The warmth of Winter
12 Um lugar seguro
Notas iniciais
Eu me debatia para me soltar das correntes de Eshi e me manter na superfície, quando de repente seu pé pressionou minha cabeça para baixo da água, a sensação de não poder respirar era desesperadora, lutei violentamente para me liberar, minhas Dark Boots pesavam mais a cada momento, e quanto mais eu lutava mais as correntes se apertavam a minha volta, eu não podia morrer, eles precisavam de mim, meus amigos, nii-san, Allen-kun, eu precisava vencer, tinha de voltar para eles. Arquejei ao sentir as correntes se afrouxarem, dei um forte impulso para sair da água, não respirar era torturante e já estava me deixando tonta. Acertei algo quente e seco, me agarrei com força conforme respirava desesperada.
– Já acordou? Reconheci automaticamente a voz de Kanda e relaxei, reparando agora que a coisa a qual havia me agarrado fora ele.
Respirei fundo diversas vezes, fora apenas uma lembrança, ou no caso um sonho de uma lembrança de Lenalee, uma vez que ela se encontrava dormindo, soltei o moreno e encostei-me à cabeceira da cama.
– Me desculpe, foi uma lembrança, por essa razão é mais vívido e angustiante. Digo abraçando os joelhos e repousando a cabeça sobre eles.
Meu corpo está tremendo, ainda consigo sentir a sensação de sufocar, ou talvez seja por que eu mesma não esteja conseguindo respirar, levanto minha cabeça e percebo meus joelhos molhados, tento secar meu rosto, porém as lágrimas continuam a escorrer, desisto e me levanto.
– Você devia voltar a dormir. Falo, me encaminhando a porta.
– Aonde você vai? Indaga o moreno.
– Tomar um ar, não se preocupe, foi apenas uma memória ruim. Vou respirar um pouco e volto logo. Ele se levantou pronto a me seguir. — Kanda, eu posso tomar ar sozinha. Não acho que tenha um Akuma espreitando no jardim.
Não importa o quanto eu tentasse convencê-lo, ele se manteve firme em me acompanhar. Assim que chegamos a Londres optamos por descansar, já que eu mal conseguia apoiar a perna no chão, achamos então uma pousada para passar o resto da tarde e a noite, concordamos em dividir o quarto, tanto pela economia quanto pela segurança. Desde que voltáramos a cabine, Kanda estabeleceu que eu não sairia mais de sua vista, e estava fazendo um ótimo trabalho, já que de acordo com ele, eu era um imã para akumas.
– É tão estranho todos terem me ajudado, eu esperava que vocês não fossem me perdoar, achei que vocês jamais iriam querer se aproximar de mim, pensei que…
Eu não sabia ao certo o porquê de estar revelando aquilo ao general, mas era um peso que eu carregava desde que as lembranças apareceram, e como já estávamos sentados em silêncio há muito tempo, decidi por lhe falar, também havia o fato que eu não queria que ele se sentisse obrigado a me proteger, eu podia fazê-lo sozinha se isso o fizesse se sentir mais confortável, não queria impor minha presença a ninguém.
– Você não precisa se preocupar comigo, de verdade, eu sou capaz de me defender. Não vou dizer que posso destruir um Akuma, mas posso lutar com ele até que você chegue, então não precisa se forçar a me acompanhar. Abracei meus joelhos ainda mais forte e passei a fitar as estrelas, estávamos sentados em um banco no quintal da pousada observando as flores em silêncio.
– Eu não sei o que você acha que fez para todos te odiarem, e nem o porquê de você achar que ninguém irá te perdoar, mas quando eu aceitei que você viesse, sabia que estaria constantemente em perigo e que eu seria o responsável pela sua segurança. Respondeu em tom monocórdio.
– Você melhor do que ninguém sabe por que eu não posso ser perdoada, você mesmo disse, se lembra, você disse que odiava a ordem acima de tudo, até mesmo dos Noahs.
Eu não suportava a ideia de ser um peso ainda maior, ele tinha razão sobre o fato de que seria o responsável por minha segurança, mas parava por aí, ele me odiava e com razão, eu jamais iria causar mais danos, eu nem sequer entendia direito o motivo de ele ter se tornado um general, sabia que era pelo bem de seus amigos, para salvar Allen, para livrar Lenalee e Marie das suspeitas de traição, porém e ele, será que o peso disso tudo não importava, estava mesmo tudo bem em voltar a ordem, a ordem que ele tanto odiava, a mesma que retirou seu passado e o fez lutar contra seus próprios amigos, até mesmo matar um deles, eu sabia que isso era algo que eu jamais poderia reparar, não importava como, contudo, se eu pudesse ao menos não ser um distúrbio, afinal como dizia a minha professora favorita do orfanato, aquilo que não tem remédio, remediado está.
– Eu continuo sem entender qual a sua parte nisso. O encarei estupefata, qual a minha parte nisso, ele realmente não percebia, ou só estava sendo gentil, levando em conta que Kanda não é conhecido pela gentileza, ele não deve ter ligado os fatos, todavia não me lembro de ele ser considerado alguém de raciocínio lento.
– A sua inocência… Respirei fundo, eu voltara a tremer. — Da primeira vez, na verdade, nas duas vezes você foi obrigado a sincronizar com ela, e de quem você acha que é a culpa, eu sou tão responsável quanto se tivesse eu mesma participado do projeto segundo exorcista.
Ele mantinha meu olhar, porém não abriu a boca, pela primeira vez realmente me senti tentada a usar a habilidade da inocência, mas ia contra os meus princípios invadir seus pensamentos, teria que fazê-lo falar.
– Você não vai falar nada? Esperei mais um longo tempo.
– Você sem dúvidas está bravo, e você tem razão para isso, a culpa é nossa. Tudo que a ordem fez, é imperdoável, e é por essa razão que não estou te pedindo desculpas, eu sei também que você costuma guardar seus sentimentos pra você, então mesmo que você me odeie, você não vai falar nada e nem vai deixar que isso atrapalhe a missão, porém, eu não acho justo que você seja obrigado a me proteger, é que não tem outra solução para isso por enquanto, mas não quero que você pense que tem mais nenhuma obrigação comigo, eu vim por vontade própria, eu escolhi salvar o Allen, por que eu também não posso aceitar todo o mal que é causado pela inocência, eu agradeço que você me proteja, todavia não posso aceitar causar ainda mais dor a você, a nenhum de vocês, eu não posso… Minha voz morreu e novas lágrimas surgiram em meus olhos, engoli em seco, não era eu quem estava sofrendo, seria hipocrisia chorar.
Joguei as pernas para o chão e pulei do banco, havia me esquecido da torção, contudo ela não passara e fez questão de me lembrar lançando dor por toda a extensão de minha perna e travando meu joelho, novamente fui surpreendida pela velocidade sobre humana de Kanda, ele me segurara pelo cotovelo e me puxara de volta para o banco antes que eu atingisse o chão, eu sabia o que se passava em sua cabeça sem precisar do auxilio de Lizzy, o nome que coração me dissera para chama-la, quanto mais eu tentava dizer a ele que ficaria bem sozinha, mais eu provava o contrário.
Com apenas um movimento ele se abaixou a minha frente e me puxou, me carregando nas costas, só então percebi o quão cansada eu estava, o caminho não era muito longo, porém eu estava achando que acabaria por dormir antes de chegar a minha cama, quando ele quebrou o silêncio.
– Eu não sei o que faz você achar que tem alguma ligação ao projeto segundo exorcista, ou que esteja causando dor a alguém ou por que decidiu que devemos te odiar, mas se te serve de consolo, eu não penso que tenho mais nenhuma obrigação com você. Quanto a sua segurança, eu achei que tinha sido claro, você não tem uma arma anti-akuma, é minha aprendiz e ainda por cima compatível com a inocência coração, não estou te protegendo por gentileza. A sua segurança é minha responsabilidade.
Eu tive de segurar mais algumas lágrimas, depois desse dia não tocamos mais no assunto, porém eu sempre vou me lembrar do modo enfático como ele disse que minha segurança era sua responsabilidade, e irei sempre confiar em sua proteção.
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