veio com panos, agua e uma faca pequena, ele teria que tirar a bala de dentro do homem para cauterizar o ferimento e finalmente parar o sangramento.
Enquanto preparava as circunstâncias ouviu barulhos de luta, gritos e um silêncio preocupante, ele ainda segurava uma arma e mantinha os olhos na escadaria, se alguém tentasse alguma coisa ele não teria piedade, mas naquele momento, por sorte, quem desceu a escadaria foi o Conde Vlad ajudando Anastácia que parecia ferida mais bem.
—Kimberly está? – Disse Peter com medo.
—Está viva, não se preocupe, não era sua obrigação protege-la, era a minha. – Disse Vlad com uma expressão mais forte, confiante, como se tivesse acontecido algo maravilhoso e naquele momento Peter percebeu os lábios cheios de sangue, mas jamais diria qualquer coisa.
—Perdoe-me por não ter ido ajudar a tempo, mas se não tomasse uma decisão Josep iria morrer em meus braços, eu não podia deixa-lo morrer. – Peter falou olhando para o amigo no meio do sangue e Vlad sorriu, era necessário ter muita coragem para afronta-lo, ele entendia bem o que era decidir em nome daqueles que amava, ele decidiu por seu filho uma vez ao invés de escolher sua nação, muitos ficaram contra ele, mas sabia que era o certo a ser feito.
—Nós vamos para a Romênia ainda essa noite, prepare os cavalos, Anna vai cuidar de Josep enquanto eu cuidarei dos corpos, Kim está do lado de fora e vai ajudar com as nossas coisas, sairemos o mais rápido possível, e todos vocês vem conosco. – Disse o Conde com um sorriso amigável.
—Senhor Conde, não quero abusar de sua boa vontade, mas gostaria de lhe pedir um favor. – Disse Peter se enchendo de coragem.
—Diga.
—Quero levar uma pessoa conosco. – Peter tinha uma oportunidade e não iria desperdiça-la, nem por um minuto.
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