The Wall
5 V
Amiko entrou no apartamento de S.
Como se esquecesse que ela estava ali, ele logo foi tomar um banho, e em vez de ir embora, ela continuou imóvel, na sala de estar.
S. passou um tempo se analisando frente ao espelho do banheiro. Ele via aquele pequeno concreto em seu peito, mas não possuía forças para lutar contra aquilo neste momento. Ele estava bêbado. Um homem sem nome precisa de muito mais esforço que qualquer homem comum para lutar contra algo. Ele se vestiu e saiu do banheiro.
Feche as cortinas. O que? Feche as cortinas. Por favor. — S. sentou-se no sofá — Antes que ele apareça. Um velho apareceu na frente da minha janela, ele é um homem parede. Desde então, me tornei um também. Sou um homem parede falso, estou em processo de solidificação. Ele me roubou e me transformou. Agora tudo que sei é que há algo que me foi tirado e nem mesmo consigo me lembrar do que se trata direito, só sei que era muito importante para mim. Entenda que estou te contando todas essas coisas não apenas porque confio em você e você está aqui agora, mas porque possuo certo apreço por você, de uma forma que não me faz muito sentido. Talvez eu tenha me apegado a você por ser o mais próximo da realidade que me cerca. É como se você me puxasse para dentro. O que consigo te dizer é que essa é a situação que estou passando. Você foi roubado?! Já foi até a polícia? Não, não é algo desse tipo. Me roubaram algo muito mais único, como se fosse minha própria alma. Algo que a polícia não pode me ajudar: Ele roubou a minha essência, e desde então vivo sem rumo, sem nem mesmo entender. É por isso que você tem estado tão diferente nos últimos dias?Amiko ligou com o que tem presenciado nos últimos dias. De início, não quis dizer nada, mas já que ele estava se abrindo. Ela faria o mesmo.
S. se levantou e tirou a camiseta que vestia, ficando nu da cintura para cima.
Amiko corou.
Sendo sincera... não vejo nada. Mas escolho acreditar em você.S. caiu no sofá, atônito.
O Caso de T.
Esses são os registros de uma parede.
Agora escrevo enquanto um pequeno pedaço de concreto está engrenado em meu braço direito.
Esse pedaço se fincou e mede o tamanho de quatro dedos, mas na semana passada eram dois e meio. Talvez amanhã sejam cinco, seis, talvez até um palmo inteiro... Me pergunto se crescerá até meu coração, e qual será o resultado disso. Talvez eu não possa mais escrever.
Esses são os registros de uma parede, feitos por um homem parede.
“Um homem foi encontrado morto dentro de uma máquina betoneira, fundido ao concreto. Testemunhas afirmaram que ele mencionou algo sobre ser uma parede antes de pular ali dentro. Ele não gritou, não agonizou nem pediu ajuda, foi como se estivesse deitando em uma cama estranha, afirmaram. A autópsia revelou que ele morrera a 10 horas. Ele não tinha pertences, documentos nem nada. Tudo que foi encontrado foram farelos de concreto e pequenos arranhões em seu peito”
Voltando a exatas 10 horas no passado você se encontra com um homem prestes a se jogar dentro de uma betoneira. Sua marca de concreto continuou crescendo de uma forma inimaginável, e ninguém acreditava nele, nem mesmo a própria esposa era capaz de ver aquele concreto que ele tanto falava. Você pensa a respeito, com respeito. Pensa o bastante para não dizer que é uma besteira, e começa a tentar ver as coisas do ponto de vista dele. Um concreto crescendo dentro de si, impedindo que você viva sua própria vida. É difícil caminhar, falar, ser. É difícil ser. Um homem que não é. Mas o que exatamente é ser? Você pensa a respeito, com respeito.
Você estava lá. Você o viu. O sentiu. Você também é uma parede. Existem algumas no mundo.
Você se parece com ele. Você podia ter escutado. Você pega um caderno e uma caneta e pensa em escrever, mas nada sai. Você caminha até a cama e se assusta com a própria sombra, mas nada sai. Você lembra de algo não tão importante, e foge do assunto principal, até que se lembra: betoneira. Você é um forte candidato ao suicídio misterioso, mas não teria coragem de entrar em uma betoneira... talvez você não seja tão parede assim. Você luta contra o sono, divaga mais um pouco, e logo você dorme. No dia seguinte, você esquece da reportagem, dos pensamentos e do caderno: você esquece quem você era.
Você vive uma nova vida a cada dia que se passa, ignorando todas as paredes ao redor, mesmo as que falam com você. Borrões, paredes, você ignora tudo, menos os pensamentos. Mesmo os farelos de concreto que impregnam sua mente e vão crescendo aos poucos, até se materializar em alguma parte do seu corpo.
====~~~~~~====
S. acordou no sofá. Amiko estava na poltrona em sua frente.
Eu... Adormeci? Sim, mas não foi por muito tempo. Olhando daqui você parecia estar com febre, então achei melhor lhe vigiar. Vai que se torna uma parede realmente..., mas então, o que você pensa em fazer agora? Eu não sei. Preciso encontrá-lo. Sinto que posso me transformar a qualquer momento. E o que acontece? Eu não sei com certeza. Só sei que sinto que quando essa ferida crescer, meus movimentos ficarão mais lentos, eu deixarei de pensar com clareza... não sei bem o que mais pode acontecer. Você acredita em mim? Sim, eu estou ao seu lado. Eu acho que realmente tive febre. E, tive um sonho. Que tipo de sonho? Eu estava em um tribunal. Não um comum, mas imenso e sombrio, feito inteiramente de concreto cinza, como uma muralha que crescia para o céu, em um formato circular como um ciclo sem fim. O ambiente era frio e austero, tinha algo de opressor contra mim. Ali embaixo e no centro, onde eu estava, conseguia ver tudo e todos os presentes. Era como se todas as paredes estivessem se fechando ao meu redor, com todos os olhares contra mim: Eu estava sendo julgado. A princípio não entendi bem o motivo das acusações, das pessoas, objetos, dos olhares..., mas logo começaram a falar em alto tom, que parecia até mesmo me arranhar por dentro. Todos, inclusive o júri, me olhavam como culpado por algo que não conseguia compreender. Um peso insuportável se instalou em meu peito. Eles estavam me condenando por ser uma falsa parede; por não cumprir o meu papel como parede. Ali havia relógios, luvas desbotadas, copos, porta-retratos, vários objetos, todos com uma função clara em seus respectivos mundos, mas ali, estavam para me julgar em uma acusação coletiva... Parece estranho, mas me lembro como o julgamento foi demorado, mas do que eu gostaria de admitir, e a sensação de que o tempo estava escorrendo enquanto eu não conseguia me mover era esmagadora. Eu estava sentado, e somente conseguia mexer minha cabeça, como se todo o meu corpo estivesse grudado na cadeira em que estava. Quanto ao júri, em sua totalidade, estava contra mim. Não houve testemunhas e eu nem mesmo possuía um advogado, eu estava condenado. “O papel de uma parede é suportar com firmeza tudo que é pendurado nela, como se fosse uma base.”, o juiz parecia estar lendo uma lei que eu não conhecia. “Você deve dividir, delimitar ambientes e pessoas! Deve proteger, ser uma barreira contra o exterior! Veja todos esses sentimentos misturados e em conflito!” O juiz continuava com uma convicção que me fazia questionar. “Você deve ser estável! Mas você não foi. Você não é confiável, não presta apoio!” Ele fez uma pausa, e eu vi em seus olhos uma autoridade indiscutível. “Olhe para seu próprio peito, você está rachando! Olhe para si mesmo!” Naquele momento percebi, eu estava me tornando não apenas uma falsa parede, mas uma parede falha. Minha função social estava em ruínas. Então o júri, em uníssono, gritou: “Você deve sustentar!”, “Sim!”, “Falsa parede!”, e tudo ficava ainda mais confuso. Eles estavam dizendo que eu deveria ser uma parede. Mas eu não sei como sustentar, ou como fazer essas funções. Eles me chamavam de Falsa Parede, e eu concordei com eles, sem saber se era uma acusação ou uma sentença, e talvez esse fosse o meu maior crime: não entender. Naquele instante eu me perguntei se em um mundo como esse, a função não é tudo. Se, ao nascer, uma parede já sabia o que deveria ser, já sabia seu lugar no mundo, mas por que eu não sabia o meu? Em um mundo onde cada coisa tem seu papel, eu me sinto deslocado. Entre ser ou não ser útil, cumprir ou falhar, talvez não saber realmente seja o maior dos crimes. Se ser uma parede significa ser uma base, então existir seria servir? Eu me perguntei então se, por ser uma parede, o mesmo destino se aplicaria a mim. Assim como elas, eu seria apenas um ponto de apoio, até que um dia, eu começasse a rachar e ser condenado ao esquecimento. Essas palavras ecoaram em minha mente até que eu o vi. O original. Ele estava ali, e me olhava como sempre, sem se mover. Então eu acordei.Amiko ficou em silêncio por um tempo.
Acho que você está pensando muito em paredes. Deve descansar um pouco. Veja, já irei embora. Amanhã nos vemos na agência, pode ser? Não se preocupe, irei lhe ajudar.Amiko se foi, mas S. não conseguiu descansar. Ele estava muito preocupado, e seu sonho não saía de sua cabeça. Ele tinha um medo real de que aquele concreto em seu peito se transformasse em algo maior, o impedindo de se movimentar, ou pior, realmente o transformasse em uma parede.
Fale com o autor