The Witch and the Saint

2 O garoto metade anjo


Notas iniciais
Oi, pessoal! Como alguns de vocês (lindos e maravilhosos) comentaram no capítulo anterior — aliás, muito obrigada —, eu decidi postar logo o capítulo de introdução do Carter. Ele está um tanto maior porque esse personagem tem um pouquinho mais de história na bagagem, então espero que não se importem ♥ Boa leitura!

Carter

Infelizmente, para mim, dons celestiais não pagavam contas. Bem que poderiam — eu com certeza ganharia uns bons trocados com uma demonstração dos truques que eu tinha na manga —, mas não é assim que funciona na vida real. Foi por isso que, naquele dia abafado de agosto, eu levantei na mesma hora de sempre — que continuava sendo cedo demais para o meu gosto — para pegar o trem até o centro, onde eu trabalhava.

— Você vai trabalhar hoje, Carter? — perguntou Charlie, minha irmã mais nova, que estava fazendo chá na cozinha, como fazia todas as manhãs. Ela estava em seu traje usual, com o cabelo ruivo bagunçado e as calças de ioga, debruçada sobre um livro qualquer da biblioteca pública. — É domingo. As pessoas não trabalham no domingo.

— Meu chefe quer que eu trabalhe hoje — respondi simplesmente.

— Mas você é o seu próprio chefe — ela franziu as sobrancelhas.

Na verdade, eu pintava retratos numa praça do centro, e era praticamente sócio de um casal, Brenda e Jaz — sendo que a primeira tocava violino e a segunda fazia braceletes e bolsas artesanais.

— Exatamente — falei, sorrindo e dando de ombros.

Charlie revirou os olhos enquanto ajeitava os óculos de grau no rosto amassado pelo sono.

— Está calor demais lá fora, você vai fritar trabalhando nesse calor. Sabe, a luz do sol pode causar queimaduras de primeiro e segundo grau em níveis extremos.

— O sol em Londres mal pode causar um bronzeado de leve. Você leu isso numa daquelas enciclopédias online? — adivinhei, erguendo as sobrancelhas.

Charlie encolheu os ombros.

— Talvez.

— O que vocês estão fazendo acordados a essa hora? — era a voz de Mark Oswald, meu padrasto, que apareceu na porta da cozinha com os braços cruzados e cheirando a cerveja, como sempre. — Carter, tire aquelas malditas tralhas da sala. Candice pode acabar engolindo uma daquelas coisas.

Candice era minha outra meia-irmã, um bebê de onze meses de idade com uma garganta potente que não deixava ninguém naquela casa dormir por mais que três horas por noite. Não que eu me importasse, é claro. Sempre considerei dormir um desperdício de tempo valioso. Era por isso que havia pilhas de copos de café debaixo da minha cama e sobre a mesa de cabeceira no porão, onde eu havia estabelecido o meu quarto.

— Não são tralhas — respondi, tentando não soar muito transtornado. — É o meu material de artes. Eu uso pra trabalhar.

— Você ganha malditas vinte libras por dia, não faz diferença nenhuma quando tenho que pagar as contas — ele grunhiu, o rosto tão vermelho quanto o pouco cabelo que ele tinha. — Mantenha aquelas merdas no seu quarto ou eu as manterei no lixo. A minha família não é obrigada a aturar suas bagunças pela casa.

A minha família, ele dizia. Mas é claro. Minhas irmãs mais novas, Mark e minha mãe, Dana, eram uma família. Eu era só um intruso indesejado, o cara que morava no porão e que eles eram obrigados a manter por mais dois anos, pelo menos, antes que não fosse ilegal me chutar de casa. Mas eu estava cansado demais para me importar com aquilo. Depois de tanto tempo sendo o caroço na sopa de Dana e Mark, eu estava mesmo era pouco me fodendo para eles dois.

Mark pegou uma xícara do chá que Charlie fizera e se retirou da cozinha dizendo que não queria mais ver a "merda do meu material de artes" na sala. Eu suspirei silenciosamente.

Mark trabalhava na Scotland Yard. Ele tinha duas armas guardadas no fundo falso da gaveta de seu escritório. Ele era capaz de qualquer coisa para tirar alguém de seu caminho se fosse preciso, principalmente o filho bastardo de sua esposa. Eu precisava me lembrar disso todas as vezes em que eu sentia vontade de voar no pescoço dele.

— Tem certeza de que precisa trabalhar, Carter? — Charlie murmurou.

Eu sabia o quanto Charlie odiava o jeito como Mark me tratava. Muitas vezes, quando eu era criança, eu me ressentira por ela nunca se pronunciar contra ele, mas agora eu entendia o lado dela. Mark era seu pai, e, diferente de mim, ela tinha muito a perder. Depois da primeira vez que meu padrasto gritara com Charlie — num dos raros momentos em que ela saía da linha —, eu havia finalmente percebido que ela também tinha motivos para ter medo.

— Acha que ele vai deixar eu comer uma grão de pão sequer dessa casa se eu não comprar pra mim mesmo? — perguntei, soando mais desesperançoso do que eu pretendia. Eu não me importava com Mark, e queria soar como tal. — De qualquer modo, eu prefiro assim. Trabalhando posso ficar longe de casa o tempo que eu quiser.

Não que alguém além de Charlie fosse notar se eu passasse duas semanas longe de casa. Mas eu preferia fingir que eu tinha regras para seguir. Fingir que, pelo menos em alguns quesitos, eu tinha uma vida normal como a de qualquer outro adolescente. Por exemplo, eu sempre dizia a mim mesmo que era minha obrigação voltar para casa antes da meia-noite, mas a verdade é que não havia ninguém para me colocar de castigo por um mês caso eu ficasse a madrugada toda num clube de streap-tease clandestino ou coisa assim.

— Eu tenho uma coisa pra você — Charlie falou de repente. Ela abriu um sorriso largo e pegou o celular no bolso, pondo-se a procurar algo freneticamente nele. — Eu estava lendo esse artigo sobre escolas do ensino médio ontem à noite e... Droga, eu estou sendo CDF de novo.

Ri, sem conseguir evitar. Charlie havia acabado de completar quinze anos. Ela sempre fora a intelectual da família, mas agora que era "uma adolescente de verdade", como vivia dizendo, estava trabalhando num projeto de ser mais descolada. Eu achava besteira — Charlie era perfeita daquele mesmo jeito —, mas ela me fez prometer que não entraria em seu caminho.

— O que você tem para mostrar, Charlotte?

— Aqui está!

Ela empurrou seu celular na minha direção. Evitando um revirar de olhos, peguei-o e li o artigo que ela me mostrava. O site era do tal Instituto Robert Cromwell no centro da cidade, e o título dizia, em negrito: Inscrições para primeiro e segundo ano do ensino médio continuam abertas até dia 19. Logo entendi o que Charlie queria dizer.

Olhei para ela com os olhos arregalados.

— É a nossa chance — ela murmurou, como se fosse um segredo. — Finalmente vamos poder dar o fora daqui, Carter.

— Eles nunca deixariam — lembrei.

— Eles não precisam saber.

Pensei sobre o assunto. Eu sabia que o Cromwell era a escola mais chique de Londres, e eles estavam oferecendo bolsas parciais ou até integrais. E o melhor de tudo: era um colégio interno. Nove meses longe de Mark e Dana. Nove meses longe daquela casa.

— Você vem comigo hoje — falei, sorrindo. — Nós pegamos o trem até Londres, vamos ao Cromwell, fazemos a inscrição, comemos as batatas fritas gordurosas da Elmor Street e depois você me ajuda com as pinturas na Trafalgar Square. O que acha disso?

Charlie abriu o maior sorriso do mundo.

— Vamos nessa.

Não foi uma surpresa para mim quando Charlie foi aprovada com a bolsa integral de 100% — era óbvio que ela conseguiria —, mas ela estava em êxtase com a notícia. Pulou pelo quarto inteiro quando abriu a carta e viu todos aqueles formulários de matrículas a serem preenchidos, e começou a cantar We Are The Champions mais alto do que deveria, arriscando chamar a atenção de Mark.

— Sua vez — ela falou, balançando a carta com o meu nome. — Tem um montão de papéis aqui, também...

Eu estava nervoso. A prova havia exigido um pouco mais de conhecimento técnico do que eu possuía, mas, com a ajuda de Charlie naqueles oito dias de estudo, eu sentia que havia conseguido alguma coisa razoável.

Li a carta em silêncio. Não queria demonstrar o quanto estava ansioso ou construir falsas esperanças de finalmente me livrar da família Oswald e acabar dando de cara na parede. Charlie, inclinada às minhas costas, também lia comigo.

— Aprovado! — ela gritou, antes que eu pudesse notar. — Você foi aprovado, Carter! Oitenta por cento, já é alguma coisa!

Fiz uma careta.

— Eu teria que trabalhar e estudar ao mesmo tempo — refleti, não querendo ser otimista ou pessimista demais.

— Você já faz isso tem uns quatro anos, não seja um covarde — ela brigou, pegando a carta das minhas mãos. — Você pode trabalhar naquele café que vimos no campus. Parece ser ótimo.

Considerei aquilo. Estudar e trabalhar como um verdadeiro escravo — nenhuma novidade aqui — ou continuar vivendo na mesma casa que Mark Oswald?

A resposta veio naturalmente. É claro que eu iria para Cromwell.

— Precisamos de um responsável — lembrei. — Dana nunca vai aceitar. Muito menos Mark.

— Tem razão — os ombros de Charlie caíram. Ela ficou parada por um minuto, as sobrancelhas inclinadas e os olhos estreitos. Sua pose reflexiva. — Espera. Eu conheço um responsável.

Ela me olhava com os olhos arregalados de expectativa. Eu sabia o que ela queria dizer.

Não — respondi imediatamente. — Nem venha, Charlotte.

— Ora, vamos lá, Carter! Ele disse que você poderia ligar para qualquer coisa.

A discussão durou mais ou menos quarenta minutos. Eu não estava disposto, de jeito nenhum, a quebrar a promessa que eu fizera a mim mesmo dois anos atrás. Pelo menos não até Charlie implorar, com a expressão cheia de medo de nossa chance de fugir ter ido por água abaixo:

— Por favor, Carter. Por favor.

Eu engoli em seco. Charlie sempre fora tão desamparada quanto eu. Sempre fora meu dever cuidar dela. Eu a levara para a escola desde o começo e acompanhara todas as suas feiras de ciências. Havia ensinado ela a amarrar os cadarços e a decorar a tabuada. Então como eu poderia negar a possibilidade de escapar das garras de Mark Oswald, depois de tanto tempo?

— Você me deve uma, Lottie — grunhi, derrotado. — Uma muito grande. Do tipo que você tem que esconder um corpo na sua banheira se eu pedir.

Ela sorriu, radiante.

— Pode deixar.

Eu suspirei, pegando o aparelho de telefone ruim do bolso. Ele mal servia para fazer ligações. Eu o tinha desde os treze anos, mas ter um telefone de última geração estava no último lugar na minha lista de prioridades.

Houveram quatro toques antes que ele atendesse com um rigoroso e irritado "Alô". Eu engoli em seco algumas vezes antes de responder:

— Pai? Sou eu, Carter... Eu preciso de um favor.

Notas finais
Espero que tenham gostado! Eu vou tentar manter nessa base de 1000 a 2000 palavras, senão a história acaba ficando massiva (eu acho?). Então, me digam o que acharam do Carter! Ele tem um tom mais profundo do que o da Florence, mas espero que ele não tenha ficado depressivo ou dramático demais. De qualquer modo, continuem mandando reviews! Beijos e até o próximo :)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.