The World
2 New York.
Notas iniciais
A neve suja de Manhattan cobria todas as superfícies lisas no Central Park, todo iluminado naquela época festiva, como uma Via Láctea em uma das maiores metrópoles do mundo. O símbolo vermelho e gorducho, de barbas brancas, cercava Times Square como se abraçasse toda aquela multidão alvoroçada com o espírito natalino. Canções das maiores sensações da música reboavam no ar, os hits especiais natalinos para estimular ainda mais aquela atmosfera esperançosa e acolhedora. Não havia nada como New York no Natal.
Um das dezenas de papais noéis propagandativos tocou uma sineta para Taylor, convidando-a, seduzindo-a com a promoções de feriado. Ela gentilmente ignorou as ofertas, passando direto pelo bombardeio de preços promocionais até encontrar um lugar calmo num banco vazio no Central Park. Estava tudo coberto de neve, de alegria e esperanças. As crianças brincavam umas com as outras, com seus pais, com seus animais de estimação, fazendo a fumaça branca escapar durante suas risadas e resfôlegos devido à afobação. No gigantesco rinque de patinação, famílias inteiras divertiam-se com tombos e acrobacias, casais apaixonados ajudavam um ao outro a se equilibrar, trocando beijos e olhares afetivos. Um suspiro escapou pelos lábios de Taylor, fazendo a fumacinha branca rodopiar ao redor de seu gorro estampado brega.
Estava um frio de matar ali fora. O Natal normalmente era sua época preferida do ano. Ela adorava aquele feriado, aquela atmosfera brega de esperança e fraternidade, uma união anormal que parecia unir o mundo todo em um único brado de alegria pelo que fosse – o nascimento de Jesus Cristo, a chegada do papai Noel, ou simplesmente o clima afetivo da época.
Mas faziam apenas alguns dias desde que, no seu aniversário, Joe lhe viera com um suplicante pedido de desculpas, que fora impossível de ser recusado pela gentil e apaixonada Taylor. Que erro terrível. Poucos dias depois da volta do casal apaixonado, ela voltou da temporada em Aspen, com sua imunidade ao frio (pelo que aparentavam o comprimento de suas roupas) e charme irredutível, e bang!, Taylor estava sozinha novamente no seu feriado favorito.
E ela não podia chamar aquilo de Natal sem alguém pelo qual sorrir.
Obrigada a sair de seu último recanto naquele Natal solitário por conta de um mendigo mal aparentado que estava sorridente demais pro gosto dela, Taylor caminhou sem razão entre as famílias felizes, casais felizes, pessoas felizes em geral. Caminhou até a Broadway, onde esperava que o burburinho alto e a multidão afastassem junto seus pensamentos solitários.
E, aparentemente, alguém tivera a mesma ideia, pois em um pequeno espaço de tempo Taylor avistou um rosto conhecido na multidão.
Meio incerta, abriu espaço por entre as pessoas e suas sacolas (ou seriam as sacolas e suas pessoas?) até chegar ao olhar solitário, conseguindo uma confirmação como um motivo para sorrir.
– Adam! – ele levantou o olhar, encarando os olhos azuis brilhantes de Taylor, ocultos pela sombra de seu gorro brega. – Há quanto tempo!
Tempo mesmo, pensou Taylor. Não via seu antigo parceiro de laboratório desde a formatura, quando entrou para a NYU (New York University) com Joe. Adam mudara um bocado desde aquela época: seus braços, antes da finura do pulso da loira, tinham impressionantes músculos projetando-se mesmo por baixo das grossas camadas de casacos. Seu rosto exibia um resultado de uma barba recém-feita, como se ele tivesse saído da casa há pouco tempo. Seus cabelos estavam mais curtos, mas não tanto. Pelo menos não caíam por cima dos olhos, como no tempo do colegial. Seu rosto estava também mais adulto, como se tivesse amadurecido muito naqueles dois anos.
Apenas os olhos continuavam intactos. Eram brincalhões, talvez meio tímidos e misteriosos, mas atrativos e românticos... Uma deliciosa mistura da essência da personalidade de Adam. Taylor se lembrava dele com carinho. Seu parceiro nerd de laboratório, colega no clube de culinária, frequentador assíduo da sessão de poesia da biblioteca. Flashes rápidos rodopiaram na cabeça confusa da loira.
– Taylor? – chamou Adam, meio incerto. Seus lábios se curvaram em um sorriso. – Nossa, quanto tempo! Você... está diferente.
Você também, ela sentiu vontade de replicar, mas se conteve. O desajeitado e trapalhão Adam Young estava quase gostoso agora.
– Acho que sim – suspirou Taylor, sentando-se ao lado dele. Estavam na calçada de uma loja de doces, em cadeiras antigas de ferro retorcido. Aparentemente, não eram consumidores, pois não havia nada na frente de Adam.
– Seus cabelos... Fico feliz que tenha assumido os cachos – o sorriso tímido dele ampliou-se, quase irradiando um brilho sobre o cabelo dourado de Taylor. Instintivamente, os dedos dela procuraram a massa de espirais loiros que caía sobre suas costas.
– Ah, sim. Acho que foi melhor assim – ela suspirou. – E você, como vai a vida?
Ele deu de ombros.
– Dei um ano antes da faculdade, para viajar pelo mundo. Vou começar em Yale no outono. Então vim passar meus últimos meses com a família, aqui em New York.
– Sério? – indagou Taylor, maravilhada. – Me conte tudo! Para onde foi?
O entusiasmo dela fez as bochechas de Adam corar. Taylor se lembrava disso, de como as bochechas dele ruborizavam por qualquer coisa. Era uma gracinha, até hoje.
Adam relatou, brevemente, mas poeticamente, sua passagem pela Ásia e Europa. Japão, Índia, China, Egito, Rússia, França, Itália, Bali, Bahamas, Maldivas, Inglaterra, incontáveis culturas, histórias e povos diferentes, uma diversidade inimaginável de tudo o que você podia imaginar pertencer a certo lugar.
Vieram pratos com muita sorte de doces, e logo se foram, junto com uma graúda nota de Adam, que insistiu em pagar pela conta. Ao fim da narrativa, ele precisou de mais algum dinheiro para comprar uma garrafa de água, pois estava quase sem ar.
– E você, o que tem feito? – perguntou gentilmente a Taylor.
Ela refletiu um instante.
– Entrei para NYU com Joe, estou cursando pedagogia.
– Uau, parabéns! – ele parecia genuinamente animado pela antiga parceira de laboratório. – E Joe, como está?
Engraçado Adam perguntar isso. Ele e Joe nunca se deram. Era sabido e confirmado que Adam sempre tivera uma paixão platônica pela linda e loira Taylor Swift, namorada do cara mais popular da escola, mas ainda assim gentil com a classe proletária, com a plebe do colégio.
Gentil com Adam.
– Na verdade, eu não sei – ela pousou o garfo, de onde estava lambendo os últimos resquícios da cobertura de chocolate de sua bomba, no prato sujo. – Terminamos algumas semanas atrás. Lembra de Camilla Belle? Ela voltou de Aspen para pegar o que lhe era de direito.
A expressão entusiasmada de Adam transitou para uma de desolada.
– Sinto muito – ele disse, dando um sorriso de consolação. – Está sozinha no feriado?
Taylor assentiu, voltando a encarar a multidão alegre nas ruas e demonstrando claramente sua insatisfação em ter que falar sobre aquilo.
– Acho que somos dois – ele sorriu tristemente. – Minha família está em Chicago, visitando minha avó. Eu queria ter ido também, mas não podia deixar Kat sozinha no apartamento.
Taylor franziu o cenho. Até Adam tinha alguém com quem ficar no Natal, e não ela?
– Quem é Kat? Sua noiva?
– Eh? – Adam pareceu surpreso. – Não, não. – deu uma risada. – Katea é minha cadela. Uma husky siberiano que eu fui louco ao transportar para um apartamento. Mas tem em bom espaço pra ela por lá. O apartamento é bem grande, então eu não me sinto tão sozinho. – Adam baixou a cabeça. – Minha noiva morreu, na verdade. Acidente de trânsito. Um motorista bêbado bateu com nosso táxi em Paris. Eu e o taxista saímos com vida, mas foi ela quem recebeu todo o impacto.
Taylor ficou chocada.
– Sinto muito – ela apressou-se em consolá-lo. – Eu não fazia ideia.
Ele riu, dividido entre a amargura e a gentileza.
– Nem teria como. Não nós vemos há dois anos.
Taylor assentiu mudamente. Não havia como falar de sua decepção com Joe depois dessa declaração de Adam.
– A nevasca está aumentando, acho melhor corrermos. – comentou Adam neutramente.
De fato estava. As pessoas na ruas, antes lerdas no passo e audíveis na conversa, dispersavam-se pelas ruas, evitando pegar o pior da tempestade de neve, que ficava mais intensa a cada minuto.
– Oh, não – murmurou Taylor, enquanto corria para dentro de uma loja para escapar da neve. – Eu tinha que pegar o metrô até em casa.
– É muito longe?
– Temo que sim.
Adam mordeu o lábio e temeu pela amiga, antes de ter uma ideia.
– Você pode ficar lá em casa, até a tempestade passar.
– Obrigada, mas não posso aceitar.
– Quê isso, não é incômodo nenhum. Kat vai adorá-la. Ela tem uma empatia automática com moças bonitas. Vamos, eu faço em chocolate quente com marshmallows de cair o queixo. São só alguns quarteirões.
Taylor levantou os olhos para ele e sorriu, surpresa pelo tímido e fechado Adam Young tê-la chamado de moça bonita sem encolher-se por completo.
– Acho que vou aceitar. Pelo jeito, a tempestade não vai passar tão cedo.
O apartamento de Adam era grande, porém pouco decorado e surpreendentemente arrumado para a casa de um homem solteiro. Tirando a roupa suja acumulada no banheiro e os lençóis bagunçados em cima da cama, e uma revista de sacanagem que ele apressou-se em esconder debaixo do sofá de couro marrom, era tudo bastante limpo e organizado.
– A empregada vem duas vezes por semana – informou Adam, explicando o mistério que despertara a atenção de Taylor.
Era quase tudo branco e marrom, e não havia muito trabalho de decoração ali. Alguns porta-retratos da família e da suposta falecida noiva de Adam em um aparador, alguns outros pregados nas paredes, uma coleção de livros de poesia e suspense surrados empilhados em uma estante, um sofá de couro marrom com revistas de sacanagem debaixo dele, um tapete cheirando a cachorro na sala, armários marrons na cozinha. O necessário para a uma vida confortável, sem exageros.
Um alto latido fez-se ouvir quando os dois estavam preparando chocolate quente na cozinha. Katea, uma linda cadela de olhos azuis e espesso pelo cinza e branco, meio que uma tempestade de neve em formato de cão, adentrou o aposento, pulando em cima do dono.
– Eia, Kat! – ela plantou-lhe lambidas gostosas em seu rosto, enquanto Adam ria. – Bobona – ele bagunçou seu espesso pelo e lavou as mãos na pia da cozinha.
– Olá, Kat – cumprimentou Taylor, agachando-se do tamanho da cadela e estendendo a mão. Katea pousou sua pata em cima da mão estendida da loira, que balançou a pata animalesca com surpresa. – Como é bem-educada, sua Kat!
Adam riu e jogou uma toalha para Taylor, que também lavou suas mãos.
De súbito, ela lembrou-se dos retratos de Adam e sua noiva em Paris, Londres, Tóquio, em todos aqueles lugares. Ela era uma mulher bonita, de cabelos ruivos lisos, rosto redondo sardento e nariz arrebitado, olhos azuis expressivos e sorriso fácil.
– Qual era o nome de sua noiva, Adam? – perguntou Taylor, temerosa que o toque naquele assunto despertasse lembranças ruins no amigo.
– Katea. Katea Graham-Alleyn. – respondeu ele, ruborizando.
Taylor sorriu perante a doçura dele.
Os dois reuniram-se ao frente ao sofá, bebericando o delicioso chocolate quente de Adam, e assistindo a uma maratona de filmes natalinos em um canal popular, rindo das falas ridículas e da péssima atuação do elenco. Depois, gravaram em vídeo suas próprias tentativas de representação das cenas, com diferentes sotaques engraçados.
Mas a diversão foi interrompida por um noticiário urgente, que informava que a cidade de New York estava debaixo de neve. Diversos pedidos de socorro estavam sobrecarregando as linhas de emergência e não era recomendável que as pessoas deixassem suas casas nos próximos dias.
– Oh, que horror – lamentou Taylor, pensando unicamente nas vítimas da nevasca. Mal notou o silêncio e o rubor de Adam até virar-se para falar com ele.
– Parece que você vai ter que ficar mais um pouco – disse ele com um sorriso sem graça.
Taylor enrubesceu.
– Nem tinha pensado nisso – murmurou ela. – Sinto muito o incômodo, Adam, assim que a neve derreter eu volto pra casa, mas agora...
Adam sorriu.
– De jeito nenhum que você é um incômodo. Não se preocupe, eu durmo no sofá. Kat lhe fará companhia na cama. Ainda tenho algumas roupas velhas de Katea que acho que podem lhe servir...
Taylor, que se encontrava corada antes, ficou cor de beterraba.
– Não, de jeito nenhum! Eu durmo no sofá, não é incômodo nenhum.
– Assim você ofende meu cavalheirismo, Taylor – riu Adam. – Não se preocupe, ajeitaremos isso mais tarde.
Taylor sorriu.
– Adam?
Ele a encarou, como um cachorrinho de grandes olhos pidões.
– Você continua adorável.
Como eles passaram de “você continua adorável” para um beijo glorioso no sofá, eu não sei. Um movimento rápido de ambos. Não se sabia quem tomara a iniciativa. O resultado fora dois adultos, antes brincando de expressar frases com diferentes e exagerados sotaques, se agarrando em um sofá de couro marrom, interrompidos pelas lambidas de um husky siberiano.
O toque de Adam era diferente do de Joe. Enquanto este último era urgente, selvagem, agressivo, o primeiro era gentil e hesitante, como se temesse passar dos limites a cada passo. Os dois se moviam numa sincronia lenta e melodiosa, quase uma valsa entre línguas.
Quando uma terceira língua meteu-lhe entre os dois, eles interromperam o beijo com Kat pulando em cima do sofá, irritadiça com a falta de atenção que não estava recebendo. Adam afagou suas orelhas e ela soltou um latido, arfando. Taylor estava às gargalhadas.
– Acho que está na hora de todos irmos dormir – anunciou Adam, sorrindo.
Taylor bocejou, e aconchegou-se no colo de Adam.
– Não gosto de dormir sozinha.
– Não precisa – sussurrou Adam brincando com seus cachos dourados.
E não foi, afinal.
Kat, apesar de chateada por não estar recebendo cem por cento da atenção de seu dono, como sempre, divertiu-se com os altos barulhos que encheram o apartamento naquela noite.
No dia seguinte, a nevasca havia dado uma trégua, mas a neve ainda cobria boa parte das ruas, mesmo com os esforços da prefeitura em removê-la e fazer a cidade voltar a funcionar. Taylor passou mais um dia com Adam e Kat, trocando carícias e opiniões, além de imitarem cantores famosos. Taylor, por acaso, era um ótimo cover do Snopp Dogg.
A nevasca passou, a neve foi removida, a cidade voltou ao funcionamento normal, o verão chegou, o sol iluminou os arranha-céus de New York, as flores cobriram a superfície, mas Taylor ainda estava presa ao apartamento de Adam, por algo bem mais forte que uma tempestade de neve.
Um dia, alguns meses antes do Natal, Joe e Camilla receberam uma carta em seu loft em Los Angeles.
Camilla, abrindo caminho com seu barrigão de seis meses, rasgou o envelope e encontrou um convite um tanto inusitado.
Adam Young e Taylor Swift
Têm o prazer de convidar o casal Joseph e Camilla Jonas para seu casamento, a tomar lugar no dia
E seguiam-se dia e hora, além de citados os nomes dos noivos. Logo abaixo, uma observação pessoal da noiva:
Querida Camilla, espero que você e Joe tenham usado preservativos, não sei se ele lhe contou daquele problema com hemorróida...
Espero que vocês possam comparecer ao meu casamento. De coração. Sem ressentimentos,
Taylor
Oops.
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