“Se você não está confuso, não está prestando atenção”

Lydia achava que sua vida poderia virar um livro ou filme, talvez acabasse escrevendo sobre isso. Ela havia saído antes de Cláudia voltar, teriam uma longa conversa quando voltasse para pegar Mia.

Deixou o café sobre a mesa e sorriu para o cliente, Kate exigia que ela estivesse sempre de bom humor, aquilo a matava. Quando tinha dezesseis anos sua mãe a colocou de castigo e tirou sua mesada, mas faltava apenas algumas semanas para o baile de primavera e ela ainda não tinha comprado seu vestido, Allison então lhe falou que podia arranjar um trabalho temporário para ela na cafeteira de Kate, claro que ela ficou apenas três dias antes de se cansar e fazer a maior cena ao se demitir, o que na época parecia uma ótima ideia, atualmente para Lydia era mais um motivo para Kate pegar no seu pé.

—Mantenha seu sorriso raio de sol, nosso clientes merecem o melhor. — Kate disse ajeitando os cupcakes na vitrine.

—Quantas filiais você já tem? — indagou enquanto ajeitava o suco e o prato de biscoitos na bandeja.

—Quatro, duas na cidade, uma em L.A e outra em Connecticut.

—Por que diabos você tem uma filial em Connecticut?

—Porque é um nome engraçadinho. — Kate disse, Lydia balançou a cabeça rindo.

Atendeu mais alguns clientes antes da pausa para o almoço, Abigail, a chef gourmet, havia preparado algo para ela, Lydia se sentou em um dos últimos bancos com um sanduíche no prato, não era assim que imaginava sua vida, se estivesse em Seattle estaria com Mia em algum restaurante comendo do bom e do melhor, não em uma lanchonete semi vegana com um sanduíche na mão.

—Isso parece estar delicioso. — levantou a cabeça encarando Stiles, ele sorriu para ela. — Posso me sentar? — assentiu mordendo o sanduíche. — Se for da Abby então você está comendo o melhor.

—Ela fez para mim.

—Kira me contou que está trabalhando aqui.

—Comecei ontem. — disse limpando a boca com o guardanapo.

—Eu nunca mais te vi depois do incidente na pizzaria.

—É, estou evitando voltar e cruzar com a sua esposa. — falou com um pouco de irritação na voz, isso não passou despercebido por Stiles.

—Minha mãe contou, não foi?

—Na verdade foi Erica, ela deixou escapar quando fui matricular Mia na escolinha.

—Então aquela garotinha é realmente sua filha.

Assentiu desconfortável, aquilo era o cúmulo do constrangimento.

—Amélia.

—Onde está o pai dela? — Stiles cruzou os braços sobre a mesa e se inclinou para frente.

—Foi coisa de uma noite só. — disse limpando as mãos no guardanapo e se levantando. — Não gosto de falar sobre isso. Agora com licença que eu tenho que voltar ao trabalho.

—Poderíamos jantar juntos e assim eu poderia conhecer Amélia.

—Vou jantar com minha mãe hoje. — disse torcendo para que ele pegasse a dica, Stiles assentiu.

—Talvez amanhã.

—Eu não sei, Stiles. Talvez.

Se afastou abrindo a porta para o banheiro, se apoiou na pia e respirou fundo. Aquilo estava uma merda.

***

—Precisamos conversar. — Cláudia disse, Lydia assentiu e se sentou na cadeira deixando a bolsa sobre a mesa. — Quem é o pai de Mia, Lydia?

—Foi um caso de uma noite só. — falou querendo encerrar aquele assunto. — Nem me lembro do rosto dele.

—Isso não parece ser verdade, porque posso ver em seus olhos que toda vez que olha para ela, se lembra dele. — mordeu o lábio desviando o olhar para suas unhas, o esmalte já descascava depois de quase duas semanas sem ir à um salão. — Eu disse que Mia se parecia muito com Stiles, mas não apenas na personalidade, e é verdade, não é?

—Como você sabia?

—Vocês nunca foram discretos, principalmente naquela noite, tive que recolher algumas roupas antes de Noah entrar. — Cláudia disse rindo. — Dois meses depois você voltou aqui, procurando Stiles, podia ver em seus olhos o quanto estava apreensiva e nervosa, passava a mão pela barriga e mordia o lábio. Fiquei um pouco preocupada quando saiu de carro sozinha, liguei para ele na manhã seguinte para perguntar se vocês haviam conversado, mas quem atendeu foi Malia.

—Eu procurei por ele, mas quando cheguei lá eu a encontrei, antes de ontem eu não a reconheci, mas pensando bem, faz sentido eu ter ficado com raiva dela. — falou cutucando o interior da unha com o indicador .

—Então você voltou na aniversario da Allison, passou mal e quase desmaiou, ficou meio óbvio. Mas eu não esperava isso de você.

—Entrei em pânico, queria ficar um tempo longe, mas...demorei demais e a barriga cresceu, voltar não parecia uma opção. Então eu fiquei lá. Stiles tinha uma vida pronta, uma carreira, colocar uma criança no meio não seria bom, não queria prende-lo a mim desta maneira, e sendo um pouco egoísta, eu também não queira desistir dos meus sonhos tendo que me mudar. — explicou sentindo os olhos arderem. — Eu não queria que isso acontecesse, Mia precisava de um pai, mas Stiles estava ficando cada vez mais longe.

—Agora você tem uma chance de corrigir isso. — Cláudia assegurou colocando sua mão sobre a dela. — Você vai contar a verdade para ele? — assentiu. — Que bom.

—Acho que ele vai me odiar.

—Estamos falando de Stiles, Lydia. É impossível ele te odiar.

Elas riram.

—Ainda tenho que ir na casa da minha mãe e explicar tudo, depois procurar um hotel para mim e Mia.

—Por que? Vocês vão ficar aqui.

—Cláudia não precisa.

—Lydia, eu passei cinco anos longe da minha neta, não me faça essa desfeita.

Assentiu sorrindo.

—Obrigada.

—De nada, agora me ajude com o jantar. Noah sempre chega com fome.

***

Lydia respirou fundo e levantou o dedo para apertar a campainha. Mia ao seu lado se remexia inquieta, ela não queria estar ali, queria estar na casa da “vovó” Cláudia, as duas haviam se apegado muito rapidamente. A porta se abriu e Natalie sorriu para elas.

—Pensei que havia se esquecido da minha existência. — ela disse abrindo espaço para elas entrarem. Mia entrou na frente agitada.

—Oi mãe. — falou se inclinando e beijando a bochecha dela. — Quanto tempo.

—Cinco anos, sete meses, duas semanas e um dia. — Natalie contou a abraçando, Lydia riu. — Aí minha filha, você não sabe o quanto eu sofre com a sua partida. Eu te amo tanto, Lydia, nunca mais faça isso comigo.

—Não se preocupe, não tenho mais condições financeiras para isso. — brincou a soltando. — Eu e Mia vamos ficar por aqui mesmo.

—Mia?

—Amélia. — disse chamando a filha com a mão, Mia se aproximou se agarrando em suas pernas. — Fadinha, essa é sua vó.

—Olá, meu amor. — Natalie colocou as mãos sobre o joelho e se inclinou para frente.

—Oi. — Mia sussurrou esticando a mão para ela apertar.

—Você é tão fofa.

—Eu sei. — a pequenina disse. — Mamãe sempre fala isso. Ela disse que eu sou um amor de pessoa quando não tento exaspera-la.

—Exaspera-la? — Natalie indagou confusa.

—Transformar algo em incomodação ou causar sensação irritante. — Mia explicou.

—Ela é um anjo caído. — disse. — Onde está seu namorado?

—Ele foi jantar com a filha. — sua mãe fechou a porta.

—Malia.

—É, Malia.

—Cláudia me contou a história. — falou, ainda era estranho chamar a senhora Stilinski pelo seu nome, mas ela havia insistido tanto nisso, que Lydia não via outra alternativa. — Fico feliz que Peter tenha criado vergonha na cara.

—Malia foi de ótima ajuda com isso.

—E agora você está namorando ele. — se sentou no sofá, Mia ao seu lado.

—Peter mudou, Lydia.

—Quero ver quanto. — murmurou.

—Mas por que você estava conversando com Cláudia? — Natalie indagou desconfiada, Lydia deu um sorriso amarelo.

—Nós encontramos no café da Kate. — mentiu.

—E por que não me procurou antes?

—As coisas estão bem confusas para o meu lado ultimamente. Você já deve ter ouvido falar da M.Corporation.

—Aquela que foi processada?

—É, eu meio que trabalhava lá. Aí fui demitida para o meu próprio bem, perdi meu apartamento e meu namorado idiota me traiu com uma amiga. — disse, Natalie sorriu com pena dela.

—Ah Lydia. — ela disse se sentando ao seu lado e a abraçando. — Como eu pude criar uma pessoa tão azarada.

—Eu que diga. — sussurrou.

—Eu o pai de Mia, ele não te ajudou?

—Papai não sabe que eu existo. — Mia disse ficando se joelhos no sofá para olha-las. Natalie soltou Lydia e a encarou descrente.

—Por favor não me diga uma coisa dessas.

—Foi um caso de uma noite só. — falou como se pedisse desculpa.

—Lydia! Eu te ensinei tudo sobre como se cuidar, sobre camisinha e anticoncepcional.

—Eu sei mãe, mas naquela noite tudo estava bastante confuso. Será que podemos conversar sobre isso com mais calma depois? Apenas quero ficar aqui com você e Mia. — disse puxando a filha para o seu colo, deitou a cabeça no ombro de sua mãe. Natalie suspirou se dando por vencida e começou mexer no cabelo de Lydia.

—Onde você está dormindo?

—Em hotel.

—Por que você não vem pra cá? Você pode ficar no seu antigo quarto.

—Eu e Mia estamos bem mamãe, não se preocupe. Além do mais, não quero atrapalhar você e o Peter.

Natalie riu.

—Peter mal fica aqui, venha pra cá, querida. — ela pediu. — Essa é sua casa.

Lydia ponderou e então perguntou a Mia.

—O que acha, fadinha?

—Mas eu quero ficar com a vovó Cláudia. — a pequena disse fazendo bico.

—Você pode vê-la quando quiser. — argumentou.

—Você promete? — Mia perguntou erguendo o dedo mindinho, Lydia sorriu e envolveu o dedo dela com o seu.

—Prometo. Agora vá lavar as mãos para jantarmos.

Mia pulou do sofá correndo para a cozinha. Lydia sentou ajeitando o cabelo, Natalie arranhou a garganta chamando sua atenção.

—Sim?

—Vovó Cláudia? — ela perguntou com a sobrancelha arqueada.

—Te explico mais tarde.

—Nananina não. Você vai me explicar agora. — sua mãe exigiu, respirou fundo.

—Por favor mamãe, posso lhe contar a história, mas quando Mia dormir, não quero que ela ouça mais do que deve, tenho que prepara-la.

—Preparar para que?

—Para quando ela conhecer o pai dela. — disse. Natalie abriu a boca um pouco surpresa. Mia voltou correndo e segurou a barra do seu vestido o encharcando. — Mia!

—A toalha estava muito alto, mamãe. — ela falou piscando os olhos, Lydia suspirou.

—Um dia eu ainda te coloco para a adoção. — ameaçou, Mia riu acalmando seu coração que batia acelerado, ela tinha o riso de Stiles.