The girl at midnight
2 A Virada
Eu observei a garota se retirar lentamente… Podia apenas ver os cabelos rosados roçando em suas costas e deslizando para longe de mim. Observei a garota se afastar lentamente na companhia de um garoto de cabelos escuros. Seriam eles poligâmicos? Por que ela havia me beijado? O que havia ali?
Fiquei paralisado por mais um tempo, até que senti alguém apertar o meu braço e ouvir a voz doce de Hinata.
— Aí está você, meu bem! Consegui te encontrar para o nosso beijo atrasado de ano novo. — Ela sorria de maneira sincera e afetuosa, completamente bêbada pelo vinho e a champanhe que acompanharam os dois naquela noite.
Inclinei-me para beijá-la e aproveitou apenas por meio segundo aquele momento. Não havia mais fogo de artifício algum, não sentia como se estivesse no céu. Não havia nada ali que pudesse indicar qualquer relação com Hinata, era como se a estranha fosse a minha verdadeira namorada, e essa, Hinata, a estranha qualquer que se deleitava em meus lábios. Nada indicava paixão e ternura, havia apenas o limite do respeito, como se ela fosse uma completa desconhecida para mim.
Eu não podia deixar de imaginar a outra garota naquele momento, o que ela pensara ao me agarrar deliberadamente e roubar um beijo meu. Por Deus, ainda bem que Hinata não estava ali naquele momento. Quando minha namorada se afastou, pensei que talvez fosse bom que ela não estivesse naquele momento, porque pude experimentar os lábios da outra.
Balancei a cabeça, nitidamente perturbado com o rumo dos meus próprios pensamentos.
— Está tudo bem, meu bem? - Meu bem, era Hinata quem estava ali, quem se importava comigo. Por que pensava em outra garota? Em uma completa desconhecida que simplesmente me beijou?
A garota apenas me beijou, provavelmente, para não ficar sem o beijo de ano novo, era um pouco triste na realidade. Resolvi espantar aquele pensamento, aquela imagem e aquele sabor de mim, era como se eu estivesse impregnado por completo, pensando em algo completamente absurdo. Não havia como eu um dia rever aquela garota em minha vida, mas Hinata estava ali, por completo e me amava incondicionalmente. Agarrei-a em meus braços e a beijei novamente, tentando sentir aquela ligação que apenas nós dois tínhamos, aquele nosso laço.
No entanto, o gosto de Hinata não era o mesmo, não parecia mais como antes. Por mais que eu me esforçasse, a minha memória não conseguia lembrar da última vez em que eu gostei de um beijo com ela. Da última vez que eu amei aqueles lábios, em que eu parecia conhecê-la. Hinata era uma desconhecida, uma completa estranha agora. Bom, não completa.
Eu ainda sabia a cor de deus olhos e cabelos, conhecia sua silhueta e sabia dos seus mais profundos segredos. Ainda assim, já não era mais a mesma coisa. Eu não sabia o que havia mudado, mas algo borbulhava no fundo do meu estômago, algo estranho. Um presságio que indicava que talvez a minha relação com Hinata não fosse mais a mesma a partir daquele ponto. Parecia uma completa loucura, e eu imaginava que realmente era uma loucura, não fazia sentido algum, contudo, algo realmente estava diferente.
O resto da noite eu passei ao lado de Hinata, completamente atordoado, pensando que terminar com a garota no ano novo seria ridiculamente desnecessário e completamente estúpido de minha parte… Quem termina com a namorada depois de seis e no ano novo? Quem é o imbecil que faz uma coisa dessas? De fato, Hinata não merecia aquilo apenas porque uma desconhecida resolveu me agarrar e me beijar deliberadamente. O único lado negativo daquela história toda é que eu gostei do beijo, que eu realmente gostei e sentia que nada mais seria igual com Hinata, seria injusto mantê-la ali.
Era loucura pensar que eu encontraria a garota misteriosa em algum ponto de minha trajetória, na verdade, a probabilidade é ainda maior de que eu nunca mais veja a estranha de cabelo cor de rosa. Contudo, aquele beijo me mostrava que havia algo que eu precisava fazer: terminar com Hinata. Eu não achava que essa coisa de alma gêmea realmente existisse, mas se houvesse qualquer indício que existem pares certos, Hinata não era a minha parceira… Aquele beijo deixava bem claro que ela nunca não era mais a garota para mim.
Talvez fosse egoísmo, talvez um delírio. Dormir e pensar melhor depois que a bebida alcóolica deixasse o meu corpo era a melhor opção, ajudaria a não tomar nenhuma decisão precipitada por completo. Ainda assim, eu sabia que algo com Hinata estava terrivelmente errado.
Não era apenas o beijo dela, de repente, eu sabia que tudo em Hinata era um pouco errado para mim. Ela era extremamente doce e gentil, eu ainda a amava, podia sentir, mas algo estava quebrado. Algo que há muito estivera por ali, rondando o nosso relacionamento e que só agora se revelava como um problema.
Admirado, olhava para Hinata dançando calmamente com algumas amigas. Eu podia sentir meu coração acelerar, eu realmente estava apaixonado por ela… Todavia, algo estava terrivelmente errado, algo que eu gostaria que estivesse certo, no lugar. Não terminaria com ela até ter a total certeza de que aquilo que estava errado em mim fosse um problema nosso enquanto casal e não apenas meu. Seria injusto com Hinata terminar por um motivo narcisista, pois se havia algo que ela me mostrou ao longo daqueles seis anos, é que ela merecia o mundo inteiro apenas para ela.
Observei-a mais um pouco antes de me juntar e dançar junto dela por mais algumas horas. Hinata era a pessoa mais delicada que eu já conheci, desastrada como só ela era capaz de ser, mas acabava por se revelar uma ótima dançarina pelos anos que dedicou ao ballet. Eu amava esse fato nela. Amava muitas coisas em Hinata, por isso sabia que não queria deixá-la partir de verdade.
— Meu bem, temos que ir… Meus primos já devem estar cansados dessa festa, principalmente depois da viagem. — Hinata falou com cuidado, ofegando um pouco depois de dançar por tanto tempo. O rosto corado dela demonstrava como estava feliz, um pouco bêbada, mas terrivelmente feliz.
— Primos? — Comentei depois que começamos a caminhar para a saída. Eu realmente não lembrava de qualquer menção a uma prima distante, nem viagem e muito menos que Hinata estava esperando por ela.
— Sim, são por parte de pai… São distantes e estão visitando a cidade para um congresso, algo assim… Ah, ali! — Hinata gritou para ninguém em específico e caminhou entre uma pequena multidão completamente bêbada e alegre com a virada do ano.
E como não podia deixar de ser, a garota de cabelos rosas acenava de volta para Hinata com entusiasmo… Óbvio que elas seriam primas.
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