Notas iniciais
Como prometido, o segundo do dia. Boa leitura = )

Estava frio, abri meus olhos, e percebi estar completamente encolhida na cama, puxei a coberta e me enrolei nela, tremendo convulsivamente, fora apenas uma ilusão, mas o frio permanecia.

 Após alguns minutos, percebi que não poderia esperar até recuperar minha temperatura, assim sendo, mesmo contra minha vontade me levantei e peguei meu mais pesado casaco, vesti-o e segui para o templo, ainda tremendo. Para minha sorte estava uma noite quente, visto que estamos no meio do verão, o que tornou a caminhada mais agradável. 

 Cheguei a entrada do templo e respirei fundo, creio que agora não haverá mais prova nenhuma, ou assim espero. 

 — Fuyu. Aki viera me receber na entrada, aproveitei para abraça-lo e roubar um pouquinho de seu calor. — Você está tremendo, o que houve?

 Não é nada demais, apenas resquício da última prova. Diz Natsumi se aproximando junto de Kanda. 

 - Do que consistiu a última prova!? Exige o Ichinose, fuzilando a mais velha com os olhos. 

 — Oras, da única coisa na qual o senhor perfeição não é bom. Meu irmão engole em seco e olha para mim, levantando depois os olhos para a sacerdotisa com uma expressão chocada. 

 — Você a jogou na água!?! Fala Aki incrédulo.

– Ué, foi você mesmo que me disse que a prova, teria que ser fazê-lo nadar. Responde Natsumi dando de ombros.  

 — Ele! Rebate o moreno, gesticulando agitado. — Não ela! 

 — Você dá um novo significado a palavra superprotetor. Zomba a morena.

 — Ela quase se afogou! Aki ainda parece descrente. — Quando a encontrei, Fuyu estava se afogando! Como pôde joga-la na água novamente?! 

 Natsumi pareceu genuinamente surpresa, pelo jeito ela não sabia disso, vendo arrependimento cruzar seu rosto, senti a necessidade de conforta-la.  

 — Está tudo bem. Digo, colocando uma mão no peito de meu irmão e sorrindo complacente a minha irmã. — Você não sabia disso, e além do mais, eu e Kanda conseguimos sair de lá, então está tudo bem.

 - Desculpe. Fala a morena, com uma expressão culpada. 

 — E a cerimônia? Pergunto, tentando desviar o assunto.  

 — Agora vem a parte fácil. Comenta Natsumi, se focando no evento. — Vocês fazem uma espécie de juramento e você precisa conectar ambas as inocências.

Aquiesço, ela faz um sinal, indicando que devemos segui-la, depois de passar por diversas salas, chegamos a um espaço enorme que lembra um auditório.

Vocês dois se posicionem no centro. Natsumi nos coloca nas devidas posições, enquanto Aki se senta em uma das muitas cadeiras do local. — Kanda, entregue a Mugen a Fuyu.

Depois de dizermos diversas coisas, todas de acordo com o roteiro que Natsumi nos passava, ela me explicou como ligar as inocências e fez o general se ajoelhar, para que fizéssemos algo próximo a uma consagração de cavaleiro.

É isso? Pergunto, não sentindo nenhuma diferença.

Devolva a espada. Sugere minha irmã, entrego-a ao moreno e a diferença se torna notável.

Estou acostumada a dividir minha mente com Lizzy, também não estranho nem um pouco receber pensamentos e emoções de outros exorcistas, mas é uma sensação totalmente nova, olho para Kanda que também me encara, é como se tivéssemos um canal entre nossas mentes.

Você tem que ver a cara que está fazendo. Fala a morena rindo. — Bom, agora que acabamos com as partes chatas, vem a recompensa.

Viro-me para ela, porém não consigo deixar de estranhar a sensação de que minha mente parece aberta, como se meus pensamentos estivessem vazando.

É uma tradição que seja feita uma festa. Aki se levantara e se aproximava de nós.

Será seu baile de debutante. Completa Natsumi parecendo animada com a ideia, infelizmente não compartilho tanto de seu entusiasmo, mas dou de ombros. — Vou começar a arrumar as coisas.

Minha irmã sai andando, parecendo perdida em pensamento sobre sua nova tarefa, rio, voltando-me para Akihiko.

Estamos liberados?

Sim, tentem dormir um pouco, esta noite terão um baile para comparecer. Saímos juntos do templo. — Eu pedi para prepararem um quarto para você. Pedirei as criadas para que lhes preparem um lanche. Você gostaria de um banho?

Acho que vou passar o banho, já tomei três hoje. Digo, com a lembrança da água gelada ainda muito fresca.

Bom, os criados estarão a sua disposição, basta chama-los. Não consigo deixar de estranhar a ideia de ter alguém me servindo. — Kanda, você também, se precisar de qualquer coisa, basta chama-los. Algo em especial que desejam comer?

Indaga meu irmão, quando chegamos ao interior da casa, aonde iremos nos separar, penso um pouco sobre a questão e decido que uma bebida quente é minha única preferência.

Tempurá, e chocolate quente pra ela. Olho desconcertada para o general, ele de fato pode ler minha mente. — Estou até sentindo o cheiro de chocolate, de tão centrada que você está.

Aki se despedira e fora fazer nossos pedidos, enquanto continuo encarando Kanda, descrente, ao que o mesmo me olha impassível.

Não se preocupe, não estou tentando ler sua mente, mas quanto mais intenso for seu pensamento, mais difícil é bloquea-lo, e você já estava quase materializando o chocolate. Acabei rindo, aquilo devia ser um pesadelo para ele, logo chocolate.

Como funciona? Perguntei curiosa, conforme subíamos as escadas.

Como se você estivesse dentro da minha cabeça. Ele me lançou um olhar e balançou a cabeça. — É muito estranho.

Ri novamente, eu estava tão acostumada a ter pensamentos alheios em minha mente que aquilo já era rotina, mas creio que não seja algo tão fácil assim de se acostumar.

Parece que eu sou você. Caí na gargalhada, sem dúvida, aquela era a ultima frase que eu esperava ouvir de Kanda. — Creio que seja como quando você está dormindo.

Arqueei uma sobrancelha, não compreendendo exatamente o que ele quis dizer.

Os pesadelos. O moreno me encara. — Você disse que sente como se fosse o dono das memórias, quando está dormindo e tem sonhos de outra pessoa.

E é assim que está se sentindo? Segurei a vontade de rir. — Como se você fosse eu?

Kanda balançou a cabeça, pelo jeito aquela não era uma sensação da qual ele estava gostando muito.

Deve melhorar com o tempo, ao menos eu consigo bloquear os outros muito melhor hoje. O general aquiesceu.

Você ainda está com tanto frio assim? Não consegui não rir, parece que ele teria um longo caminho até conseguir me bloquear.

Não se preocupe, depois do chocolate quente vou direto para baixo das cobertas. Era estranho reassegurar outra pessoa sobre seu próprio frio. — Eu me esqueci de perguntar onde era o meu quarto, além disso, que dia é hoje? Aki disse que hoje à noite teríamos um baile, mas tenho impressão de que já se passaram muitos dias desde que começamos a prova.

Domingo, já está amanhecendo. Concordo com a cabeça, passamos a madrugada inteira presos na ilusão provavelmente.

Entramos no quarto de Kanda, junto minhas coisas, colocando-as de volta na mala, espreguiço-me e decido esperar ali mesmo, logo virão trazer a comida, assim poderei perguntar onde se supõe que devo ficar. Sento-me a mesa, de frente para o general, sem dúvida a família Ichinose é abastada, apenas neste quarto, cabem três dos quartos do orfanato, e este é um quarto de hospedes.

Você também faz parte da família, certo? Percebo que o moreno está acompanhando meus pensamentos.

Sim, Natsumi e Aki são meus irmãos.

Sorrio, pensando sobre isto, o que me faz lembrar, que não perguntei sobre meus pais, eu gostaria de saber o que houve com eles, a esta altura, já sei que não houve nenhum incêndio que levou toda minha família, me pergunto o que aconteceu de verdade.