There and Back Again
10 Ressaca
Notas iniciais
Lyn acordou como se tivessem pisado repetidamente em sua cabeça, se perguntando quem foi o filho da puta que deixou as cortinas abertas. Na verdade também se perguntava como foi parar no quarto.
Cobriu os olhos com a mão e viu uma roupa limpa sobre a mesa, era uma roupa élfica. A cor, pra sua alegria, era um vermelho escuro, quase vinho. Pegou o conjunto e foi tomar um banho, só saindo dele quando a água esfriou.
Ficou com um pouco de dúvida de como vestia aquela roupa, mas lembrou dos filmes e se aventurou. As botas eram de cano longo ate o joelho, usado por cima de uma calça preta. A parte superior parecia um vestido, pois o cumprimento chegava ate um pouco acima da panturrilha, tinha a cor de sangue escuro. Por cima, e essa foi a parte mais difícil, vinha um corpete preto, de couro, que cobria da cintura até o seio. Tinha, também, braceletes pretos, com arabescos em um preto fosco, não era brilhante, mas era bonito, com uns detalhes em prata. Se achou bonita, prendeu o cabelo num rabo de cavalo e colocou seu colar com o pingente de um Mjolnir em obsidiana que nunca tirava e saiu.
Encontrou a amiga no corredor e sorriu, a garota usava o mesmo tipo de roupa, só que era em um amarelo ouro escuro, bem bonito, com corpete, braceletes e botas em tons de marrom escuro.
– Ô lá em casa! — Brincou com a amiga, piscando um olho pra ela, cruzando os braços e apoiando na parede — Vem sempre aqui?
– Agora que te vi, sempre — Riu Mi, que piscou de volta — Adorei a cor, tá linda.
– Você também, imagino que Fig vai gritar como uma gazela... Vou matá-lo por isso — Falou Lyn, sentindo dor de cabeça só de pensar.
– Você mandou bem na manguaça — Ria Mi lembrando enquanto andava com a menina até o terraço, onde seria servido o café — Thorin teve que te levar no colo pra cama, nunca pensei q ele teria tanta força. Ahh, danada, eu sempre soube que ele quer seu corpo nu! — ria Mi.
Lyn arregalou os olhos e olhou a amiga. Pior que sua ressaca física era sua ressaca moral, segurou a amiga.
– O que que eu fiz ontem? — Perguntou nervosa.
– Bom... Muita coisa, mas o que deveria ter feito (pegar o Thorin) você não fez. — Mi usou uma entonação de quem está dando carão no filho por não lavar a louça – Enfim, você bebeu loucamente, como todos os outros, começou a rir alucinadamente — Mi respondeu olhando a amiga, ficou com pena dela – E.... Bem... Você tropeçou e caiu... Thorin foi te ajudar, você falou que queria estar por cima ao invés dele, que ele tava pegável naquele angulo e, quando ele te perguntou se você estava machucada você falou que sarava com um beijo.
A cada palavra de Mi, Lyn ficava mais pálida. Aquilo devia ser zoeira, mas a garota jurou que era verdade e disse ainda que Ori correu pra ajudá-la, mas que tinha dado um carão nele porque ia atrapalhar e mesmo depois desse esforço todo não tinha rolado nada entre ela e Thorin. Contou que Fig ganhou concurso de bebedeira com os anões, que tinha roubado vinho da casa de Elrond e que provocou os anões.
Lyn olhou a entrada do terraço, ouvindo as vozes animadas da companhia. Sentiu dor de cabeça e de ego, mas resolveu encarar a situação de uma vez. Quando saiu pra luz gemeu de dor, a luz da manhã estava forte e a obrigou a virar o rosto e cobrir os olhos.
Fig estava na mesa já, usando uma roupa élfica do mesmo estilo que as garotas, mas todo em preto. Sabia que estava com ressaca também pois usava seus óculos escuros. Lyn se arrependeu de não ter pego seu óculos na mochila.
– Bom dia, meninas! — Sorriu o Fig, levantando e indo abraçá-las notou que Lyn não parecia de bom humor e riu — Quer que busque seus óculos?
– Não, acho que aguento — Respondeu a garota, se sentando de costas pra luz, melhorando um pouco a dor.
– Devo dizer que me arrependo de não ter participado da festa ontem, pelo visto perdi bastante coisa — Disse Gandalf, achando graça do estado dos humanos, os anões e Bilbo estavam em melhores condições.
Lyn não queria nem responder, se sentia enjoada, queria vomitar. Foi então que Dori apareceu ao seu lado, lhe dando uma xícara de chá, dizendo que ajudaria a aliviar os sintomas, mas que teria que se esforçar pra comer. Sentiu vontade de abraçá-lo, agradecendo-o imensamente pela ajuda. Enquanto tomava, notou que Thorin lhe lançava um sorriso de puro divertimento, o que fez o sangue da menina subir, iria chutar a boca dele se a irritasse.
Teve que se esforçar muito pra comer, achando as vezes que não aguentaria. Desistiu de comer mais e observou seus amigos. Mi e Fili estavam lado a lado e conversavam animadamente, falando algo sobre dança, Fig e Gloín pareciam melhores amigos, conversando animados sobre bebidas. Foi tirada dos seus pensamentos por Dwalin, que insistiu que aproveitássemos a parada em Rivendell pra aprendermos a manejar armas, ideia apoiada pelos outros. Lyn achava que isso era apenas pra acabar com eles de uma vez, mas acabou aceitando, cedo ou tarde teria que enfrentar isso.
Depois de comer foram para o pátio de treino onde Elrond providenciou escudos e espadas de madeira para treinarem. Dwalin os fez correr pra se aquecerem, o que já os fez amaldiçoarem o anão.
Depois da corrida, Dwalin ensinou movimentos básicos de ataque e defesa com as armas que tinham e chamou Gloín, Thorin e Fili pra lutarem contra Lyn, Fig, Mi e Bilbo respectivamente. Se colocaram de frente pra cada oponente e assim que Balin deu o sinal eles avançaram, sob os gritos de incentivo dos outros anões. Tentavam lutar com aquelas malditas armas, mas estava difícil, os humanos desejavam mais do que nunca ter uma mísera arma, uma 38 já seria o bastante, e não teriam que passar por aquilo.
–Filho da puta! — Gritou Mi quando Thorin acertou a espada de madeira nos seus dedos, fazendo latejarem.
– Olha o linguajar, garota — Disse Thorin, sério — Posso pegar leve com você, mas lá fora quem lutar contra você vai querer te matar, pense nisso... Prefere estar preparada ou morrer?
Aquilo caiu como um soco no estômago dos quatro, a paz da cidade havia feito que esquecessem do mundo lá fora. Mi engoliu a dor, embora ainda estivesse com raiva do rei, e voltou a lutar.
Já estavam na metade da tarde quando Dwalin acabou o treino. Os quatro se deixaram cair deitados no chão, arrebentados, amaldiçoando todos os anões, Smaug, Erebor e até Eru. Lyn tinha roxos pelo corpo, Mi estava com os dedos feridos, Fig levou uma escudada no nariz e teve um sangramento nasal e Bilbo foi acertado tantas vezes com escudo e espada que resolveu ficar no chão deitado mesmo. Balin , Dori, Ori e Bofur tentavam fazer curativos nos infelizes.
Foram ajudados a se levantar e foram se alimentar, aliviados que Dwalin disse que os liberaria por hoje, já que teriam que se acostumar pelo menos um pouco com as dores que sentiriam, mas que o treino voltaria na manhã seguinte, no mesmo esquema.
Lyn chamou os amigos pra andar depois do almoço, mas Fig disse que ia na biblioteca de Rivendell com Gandalf, Bilbo e Elrond e Mi disse que ia ensinar Fili a dançar. Arqueou a sobrancelha pra Mi, que sorriu maliciosa e deu de ombros, prometendo que contaria tudo pra amiga depois.
Resolveu sair sozinha, pegando seu celular e o fone de ouvido e foi andar pela cidade. As ruas eram limpas e tinha muitas escadas, o que fez doer novamente seus músculos. Olhou pra cima e viu o terraço onde jantaram no primeiro dia, decidiu que iria pra lá.
Foi a melhor decisão do dia, a imagem era linda, com toda Rivendell banhada com a luz de fim da tarde, realçando a beleza do lugar. A brisa estava refrescante, e pode aproveitar um raro momento sozinha pra ouvir musica, sentia falta disso, era um habito que mantinha há anos.
Ficou ali debruçada no parapeito olhando a paisagem e ouvindo musica até levar um susto quando tocaram em seu ombro. Era Thorin, a menina respirou fundo pra se recuperar do susto e tirou o fone.
– Você quase me matou agora — Falou Lyn.
– Acredito que você não vai morrer tão cedo, vaso ruim não quebra fácil — Respondeu debochado.
– Você veio pra...? — Retrucou Lyn, estava de ressaca e machucada, não queria discutir.
– Te chamar pra jantar, estão nos esperando. Imaginei que estaria aqui depois de Fig ter te impedido ontem de olhar a vista — Respondeu calmamente o anão.
Lyn suspirou,queria continuar lá, mas achou melhor ir logo antes que mais gente viesse. Começou a descer com Thorin as escadas da casa de Elrond pra seguirem pra cidade, sentia dor nas pernas, mas menos que na subida.
– Ta machucada? — Perguntou Thorin ao ver a garota andando mais lentamente.
– Obviamente — Respondeu Lyn — Dwalin me quebrou inteira.
– Quer um beijo pra sarar? — Brincou Thorin, olhando a garota inflar.
– Quer um soco pra ficar quieto? Nunca ouviu falar de ética de bebedeira? Não se comenta o que aconteceu — Respondeu Lyn, parando no lugar.
– Ora, cade aquele tal de espirito esportivo que Fig vive dizendo pra você manter? Você não estava assim quando quis me deixar amarrado na clareira dos trolls — Retrucou Thorin.
Agora Lyn entendia, o desgraçado estava se vingando dela. Por um lado achou graça, achava que ele não teria malícia pra fazer algo que não envolvesse alguma agressão física, por outro queria se vingar. Olhou por cima do ombro de Thorin e seus olhos brilharam diante da ideia que teve.
– Vai querer brincar? Se entrar nessa, não vai poder reclamar da revanche — Sorriu maliciosa pro anão.
– Dê o seu melhor — Retrucou o rei, encarando a garota.
Lyn não pensou duas vezes e esperou em silêncio um grupo de elfas passarem pelos dois e, assim que passaram, pro horror de Thorin, Lyn deu um tapa na bunda da mais próxima de si, fazendo que esta desse um grito e se virasse revoltada.
– Thorin! Não acredito que você fez isso! — Falou Lyn bem alto, fingindo indignação, enquanto um Thorin a olhava espantado, também não conseguindo acreditar.
A companhia já estava ficando impaciente esperando que os dois últimos membros chegassem, já estavam desistindo quando Lyn entrou correndo no lugar, chorando de rir, completamente vermelha e ofegante. A garota se escondeu atrás de Gandalf, segurando nele enquanto ria escandalosamente.
Perguntavam o que havia acontecido mas a garota não parava de rir e só entendiam as palavras "Thorin", "elfa" , "matar". Queriam insistir nas perguntas, mas quando viram Thorin chegar se silenciaram e só conseguiam ouvir as risadas de Lyn.
No rosto de Thorin havia uma marca vermelha de uma mão. Desistiram de qualquer pergunta, de qualquer comentário e Lyn, no fundo, se perguntava se dessa vez não tinha exagerado.
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