The Winter: walking into the past

2 Capítulo II: Refugiando-se no passado


E.U.A

Virgínia – Alexandria

Hospital MyungHee Unid. E.U.A

4:40 p.m – sexta-feira – 2020

— Bom, Sr. Carter. O senhor está ótimo! Só precisará tomar mais cuidado com os alimentos de alto teor calórico, daqui para frente. – falo para o senhor de setenta anos, de cabelos esbranquiçados e olhos castanhos pequenos, bem expressivos, marcados pelas linhas que ganhara com a idade.

— Pois é doutora! É bom a senhora puxar a orelha! Esse velho teimoso não me escuta! – comenta a senhora, em pé, do outro lado da cama.

Senhora? Ela me chamou de senhora? — penso rindo comigo mesma. Não me importava com o pronome de tratamento, mas vindo de uma pessoa que carregava quase o dobro da minha idade era um tanto inusitado ouvir.

— Mulher! Não fica falando essas coisas na frente da doutora! – adverte, um pouco sem jeito, o Sr. Carter deitado na cama.

Os dois senhores, ali, discutindo, me faziam abrir um sorriso — Bem, o importante é que o senhor está melhor e que irá prometer, para mim e para sua esposa, que tomará mais cuidado, dessa vez. Não irá?

— Ouviu a doutora, né, Richard?– adverte a esposa com o cenho franzido acompanhado de uma voz severa. A Sra. Carter, diferente do marido, tinha os cabelos tingidos de um castanho achocolatado, ondulados e curtos. Os olhos eram grandes, de um azul bem claro, acompanhados com cílios abundantes. Suas linhas de expressão eram mais suaves e menos perceptíveis que a do marido.

Meu paciente olha para nós duas e sem nenhuma forma de escapula concede afirmando com a cabeça, sabendo que não iria conseguir contrariar sua querida esposa.

Escuto uma batida na porta. Viro. E uma pessoa alta — de pele negra, cabelos cacheados castanhos compridos, presos num rabo de cavalo baixo — que também vestia um jaleco branco, aparece no quarto. O casal de idosos olha automaticamente para a moça, que agora estava ao meu lado, e a recebem com sorriso nos rostos — Olha só se não é o casal mais fofo do hospital! – comenta a moça ao meu lado – Como está Sr. Carter? Sra. Carter? – pergunta ela, pousando as mãos nos bolsos do jaleco.

— Há-ha-ha... Casal mais fofo, doutora Sarah? – pergunta o senhor com uma risada bem convidativa.

— Sempre muito gentil doutora! – comenta a esposa com um sorriso sincero estampado no rosto.

— Não estamos na idade de ser o casal mais fofo! Mas, talvez, quem sabe, o casal mais velho! – responde Sr. Carter com mais risadas.

— Fale por você meu velho! Eu ainda estou muito nova para minha idade! – contradiz a senhora dobrando os braços. A constatação da Sra. Carter faz todos no quarto rirem.

— Claro, mulher, claro... – assente o marido dando leves batidinhas no braço da companheira. Fiquei quieta admirando a intimidade de anos do casal à minha frente. Era... bonito.

— Estou sabendo que o senhor irá para casa ainda hoje! – diz Sarah.

— Sim, né doutora Anna? – pergunta o senhor olhando para mim.

— Claro Sr. Carter. – olho para o relógio no meu pulso. – O senhor está liberado. – respondo com toda simpatia possível.

— Bom, já que é assim... Anna, você pode me dar um minutinho? — pergunta Sarah para mim.

—Hum? – faço uma pausa. — Claro. – respondo assentindo com a cabeça.

— Sr. Carter... Sra. Carter! – Sarah se despede do casal me puxando pelo braço indo em direção à porta.

********

Na praça de alimentação do hospital, eu e Sarah estávamos sentadas uma em frente à outra numa das mesas. Sarah estava com uma xícara de café e eu uma garrafa d'água. Sarah e eu nos conhecemos na época de faculdade. Ela, em uma das aulas que tínhamos em comum, se sentou ao meu lado e começou a conversar comigo como se já nos conhecêssemos. Aí em diante formou-se uma amizade. Nunca fui de ter muitos amigos. Tenho certa dificuldade em confiar nas pessoas — um mal que plantaram em mim — mas... com a Sarah é diferente. Nós somos completamente distintas uma da outra, no entanto, mesmo assim somos muito próximas — Então, o que você queria tanto me contar assim que chegou ao hospital? — pergunta Sarah debruçando-se a mesa, com o semblante preocupado. – Pela sua voz, não parecia ser muito bom.

Respiro fundo e bebo um pouco d'água — Me ligaram da Coréia. – respondo, pousando a garrafa na mesa.

Sarah arregala os olhos. — Coréia? – pergunta Sarah em voz alta. Faço um sinal de silêncio à ela e olho em volta — Ah, sim... Desculpa! – responde minha amiga, sussurrando.

— Meu pai não está se sentindo bem ultimamente. E a secretária pessoal dele me ligou hoje de manhã propondo a visita-lo.

— Seu pai, o Pres. Park? O que aconteceu com ele? – pergunta Sarah brincando com a tampinha da garrafa de água.

— Infarto no miocárdio, por conta de estresse. – respondo. Só de lembrar meu corpo se arrepiava. – Ele teve o ataque recentemente. Quatro semanas atrás. E que quem contribuiu com isso foi a Soo-Youn.

— A cria da megera? Anna...! – Sarah comenta surpresa. — E aí? Você vai para lá? A Megera sabe? — desde que Sarah ficou sabendo de como era a segunda esposa do meu pai e a filha, criou-se alguns "carinhosos" apelidos. Todas as vezes que Sarah referia-se aquela mulher e a minha querida irmã-postiça-mais-nova, ela as chama por esses apelidos.

— Não sei, ela esta em viajem. A secretária Song, meio que indiretamente, me pediu para que fosse sem me preocupar. – respondo para a médica a minha frente.

— O seu pai passou mal e a bruxa viajando com a vassoura — uma pausa — Ué... ela ficará tanto tempo fora assim? E se acabar chegando com você lá? Ah não, Anna! Nem pensar! – me responde Sarah perplexa.

— Pois é... mas a secretária Song não está errada em me chamar.– faço uma pausa para beber um pouco d'água. – Só não sei se estou preparada psicologicamente em voltar. – complemento.

— Bom... Anna, você sabe! No que precisar é só chamar! E se você sentir que não conseguirá sozinha, eu faço as malas e enfrentamos o dragão juntas... Você não está sozinha, minha amiga! – diz Sarah com um olhar reconfortante e aconchegante. Concedo com a cabeça e lhe retribuo sua amizade com um sorriso.

Acabando com o clima, uma pessoa com uma cadeira em mãos, se senta a mesa entre mim e Sarah — E aí meninas? Qual é o assunto da vez? – pergunta o homem com um sotaque carregado italiano brotando em seu rosto um sorriso brincalhão.

— Nada, Leonel! – responde Sarah mais ríspida que o normal com ele. – Deixa de ser fofoqueiro, italiano! – completa ela.

— O que houve, mio caro? – pergunta Leonel à Sarah, se aproximando mais dela. Leonel, típico italiano, era gentil, educado e muitas das vazes sedutor. Ele usava o seu sotaque e as suas características italianas a seu favor. Não era muito alto, mas também não muito baixo. Seus cabelos eram numa cor avelã, ondulados. Os olhos, castanhos escuros destacados pelas sobrancelhas robustas acima. Seu rosto era bem atraente, principalmente com a barba bem feita. A pele era branca, porém queimada levemente pelo sol, o que harmonizava a cor avelã dos cabelos e da barba.

— Em inglês, por favor, queridinho! Você está num Estado americano, capire? – repreende Sarah a Leonel.

O italiano abre um grande sorriso parecendo se divertir com o mau humor da minha amiga. — Capire, mi amoré! — responde Leonel a provocando ainda mais.

— Aí Leonel... O que você quer, hein? Não está vendo que estamos numa conversa importante? – pergunta Sarah apontando para nós duas.

— Bom, vim aqui para chama-las para almoçar. E aí, vamos? – Leonel olha para mim e em seguida para Sarah com o sorriso brincalhão ainda estampado no rosto.

— Eu vou! Se você pagar! – Sarah responde levantando uma das mãos.

— Claro, mi bela! Para você eu compro o mundo! — responde o italiano. Sarah revira os olhos com um leve sorriso no rosto.

Esses dois... — penso me divertindo assistindo de vela.

— Nossa... Eu dispenso! Não quero ficar diabética com vocês. – falo passando minhas mãos pelos meus braços, como se tivesse algo melado neles.

— Tem certeza, Anna? – pergunta Sarah. – O que você vai comer? Você vai comer né? — Sarah me conhece tão bem que sabe que perco o apetite com assuntos referentes ao passado.

— Tenho certeza absoluta. Trouxe um lanche de casa. Pode ficar tranquila. – respondo.

— Quer que façamos companhia? – propõem Sarah.

Nesse momento Leonel olha para mim e tenta de uma forma muita engraçada me fazer negar a oferta de Sarah, fazendo careta sem que a minha amiga percebesse.

— Não precisa! Vai almoçar com o Leonel. – respondo segurando o riso. O italiano olha para mim novamente e sussurra um "obrigado". Os dois se levantam e vão caminhando até o hall de entrada do hospital.

********

Em frente à porta de casa, muito cansada, tento procurar na minha bolsa a chave. Devido a uma grande quantidade de coisas dentro dela, com certeza, eu iria ficar parada ali pelo menos uns sete minutos. Quando eu encontro a chave, com muita pressa, a encaixo na fechadura e entro. Já de prontidão na porta estava, Khan, sentado com o rabo balançando — E aí, garotão? – faço carinho por um tempo nele. – Como você está? Se comportou bem? — da porta, passo pelo corredor em direção à cozinha com Khan a minha escolta. Vou ao freezer, tiro a comida da geladeira, que eu já havia preparado cedo, ponho a minha janta para esquentar no microondas enquanto tomo um banho quente.

Alimentada e banho tomado, vou ao telefone e aperto no botão da secretária eletrônica para escutar os recados enquanto mexo no meu notebook. E Khan, como sempre, no seu cantinho preferido. Depois de dois recados não muito importantes, escuto uma voz vinda do telefone, uma voz que daria tudo para não ouvi-la novamente.

"Anna, sou eu!"

A voz me tira a atenção do computador – Lúcios? – sussurro.

"Oi, meu amor..." – uma pausa. "Já faz um tempo que não nos falamos." — risos — "Anna... vamos esquecer o q aconteceu, hum? Não vamos ficar separados por causa de uma briguinha boba... Eu não vou fazer mais aquilo. Você não confia em mim?" — mais uma pausa, porém dessa vez mais longa —"Anna, gatinha... ela não significava nada para mim! É você quem eu amo!" — ele suspira — "Você não precisa se esconder... – mais uma vez ele para — Acha mesmo que eu não sei onde você está?"

O silêncio empesteava a sala como praga. Ainda sentada no sofá fico encarando o telefone como se o homem pudesse sair do aparelho em qualquer momento. Com meu coração acelerado estava, eu, mergulhada por vários sentimentos semelhantes: pânico, raiva, tristeza, rancor... Todos me consumiam naquele momento só de ter escutado aquela voz.

Como ele conseguiu meu número? Como ele sabe onde estou? Será que ele sabe mesmo? — inundo meus pensamentos com perguntas.

— O que eu faço...?– me pergunto assustada e em voz alta tentando manter a calma. No momento fico procurando alguma solução para esse problema. Mas onde?

A senhorita poderia vim fazer uma visita para o presidente Park? — a voz da secretária Song vem como resposta. A solução era eu sair. Ir para outro lugar para que Lúcios não me encontrasse, ou pelo menos demorasse muito a me achar. Um lugar bem longe daqui, um lugar do outro lado do mundo.