“Tudo leva mais tempo do que todo o tempo que você tem disponível.”

Ela havia levado dois dias para contar a verdade para sua mãe, três dias para convencer Noah, Cláudia e sua própria mãe a não contar nada a Stiles antes dela, quatro dias para tentar criar coragem e memorizar o caminho da casa dele, passava de carro quase todo dia por lá, e cinco dias para finalmente perceber que não teria coragem de contar a verdade para ele. Não era tão simples quanto sua mãe dizia, nem tão complexo quanto estava em sua cabeça. Apenas deveria contar a ele, mas toda vez que imaginava a cara de Stiles ao saber daquilo, o fato dele ter uma filha de quase seis anos e nunca ter tido o prazer de pega-la no colo ou coloca-la para dormir, o conhecia muito bem para saber que a primeira reação dele seria ficar com raiva e evita-la a todo custo.

Stiles era seu amigo desde do primeiro ano, ele tinha uma queda por ela desde de o terceiro, quando ainda eram crianças, mas ele o ignorava ou fingia não saber de sua existência, porque Stiles nunca foi muito invisível, todos naquela escola o conheciam, todos sabiam quem ele era. O atrapalhando Stiles Stilinski.

Ela se lembrava da primeira vez que eles conversaram, culpa de Allison e um trabalho de biologia. Nunca havia riso tanto como naquele dia, Stiles sempre a fazia rir, sempre.

Mas depois de um tempo as coisas começaram a mudar, principalmente depois do baile de inverno em que ela pegou Jackson, que era seu atual namorado na época, se agarrando com Victor, um integrante do time de lacrosse, na sala do treinador. Ela nunca esqueceria aquele momento, havia chorado a noite toda no ombro de Stiles, tinha manchado a blusa dele. Eles riram muito depois disso.

—Terra para Lydia Martin. — piscou os olhos balançando a cabeça, Kate parou de estalar os dedos a frente de seu rosto. — Onde você estava?

Longe. — murmurou antes de pegar a flanela e limpar o balcão.

Vá atender as mesas, clientes chegaram. — Kate disse empurrando o cardápio contra seu peito. Lydia bufou e ergueu um a parte do balcão para passar. — Ali.

Lydia seguiu com os olhos para onde Kate apontava, em uma das últimas mesas estava sentada a última pessoa que ela pensava encontrar ali.

Você está brincando comigo, né?

Anda, Lydia. Cliente é cliente.

Respirando fundo ela colocou um sorriso no rosto e caminhou até a mesa.

Bom dia em que posso ajuda-la? — indagou deixando o cardápio sobre a mesa.

Não sabia que estava servindo aqui. — Malia disse cruzando os braços sobre a mesa.

Algo me diz que você realmente está feliz em me ver desse jeito, Malia. — forçou um sorriso pegando o bloco e caneta.

Por que acha isso? Mal nos conhecemos, né?

Riu ironicamente enquanto tirava o bocal da caneta. Claro que Malia se lembrava.

—O que você quer?

Um café sem açúcar.

Anotou no bloco e assentiu.

—Já eu trago. — se virou indo até o balcão e pedindo para Julia, sua companheira de trabalho, preparar o mais forte que puder. Olhou para Malia que acenou para ela cinicamente, aquela mulher estava lhe dando nos nervos.

Boa sorte. — Julia sussurrou.

Vou precisar mesmo.

Voltou para a mesa deixando a xícara à frente de Malia.

Agora eu quero biscoitos. — ela disse.

—Por que você não pediu quando eu fui?

—Me deu vontade agora. — Malia franziu o nariz e riu.

Você é uma vadia, sabia? — disse ainda mantendo o sorriso.

Lydia, sabe o que eu estava me lembrando? — Malia indagou batendo o dedo no queixo. — Do dia em que você foi procurar Stiles.

—E você abriu a porta pra mim apenas com uma camisa dele. — Lydia disse colocando as mãos sobre a mesa. — Por que está fazendo isso?

—Foi naquele dia que eu percebi que nunca seria a única para ele, foi quando percebe que nunca poderia competir com a grandiosa e esplendorosa Lydia Martin.

—E daí? Você está casada com ele. Stiles está com você. — disse. — Não deveria se preocupar comigo.

—Não se faça de santa, sei muito bem o que você está tramando.

Lydia bufou.

—Você está louca. Por acaso não tomou seus remédios hoje?

—Não é da sua conta. — Malia disse movendo a mão sobre a mesa e derrubando o café. — Opa.

—Você só pode estar de brincadeira. — murmurou e a encarou. — Sério, você tem problemas.

—Fica longe do Stiles.

—Ou o que? — indagou com a sobrancelha arqueada. — Você não me assusta, Malia.

—Então você não me conhece.

—Não mesmo. — deu as costas para ela e se afastou. Não era paga para aguentar frescura de mulher insegura. — Kate, vou tirar o resto do dia de folga. — disse jogando o avental sobre o balcão.

—Você só trabalha aqui a poucos dias. Vou demitir você. — Kate brandou, Lydia a ignorou e saiu pela porta.

***

—Você vai acabar sendo demitida. — Cláudia disse lhe servindo uma xícara de chá.

—Kate não faria isso comigo. — falou. — Eu precisava de ar fresco ou acabaria estrangulando ela.

—Kate?

—Não, Malia. — Cláudia a olhou surpresa. — Ela foi até lá, começou a falar um monte de merda e jogou café na mesa.

—Ah, acho que ela não tomou o remédio hoje.

—E ela toma remédio mesmo? — indagou tomando um gole do chá.

—Malia tem transtorno maníaco-depressivo. — ela disse.

—Ela é bipolar. — Cláudia assentiu. — OK, isso explica muita coisa, principalmente a mudança repentina e agressividade.

—Stiles tenta ajudar, mas Malia às vezes dá um passo para trás.

—Odeio o fato dele ser altruísta. — murmurou, ela riu. — Malia parece ser impossível.

—Por vezes.

—Ela se lembra quando eu fui lá, atrás dele. Acha que ela contou pro Stiles?

—Se tivesse, meu filho já estaria louca atrás de você.

—Por que acha isso? — indagou deixando a xícara na mesa.

—Lydia, Stiles trabalha para o FBI, você acha mesmo que ele ainda não ligou os pontos? — Cláudia perguntou, Lydia engoliu seco. — Para mim foi mais fácil perceber, pois eu me lembro daquela noite. Quando Malia contar a Stiles que você o procurou, vai começar a notar.

—Mas eu posso adiar isso.

—Como?

—Mia, apenas tenho que deixa-la longe dele até conseguir contar a verdade. — disse.

—Bem, acho que isso vai ser um pouco difícil agora.

—Por que? — indagou confusa, Cláudia prensou os lábios e olhou para a xícara em suas mãos.

—Estava passando em frente a escolinha de Mia hoje de manhã e vi Stiles deixando Benny, ele encarava Amélia fixamente, até Natalie notou pois rapidamente a levou para dentro.

Lydia piscou atordoada, deixou uma exclamação sair de seus lábios. Cláudia segurou sua mão.

—Será que ele sabe? — indagou meio nervosa.

—Stiles só viu Mia uma vez na pizzaria, não é? — assentiu.

—Eles não trocaram uma palavra na ocasião, então nunca mais vi ele a viu. Mas, mesmo assim, a única coisa que ele precisa é da idade dela, você mesma disse, Stiles não é burro.

—Lydia, liga para ele, chame-o para cá, conversem. — Cláudia aconselhou. — Acabe logo com isso.

***

Ela apertou as unhas contra a palma da mão enquanto andava de um lado para outro da sala. Cláudia havia ido pegar Mia na escola e traze-la de volta para a casa, ela também havia ligado para Stiles e pedido para que o filho viesse o mais rápido possível. Lydia esperava ansiosa que a porta se abrisse e ele entrasse com aquele sorriso de sempre, seu coração batia acelerado sabendo que logo teria que contar a verdade.

As batidas na porta a despertaram, inspirou pelo nariz e expirou pela boca a antes de atravessar a sala e abrir a porta.

—Ei. — Stiles a olhou surpreso. — O que faz aqui?

—Precisamos conversar. — disse se afastando para deixá-lo entrar.

—Onde está minha mãe? Ele me ligou pedindo para vir pra cá o mais rápido possível.

—Fui eu quem pedi para ela ligar.

Stiles parou a sua frente com as mãos no bolso da calça.

—O que houve?

—Precisamos conversar. — repetiu cutucando o interior da unha.

—Sobre?

—Não se faça de bobo, Stiles. Sei que você já sabe. — disse tentando manter o resto de coragem que tinha. Ele cruzou os braços a encarando com o rosto sério.

—Por que não me contou antes?

—Você tem uma carreira, um vida. Não queria atrapalhar.

—Atrapalhar?! Lydia! Ela é minha filha e você escondeu isso durante todos esses anos! — ele gritou, ela já havia se preparado para a raiva dele, mas uma coisa era pensar sobre isso e outra bem diferente era sentir como ela sentia naquele momento. — Por que você não me procurou?

—Eu te procurei sim, mas fui recebida por Malia. — disse. — Eu me lembro exatamente o que ela falou, nem perguntou quem eu era, apenas me mandou cair fora e não voltar mais, nem tive tempo de perguntar por você, ela bateu a porta na minha cara. Tentei te encontrar algumas vezes depois, mas você sempre estava com uma garota diferente, achei melhor não atrapalhar.

—Lydia, você escondeu minha filha durante esses últimos anos, você nunca me contou da existência dela, eu perdi tudo e agora quero apenas entender o por quê?

—Stiles sua vida está completa, você tem uma esposa, um enteado, um carreira, você não precisava da gente te atrapalhando, eu te conheço muito bem para saber que você largaria tudo para vir atrás de mim.

—Exato!

—Não podia deixar você acabar com sua carreira assim.

—Mas era minha responsabilidade também. Eu deveria cuidar das duas. Você foi egoísta.

—Eu sei! E sinto muito, pensei que estava fazendo o melhor para nós. — disse tentando não chorar. — Mas agora percebo que não estava.

—Com certeza não estava. Ela é minha filha.

—Eu sei, eu sei. Você pode me odiar, Stiles, não me importo, mas dê uma chance para ela, Mia merece você mais do qualquer um. Ela é como você, Stiles, ela tem o sorriso doce e olhar sonhador. Foi um erro. Tudo isso. — Lydia sentia seu estômago apertar, como se estivesse preste a vomitar. Aquela nunca havia sido um sensação muito boa. Buscou a primeira cadeira que viu se se sentou.

—Eu não vou negar Mia, se é isso que você acha que eu faria, então não me conhece direito, Lydia. — Stiles passou a mão pelo cabelo, ela abaixou a cabeça. — Onde ela está?

—Sua mãe foi pega-la na escola.

—Minha mãe sabe? — ele indagou, ela assentiu. — Claro que ela sabe. Quem mais sabe?

—Minha mãe e seu pai, mas eles só descobriram agora, porque eu contei, mas pedi para eles não contarem nada para você. — explicou rapidamente, não queria que Stiles ficasse com raiva deles. O barulho do carro chamou a atenção deles, Lydia se levantou. — Deve ser ela, espere aqui por favor.

Stiles assentiu, ela caminhou até a porta e saiu de casa.

—Mamãe! — Mia gritou correndo em sua direção, Lydia se agachou para receber o Abraço dela. — Por que vovó Cláudia foi me pegar hoje? Não era pra ser a vovó Natalie?

—Sabe quando eu disse que as nossas vidas eram aqui agora? — acariciou o cabelo de Mia, a pequenina assentiu. — Fadinha, vamos começar uma vida nova aqui, então você vai ter que se acostumar com muitas coisas novas.

—Tipo o que?

—Tipo suas avós, seu avô, seu pai.

—Meu papai? — Mia indagou confusa. — Você nunca falou do meu papai, mamãe.

—Bem, agora vou falar. Agora eu tenho. Eu conversei com ele hoje e falei sobre você, seu pai está muito ansioso para conhecer você.

—Ele tá? — ela questionou, seu olhinhos brilhavam com esperança.

—Claro, ele está lá dentro, quer conhecer ele?

Mia assentiu sem conseguir falar nada, Lydia se levantou a pegando pela mão, olhou por cima do ombro, Cláudia lhe lançou um sorriso de apoio.

Stiles estava nervoso, torcia as mãos mexia na bainha da camisa, sorriu meio melancólica, as lembranças rodavam em sua mente. Limpou a garganta chamando a atenção dele, Stiles olhou para Mia, seus olhos brilhavam e ele não conseguia conter o sorriso em seu rosto, era óbvio que ele estava ansioso para conhecê-la melhor, entretanto, Mia não parecia compartilhar tamanha animação, ela se prendeu as pernas de Lydia e escondeu o rosto um tanto envergonhada. Stiles se agachou a frente dela.

—Ei bonequinha, meu nome é Stiles, você é a Mia, não é? — ele indagou o que foi suficiente para fazer Mia soltar as suas pernas e correr escada acima.

—Ela não faz isso normalmente. — Lydia disse como se fosse um pedido de desculpas. — Espere aqui, vou falar com ela.

Subiu a escada, algo estava errado, aquela nunca seria a reação normal de sua filha.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.