South Korea

Seoul

Mansão Park

5:25 p.m — Sábado – 2020

A fachada da grande casa, que havia habitado até eu conquistar a maior idade, estava a minha frente. Infelizmente, os bons momentos vividos nela não eram tão nítidos como eu desejava que fossem. O portão de tom amarronzado me separava do grande terreno luxuoso, constituído de verdes bem cuidados e podados. Minhas mãos, que seguravam a guia de Khan, encontravam-se úmidas devido ao conflito entre o medo e a ansiedade.

Ainda sentia-me cansada pelo o trabalho no hospital. A emergência em Seoul era um pouco agitada, entretanto, eu parecia estar em boas mãos. Meus colegas de trabalho mostravam eficiência. O grupo acolhia um número considerável constituído por diferentes idades, mas a maioria na faixa dos trinta, o que tornava mais fácil o convívio. No entanto, não diminuía o peso da responsabilidade e o cansaço que sempre me esperava no final do dia.

Por fim, o portão, que me protegera feito armadura da residência, havia sido aberto por um rosto desconhecido. A pessoa, cujo uniforme delatava a posição na grande casa, se colocara ao lado do portão abrindo passagem para mim e Khan após uma reverência.

No jardim as luzes bem posicionadas para impor um ar de conforto no terreno estavam se destacando à medida que o Sol sucumbia. Cada passo que acarretava na estrada de pedras era confronto entre meu corpo e mente. Meus pés pareciam terem sido substituídos por chumbo, de tão pesados. A pequena caminhada em direção à porta de entrada mostrava estar há quilômetros de distância. O nervosismo havia ganhado o combate com a ansiedade, já que agora eu estava inundada por ele – Anna respira. Respira...— me agarro em pensamentos como uma oração.

Assim que entro na mansão meus olhos se inundam em lágrimas. Nada havia mudado. A decoração clássica e elegante feita pela minha querida e falecida mãe encontrava-se intacta. O piano de calda branco que ela tocava com grande perfeição, era o protagonista do lugar brilhando com as luzes bem direcionadas da sala principal. A mobília havia sido preservada em cada detalhe.

As lágrimas, que eu lutara para serem contidas, vacilaram assim que encontro o olhar terno de meu pai. O homem que não via há nove anos abre os braços me convidando para ir ao seu encontro, e sem pensar duas vezes me aninho a ele — Ah, minha filha! Que bom tê-la de volta! – comenta ainda comigo em seus braços. O perfume do homem que me adotara era familiar. Ele ainda usava a fragrância que eu e mamãe havíamos lhe dado de aniversário. Agora, o medo havia sido expulso pelo carinho paterno. A sensação é de ter voltado a uma boa e sucinta parte da infância.

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— Essa área da casa, era o lugar preferido da sua mãe. – comenta meu pai antes de bebericar o chá.

O jardim de trás da mansão parecia cenário de conto de fadas. O lago harmonizado com a vegetação escolhida a dedo exalava paz. Lembro vagamente que mamãe me deixava desenhando ao seu lado enquanto estudava uns livros difíceis e intercalava o tempo apreciando o jardim — Sinto falta dela... – comento com a voz um pouco vacilante.

— Eu também, Anna... Eu também. – responde meu pai depois de um grande suspiro – Ainda me pego relembrando o dia que a conheci. Ela era tão linda e tão inteligente! Nunca pensei que eu fosse conhecer uma mulher como ela. – olho para papai, e seu rosto estava estampado com um sorriso. Mesmo eu só podendo ver o seu perfil, consigo sentir o seu olhar apaixonado só dele pensar e falar de mamãe – Mas, minha filha... – ele olha para mim – Estou muito feliz de tê-la em casa! – complementa sorrindo com os olhos.

As palavras de meu pai atravessam como faca em meu peito. O sentimento de culpa por ter sido displicente como filha me inunda causando nó na garganta. O grande porquê de eu ter voltado, martelava em minha cabeça. Era injusto. Meu pai merecia ser o único motivo pelo meu retorno. Mas, infelizmente, essa não era a minha realidade – Pai... – abaixo meu olhar para a xícara de porcelana perto de mim e continuo – Eu falhei com o senhor. – percebo meus olhos novamente se inundando, minha voz tremula limitava-me de dizer a palavras de forma clara — Perdão... – digo finalmente com as vacilantes lágrimas tocando a toalha branca da mesa.

— Querida, você em nenhum momento falhou comigo. – ele faz uma pausa — Eu tenho ciência de que você tem sua vida. – olho para papai. Seu olhar demonstrava sabedoria – Uma boa educação é aquela em que os filhos não precisam dos pais. E eu tenho orgulho por você ter se tornado a mulher que é hoje. – ele volta a assistir o jardim a nossa frente – Você tem jeito da sua mãe, e isso para mim é reconfortante. Ela está viva em você. – eu, ainda com o olhar em meu pai, abro um sorriso. Percebi que todas as vezes que se referira à mamãe ele apreciava o jardim. Era como se o lugar desenhasse com perfeição cada detalhe da silhueta de sua amada.

— Pai... Por que o senhor se casou de novo? – pergunto um pouco apreensiva sobre a reação dele. Faz muito tempo desde o segundo casamento do Pres. Park, mas nunca tive a possibilidade de conversar com ele sobre. Na época tinha sido tudo muito rápido.

Meu pai respira fundo e fica um momento em silêncio. Era come se ele estivesse escolhendo a melhor forma de responder minha pergunta – Estava com medo... – responde o homem de cinquenta e seis anos – Medo de não conseguir cuidar de você sozinho. A morte da sua mãe pegou todos nós de surpresa, e a Hwa-Young me ajudou muito nesse período. Ela e sua mãe eram amigas de longa data. E Hwa-Young já tinha a Soo-Youn. – ele faz uma pausa — Eu precisava de uma pessoa de confiança e que me ajudasse a te educar.

Era triste e doloroso escutar tudo aquilo. Meu corpo repreendia cada menção do nome daquela mulher.

— Quero a minha família unida novamente. – comenta meu pai após um suspiro.

O comentário deixado pelo Pres. Park faz-me serrar os olhos. Meu coração começara a acelerar e a ansiedade volta a ser destaque sob mim – Que família, pai? – pergunto com receio da resposta.

— Como assim “Que família”? Eu, você, sua irmã e Hwa-Young. — o Pres. Park responde come se fosse algo óbvio.

A resposta me deixa inquieta sobre a cadeira – Pai... O senhor é minha única família! A única que...

— Anna, não! – adverte meu pai me interrompendo – Você está sendo ingrata agora! – ele faz uma pausa, fazendo da sua advertência mais dolorosa para mim – Sei que você não se dá bem com a Hwa-Young, mas você já está adulta. Quando criança eu conseguia compreender, mas agora eu não posso mais aceitar essa injustiça!

Injustiça?— repito a palavra em pensamentos. O nó na garganta era inevitável. Mas, dessa vez, eu me recusava a abandonar as lágrimas. As marcas, criadas pela maldade daquela mulher em minhas costas, coçavam como se tivessem sido recriadas há pouco tempo. Era agoniante ter que ouvir tudo aquilo.

Por conta disso, o sentimento de ódio, infelizmente, conseguiu adentrar em mim.