The Wall
4 IV
S. Estava perplexo. Ele mal podia acreditar no que seus olhos estavam vendo (e seus dedos tocando). Ele havia ganhado um pequeno pedaço de concreto no centro de seu peitoral, desafiando às leis da carne e da física. Para ser sincero, a visão fez se tornar difícil respirar. Talvez fosse uma pequena ponta de ansiedade, mas não havia nenhuma forma de explicar a pequena marca que havia em seu peito. O coração, como de praxe, batia normalmente como o de qualquer ser humano, mas havia concreto ali. Ele podia ver. Podia tocar. Era concreto de primeira.
De primeiro momento, acreditou estar delirando, mas não havia como negar a realidade – mesmo que distorcida. — Agora ele estava se tornando uma parede. Com um choque de realidade, S. se questionou se aquilo poderia se expandir, ou até lhe causar algum mal. Imaginou se por acaso aquilo crescesse até seu coração: ele pararia? Era difícil dizer.
Mas a surpresa maior, que o deixara ainda mais confuso, foi ao entrar na sala do quarto doutor naquele mesmo dia:
O doutor olhava confuso para S., e até mesmo forçava suas vistas para enxergar melhor.
O doutor se aproximou de seu assistente e cochichou entre eles.
Veja, ele não está drogado nem nada do tipo. Sem cheiro de bebida e parece um bom homem. Talvez esteja cansado, apenas. — O assistente concordou com a cabeça. — Vou recitar um calmante e descanso. Espero que ele melhore.E foi exatamente o que o doutor fez: calmantes e descanso, o que deixou S. irritado, pois possuía quatro prontuários exatamente iguais. Como sua realidade poderia ser diferente da dos outros?
Agora não apenas sem nome, S. também ganhou uma função estática no mundo. Só não conseguia entender por que era o único que conseguia ver sua própria condição. Ele não conseguia divagar com clareza, pois se encontrava em tamanho estado de choque do qual não estava mais em posse de suas faculdades mentais: Ele via algo que os outros não podiam ver; se encontrava em um nível que os outros não poderiam saber, e não havia a quem recorrer. De início, pensou que talvez Amiko até mesmo poderia, mas como ele mostraria seu próprio peitoral para ela? Não teve coragem nem mesmo de perguntar o próprio nome, mas parte disso também se dava pelo receio de ter a certeza de que ela não saberia dizer, pois ele sabia que na verdade estava apenas projetando uma solução na garota, e isso não era justo. Agora ele sentia algo parecido com febre, e pensou que poderia estar ficando doente, mas na realidade estava gelado. Como se ele realmente estivesse deixando esse mundo aos poucos e se tornando uma... parede.
O homem parede.
Ele se lembrara do homem parede na mesma hora em que saiu do consultório médico, e mais uma vez, imaginou que ele tinha algo a ver com isso. Na verdade, tinha certeza, pois ele havia apontado para o peito de S. no último encontro. Seria ele algum tipo de bruxo? Não fazia sentido... Por que ele escolheu S. para infernizar? Pelo menos era o que S. se questionava.
S. não possuía mais muitas coisas importantes para ele, então se apegou ao que possuía mais valor para que não fugisse da realidade: Ele passou o resto do dia andando pela cidade, tirando fotos de paredes.
Talvez pela primeira vez em sua vida, prestara atenção entre elas, para encontrar uma igual a ele. Algumas possuíam azulejos, eram de tijolos, outras possuíam listras, círculos. Na cidade grande, tudo que conseguimos ver são paredes, e edifícios feitos de parede, mas na realidade, as paredes não organizam: elas separam. Tantos funcionários, cada um em uma sala fechados por paredes: sem elas, estariam todos juntos. Funcionários, parentes, pessoas. Todos são separados por paredes e muros que se cercam entre nós, e agora S. não apenas sentia, mas viu com seus próprios olhos que estava se tornando uma. Qual seria o remédio? A cura? Isso era uma doença? Ele não sabia responder – ele nem mesmo sabia mais o próprio nome.
Sua próxima reação foi se sentar em um banco na primeira praça que encontrou e ficar em silêncio por um longo período. Agora ele não sabia se ainda era uma pessoa, e só tinha certeza de possuir algo, que pelo menos ainda o tornara humano: Medo. Medo do desconhecido, pois não sabia dizer o que aquela marca representava, sua origem e nem quais seriam as suas consequências. Ela estava dentro dele, este era um fato, e o futuro era incerto. Por isso ele temia. Um homem sem nome pode sentir medo de não existir? Ele já existiu de algum modo? Ou melhor, ele poderá, por alguma razão, sucumbir até virar nada?
Havia muitos problemas em S. agora, e ele não conseguia compreender nenhum deles, mas ao menos podia ligar um ao outro, como uma teia em um mundo quebrado.
Como não havia muito o que perder, decidiu buscar uma forma de encontrar seu nome de uma vez por todas. Se os médicos já o olhavam como se estivesse louco, o que importava o pensamento de outras pessoas? Ainda mais se pensar que aquela marca poderia se expandir, quem sabe até seu coração e o transformar em concreto de uma vez por todas.
S. voltou para seu apartamento para falar com o zelador, mas não o encontrou. Em seu lugar, encontrou dois homens conversando no corredor.
Embora encarassem, eles não responderam.
Dessa vez não só não responderam, como saíram para fora do prédio, deixando S. sozinho.
Como não recebeu uma resposta, S. decidiu ir até um bar, pois estava chateado com a própria situação. Ele procurou pelo boteco mais chinfrim que poderia encontrar, e procurou ali uma mesa afastada, onde poderia ficar sozinho.
De maneira introspectiva, começou a divagar a respeito de sua própria situação, e não pode deixar de se comparar. Parecia que todos os presentes naquele bar estavam em companhia de outros, menos S., que permanecia sozinho. Todos eram vistos, até mesmo lembrados, mas ele seguia sem algo que dizia ser muito importante para si: sua própria identidade. Isso o separava dos outros; essa perda representava o colapso da identidade social e pessoal que rodeava S., que nem mesmo reparou que mesmo a pouca distância, Amiko estava por perto, como observadora, e estranhava o fato de que a todo momento o observado passava a mão pelo seu próprio peito, como se estivesse com falta de ar ou algo do gênero.
S. já estava bêbado, com a visão turva, e assim que uma mulher que ele não conseguia ver com clareza se aproximou dele, ele disse:
Amiko temia que se falasse algo, ele reconheceria sua voz. Ela não pode evitar se aproximar; pensava que se o deixasse sozinho, ele arrumaria problemas, ainda mais encarando a todos como estava fazendo.
S. apontou para todas as paredes do bar.
Amiko corou, e com um feixe de luz que se fez naquele exato momento, S. se deu conta de que era ela.
O que você faz aqui? Estava de passagem e resolvi entrar, te vi logo em seguida... Obrigado por me ouvir, tem tanto acontecendo que não consigo imaginar uma solução. Eu falo de remédios, mas talvez não possua um. Do que está falando? Ele me roubou... e agora, algo está mudando em mim. Eu estou me tornando... algo que você não pode ver. Não aqui. Como? O que quer dizer com isso? Ele me amaldiçoou, é isso que você precisa saber.S. Se levantou e foi até o banheiro, deixando sua câmera ali, próxima de Amiko, que não pestanejou antes de pegá-la e olhar o que tinha ali. Ela sentia que estava profanando algo sagrado, como se invadisse um relicário, pois não há nada mais íntimo de um fotógrafo do que sua câmera, mas ela precisava ver com os próprios olhos o que um original como S. estava fotografando ultimamente, pois ela não queria ficar para trás. Porém, para sua própria surpresa, S. não apenas falava sobre paredes, ele também as fotografava.
Amiko não conseguia entender, mas algo ali ainda chamava sua atenção. Por algum motivo que nem mesmo conseguia entender, Amiko gostou daquelas fotos. Elas a animaram e decepcionaram ao mesmo tempo: Por um lado, ela viu obras primas antes de primeira mão, mas por outro, novamente, sentia que não poderia tirar fotos tão boas como aquelas.
S. Voltou do banheiro no instante em que Amiko largou a câmera.
Quando se inclinou para pegar a câmera, S. quase caiu, bêbado. Amiko o auxiliou.
S. concordou.
Sabe, Amiko? Se eu sou mesmo uma parede, creio que você seja uma janela.
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