The Winter: walking into the past
5 Capítulo V: O Estranho, o inconveniente e o prepotente
South Korea
Seoul — Gangnam-gu
11:30 p.m — Terça-feira – 2020
Eu precisava de um tempo para espairecer. O sonho ainda estava vívido em minha mente. Uma ferida que pensei que estivesse no processo de cicatrização enganou meu consciente e me presenteou com uma lembrança dolorosa e odiosa. Meu corpo havia gravado cada sensação feita há dezenove anos. Tanta preparação para nada. Quando a minha carta de alforria será assinada?
As ruas de Gangnam, à noite, estavam coloridas. Os letreiros cujo objetivo era chamar a atenção das pessoas eram destaques pelas ruas. A única coisa que eu desejava era a minha cama. Já estava tarde e amanhã eu teria um dia cheio, mas como fazia muito tempo da minha volta eu havia me esquecido como era andar pelos bairros sem me perder, mesmo me guiando pelo GPS. Cada vez que eu andava, mais me perdia.
Sem ter ideia de onde eu tinha estacionado o carro, porque eu o havia deixado em uma rua longe de onde eu estava para que não chamasse atenção das pessoas, fui seguindo o GPS e entrando em becos atrás de becos até que em um deles eu vejo uma pessoa sentada no chão apoiando seu corpo em uma caçamba de lixo. Metade do rosto coberto por uma mascara deixando os olhos à mostra, mas fechados. Sua camisa manchada de sangue. Aproximo-me, vejo que é um homem e verifico a sua pulsação — Não está fraca... – falo comigo mesma. Olho pelo corpo dele e vejo o motivo do sangramento. No peito, bem próximo da axila, havia uma perfuração. Procuro em minha bolsa alguma coisa para tentar parar o fluxo de sangue e acabo encontrando um lenço, o amarro dando algumas voltas pressionando a ferida. Pego o meu celular na bolsa e ligo para a emergência, mas, assim que levo o celular ao ouvido o homem a minha frente segura meu pulso. Ele olha para mim, com a respiração ofegante — Nada...de...ligação... – diz o homem se esforçando em cada palavra.
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Olho para a visita deitada na cama de um dos quartos vagos da casa, dormindo. Sua pele era iluminada ao toque das luzes que atravessavam a janela do quarto escuro. A camisa cortada ao meio — por mim — salientava uma mancha preta na lateral do abdômen. Para matar minha curiosidade, me aproximo da cama e afasto parte da camisa para enxergar melhor a suposta mancha. Assim que iluminada, sobrevêm uns traços desenhados de preto que parecia fazer conexão com as costas. Mas, o que acaba me chamando atenção são as inúmeras cicatrizes espalhadas pelo corpo. Sem pensar, passo os meus dedos por elas. Assim que toco uma na lateral do abdômen me assusto com a mão do homem bloqueando os meus movimentos. De forma automática olho para seu rosto ainda coberto pela mascara – ele não havia me deixado tira-la — Faz cocegas... – ele, sonolento, me repreende – Onde estou? – pergunta fazendo força para se levantar.
No mesmo momento ponho minhas mãos a sua frente para impedi-lo – Você está num lugar seguro. – respondo – Pelo o que parece você levou um tiro, mas felizmente a bala atravessou pela axila. — o estranho encontra meus olhos e os encara por um tempo – Quem é você? – pergunta ele.
Antes de eu o responder, ele volta a dormir.
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Abro os olhos com uma pessoa me chamando e com alguém lambendo minhas mãos. E então, a senhora Kang se torna mais nítida à minha frente com o rosto um pouco próximo ao meu e Khan ainda lambendo minhas mãos. O semblante da minha pequena ajudante transparecia preocupação – Senhorita, você está bem? Passou a noite aqui? Por que o lençol está manchado de sangue? Por que tem um soro pendurado num cabide? — Sra. Kang pergunta enquanto acalmo meu parceiro de quatro patas.
Ajeito-me na poltrona sentindo um incomodo nos ombros e pescoço e olho para a cama vazia à minha frente – Ajumma... Quando você chegou, não havia mais ninguém no quarto? – pergunto surpresa.
— Não senhorita... a porta estava trancada. Tive que buscar a chave reserva. Khan estava agitado em frente a porta no lado de fora do quarto, achei estranho. – responde a senhora, não entendendo muito bem a minha pergunta – Havia mais alguém com a senhorita... sozinha no quarto? – ela pergunta arregalando os pequenos olhos castanhos.
Passo a mão pelo meus ombros os massageando e me levanto da poltrona – Acho que minha visita foi embora pela janela... – comento baixinho como uma oração. Olho para a Sra. Kang que estava me encarando em silêncio — Ajumma, vamos! Eu explico tudo assim que me arrumar para o trabalho! – digo envolvendo a senhorinha com meu braço a guiando comigo para fora do quarto.
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Explicar o ocorrido para a Sra. Kang não foi difícil. Mas, de uma forma muito educada, ela chamou minha atenção por eu ter levado para casa um estranho, principalmente sem ela saber. Achei bonitinho até. Lembrar disso me fazia rir. Fazia tempo que não levava uma bronca. Mas, eu não poderia abandonar uma pessoa naquele estado — Eu espero que você esteja bem, Sr. Estranho... — falo em pensamentos.
Por fim, dentro do carro, já no estacionamento do hospital, olho o relógio antes de descer. Eram vinte para às nove da manhã — Pensei que fosse chegar atrasada no meu primeiro dia!— digo aliviada saindo do carro.
— Dra. Park! – ouço um homem de longe me chamando enquanto eu fechava a porta da ferrari. Já que eu não conhecia a voz, não fico apreensiva, mas curiosa. Assim que me viro para ver quem era, vejo no meu campo de visão o chefe Seo Kyu Bok vindo ao meu encontro. Ele para a minha frente e faço uma reverencia com ele acompanhando meu gesto logo após — Bom dia, chefe Seo. – comprimento.
— Oh... Bom dia! – o chefe Seo me responde com os olhos fixos no meu carro – Nossa... Carro bonito o seu! Posso tocar? – a pergunta me pega de surpresa e só consigo acenar com a cabeça. Era só a segunda vez que me encontrava com o chefe Seo Kyu Bok, mas, suas perguntas, comentários e até atitudes me levavam a uma conclusão temporária: ele era um homem um tanto inconveniente. O que era triste, porque pessoas mais velhas deveriam se responsabilizar com o peso da idade que carregam. Mas, havia também outro ponto a observar: interesse — Dra. Park! – o homem de cabelos mesclados me chama, ainda com a mão no carro – Que tal almoçarmos juntos hoje? – ele pergunta com um sorriso no rosto. Mas, depois, volta o olhar novamente para a Ferrari.
Serro os olhos, mas ele não percebe hipnotizado com o automóvel – Ham... Desculpa, mas, já tenho planos para o almoço. — o médico me olha surpreso. Aqui, pelo que me lembro, quando você é convidado, pelo seu superior, para comer, você ou diz “sim” ou “sim”. Mas, como sou vista como “estrangeira”, então, me torno café-com-leite nessas situações – Bom, eu vou seguindo na frente, chefe Seo. – faço uma leve reverência e sigo em direção ao hospital.
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Trabalhar no hospital não era novidade para mim, mas a forma pelos quais os grupos são divididos é o que me deixou surpresa e até incomodada. Existem dois grupos: o V.I.P. e o Classe C. O V.I.P. era constituído por médicos com boa aparência e bons status financeiros. E os enfermeiros que trabalhavam com eles, com um prazo de seis meses, eram escolhidos a dedo pelo líder do grupo. Pelo o que eu havia entendido de toda essa idiotice, os agentes de saúde do grupo V.I.P. só atendiam pessoas específicas: famosos, CEOs e governantes. Ou seja, a elite.
— Dra. Park. Você ficará no Classe C. – diz o chefe adjunto Lee sentado na sua cadeira, atrás de uma mesa de vidro. Seu olhar prepotente estava rindo com o comando. Ele se reclina na cadeira e cruza as pernas ainda me encarando – Você atuará na emergência. E, em consideração a seu ótimo currículo, será a vice-líder. Mas... – o médico estende um dos braços para pegar um papel sob a mesa – seu horário será integral até segunda ordem.
— Okay. — respondo pouco me importando com a escala imposta – Mas, nego qualquer posição de liderança. – o médico serra os olhos com a minha negação – É só isso? – pergunto, ignorando a prepotência do meu superior – Vou indo, então. – me levanto em direção à porta.
— É sua escolha, Dra. Park! – afirma o médico. Paro diante a porta, com mão na maçaneta, de costas para ele – Mas, cuidado com suas escolhas, elas podem se tornar uma armadilha. Ser submisso ao superior não é sinal de fraqueza, mas de sabedoria. Pense nisso! Só subimos na vida quando amaciamos o ego dos que estão acima de nós.
Viro para o médico ainda sentado – Estou impressionada em como você conseguiu usar “sabedoria” e “submisso” na mesma frase. Mas, não se preocupe. Não tenho medo de enfrentar meus superiores e muito menos de descer na vida! – assim que dou as costas, abro a porta e saio me lembrando de situações piores que ele nem se quer imaginaria.
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