The warmth of Winter
49 A cerimônia
Notas iniciais
Estava frio, abri meus olhos, e percebi estar completamente encolhida na cama, puxei a coberta e me enrolei nela, tremendo convulsivamente, fora apenas uma ilusão, mas o frio permanecia.
Após alguns minutos, percebi que não poderia esperar até recuperar minha temperatura, assim sendo, mesmo contra minha vontade me levantei e peguei meu mais pesado casaco, vesti-o e segui para o templo, ainda tremendo. Para minha sorte estava uma noite quente, visto que estamos no meio do verão, o que tornou a caminhada mais agradável.
Cheguei a entrada do templo e respirei fundo, creio que agora não haverá mais prova nenhuma, ou assim espero.
— Fuyu. Aki viera me receber na entrada, aproveitei para abraça-lo e roubar um pouquinho de seu calor. — Você está tremendo, o que houve?
– Não é nada demais, apenas resquício da última prova. Diz Natsumi se aproximando junto de Kanda.
- Do que consistiu a última prova!? Exige o Ichinose, fuzilando a mais velha com os olhos.
— Oras, da única coisa na qual o senhor perfeição não é bom. Meu irmão engole em seco e olha para mim, levantando depois os olhos para a sacerdotisa com uma expressão chocada.
— Você a jogou na água!?! Fala Aki incrédulo.
– Ué, foi você mesmo que me disse que a prova, teria que ser fazê-lo nadar. Responde Natsumi dando de ombros.
— Ele! Rebate o moreno, gesticulando agitado. — Não ela!
— Você dá um novo significado a palavra superprotetor. Zomba a morena.
— Ela quase se afogou! Aki ainda parece descrente. — Quando a encontrei, Fuyu estava se afogando! Como pôde joga-la na água novamente?!
Natsumi pareceu genuinamente surpresa, pelo jeito ela não sabia disso, vendo arrependimento cruzar seu rosto, senti a necessidade de conforta-la.
— Está tudo bem. Digo, colocando uma mão no peito de meu irmão e sorrindo complacente a minha irmã. — Você não sabia disso, e além do mais, eu e Kanda conseguimos sair de lá, então está tudo bem.
- Desculpe. Fala a morena, com uma expressão culpada.
— E a cerimônia? Pergunto, tentando desviar o assunto.
— Agora vem a parte fácil. Comenta Natsumi, se focando no evento. — Vocês fazem uma espécie de juramento e você precisa conectar ambas as inocências.
Aquiesço, ela faz um sinal, indicando que devemos segui-la, depois de passar por diversas salas, chegamos a um espaço enorme que lembra um auditório.
– Vocês dois se posicionem no centro. Natsumi nos coloca nas devidas posições, enquanto Aki se senta em uma das muitas cadeiras do local. — Kanda, entregue a Mugen a Fuyu.
Depois de dizermos diversas coisas, todas de acordo com o roteiro que Natsumi nos passava, ela me explicou como ligar as inocências e fez o general se ajoelhar, para que fizéssemos algo próximo a uma consagração de cavaleiro.
– É isso? Pergunto, não sentindo nenhuma diferença.
– Devolva a espada. Sugere minha irmã, entrego-a ao moreno e a diferença se torna notável.
Estou acostumada a dividir minha mente com Lizzy, também não estranho nem um pouco receber pensamentos e emoções de outros exorcistas, mas é uma sensação totalmente nova, olho para Kanda que também me encara, é como se tivéssemos um canal entre nossas mentes.
– Você tem que ver a cara que está fazendo. Fala a morena rindo. — Bom, agora que acabamos com as partes chatas, vem a recompensa.
Viro-me para ela, porém não consigo deixar de estranhar a sensação de que minha mente parece aberta, como se meus pensamentos estivessem vazando.
– É uma tradição que seja feita uma festa. Aki se levantara e se aproximava de nós.
– Será seu baile de debutante. Completa Natsumi parecendo animada com a ideia, infelizmente não compartilho tanto de seu entusiasmo, mas dou de ombros. — Vou começar a arrumar as coisas.
Minha irmã sai andando, parecendo perdida em pensamento sobre sua nova tarefa, rio, voltando-me para Akihiko.
– Estamos liberados?
– Sim, tentem dormir um pouco, esta noite terão um baile para comparecer. Saímos juntos do templo. — Eu pedi para prepararem um quarto para você. Pedirei as criadas para que lhes preparem um lanche. Você gostaria de um banho?
– Acho que vou passar o banho, já tomei três hoje. Digo, com a lembrança da água gelada ainda muito fresca.
– Bom, os criados estarão a sua disposição, basta chama-los. Não consigo deixar de estranhar a ideia de ter alguém me servindo. — Kanda, você também, se precisar de qualquer coisa, basta chama-los. Algo em especial que desejam comer?
Indaga meu irmão, quando chegamos ao interior da casa, aonde iremos nos separar, penso um pouco sobre a questão e decido que uma bebida quente é minha única preferência.
– Tempurá, e chocolate quente pra ela. Olho desconcertada para o general, ele de fato pode ler minha mente. — Estou até sentindo o cheiro de chocolate, de tão centrada que você está.
Aki se despedira e fora fazer nossos pedidos, enquanto continuo encarando Kanda, descrente, ao que o mesmo me olha impassível.
– Não se preocupe, não estou tentando ler sua mente, mas quanto mais intenso for seu pensamento, mais difícil é bloquea-lo, e você já estava quase materializando o chocolate. Acabei rindo, aquilo devia ser um pesadelo para ele, logo chocolate.
– Como funciona? Perguntei curiosa, conforme subíamos as escadas.
– Como se você estivesse dentro da minha cabeça. Ele me lançou um olhar e balançou a cabeça. — É muito estranho.
Ri novamente, eu estava tão acostumada a ter pensamentos alheios em minha mente que aquilo já era rotina, mas creio que não seja algo tão fácil assim de se acostumar.
– Parece que eu sou você. Caí na gargalhada, sem dúvida, aquela era a ultima frase que eu esperava ouvir de Kanda. — Creio que seja como quando você está dormindo.
Arqueei uma sobrancelha, não compreendendo exatamente o que ele quis dizer.
– Os pesadelos. O moreno me encara. — Você disse que sente como se fosse o dono das memórias, quando está dormindo e tem sonhos de outra pessoa.
– E é assim que está se sentindo? Segurei a vontade de rir. — Como se você fosse eu?
Kanda balançou a cabeça, pelo jeito aquela não era uma sensação da qual ele estava gostando muito.
– Deve melhorar com o tempo, ao menos eu consigo bloquear os outros muito melhor hoje. O general aquiesceu.
– Você ainda está com tanto frio assim? Não consegui não rir, parece que ele teria um longo caminho até conseguir me bloquear.
– Não se preocupe, depois do chocolate quente vou direto para baixo das cobertas. Era estranho reassegurar outra pessoa sobre seu próprio frio. — Eu me esqueci de perguntar onde era o meu quarto, além disso, que dia é hoje? Aki disse que hoje à noite teríamos um baile, mas tenho impressão de que já se passaram muitos dias desde que começamos a prova.
– Domingo, já está amanhecendo. Concordo com a cabeça, passamos a madrugada inteira presos na ilusão provavelmente.
Entramos no quarto de Kanda, junto minhas coisas, colocando-as de volta na mala, espreguiço-me e decido esperar ali mesmo, logo virão trazer a comida, assim poderei perguntar onde se supõe que devo ficar. Sento-me a mesa, de frente para o general, sem dúvida a família Ichinose é abastada, apenas neste quarto, cabem três dos quartos do orfanato, e este é um quarto de hospedes.
– Você também faz parte da família, certo? Percebo que o moreno está acompanhando meus pensamentos.
– Sim, Natsumi e Aki são meus irmãos.
Sorrio, pensando sobre isto, o que me faz lembrar, que não perguntei sobre meus pais, eu gostaria de saber o que houve com eles, a esta altura, já sei que não houve nenhum incêndio que levou toda minha família, me pergunto o que aconteceu de verdade.
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