The Winter: walking into the past

3 Capítulo III: Welcome to South Korea


South Korea

Seul

Aeroporto Internacional de Incheon

8:00 a.m – segunda-feira – 2020

A minha espera estava a secretária Song Kyung-Mi em frente a um carro preto acompanhada de um homem. Ela não havia mudado muito, seus cabelos estavam mais curtos do que da ultima vez que a vira, porém a cor não havia mudado, ainda eram num tom avermelhado. A moça que conhecia desde muito tempo estava vestindo trajes elegantes. E na mão segurava o tablet, onde marcava e desmarcava os compromissos de meu pai. A mulher veio à minha direção, assim que entro em seu campo de visão, e fez-se a famosa reverencia asiática. Curvo-me também, um pouco sem jeito devido ao tempo longe da cultura, porém a atenção da secretária muda de mim para o cachorro ao meu lado — Esse é o...

— Khan. – completo — Eu comentei com a senhora ao telefone, lembra?

— Bem... Sim, mas não havia me dito que ele era desse... porte. – Sra. Song olhou mais uma vez para Khan sentado ao meu lado.

— Não se preocupe, ele é bem treinado. Não fará nada. – olho para o meu amigo bem comportado e faço um carinho no topo de sua cabeça.

Indo em direção ao carro, o homem que acompanhava a Sra. Song ficou um pouco apreensivo com o pastor alemão preto guiado na coleira por mim — um ser de 1,60 e que pesava 64 kg. Tal ação submetia-me a rir por dentro.

Durante o caminho, fico olhando a paisagem pela janela em silêncio. O céu estava nublado em Seul, o que deixava o cenário mais escuro e dramático. O lugar é constituído de prédios e em outras áreas continham as tradicionais arquiteturas, as quais permitiam o diferencial na paisagem. O tipo de cidade em que você verá arranha-céus tendo contraste com templos e palácios milenares.

— Srta. Anna, consegui uma bela casa para a sua estadia. – a secretária Song comenta quebrando o silencio durante a viagem.

— Espero que não tenha sido trabalhoso. – comento enquanto fazia carinho em Khan deitado com a cabeça em meu colo. Antes de vir, eu havia sugerido a secretária Song um lugar durante a minha visita. O motivo era simples.

— Não se preocupe! Fiz como havia me pedido: um lugar longe de vizinhança. – ela continua – Para ser sincera, estou muito contente com a sua volta. E o presidente também, é claro! Espero que a senhorita goste da casa que encontrei.

— Eu confio em você, secretária Song. – confirmo.

— Muito obrigada, senhorita! – uma pausa – Ah, o Pres. Park deu-lhe uma surpresa como boas vindas. Estará na garagem quando chegarmos.

Surpresa de boas vindas?

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Finalmente havíamos chegado à minha casa, ou pelo menos parecia. Assim que desci do carro com Khan, vejo a minha frente uma casa num estilo moderno e um pouco maior que pensava. A residência era dez vezes maior que a minha em Virgínia. Era muito moderna, havia contraste da madeira com as paredes de pedra, na parte de fora. Em cima, acredito onde era a parte do segundo piso, tinha umas quatro janelas enormes.

Passo o olho pela área e encontro a surpresa antes comentada — Sra. Song...? – chamo a moça, um pouco admirada.

— Sim. Essa é a surpresa do presidente. – ela continua – Ele mesmo encomendou. Disse que a cor preta seria perfeita, já que a senhorita prefere discrição.

Acho que não funcionou muito ter mudado só de cor... — penso.

— Que tipo de carro é esse? – pergunto ainda perplexa.

A secretaria puxa o tablet— É um conversível LaFerrari Aperta. Ele tem capota removível e chega a 963 cavalos. Pelo o que o presidente disse esse modelo já está esgotado e é muito seguro também.

Um conversível? Ferrari? – a ficha ainda não tinha caído. — Como eu iria andar por Seul conduzindo um carro desses sem chamar atenção?

— Então, Srta. Anna, o que achou? Gostou? O presidente prontificou de tudo pessoalmente.

Sorrio com o comentário — É muito bonito... Tudo é muito bonito. – faço uma pausa. – Obrigada. De verdade! – olho para a Sra. Song que me retribui um sorriso.

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Dentro da casa era tão bonito quanto por fora. As cores que conversavam entre si faziam do lugar aconchegante. A sala era aberta, havia um sofá imenso a frente da lareira e da televisão bem grande. A cozinha, muito moderna, interligava com a sala. A escada de madeira se destacava com as luzes nos degraus e com um pequeno jardim por baixo dela.

No segundo andar a parede que continha as quatro janelas enormes era onde habitava uma mesa no centro, de costas para a paisagem revelada das janelas. Nas paredes, tanto à esquerda quanto à direita havia estantes com muitos livros. Na sacada encontrava-se um sofá de frente à mesa. Tudo era muito bonito e confortável. Mal esperava o momento de estrear essa parte da casa. No mesmo andar continha: dois quartos, três suítes e um banheiro. A suíte principal detinha também os mesmos tons de cores como os outros cômodos. Nela tinha, além da cama, um sofá, duas poltronas, uma televisão, lareira, um closet espaçoso e uma parede com porta e janelas do chão ao teto separando uma varanda de frente para a paisagem. Tudo muito bem posicionado.

— Espero que se estale bem. – diz secretária Song descendo as escadas e eu atrás com Khan à minha escolta.

— Claro! Seria impossível não ficar bem! – comento ainda admirando a casa. Assim que chego à sala vejo uma pessoa em pé perto da porta de entrada — Srta. Anna esta é Kang Sun-Jung. – a secretária faz um gesto com uma das mãos para a senhora vindo ao nosso encontro que assim que chega perto nos cumprimenta curvando-se. Kang Sun-Jung era menos branca do que a secretária Song. Os cabelos estavam presos em um rabo de cavalo baixo, os mesmos eram mesclados com alguns fios esbranquiçados em destaque num mar de fios castanhos. Os olhos, bem fechados do que o normal. O rosto era marcado com muitas linhas de expressão. Uma pessoa de estatura baixa e um pouco acima do peso fazia uso de roupas, sapatos e bolsa simples — Ela ficará responsável pela comida e arrumação da casa. – continuou a secretária.

Da casa toda? — pergunto em pensamento. Desde que morei fora do país acabei me acostumando a fazer sozinha às coisas de casa. Mas, todas que morei não chegavam nem perto do tamanho dessa.

O quarto de empregada já está arrumado. – diz a secretária Song.

— Ham... Quarto da empregada? Ela não ficará em um dos quartos de cima que sobraram? – pergunto.

— Não senhorita, imagina! O quarto de empregada, daqui, é até muito para mim! – a pequena senhora me responde olhando para mim com um olhar confortável.

— Bem, eu nunca tive alguém para me ajudar nas coisas de casa quando estive fora. Então, não estou muito acostumada com isso. Mas, a senhora pode ficar tranquila que eu não sou do tipo que dá trabalho. – a pequena senhora olha para mim, abre um reconfortante sorriso e assente com a cabeça – E a senhora será minha ajudante, vamos deixar o termo “empregada” de lado.

— Como se sentir confortável! – assente a pequena senhora ainda sorrindo. – Bom, Srta. Anna, secretária Song, vou iniciar o meu trabalho. Com licença. – a Sra. Kang nos deixa depois de uma reverencia e segue em direção à cozinha.

— Aqui! – a secretária Song me surpreende me entregando um envelope pardo.

Olho o envelope antes de pega-lo — O que é isso? Outra surpresa do meu pai?

— São seus documentos de transferência para o Hospital MyungHee Unidade Sede. – a secretária continua – Sua entrevista está marcada para amanhã de manhã, às 9h.

Pego o envelope com os documentos — Entrevista? – pergunto perdida — Deveria ficar preocupada com isso? – penso — Secretária Song, eu não pedi isso... E não acho que será uma boa ideia. Da mesma forma que cheguei, sairei: invisível! – dou uma pequena pausa — Sou boa nisso! – falo apontando para mim um pouco inquieta.

— Não se preocupe Srta. Anna, a entrevista é só um protocolo. O diretor do hospital marcou essa entrevista por curiosidade em conhecê-la. – Sra. Song responde ignorando o meu drama.

— Me conhecer? Por quê? – pergunto ainda preocupada. Trabalhar no hospital que é a Unidade principal onde meu pai é um dos sócios, não me parece uma ideia muito inteligente. Em absoluto que isso não iria dar certo.

— Bom, ele viu o seu currículo e ficou bastante impressionado. – responde a secretária.

— Hum, mas... ele sabe que eu...

— Que a senhorita é filha do presidente? Não, ninguém do hospital sabe. – depois da resposta da Sra. Song, solto o ar um pouco aliviada.

— Mas como não sabem? Não precisam dos meus documentos? – pergunto voltando com a preocupação.

— Temos uma pessoa de nossa confiança no RH. – responde a secretária muito calma – Seus documentos estão com ela. – complementa.

Dependendo da situação, é capaz de eu ficar mais tempo que o programado. Enquanto Lúcios estiver me procurando no outro lado do mundo, continuarei aqui — Tudo bem então... É só isso? – pergunto levantando os documentos com o envelope.

— Sim, senhorita! – a secretária Song caminha em direção à porta de entrada fazendo barulho na casa com os seus sapatos de salto alto – Senhorita, mais uma coisa! – a Sra. Song para e vira para mim — O Pres. Park virá visita-la assim que as coisas na empresa se acalmarem. No entanto, ele mesmo disse que ligará para a senhorita hoje mesmo.

— Ah sim! Okay! – vou até a porta e me despeço da secretária.

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Já tomada banho e com roupas mais confortáveis do meu closet, desço até a cozinha. Lá eu vejo a Sra. Kang cozinhando e aproveito para fazê-la companhia sentando-me à bancada — O cheirinho está ótimo! – inspiro fundo para sentir o excelente aroma da comida.

— Obrigada! Espero que você também goste do sabor também! – Sra. Kang me responde com um sorriso no rosto, o que me faz sorrir também.

Ajumma! Posso lhe fazer uma pergunta?

— Duas se quiser, senhorita!

— A senhora tem filhos? – pergunto com o objetivo de conhecer um pouco a pessoa que estava morando comigo e que cuidaria de mim.

— Tenho! Três filhos já grandes! Dois rapazes e uma moça! – responde ela animada. Não pergunto sobre o marido. Mas, a Sra. Kang tinha uma aliança no dedo anelar na mão esquerda. Presumo que ele não esteja mais vivo, já que ela ficará aqui em casa — Seus filhos moram por Seul? – pergunto.

— O mais velho e a caçula já estão casados e moram fora do país com os filhos, esposa e marido. – ela abre um sorriso, orgulhosa. — Já o meu do meio ele não teve essa sorte! — fico em silêncio prestando atenção, como se a Sra. Kang estivesse contando uma história — Ele foi deixado pela noiva um dia antes do casamento. – ela complementa.

Eu arregalo os olhos surpresa.

— Pois é... A menina o deixou por outro que parecia ter uma condição financeira melhor. Mas, antes ela havia traído meu filho. – explica a pequena senhora com um tom triste.

...”traído”... — a palavra vinda em pensamento me deixa um aperto no coração.

— Ele ficou muito arrasado, senhorita Anna. Ele que havia arcado com todas as despesas, viagem, tudo! – ela continuou. — Ele estava tão apaixonado por essa menina. Nunca o tinha visto se entregar tanto por alguém. Ele falava comigo dos planos com ela, das viagens que iriam fazer juntos, da casa que comprariam, dos filhos que eles teriam, até os nomes das crianças ele já tinha em mente. Mas foi tudo por água abaixo!

— E o que ele está fazendo agora, Ajumma? – pergunto curiosa. A situação semelhante com um dos filhos da Sra. Kang me obrigava a torcer por ele.

— Ele é militar. Ganhou, há pouco tempo, a promoção para Major. Em qualquer oportunidade ele fica anos fora do país em missões. – a senhora Kang suspira triste. – Já faz cinco anos que não o vejo direito... Peço muito a Deus para que ele perdoe essa menina e encontre uma pessoa boa, sabe filha? Preocupa-me ele nessas missões longe de casa!

— Não se preocupe! Cada pessoa tem um tempo para enxergar a realidade. – faço uma pausa – Ele vai aparecer! – sorrio para a pequena senhora a minha frente preparando o jantar.

— Deus lhe ouça! – uma pausa. – Mas vamos parar de falar só de mim! – a Sra. Kang lava as mãos e as seca no avental – A senhorita é uma menina muito bonita! Deve ter deixado algum pretendente do outro lado do mundo a sua espera, não? – pergunta a pequena ajudante, sorrindo.

Sim! E estou aqui porque fugi dele!— respondo em pensamento — Obrigada pela “menina” e o “muito”! – rio com os elogios — Mas não, não tenho nenhum sequer pretendente me esperando... Só mesmo contas e dois amigos, algumas vezes, insuportáveis! Tirando isso, nada! – Sra. Kang agora estava no fogão mexendo em uma panela que tinha molho dentro.

— Não acredito! – diz a senhora desacreditada.

— É verdade!- respiro fundo — Sou médica. Os únicos suspirando por mim terão quem ser os livros! Não tenho tempo e também, não quero problema para mim. – faço uma pausa – Relacionamentos são... complicados!

A Sra. Kang olha para mim e começa a rir. — A senhorita está parecendo o meu filho! Essa frase é típica dele! – ela rir mais. – Mas, quando a senhorita menos esperar, bum! – ela junta as duas mãos a minha frente — A senhorita dará de cara com essa pessoa!