Segunda-Feira, 08 de agosto de 2011

A tarde Havia chegado ao meu encontro, trazia junto dela uma brisa calma, fria e reconfortante, acompanhada por uma densa neblina, que ousava cobrir todos os arredores de Darling Harbour. Como de costume, levantei-me e me troquei para que mais um novo dia começasse, bom, talvez fosse diferente já que hoje é minha primeira consulta no psiquiatra.

Minha mãe sempre insistiu para eu fazer acompanhamento médico, ela achava que eu era problemática, pois, ora falava comigo, ora parecia falar com outra pessoa – Na maioria das vezes é comigo que ela está falando, não me recordo de que seja com outra pessoa – Alguns psicólogos, que tinham na escola ano passado, costumavam dizer para minha mãe que eu tinha múltiplas personalidades – o que, no caso, minha mãe nunca acreditou que fosse real –, alguns inventavam coisas absurdas, já outros tentavam ajudar, mas acabavam se afastando depois de um tempo.

Depois que me troquei fui direto tomar meu café, sem ao menos cumprimentar minha amada e próspera família. Quando terminei, desci as escadas do apartamento e fui até uma parada de ônibus próxima, peguei minha carona e andei alguns metros para chegar ao local onde a psiquiatra se encontrava. Chegando lá subi MAIS escadas e entrei na sala da Doutora, pedindo licença, como sempre.

— Sente-se, querida. – Disse com uma voz calma e tranquila, encarando-me nos olhos.

— Obrigada. – Retruquei, desviando o olhar.

No fundo, sentia vontade de jogar o vaso de flor, que permanecia ao meu lado, nela e correr para qualquer lugar, mas isso não é o tipo de coisa que eu faria. Eu não sou assim, ou sou?

— É Joanne? – Questionou ajeitando papéis em seu colo, repousando-os seguidamente — Joanne Moore, certo?

— Sim, Senhora. – Respondi com um tom de voz baixo e tímido. — O que minha mãe disse-lhe? Ela deu-lhe algum motivo para eu estar aqui? – Perguntei.

— Sua mãe? Ela apenas me passou seu perfil de acordo com os psicólogos da sua escola... – Respondeu-me com um tom desconfortável. — E, de acordo com esse perfil, talvez seja certo dizer que você tem TDI, Joanne.

— TDI?

— Em outras palavras, transtorno dissociativo de identidade ou múltiplas personalidades. – Retrucou-me.

— O que é isso?

— Normalmente, quem reconhece o TDI atribui a causa a traumas de infância. Em uma situação de estresse extremo, por exemplo, um acidente ou outros, não é raro passarmos por uma pequena dissociação, como se não fossemos nós mesmos que estamos passando por aquela situação. – Deu uma pausa e continuou. – Para crianças passando por um trauma na infância como um pai alcoólatra violento, a mente pode lidar com essa dissociação como se outra pessoa realmente existisse ou pelo menos como outra personalidade, em forma de suprir seu desespero relacionado àquilo.

— Compreendo... – Disse enquanto memórias vinham à tona.

— Agora, me diga Joanne, você passou por algum tipo de trauma?

—Não, senhora...

— Certeza, Joanne? Não fique com medo, não farei nada, estou aqui para ouvir-lhe e lhe ajudar. Aconteceu algo? – Ela insistia.

— Bem, minha mãe apanhava do meu pai, logo já descontou isso em meus irmãos, que faleceram jovens e doentes. Na escola eu sofria e, sofro bullying, e ainda moro com minha mãe que me lembra todos os dias o que meu pai fazia com ela, e o quanto ela lamento pelo que fez com meus irmãos. – Resumi, literalmente, a história toda. Mas em um momento parece que eu tinha mudado, não tinha ficado tão sentimental com a história, falei com um tom frio, não ligando para o que minha mãe sentia ou que eu mesma sentia. — Mas eu não me importo, a velha só reclama e lamenta, chega a ser mais inútil que eu!

— Joanne?! – Perguntou visivelmente desconfiada de que não fosse eu.

Tudo parecia ter parado, ouvia vozes ressoando em minha mente, estava enlouquecendo. Mas como se nada estivesse acontecendo, sorri e encarei a doutora, ficando calada por um bom tempo, tentando ouvir o que cada voz dizia e queria. Parecia que precisávamos de ajuda, e, realmente, nós precisávamos.

Notas finais
Finalmente! Eu espero que vocês tenham gostado da história. Obrigada ♥