The first snow
27 Quem eu sou
Notas iniciais
Eu estou em uma cama, não, é duro demais para ser uma cama, estico meu braço, passando a mão pela superfície, é fria e dura, talvez o chão.
Abra os olhos.
Sussurra alguém, faço-o, acima de mim há apenas escuridão, olho para os lados e percebo que estou em uma sala, o teto é preto e as paredes são na verdade, espelhos, sento-me, encarando meu reflexo.
Cabelos castanhos bagunçados, chegando a altura dos ombros, pele exageradamente branca, olhos castanhos, estico a mão e o reflexo repete, não gosto do que vejo, minha aparência é tão fraca e apática. Fecho meus olhos, eu gostaria tanto de ser outra pessoa, alguém mais forte e decidido, mais bonita, mais imponente, mais…
Abro meus olhos e o reflexo está diferente, agora olhando para mim, está a Fuyuki do passado, a Fuyuki do orfanato Sunrise, seus cabelos chegam a cintura e tem belas ondas, que mesmo bagunçadas parecem estar no lugar certo, seus olhos são muito brilhantes e seu sorriso é contagiante, sem contar que ela está bem mais corada e não parece doentiamente magra como eu.
Fecho-os novamente, isso é injusto, não quero ver o como definhei em tão pouco tempo, chacoalho a cabeça e noto que os reflexos são todos diferentes, me levanto para vê-los melhor.
Em um espelho a minha direita está Lizzy, me pergunto por que ela está em um de meus espelhos, decido por ignorar e sigo para o próximo, nesse está uma Fuyuki que só vi uma vez em um sonho, ela tem uma expressão cruel e está coberta em sangue, arrepiada me afasto, não faço questão de repetir aquele pesadelo.
No próximo há uma Fuyu com enormes asas brancas, a sua volta há aquela neve brilhante, ela parece tão bonita, penso rindo, sou obrigada a dar o braço a torcer, assim eu me pareço a um anjo. No espelho seguinte está algo que se parece a uma boneca Fuyuki, seu olhar é tão vítreo que chega a assustar, vejo que seu peito se mexe e essa é única prova de que está viva, balanço a cabeça partindo para o próximo.
Uma garotinha de aparentemente cinco, sei se tratar de mim pequena pelas fotos, mesmo parecendo fraca, de alguma maneira eu parecia irradiar luz e energia, só de olhar para meu sorriso, eu já me sinto melhor, que misterioso.
Dessa vez é a Fuyuki de sete anos, a que acabara de chegar ao orfanato, completamente inexpressiva e a “luz” que havia na outra, desaparecera nessa, era até ridículo compara-las e pior ainda dizer que eram a mesma pessoa.
Agora é uma Fuyu sorridente, um sorriso muito aberto, só de vê-la tenho vontade de rir junto, é estranho, mas muitos flashes passam por minha cabeça, memórias de momentos em que sorri assim.
Sigo pelo labirinto de espelhos, cada Fuyuki me desperta uma diferente lembrança, cada roupa, cada sorriso, cada lágrima, estranhamente consigo reconhecer todas elas. Paro em frente a um espelho opaco, não, embaçado seria a palavra certa, parece a minha forma, mas é um borrão, tão estranho. Ao lado desse está um espelho completamente escuro, viro-me e novamente me deparo com Lizzy, agora estou em uma sala, olho para o último lado, nele há um espelho normal, assim como o primeiro, ele reflete apenas a mim mesma.
Aproximo-me do espelho comum e olho em meus próprios olhos, é tão estranho, eu consigo ver agora, vejo perfeitamente cada um daqueles momentos, vejo a garotinha radiante de cinco anos, vejo a apática de sete, vejo uma Fuyuki de doze, desligada, mas atenciosa, também me vejo coberta de sangue, porém logo é substituída pela minha imagem alada, que misterioso, estico minha mão, todas essas, todas são eu e eu sou todas elas, sorrio tocando o espelho, no final, eu sou somente eu mesma.
Puxo fortemente o ar e abro os olhos, viro a cabeça olhando para os dois lados, estou caída de joelhos no chão, há muito vidro quebrado, Kanda está ajoelhado ao meu lado me segurando, Cross está em pé a uma pequena distância, vejo que os dois estão com cortes, o que será que houve?
— O que aconteceu? Estico a mão, tocando a bochecha de Yuu. — Você está sangrando.
— Você está bem? Olho para mim mesma, pelo jeito não fui pega por nenhum estilhaço.
- Acho que sim, mas e você? O que houve? Sinto-me estranhamente desperta e disposta, fazia um bom tempo que não me sentia assim, se não me engano, acho que da última vez eu ainda estava na mansão Ichinose, é, foi logo que cheguei lá.
— Você tem razão. General Cross se aproxima com seu típico sorriso sarcástico. — Ela é mais forte do que eu pensava.
Kanda estampa um sorriso convencido, olho de um para o outro, será que perdi alguma coisa? Sinto algo tocar minha cabeça, levanto os olhos e constato se tratar de Tim, estico a mão acariciando ele, o golem volta a levantar voo e sai por uma das janelas quebradas, o que aconteceu aqui?
— Yuu, nós fomos atacados? Olho novamente para o estado das janelas e me lembro-me. - Layla, Mãe, Lavi, Ba Ba, onde estão todos?
— Nós estamos bem, Fuyu-chan. Levanto os olhos, sorrindo para o bookman, que entra pela porta da frente. — E você? Parece que houve uma festa aqui.
— Vocês Ichinoses adoram quebrar coisas, não? Fala Mãe, visivelmente mal humorada, espera, como assim, eu que quebrei tudo, sinto meus olhos se arregalarem e volto-me para Kanda.
— Yuu… Ele não vai fugir de me explicar, né?
— Fuyu, como você está? Layla entra na casa, se ajoelhando e empurrando o general para o lado, para poder me olhar.
— Lala, é melhor não se ajoelhar, vai terminar se cortando. Minha amiga suspira aliviada e passa os braços em torno de mim, enterrando a cabeça em meu ombro.
— Você é tão descuidada. Rio, abraçando-a de volta, porém travo ao olhar para a porta.
— Allen-kun?! Imagino que meus olhos estejam do tamanho de pratos de sopa.
— Ah, você já me conhece. O albino parece estranhamente desconfortável, entretanto, se curva. — Eu me chamo Allen Walker, é um prazer conhecê-la.
— Ichinose Fuyuki, também é um prazer conhecê-lo. Digo, soltando Layla, me levanto e lhe estico a mão, Allen parece hesitar um instante, mas estica a mão e aperta a minha. — Você também Link.
Falo, lhe oferecendo um aperto de mão, ao que ele corresponde. Mãe e Ba Ba aparecem com vassouras, todos saímos do centro da sala para que eles possam limpá-la, Layla se oferece para ajudar, penso em fazer o mesmo, mas primeiro quero saber que história é essa de eu ter sido a responsável por isso, viro-me para Kanda.
— Vai me contar o que aconteceu Yuu? Engulo em seco, porém me forço a continuar. — Eu perdi o controle?
— Na verdade você se saiu muito bem. Arqueio uma sobrancelha, por que comigo ele sempre pega leve, eu destruí todos os objetos de vidro da sala, não sei o como se supõe que me sai bem, a menos que… — Você não precisa se preocupar com isso agora.
— E devo me preocupar com isso quando? Por sua expressão, nunca, mas me recuso a ficar sem saber, viro-me para Mãe, ela deve me contar a verdade. — O que aconteceu aqui Mãe, você disse que eu destruí tudo, como?
— É uma habilidade da inocência, você estava quase morrendo, então para se recuperar ela tomou o controle, curando seu corpo, daí a explosão de poder, mas parece que você recobrou a consciência rápido, parabéns.
Sinto minhas bochechas esquentarem, seu elogio é totalmente sincero, o que é algo muito chocante vindo dela, sorrio constrangida, pelo jeito eu me sai bem mesmo.
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