Notas iniciais
Adorei esse conto =3 nos vemos lá embaixo.

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Roupa da Selena

Paris é sempre uma boa ideia, já dizia Audrey Hepburn, uma de suas mais célebres celebridades favoritas. Sentada sob o toldo de uma charmosa cafeteria às margens do Sena, Selena admirava o pôr-do-sol cor-de-rosa tingindo o céu ensolarado de uma primavera em Paris. O chocolate quente disposto à sua frente ameaçava esfriar com considerável rapidez devido à brisa gelada no fim do dia, e a pele arrepiada de Selena clamava por um casaquinho. Mas ela se recusava a voltar para o hotel sem registrar cada segundo em fotografia.

Enquanto fotografava os últimos raios do sol perpassando os buraquinhos da construção da torre Eiffel (que era otimamente vista de onde se estava), a brisa parou de súbito e Selena pôde ouvir um lápis riscando sobre papel, alto e claro.

Por algum motivo, o som lhe significou alguma coisa. Uma rápida olhada em volta revelou a posição de um rapaz, quase um menino, rabiscando alguma coisa em um caderno surrado, de onde já escapavam muitos papéis soltos enfiados entre as folhas. Selena o encarou durante algum tempo, até que seus olhares se encontraram. Ela ruborizou, mas o rapaz sorriu. Surpresa, ela instintivamente sorriu de volta. O rapaz se levantou e caminhou até ela, puxando uma cadeira ao seu lado.

– A boa educação manda perguntar se o lugar está vago primeiro – ralhou ela em um francês improvisado, dotado de um forte sotaque americano.

– A observação revela que, devido do longo tempo no qual você se encontra sentada aí, ninguém está ocupando lugar nenhum à sua volta – replicou o rapaz, com um forte sotaque nativo, um sorriso espoleta e uma autoconfiança sensível. – Justin. E você é americana. – Não era uma pergunta. Mesmo se fosse, seria num tom muito impertinente. Aquilo fez o sangue de Selena ferver.

– Algum problema com isso? – perguntou, alterada. Justin riu.

– Não, claro que não. Só acho uma pena que vocês, americanas, nunca tenham provado do sabor francês. – ele se inclinou e encostou os lábios em seu ouvido. – Não é só a culinária daqui que é famosa por seu sabor.

Selena se afastou, dividida entre enojada e seduzida. Aquele garotinho francês impertinente e audacioso, abordando ela daquele modo ultrajante num lugar público, e insinuando obscenidades com tanta intimidade! Os garotos do Texas certamente não tinham aquele charme... Apesar de estar profundamente derretida por um lado, ela manteve a pose. Não ia ser mais um troféu daquele menininho francês.

– Cuidado com o que diz, as meninas americanas também sabem ser rudes – rebateu, afastando o rosto dele, que pareceu meio desapontado.

– De onde você é, chérie?

– Texas – respondeu Selena, com orgulho e babando por aquele tão bem pronunciado chérie.

Justin soltou um som, algo entre um pigarro e um suspiro com um forte sotaque parisiense, meio que um pfuit!.

– Caminhões, motosserras, fazendas e fazendeiros sem camisa? Não, obrigado – zombou ele.

– Acho que você está pensando no Tennessee – replicou ela rudemente. – Nós, no Texas, somos extremamente civilizados, se quer saber.

– Não quero – rebateu Justin, puxando a cadeira para mais perto de Selena. Ela recuou. – Quero saber seu nome, chérie.

– Por quê? – contestou ela. – Gosta de anotar suas conquistas pessoais em um caderninho secreto ou sei lá o quê?

– Não – disse ele calmamente. – Apenas gosto de dar aos meus desenhos legendas adequadas. – ele empurrou o caderno onde estivera rabiscando. Eternizado em grafite, estava um retrato de Selena, o mais lindo que ela já vira. Claro que a única vez que haviam feito um retrato dela fora durante as aulas de artes do nono ano, quando eles estavam aprendendo a desenhar caricaturas e o infame Kurt Schloburg a retratara com uma boca enorme demais e basicamente só peitos, mas aquilo estava lindo. Justin era um prodígio como desenhista.

– É lindo – deixou escapar. Um sorriso de satisfação curvou os lábios de Justin.

– É o modelo que usei – ele explicou neutramente. Selena levantou os olhos do desenho e o encarou sorridente. – O que acha de me dar uma chance agora, menina do Texas?

Selena pesou a ideia. Por um lado, ele era um garotinho muito do arrogante, com aquela pose de garanhão e a certeza de que tinha passe livre para todas as camas do sexo oposto no mundo inteiro. Por outro lado, ele tinha aquele sotaque francês delicioso, um dom natural para o desenho, e ela não poderia voltar para os Estados Unidos sem um peguete francês do qual se gabar. Ele seria para ela o que ela certamente seria para ela, uma noite de entretenimento em Paris.

– Claro. Começamos daqui. Sou Selena Gomez. – disse ela estendendo a mão. Um sorriso estampou o rosto de Justin, que segurou a mão de Selena e a puxou para um beijo no rosto, mais para amante do que para amiguinho.

– Justin Bieber – sussurrou ele em seu ouvido, fazendo os joelhos de Selena virarem manteiga. – E seu chocolate está gelado.

Era verdade, mas Selena não se importou muito. Guardou sua câmera de volta em sua bolsa e meteu uma nota entre os dedos da garçonete, que observava ranzinza a movimentação ali fora.

– Vamos, chérie – chamou Justin. – Não há nada como conhecer Paris pelos olhos de um nativo!

De fato, não havia. A jornada parisiense de Selena e Justin começara no topo da torre Eiffel, inventando histórias loucas sobre as pessoas minúsculas que passavam lá embaixo e caindo na gargalhada quando a encontravam em chão. Os dois trocaram sussurros e beijos enquanto o elevador descia, fazendo gestos obscenos para a câmera de segurança. Coisa de adolescente.

Visitaram o Arco do Triunfo, outro patrimônio que Selena já havia visitado, e tiraram fotos juntos e pregaram peças nos passantes. Caminharam, rindo como loucos, de mãos dadas até uma praça, onde caíram em grama mesmo e ficaram a observar estrelas, que podiam ser contadas até mesmo com todo o brilho ofuscante da Cidade de Luz.

– Chérie – chamou Justin, que insistia em não chamá-la pelo nome. Provavelmente era assim com todas as garotas que ele seduzia, mas Selena estava aturdida demais para se importar.

– Hum? – fez ela, deitando a cabeça para o lado, a fim de vê-lo. Ele lhe plantou um beijo na testa e ela encolheu os ombros. Justin aproximou-se, encostando seus lábios em seu ouvido.

– Vamos fazer alguma bagunça no meu sótão – disse ele, ao mesmo tempo inocente, como se tivessem oito anos e ele estivesse sugerindo aquilo ao pé da letra, mas ao mesmo tempo pervertido e cheio de segundas intenções.

Àquela altura, se Justin sugerisse que ela comesse vidro moído, Selena aceitaria sem pestanejar. Em plena consciência de que não significaria nada para nenhum dos dois, ela o seguiu até seu, literalmente, sótão em cima de uma casa abandonada – pelo menos era o que aparentava.

Um sofá desgastado jazia em um canto, coberto de poeira. Um colchão velho, porém extremamente amaciado, estava coberto com lençóis bagunçados. O luar banhava o pequeno espaço, onde mal conseguiam ficar de pé. Não havia mais móveis, mas a casa lá embaixo estava mobiliada com o necessário.

– Por que você vive aqui? – perguntou Selena, estranhando o fato de o rapaz ter uma casa só dele e escolher morar num sótão. Justin deu de ombros.

– Sou parisiense, tenho um fetiche por sótãos. É muito mais inspirador, não acha? – ele caminhou meio curvado até um canto do cômodo, cuja parede estava coberta com uma grossa cortina de veludo. – Além do mais, tenho esse bônus espetacular.

Ele puxou a cortina, revelando que a quarta parede era feita de vidro. A vista era simplesmente deslumbrante. O rio Sena correndo à esquerda, a torre Eiffel iluminada à direita, o Arco do Triunfo mais distante, o Louvre ali atrás, todos os monumentos mais conhecidos da França dispostos em uma única paisagem, onde o céu negro da noite ficava quase dourado com o reflexo de Paris, a Cidade de Luz.

Selena passou alguns longos minutos encarando boquiaberta a paisagem, deslumbrada. Era lindo, era uma visão totalmente diferente do que tivera de Paris até agora... Era um novo mundo se abrindo naquele sótão empoeirado daquele garotinho impertinente.

– É lindo – arfou Selena, ao recuperar o fôlego. – Mas você deve ter alguns problemas de privacidade por aqui.

– Nah, banal demais. Durmo com a cortina puxada, só abro quando necessito mesmo. Quase que o tempo todo – ele riu. – Além do mais, seria muito egoísta negar ao mundo isto.

Os únicos detalhes que posso fornecer, devido aos leitores mais puros e castos, é que Justin estava nu e que Selena concordava plenamente com sua afirmação.

Naquele colchão amaciado, naquele sótão empoeirado, com aquelas cortinas grossas de veludo caídas ao chão, com aquele luar a banhar as curvas tentadoras de Selena, naquela Cidade de Luz, um novo mundo se abriu para os dois jovens.

O sol já estava alto quando Selena foi acordada pelos raios fortes do sol esquentando seu rosto. Esfregou os olhos e percebeu que o dono da casa já não mais jazia ao seu lado. Ao se lembrar da noite anterior, um misto de vergonha e uma deliciosa sensação de prazer percorreu seu corpo como correntes elétricas. Um conjunto de roupas limpas estava dobrado no sofá, com um bilhete de Justin, em sua caligrafia caprichosa, combinando com o estilo do desenho da noite anterior.

Vista, mando suas roupas para o hotel depois.

Selena obedeceu. As roupas consistiam apenas um par de calças de moletom masculinas cinzas, uma camiseta branca masculina simples e um par de chinelos grandes demais para seu número. Desceu as escadas sofregamente, com o barulho de seus pés arrastando na escada caracol competindo com o estalido conhecido de alguma coisa sendo frita na cozinha. Justin estava preparando bolinhos fritos, cobertos com açúcar e recheados com chocolate para o café da manhã. O cheiro adocicado provocou um arrepio na nuca de Selena.

– Bom-dia – ela cumprimentou-o encostada na porta, curtindo o estalido da frigideira e o cheiro de chocolate e óleo.

– Bonjour, chérie – Justin se afastou do fogão, aproximando-se para plantar-lhe um beijo na testa. Selena sorriu, e foi respondida com outro sorriso.

– Preparei alguns bolinhos pra gente – ele anunciou. – Nem sei qual o nome, mas eu criei quando estava entediado. Misturei um monte de coisas em uma tigela, fritei, porque qualquer coisa frita fica deliciosa, coloquei chocolate, porque qualquer coisa com chocolate fica deliciosa, e voila!, uma obra-prima culinária.

Selena apanhou uma das bolinhas fritas dispostas em uma tigelinha de plástico e deu uma mordida. O chocolate derretido explodiu em sua boca, depois de arrancada a fina camada de massa frita.

– Delicioso e prático – elogiou ela. – Igualzinho ao criador.

Justin deu um largo sorriso, apanhando uma bolinha para si.

– O que vamos fazer hoje?

Depois de muito tempo sem pensar em nada, os dois simplesmente entraram em um táxi e disseram ao motorista que caminhasse sem rumo por Paris. Tiraram fotos no banco de trás, se agarraram um pouco, para o constrangimento do taxista, e pararam em um café mais distante do centro, onde almoçaram.

Depois disso, caminharam por bifurcações intermináveis de cafés, lojas de antiguidades, de quinquilharias, de artesanato, até que, aleatoriamente, foram para em frente ao hotel onde Selena estava hospedada. Coincidentemente, as amigas da faculdade de fotografia com quem Selena viera estavam em frente ao hotel, desesperadas com o sumiço repentino da amiga. Selena tranqüilizou Leighton e Katie, apresentou-lhes Justin, e subitamente tudo estava explicado.

Dias depois, Selena não ouvira mais falar de Justin depois do segundo dia. Era esperado e ela já havia se preparado psicologicamente para aquilo, então não fora uma decepção e aquilo não estragara suas férias. No resto dos dias, passeara com Leighton Meester e Katie Cassidy, suas amigas da faculdade, tirando fotos de tudo e todos, captando cada momento daquela viagem mágica.

Enquanto estava arrumando suas malas para fazer o check-out do hotel, uma leve batida na porta foi ouvida. O porteiro, constrangido, anunciou que havia chegado uma última carta, entregue por um rapazinho que logo saíra, afobado. Selena agradeceu com um sorriso e deu-lhe uma polpuda gorjeta. O porteiro agradeceu e saiu.

Dentro do envelope pardo, sem assinatura, estavam dois papéis somente. Um, um rascunho de um lindo desenho de uma moça bonita, sobre as linhas de caderno. Por algum motivo, Selena sabia que aquele desenho fora feito por um rapazinho impertinente, em um café, ao pôr-do-sol, sob o Sena. E sabia também quem era a moça bonita retratada no desenho.

O outro, uma fotografia de um casal no banco de trás de um táxi. O rapaz plantava um beijo na bochecha da moça, que parecia feliz, fazendo um bico para a câmera que segurava. Na lateral da foto, um recado, em uma letra caprichosa de prodígio do desenho:

Para le petit cherie Selena

No outro extremo da fotografia, uma assinatura:

Justin


Sem vírgulas, reticências ou ponto final. Como uma história que nunca termina.

E já dizia Audrey Hepburn, “Paris é sempre uma ótima ideia!”

Notas finais
Gostaram? Odiaram? Deixem reviews, meus amores! Nhac =3