The Wall
3 III
Aquele homem é muito curioso, para não dizer confuso.
Seus pensamentos o tornam excepcional, intrigante e... curioso. Ele desperta minha curiosidade de uma forma que não poderia descrever sem utilizar exatamente essas três palavras: excepcional, intrigante e curioso, de uma forma boa.
Embora pareça grandioso e talentoso de fora, suas ações o resumem a um homem sozinho, que não sabe interagir com o mundo exterior e vive preso em seu próprio mundo. Nem mesmo as outras pessoas da agência forçam muito a sua presença. Eles o aceitam como se fosse um fantasma, ou até mesmo uma parede. Sim, é como falar com uma parede. Ele está ali, mas ao mesmo tempo não parece que está.
Pouco antes de comprar minha primeira câmera semiprofissional e me sentir satisfeita com ela, vi fotos em uma revista que não só chamaram minha atenção, como despertaram algo dentro de mim. Elas eram em uma rua que eu não conseguia ver com clareza. Uma das fotos, talvez a mais chamativa para mim, estava de ponta-cabeça e as duas pessoas que apareciam caminhando estavam com os rostos borrados. A foto estava meio trêmula, como se tivesse sido tirada sem querer, mas isso não a impediu de estar em uma revista, e mesmo que alguém diga que foi sem querer, para mim, foi um toque de gênio. Talvez isso seja uma beleza verdadeira, e essa beleza retirou toda a satisfação que eu tinha com as minhas fotos, o que logo se transformou em um zelo e obsessão, junto da queda da realidade: Eu jamais poderia tirar fotos assim.
Passei dois dias inteiros analisando aquela fotografia. Eu a recortei e colei na parede ao lado da minha cama. Cinco cópias dela. Nesses dois dias, durante a tarde eu observava a fotografia e a noite saía, tentando tirar uma parecida, ou que pelo menos me causasse o mesmo sentimento. Ao todo, neste par de dias, tirei 67 fotos e nenhuma – eu repito -, nenhuma me trouxe o sentimento da original. Eu não era capaz de tirar fotos assim. Ele era um fotógrafo original, um fotógrafo de alma. Eu era falsa.
Minhas fotos eram coloridas, alguns diriam bonitas. Eu fotografava a vida bela, e fui “famosa” por isso. Na escola, faculdade, entre amigos e até nos freelancers que conseguia por indicação de alguém que gostava das fotos. Eu era boa no que fazia e conseguia viver só com esses freelancers, mas eu não me sentia satisfeita, pelo menos não após ver esse original. Aquela pessoa, ele... Era muito gênio para alguém falso como eu.
Sua foto era cinza, melancólica, me fazia pensar. Aquele sim era o mundo em sua forma crua e verdadeira. Era rápida, um borrão, assim como todos nós. Quantas pessoas passam por nós todos os dias apenas como borrões? Nem mesmo vemos seus rostos de verdade. Quantas pessoas passam e não são nem mesmo tratadas como pessoas? Não... Todos são borrões; assim como nessa foto: Somos borrões na vida de outras pessoas. Borrões tão intrínsecos que não são dignos de atenção. Eu era um borrão falsa, imagino.
Não possuía tamanha habilidade ou linha poética para imaginar algo daquela magnitude. Aquela foto era mágica, era perfeita. Original. Eu era falsa. Tentar tirar algo parecido não era só irreal, como até mesmo pecador.
Essa foto me fez procurar a administração da revista — Não era muito grande, afinal -, e assim descobri que veio de uma agência. Eu, uma amadora falsa, tinha a certeza de que a pessoa que a tirou era uma espécie de gênio com uma câmera mágica, e eu precisava conhecê-lo. Com esse pensamento e com minhas falsas habilidades, consegui um emprego na agência.
Imagine minha surpresa ao ver que não era um gênio, mas uma pessoa... curiosa. Original. Talvez até mesmo fosse um gênio, mas eu era amadora demais para notar, e algo nessa pessoa chamava muito a minha atenção, eu só não conseguia descobrir o que exatamente. Sempre aéreo, tratando-me e a todos com indiferença de uma parede. Todas as vezes que nos falamos era como se fosse a primeira vez, como se eu fosse um borrão em sua vida. Eu o via, de forma sutil, como um original, ele me via como um borrão. O eu no coração dele era insignificante quando comparado a figura dele no meu. No princípio, pensei que era arrogância, mas com o tempo percebi que era o seu jeito, e incrivelmente eu era uma das pessoas que mais falava com ele neste lugar, o que me surpreendeu. Embora eu tentasse me aproximar cordialmente, ele realmente não parecia se importar, como se sempre tivesse algo mais importante em sua cabeça, que ele precisava lidar naquele mesmo instante. Seu corpo sempre esteve presente, duro, imóvel, mas sua mente, não...
Embora ele fosse assim, frio, eu o via mais a fundo, afinal, compreendia o trabalho original, e confesso que, se pudesse, o olharia mais de perto sem pestanejar, assim como olhei para aquela foto e todas as outras que tive acesso. Eu gostaria de ver todas as suas fotos para sempre, apenas as dele. Mesmo assim não sei se conseguiria descrever tamanha emoção que me causavam, assim como ele.
Sim, ele...
Acredito que Beethoven fez muitos concertos antes dos mais conhecidos, e Da Vinci deve ter feito quadros medíocres antes de Monalisa. Não estou dizendo que suas fotos são medíocres, longe disso, mas nem todas contêm aquele brilho. Então quero estar por perto, com certeza quero estar por perto quando ele tirar a próxima magnífica que mexerá comigo, pois não há nada mais neste mundo que me faça sentir o que senti naquele dia. Quero me sentir assim novamente.
A pouco ele invadiu minha sala, e eu entrei em pânico quando o vi: Entre os papéis que pegou do chão, estava a foto que ele tirou e eu roubei. Imagino qual teria sido sua reação ao ver uma fotografia que ele descartou entre minhas coisas. Imagino se descobriria que sou apenas uma falsa. Isso não poderia acontecer. Por isso corri para tirá-lo dali, mas seus métodos me fizeram questionar o porquê ele estava em minha sala. Quando fui atrás dele, não estava na sala, e o encontrei saindo da sala de revelação, mas ele, novamente me tratou como um borrão: Passou por mim e foi embora, sem nem mesmo me notar. Posso ter me arriscado, mas entrei ali e vi uma foto estranha largada para trás, continha um homem borrado. Não entendi muito bem, mas a guardei, era obra do original.
Quando saí dali, com medo de ser descoberta, o vi indo embora. Eu poderia desistir e ficar ali ou segui-lo, mas senti que se o perdesse de vista, sentiria falta pelo resto da minha vida. Além disso, sentia que havia algo a mais, principalmente pela forma que ele estava apressado.
Havia algo a mais neste homem, e eu descobriria, ou pelo menos tentaria compreender mais o abismo que separava o original de nós, falsos amadores.
Peguei minha câmera e saí logo após dele, seguindo-o com cautela para que ele não me notasse, mas na realidade sei que como sempre ele estava tão perdido em seus pensamentos que mesmo que eu parasse em sua frente e esticasse minha mão, ele me trataria como um borrão, pois somos invisíveis para aqueles que não querem nos ver...
Ele caminhava com pressa. Sua primeira parada foi a cerca de dois quilômetros da agência, em frente a um portão fechado e velho que parecia ser um restaurante antigo. Sua entrada era feita de uma madeira desgastada, e de alguma forma pude sentir a frustação e até um pouco de medo em seu rosto ao ver que o lugar estava fechado. Era como se ele não pudesse acreditar. Imagino que ele gostava muito dali quando estava funcionando... Logo ele caminhou novamente e o segui até a estação, onde pegamos um trem e paramos na frente de um apartamento. Eu não conseguia entender bem o motivo daquelas viagens, mas continuava seguindo-o, pois sabia que poderia me levar a algo mais. Eu me sentia uma espiã ou algo assim, e a adrenalina em minhas veias me excitava. Eu não queria que isso acabasse agora. Era como se eu fosse descobrir algo muito grande, além da minha compreensão, ou apenas pudesse estar presente quando ele realizasse sua próxima obra prima. As duas opções me agradavam.
Da frente do apartamento ele caminhou até um beco que havia atrás do mesmo, mas ali não havia nada além de lixo. Seria complicado segui-lo ali, então parei do outro lado da rua e utilizei o zoom da lente da minha câmera para não o perder de vista, mas confesso que estava com medo de que alguém me pegasse em flagrante e me considerasse como stalker ou algo do gênero, afinal eu não estava nas redondezas de onde morava e estava seguindo alguém, o que poderia ser considerado até mesmo algum tipo de crime. No beco ele caminhou lentamente até a frente do que parecia ser uma janela, mas nada fez além de ficar parado por alguns instantes na frente dela, exatamente da mesma forma da foto que ele largou na sala de revelação, o que achei... curioso.
Sem ter muito tempo para pensar a respeito, ele logo voltou para a estação, pegou um trem e foi para uma praça. Eu já estava cansada de tanto segui-lo.
Na praça, sentou-se em um banco e ficou parado até a noite chegar. Sim, eu o observei a distância até o anoitecer.
Não conseguia compreender o que estava acontecendo, mas sabia que precisava continuar procurando. Algo no original me fazia sentir que não poderia perdê-lo de vista nunca. Suas atitudes poderiam ser incompreensíveis para mim, mas eu não as julgaria neste momento. Não sem tentar entender. Quando você se propõe a espionar ou perseguir, deve aceitar as coisas como são, e não as julgar sem ter argumentos o suficiente para isso. No máximo, criar suposições, mas elas decerto serão errôneas se precoces: Aquele que olha deve cumprir o papel de olhar e supor, assim como aquele que é observado deve ser observado, não há nada mais do que isso.
Eu apenas cumpriria o papel que me propus a fazer, e o seguiria apenas com minhas suposições, pois acreditava que estava ligada a ele de algum jeito, então precisava segui-lo. Este era meu propósito. Talvez assim eu o compreendesse mais e diminuiria a distância entre o original e o falso. Eu sentia que era a pessoa mais apta no mundo para entendê-lo. Na verdade, tinha plena certeza disso.
Na praça, era como se ele esperasse por alguém, mas ninguém chegou. Todos passavam por ali e iam embora, e ele ficou sozinho. Ninguém falou nem olhou para ele,
Eu não tinha respostas, mas tinha fotos. Poderia perguntar sobre quando tivesse uma abertura. Tudo que eu precisava era de uma abertura, mas parecia impossível. Sua descrição e compostura me atraíam cada vez mais para algo que poderia ser fatal, mas eu precisava ter paciência. Nossos destinos pareciam estar ligados de uma forma que eu não poderia explicar, ou apenas quero estar por perto da próxima vez que ele tirar uma foto como aquela.
Eu não posso desistir agora, eu preciso continuar...
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S. passou o resto da tarde sentado no banco de uma praça. Era como se esperasse por alguém, mas isso não era certo. Na verdade, ele apenas pensava, e ao fazer isso, se desligava do mundo exterior. Seu nome havia fugido de si, e ele vivia repetindo para si mesmo outras informações que sabia, para confirmar se mais nada havia fugido. Ele lembrava da sua idade, comida favorita, onde estudou... Lembrava que a muito tempo não possuía uma família, e pela primeira vez em anos se lamentou disso, pois se tivesse, talvez poderia ligar e perguntar sobre si. Mas ele se questionava se seria reconhecido: Um homem sem nome possui família? Possui uma história? Ele achava que não; parecia certo achar que não.
Ele não conhecia outros homens sem nome para perguntar o que deveria fazer agora, mas sua cabeça estava muito assustada para saber o que fazer agora.
Quando voltou para si já era noite, e ainda estava sentado naquele banco, olhando para o nada. Ele se perguntou quantas pessoas deviam ter passado por ele nesse tempo, e se alguma o notou, ou se ele apenas foi um fantasma ou alguém indigno de atenção, como...
Como o homem que ele viu em meio a alguns matos um pouco adiante. O homem olhava para ele, escondido entre os arbustos, mas pelo olhar vazio, a face e o frio na espinha que sentiu, S. sabia quem era. Era como se estivesse sendo seguido.
S. se levantou e foi até lá, entrando no meio dos arbustos, mas o homem parede não se moveu e continuou olhando para o lugar onde S. estava antes.
Quem é você?Mas o homem não respondeu, nem se mexeu.
Quem é você? Por que está me seguindo? Novamente pergunto, quem é você?!S. se exaltou.
Eu deveria perguntar, o que você é?S. sentiu um frio na espinha com a pergunta.
O que você sabe sobre isso? O que você não sabe? Ora, quem é você?!O homem parede levantou a mão direita e apontou em direção ao peito de S., que não entendeu bem o motivo. Logo ele abaixou.
Está tudo bem por aqui? — Um guarda se aproximou, talvez atraído pelo grito de S. Sim, policial. Está... O que você está fazendo em meio a esses arbustos? Saia daqui, vamos!O guarda expulsou S. dali, mas nada fez em relação ao homem parede. Quando olhou para trás, S. não conseguiu ver o homem parede, mas também não tinha visto ele sair. Talvez ele fosse muito rápido. Por curiosidade, S. retornou para o arbusto, e confirmou que ele não estava ali, o que deixou S. atônito.
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Eu o vi gritar com um arbusto... O que está acontecendo?
Depois de horas sentado, ele se levantou, foi para o meio de arbustos e começou a falar, mas eu não vi nada ali. Quando usei a lente da minha câmera para ver mais de perto, vi ele olhando em direção a um... borrão.
O que está acontecendo com ele?
Ele parece ainda mais misterioso agora. A excitação cresceu. Eu não posso perdê-lo de vista.
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Após o encontro estranho, S. tinha ainda mais o que pensar. “O que você é?”, foi o que o homem parede o perguntou. Não “Quem é você?”, mas “O que você é?”... Ele não conseguia entender.
Mas isso lhe fazia acreditar que aquele homem realmente tinha algo a ver com o roubo de seu nome.
S. entrou em casa, fechou as cortinas e foi tomar um banho quente e demorado. Após sair, se secou, passou um pano no espelho para conseguir se ver e logo o derrubou no chão, quase caindo para trás. No centro do peito de S., do tamanho de mais ou menos dois dedos, havia um pequeno buraco, mas não era oco, era liso e duro, até um pouco gelado. Era concreto. Era um pequeno buraco de concreto, ou melhor... de parede.
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