The other me
2 Capítulo 1
Notas iniciais
Quinta-feira, 06 de Abril de 2011.
O dia havia começado há apenas algumas horas, já que não passava de 9:00 A.M, todo o céu australiano permanecia iluminado, dando indícios de que seria um dia harmonioso. O sol, com sua presença ilustre, invadia casas e parques, esquentando completamente o dia, felizmente, uma ventania gelada e refrescante era presente, deixando um calor – totalmente inusitado, visto que estávamos em outono – agradável.
Com as pernas cruzadas, permanecia sentada sobre a cama brincando com meus dedos, não havia algo muito interessante para fazer naquele horário, além do mais, gostava de divagar, mantendo meus pensamentos nas alturas.
Um estrondo ressoou por toda a casa, invadindo cada cômodo, um por um. Levantei-me da cama em um salto e, à passos lentos, direcionei-me até cozinha, um passo de cada vez, silenciosamente. Escorei-me pela parede, adentrando lentamente à cozinha.
Com um sorriso amedrontador, lá estava ela, minha progenitora, esperando-me.
Em choque, não consegui dizer algo coerente, apenas observava-a olhando em minha direção, segurando uma Glock 9mm, apontada para mim.
— Eu vou, mas antes, Joanne, vou levar você comigo. Para ficarmos juntas sempre. – Aos poucos, o sorriso desmanchou-se, – Eu te amo, filha.
Céus, ela havia enlouquecido!
A encarei, implorando para que abaixasse a arma e me escutasse, com um tom amargo retrucou um "NÃO", puxando o gatilho em seguida. Se não fosse pela minha coordenação motora, o tiro seria certeiro. Joguei-me no chão, desviando de sua bala.
— LEVANTE-SE! – bradou – Está na hora, Joanne, temos que ir. Agora!
— Ir? Ir aonde?
Consegui pegar uma faca largada pela mesa, perto do fogão, levantei-me e encarei minha mãe, e naquele momento, sentia que não era mais eu. Dei um sorriso frio e me aproximei, devagar, degustando a situação, Com as mãos trêmulas, pedia para que eu me afastasse, que dessa vez não erraria. Estava com medo. Oh, eu amei isso, como eu amei.
Corri até ela, deixando-a sem tempo para sequer pensar em atirar, enfiei a faca na barriga dela. Observei o sangue jorrando de seu ferimento recém aberto, manchando minha camiseta, justo a minha favorita…
— Você me enoja, sabia? – cuspi em seu corpo desfalecido, dando um chute em seu estômago, sabia que não seria capaz de sentir, pouco importa.
Bacon, meu gato, aproximou-se de mim e começou a miar sem parar. As vozes gritavam como se estivessem discutindo, meu gato miava, o sangue escorria pela cozinha, meu cachorro latia, e todo aquele barulho junto da televisão ligada com o rádio me fazia pirar, mas eu parei, olhei para mim mesma no espelho e mudei em um segundo, eu não sabia o que estava acontecendo, o que eu tinha feito, só corri para cozinha e liguei para a polícia pedindo ajuda, totalmente desesperada.
Como de costume, me interrogaram, levaram o corpo e tudo aquilo, eu estava aflita e assustada, memórias vinham e iam, não paravam mais. Peguei meu celular e mandei uma mensagem para a doutora Giselle, pedi uma consulta de emergência com ela na sexta-feira. Precisava de alguém para por tudo isso para fora, alguém que me ajude, ou pelo menos que tente ajudar, não que diga "eu te entendo" sendo que não entende, e que é o primeiro a me julgar lá fora, alguém que não pergunte se eu estou bem esperando um sim como resposta, alguém que não me julgue e não me aponte como culpada, não era eu, eu não posso controlar, minhas personalidades invadem meu vazio e tomam meu controle, eu quero gritar e pedir ajuda, mas não vão me ajudar, vão me julgar, mas eu sei que a culpa não é minha nem de ninguém de eu ser assim, acontece, nem tudo é perfeito como nas fotos que vimos onde todos dão aquele sorriso sem se preocupar com nada, temos problemas, defeitos, temos uma vida, e estamos em uma guerra, onde não se pode confiar nem na própria sombra, nem em si mesmo, nem em ninguém. Temos que tentar e lutar. Ou a gente acaba com a guerra, ou a guerra acaba com a gente…
As poucas estrelas iluminavam o radiante céu, indicando que o dia estava no final. Saí do banho e me troquei, indo até a cozinha pegar minha janta, e lá se encontrava o local da cena do crime, outro trauma, outra memória inesquecível, outro pesadelo e outro péssimo dia da minha vida.
Abri a geladeira e peguei uma lasanha e esquentei no micro-ondas, comi rapidamente e fui para meu quarto dormir.
Joguei-me na cama e observei o telhado do quarto, desviei o olhar e o voltei para a janela, e depois? Lembrei-me de tudo que aconteceu de ruim comigo, desmoronei, abracei meus joelhos e chorei, o vento entrou no meu quarto balançando a cortina e dando de encontro comigo, a escuridão da noite invadia e a luz da estrelas radiavam mais do que nunca, e eu chorando, meu gato e meu cachorro indo até meu quarto e subindo em minha cama. Bacon, o gato, sentou-se ao meu lado e me observou em silêncio. Já Magnólio, meu cachorro, colocava a pata em meus braços para eu parar de chorar, ora ele lambia minhas mãos, ora ele se deitava e chorava bem baixinho. Se os humanos não me amarem e me jogarem fora, sei que pelo menos meus bichinhos, minha única família, irão acolher-me e ficar comigo, como sempre ficaram em momentos difíceis, como choraram comigo.
Eu não sei o que faria sem a Bacon e o Magnólio, meus amigos, meus companheiros de momentos inesperados, meus melhores bichinhos. Seria difícil viver sem eles, a dor de imaginar ver eles morrendo, ver mais alguém deixar-me, por isso sempre faço os momentos com eles serem únicos, sempre que posso levo eles em lugares que eles gostam e compro petiscos para comerem. Eles sabem quando estou triste, e tentam me fazer feliz, mas quando não conseguem, ficam ao meu lado, me escutam e choram comigo. Sabem o que fazer para me deixar feliz, me distraem para eu esquecer dos problemas, como por exemplo quando fiquei de recuperação e eles me fizeram ir até a praia de Sydney para sentar em uma pequena duna de areia e observar o sol se pôr, as ondas virem e irem, o vento calmo balançar os cabelos, e, claro, eles ao meu lado. Limpei meu rosto e os abracei, os olhei nos olhos e sorri, agradecendo por fazerem parte de minha vida. Arrumei a cama e me deitei, bacon estava no travesseiro ao meu lado na cama e magnólio deitado perto dos meus pés, na ponta, tudo pronto, um dia terrível e uma boa noite de sono, ou não, que venham os pesadelos! É hora do show.
***
Sexta-Feira, 07 de Abril de 2011.
Aproximadamente 06:00 A.M
O despertador toca, a luz do sol invade o quarto, meus olhos se abrem e eu encaro mais um dia.
Vamos lá Joanne. Você é forte.
Levantei-me e segui a rotina de sempre: tomei meu banho, troquei-me, tomei o café e arrumei minha cama. Olhei para o relógio que marcava 06:45A.M e vesti um casaco preto bem quentinho para ir para a consulta. Hoje eu vou dizer tudo que já tinha que ter dito para Doutora Giselle. Tudo que eu escondi e escondo do mundo. Tudo que tenho medo de dizer. Chegou a hora, é hora de Giselle conhecer todas as minhas personalidades, por pior que algumas sejam.
Felizmente eu sabia dirigir e minha mãe tinha um jeep velho, não deixava eu usar, mas agora não tem saída. Dirigi até o local onde a Doutora se encontrava e estacionei em uma vaga qualquer, estava ansiosa, iria me abrir pela primeira vez. Subi as escadas, bati na porta e em seguida entrei.
— Joanne! Bom te ver. Sente-se — disse a doutora com um sorriso no rosto. Sentei-me e olhei para ela.
— Sabe, Joanne, depois da última consulta achei que não ia te ver mais. Você parecia estar muito desconfortável. Você está melhor hoje?
— Sim, eu acho... Bom, eu gostaria de dizer umas coisas hoje, coisas que eu nunca disse, por medo — retruquei.
— Sinta-se à vontade. — sorriu —quando quiser, Joanne.
— Obrigada... — dei uma pausa e respirei fundo —, era ano novo, eu e meus irmãos Lucas e Daniel, estávamos brincando com os balões que a gente ganhou, eu tinha uns 5 anos na época e eles tinham 13 e 16. Mamãe estava na cozinha fazendo torta de banana para comemorarmos. Stefany, minha irmã mais velha, tinha ido em uma festa, já meu pai... Saiu para beber com os amigos — dei outra pausa e continuei —, quando deu uma hora da manhã meu pai chegou em casa bem devagar, estava bêbado. Sentou-se no sofá e olhou para mim e meus irmãos na sala, depois estourou nossos balões e mandou a gente se sentar e fazer silêncio, logo em seguida chamou minha mãe e perguntou o que fazíamos acordados e onde estava a Stefany, minha mãe disse que estávamos comemorando e que minha irmã estava em uma festinha com amigos. Ele fechou a cara e exigiu que ela chegasse em casa naquele momento. Minha mãe ligou para ela e assim foi dito e feito, ela voltou para casa, mas quando ela entrou, papai se levantou e tirou o cinto, disse que a próxima saída dela ela não entrava mais em casa, começou a bater nela e minha mãe tentava interferir fazendo-o parar. Ele parou, virou-se para minha mãe e ordenou que ela nunca mais se intrometesse, mas ela disse que estava cansada dele, que minha irmã não tinha culpa e que ele não triscaria mais a mão em nenhum de nós, — suspirei — ela disse que se cansou, que ele tinha que ir embora e não voltar mais, que tudo entre eles acabou. Meu pai se virou para minha mãe, sorriu e deu um tapa em seu rosto, xingou ela de vários nomes horrendos e a pegou pelos cabelos, arrastando-a por toda casa. Pela sala dava pra ouvir os gritos, ele estava batendo nela, e muito. Ela chorava e ele batia mais nela. Depois ele saiu da casa e bateu a porta, minha mãe saiu do quarto se arrastando, estava sangrando muito, não era a primeira vez que ele batia nela, mas essa foi a pior, seu rosto tinha cortes e seus olhos estavam roxos e inchados, seu pescoço tinha marcas de mão e também estava roxo, por todo seu corpo tinha cortes e machucados fortes, naquele momento pensamos que ela iria morrer...
— Joanne, se não quiser terminar não vou te obrigar — disse Giselle.
— Não, comecei tenho que continuar — retruquei —, minha mãe não queria ir pro hospital, então cuidamos dela, mas ela já conseguia se movimentar direito depois de uns dias. Stefany e eu fomos brincar na praça para eu esquecer do assunto. Eu não dormia nenhum dia, na escola me batiam e me zoavam, como na vez que quase me jogaram na frente de um carro de "brincadeira", eu tinha pesadelos horrendos com meu pai fazendo muitas coisa comigo e minha família. Mas, Stefany sempre me ajudava, na praça vimos um moço doar cachorrinhos ainda filhotes, Stefany pegou um para mim, ele era preto e tinha um olho azul e outro preto, tinha um pelo macio e orelhas delicadas, seu focinho não era nem tão longo nem tão curto, suas patinhas eram brancas como as nuvens, ele era lindo. Stefany me entregou ele para eu segurar e disse que era um presente, na época eu amava o nome Magnólia, e, por ele ser macho, eu o nomeei de Magnólio e fui com ele e minha irmã para casa — parei e meus olhos se encheram de lágrimas. — Quando cheguei em casa, Stefany entrou na minha frente e escutamos a mamãe chorar, meu pai tinha voltado e batido nela de novo, e meus irmãos tentaram ajudar, mas falharam. Ele foi embora e minha mãe simplesmente indignou-se com meus irmãos. — Lágrimas começaram a escorrer em meu rosto — Assim como meu pai, ela bateu neles, mas ela bateu muito, ela pegava facas e pedaços de madeira e os espancava, ela os machucou tanto que eles morreram na hora. Eu e minha irmã fomos até o quarto e vimos ela machucada e suja de sangue com meus irmãos nos braços, estava chorando muito. Eu fiquei assustada e comecei a chorar gritando o nome dos meus irmãos, eu amava muito eles, eles sempre foram bons irmãos, e agora não posso retribuir essa bondade. Corri para meu quarto e abracei Magnólio enquanto chorava e chorava, minha irmã e minha mãe discutiam. Stefany decidiu denunciar o papai, mas nada adiantou, os policiais não conseguiram encontrá-lo e minha mãe disse que não tinha sido ela que matou meus irmãos, e sim meu pai. Enterramos meus irmãos, e a policia estava sempre batendo lá em casa, a pressão para a Stefany estava sempre tensa, ela discutia com minha mãe todos os dias, vivia na base de remédio, vivia chorando — comecei a chorar —, foi a pior época da minha vida, dias depois minha irmã e minha mãe brigaram tanto que bateram uma na outra, Stefany saiu do quarto e foi para a cozinha, olhou para mim e disse: prometa para mim que você será forte, que você irá lutar. Me desculpe Joanne, eu tentei, mas eu desisto, me perdoe, sempre estarei com você, mesmo que não seja de verdade. Em teus sonhos vou lhe dar conselhos, em tua vida vou te ensinar a lutar, vou te ajudar e te proteger, serei seu anjinho da guarda, mesmo que você não me veja, não se esqueça de mim, Joanne, amo-te mais do que tudo. Estarei sempre e para sempre, ao teu lado. E então, enfiou uma faca em seu peito, caindo na minha frente com lágrimas nos olhos, o sangue me cobriu, e eu deitei em silêncio do lado do corpo, abracei ela mesmo morta e lá fiquei, durante horas e horas — desabei. — MINHA MÃE TENTOU ME MATAR E EU, EU A MATEI DOUTORA, EU TENTEI ME DEFENDER, EU JURO EU TENTEI — disse chorando.
— Joanne, você é uma das minhas pacientes mais fortes, você está sempre tentando e tentando, eu nunca te vi assim, nem nunca vi um paciente ser tão sincero e puro no que diz, eu vou lhe acompanhar, vou lhe ajudar, não como sua psiquiatra, como sua amiga. Fique calma. Eu vou te ajudar, eu prometo. — Ela disse meio emocionada.
— Obrigada, doutora, mas talvez não seja preciso...
— Iremos descobrir. — Ela disse limpando minhas últimas lágrimas.
— Eu trouxe a ficha um, da minha primeira personalidade e um relatório de como foi a primeira vez que ela apareceu, algumas coisas não lembro, mas tentei fazer tudo certinho — entreguei a pasta para ela e em seguida ela abriu.
Giselle começou a ler a pasta, estava com uma cara de desgosto e ao mesmo tempo preocupação, ela lia com atenção e me encarava chocada.
Não era grande coisa o que estava escrito, mas demonstrava ser perigoso, demonstrava ser ruim, poderia me prejudicar muito, acabar com minha vida. Era difícil compreender como eu convivia com tudo aquilo, mas eu conseguia, eu tentava.
Mas, com tudo isso eu aprendi uma coisa: Não é porque tenho diversas personalidades que sou incapaz de ter um emprego, que sou incapaz e inútil de tentar e lutar, que eu sou uma louca que vive a vida do pior jeito, que eu sou um monstro.
Posso ser diferente, mas sou diferente da melhor forma, pode parecer que não, mas eu posso evoluir e aprender com minhas personalidades, aprender coisas que a humanidade desvaloriza, e evoluir em pontos que muita gente se recusa.
Não é normal e certo alguém querer opinar sobre minha vida, querer me ajudar com "tadinha" "que dó" "que Deus ajude-a", não sou nenhuma delinquente. Se alguém fala isso, garanto que não está opinando, está julgando e interferindo na vida de alguém que nem liga pra existência de tal, mas que é errado é. Não sou um monstro ou um ser de outro mundo para me olharem torto, não sou obra do diabo, não sou mau-caminho nem coisa do tipo. Eu sou eu, e ninguém tem nada com isso, posso ser diferente em vários pontos, mas pelo menos eu não saio julgando as pessoas e nem saio desistindo de tudo, não sou incapaz, sou forte e vou cair sim, mas vou me levantar, e vou me levantar como uma rainha.
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