The Witch and the Saint
1 A garota metade demônio
Notas iniciais
Florence
Ser bruxa pode não ser tão emocionante quanto você pensa. Feitiços são legais, e é ótimo você ter uma mãe do mundo inferior quando se precisa de algo como um gato falante ou quando você quer dar uma lição no seu arqui-inimigo, mas, depois de dezesseis anos, você acaba enjoando. E não é como se você pudesse sair por aí se gabando porque ganhou um amuleto da sorte — que funciona de verdade — de aniversário.
Foi o meu caso. Um dia eu acordei no mesmo apartamento antiquado de sempre, usando o mesmo pijama de sempre e com o mesmo cheiro de limão vindo da doçaria em frente. Foi então que eu me decidi.
Até fazer dezesseis anos, eu não pretendia sair de Middlesbrough, onde eu morara desde que me entendia por gente. Mas, quando aquela crise existencial me atingiu tão subitamente, decidi que era hora de fazer alguma coisa.
— Eu posso pagar um acampamento de verão para você, se quiser — meu pai deu de ombros, depois de escutar tudo o que eu tinha para dizer sobre a minha mais recente epifania. — A igreja da rua 36 está organizando um acampamento de um mês e meio em New Hampshire.
Levantei uma sobrancelha, achando graça.
— Eu, a garota metade demônio, num acampamento da igreja — resumi com sarcasmo. — É, isso com certeza não parece o tipo de coisa que vai acabar em merda.
— Linguajar, Florence — meu pai alertou, mas não parecia muito preocupado. — Olhe, eu não sou o cara mais rico do mundo. O que você quer fazer?
Suspirei. Nós estávamos tomando café na mesa redonda minúscula da cozinha. Mas não tinha problema ela ser tão pequena, já que éramos só eu e meu pai.
— Eu quero mudar de vida — confessei num tom sonhador, sorrindo para o vidro quebrado do vasculhante sobre a pia. — Sabe, quando eu fui para a América do Sul com Lilith, eu realmente me senti... viva. Queria um pouco mais disso.
Lilith, minha mãe, sempre fora responsável pelas melhores férias da minha vida. Mas ela estava ocupada demais resolvendo coisas do mundo sobrenatural com seu chefe. E por "chefe" eu quero dizer o próprio Lúcifer. Ou pelo menos eu presumo isso. Lilith nunca fala do trabalho — ou maldição, como ela prefere chamar.
— Bem, desculpe-me não ser tão incrível quanto a sua mãe ou você, Florence — meu pai murmurou, baixando os olhos para o jornal. Ele pareceu desapontado.
Senti-me culpada.
— Não foi isso que eu quis dizer — respondi, corando. — Lilith é só isso para mim. Ela aparece de vez em quando e me dá presentes caros, mas vai embora logo. É você que fica aqui quando eu preciso de verdade, pai.
Isso pareceu melhorar o humor dele. Meu pai abriu um sorriso satisfeito e disse:
— Bem, então pense logo no que quer da vida, querida. O verão está quase acabando, e em breve você terá que voltar à escola.
Não me lembre disso, pensei. A escola era um pesadelo. Era horrível porque, mesmo que eu soubesse que era capaz de explodir o coração daqueles idiotas de dentro para fora, ainda assim eu não poderia fazê-lo. Era um dever difícil me controlar.
— Eu vou pensar em alguma coisa — falei, pegando uma parte do jornal para ler.
A maioria dos anúncios era sobre o verão, que havia sido o mais quente do ano. Passei direto por essas notícias. As manchetes que mais chamavam a minha atenção eram as bem pequenas, que quase ninguém vê, porque são sempre as mais engraçadas.
Uma delas dizia "Irlandês compra carro por cinquenta mil euros em leilão pela internet e recebe pequena réplica de Camaro". Dei uma risadinha. Outra menor ainda dizia "Instituto Robert Cromwell abre vagas para bolsistas: escola londrina é a segunda melhor da Europa".
É ISSO!, gritou o meu subconsciente. Fiquei de pé repentinamente, arregalando os olhos para meu pai e apontando freneticamente para a manchete.
— O que é agora? — ele perguntou, aborrecido, ao pegar o jornal das minhas mãos e ler as notícias. — O Cromwell? Mas isso é em Londres, querida. Como faria para chegar até lá de manhã todos os dias?
— O colégio é interno, pai! — exclamei, batendo palmas com a animação. — Isso é perfeito! Eu iria para o sul, conheceria pessoas novas, uma escola nova, cidade nova... É exatamente isso que eu quero!
Meu pai franziu as sobrancelhas, considerando aquilo.
— As inscrições terminam amanhã e a prova é daqui uma semana. Como pretende fazer isso?
Abri um sorriso. Aquilo soava como um desafio, e eu era ótima com desafios. Principalmente quando se tratava de vencê-los.
— Eu vou dar o meu jeito — respondi.
∞
Três semanas depois, a carta com o resultado da minha prova estava na caixa do correio. Eu sempre pegava a correspondência. Era simples — você fazia o feitiço e as cartas apareciam na mesa da cozinha.
— Aqui está, aqui está — meu pai falou, balançando um envelope amarelado em frente ao meu rosto. — Cheira a vitória, não acha?
Dei um salto da cadeira e agarrei a carta.
— Estou nervosa — falei, surpresa. — Eu nunca fico nervosa.
— É porque você quer muito isso — ele respondeu.
Mordi os lábios. Ele tinha razão.
Rasguei o envelope usando as unhas, pouco me importante com o material caro. Puxei os papéis lá de dentro. Havia um montão de papéis. Isso deveria ser um bom sinal.
— É agora ou nunca — falei, mais para mim mesma do que para meu pai, que olhava com ansiedade para mim por trás de seus óculos de grau.
Comecei a ler a primeira carta. Ignorei toda a primeira parte. O que me interessava estava no final.
Informamos que a senhorita Florence Elizabeth Bishop, com a pontuação de 91 na prova de admissão do Instituto Robert Cromwell, foi aprovada com bolsa parcial de 90%.
Meu grito foi tão agudo que eu me assustei. Balancei os papéis em frente ao rosto do meu pai, com o sorriso tão largo que as minhas bochechas doíam.
— Meus parabéns! — meu pai parabenizou, me abraçando desajeitadamente enquanto lia em voz alta a parte da carta que dizia que eu havia sido aprovada. — Isso é incrível, Florence! Sua mãe vai ficar orgulhosa de você.
Lilith provavelmente não ligava para isso, mas eu também não me importava com ela. Meu pai estava orgulhoso de mim — o que era um evento um tanto quanto raro, já que eu nem sempre sou motivo de orgulho —, e isso era tudo o que me vinha à cabeça.
Até que eu me toquei. Estou indo para Londres. Vou sair de Middlesbrough pelos próximos nove meses, e meu pai vai ficar sozinho até lá.
Esperei que a culpa viesse, mas não aconteceu. Eu estava feliz demais para isso e, verdade seja dita, eu sempre fui um tanto quanto egoísta. Certo, muito egoísta. E a ideia de finalmente sair daquela cidade só metade urbanizada me deixava extasiada.
Eu estou indo para Londres, repeti, enquanto meu pai abria duas latas de Coca-Cola em comemoração. Finalmente, ali estava a oportunidade que eu queria: a oportunidade de abandonar todos os segredos que eu havia construído em Middlesbrough e construir uma vida nova, onde eu poderia ser apenas Florence, a garota que era metade demônio, mas que não ligava para isso.
Ou pelo menos era isso o que eu pensava.
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