The Wall
2 II
Não havia uma forma clara, concreta e lúcida de falar isso para qualquer pessoa. Não era como se pudesse ir até uma delegacia fazer um boletim, ou pedir ajuda.
S. nem mesmo havia como provar ou manter certeza sobre o que pensava, mas isso o fez desistir da hipótese de que logo seu nome voltaria para si. Agora estava certo de que havia sido tirado dele, só não sabia como reagir a isso. O que exatamente é um indivíduo sem um nome? Não sentia vontade de roubar o nome de outra pessoa ou coisa, e nem mesmo sabia como poderia fazer isso. Ele simplesmente sabia que nada lhe pertencia, e agora, ele não pertencia a nada também.
A dúvida que restava, de uma maneira amarga, era não saber se algo mais havia sido roubado no caminho.
Quando retornou para a agência, apressado, entrou em sua sala e viu algo em cima de sua mesa. Se tratava de três fotos escuras, mas eram bonitas. Elas remetiam bem ao que Amiko havia lhe dito. Mesmo enxergando beleza no trabalho, também via certo amadorismo, mas não culpava a garota por sua opinião – As fotos eram melhores até mesmo que as que ele tirava quando iniciou no ramo.
Então, o que achou? — Amiko entrou na sala. São boas. Apenas isso? “São boas”? Sim. Não há muito o que dizer. — Na verdade, S. estava com outros problemas na cabeça, o que o mantinha disperso do assunto, mas tentou mantê-lo. — Olhe, são realmente boas, você está melhorando. Se trouxe para que eu veja, presumo que serão utilizadas, é isso? Sim, graças a você. Se não fosse a lente que me indicou, não seriam tão boas. A lente é um objeto. O sentimento é totalmente passado por quem está utilizando a câmera, e não exatamente por ela. O esforço é totalmente seu, elas são apenas um auxílio.Amiko se aproximou da janela.
S. Não prestava mais muita atenção no que Amiko falava. Na verdade, ele já havia largado as fotos em cima da mesa e voltara a procurar em seu computador qualquer coisa que pudesse conter seu nome, mas de tudo que encontrava, parecia que o nome havia sido arrancado; era como se ele estivesse delirando, mas sabia que não estava, pois, aquela mulher ainda estava ali, ignorando o fato de estar sendo ignorada, e inesperadamente ela o chamou para almoçar, como “pagamento pelo bom trabalho das fotos”.
Mesmo sem entender o motivo, S. resolveu aceitar, pois precisava espairecer, e talvez encontrasse uma abertura para perguntar sobre seu nome.
Amiko tomou a frente sobre o almoço: Escolheu o restaurante — Não era muito longe da agência -, e até mesmo quis fazer o pedido sozinha, então foi até o balcão, enquanto S. se ocupou apenas em encontrar uma mesa próxima de uma janela, onde poderia olhar a paisagem. Era o que ele fazia quando Amiko o encontrou.
O que tanto olha? Buscando uma inspiração? Podemos dizer que sim. Estamos almoçando, não se preocupe com isso agora.Amiko pediu que ele evitasse tirar fotos durante o almoço, como se adivinhasse que ele carregava uma pequena câmera em seu bolso. Sempre carregava uma consigo, pois achava que as lentes de uma câmera são o que há de mais poderoso no mundo. Suas imagens são como lei. Após captadas, em essência não podem ser alteradas. Uma fotografia é poderosa, pois não há justiça nelas. Apenas momentos e lembranças. Assim como os humanos, que também são feitos de momentos e de lembranças.
Enquanto almoçavam, tudo que passava em sua cabeça eram nomes masculinos, que repetia para si mesmo como um mantra, para ver se algum parecia lhe pertencer, mas seu esforço era em vão.
O que tanto pensa? — Amiko questionou, incomodada pelo silêncio. Estou pensando em fotos. Na verdade, nas câmeras. Acho que embora elas capturam a essência de alguma coisa, não podem capturar algo realmente muito importante; algo que nos difere dos outros. E o que seria?S. Se empolgou.
Amiko sorriu e aceitou que terminassem de comer em silêncio.
S. tinha muito o que pensar, e até mesmo já se sentia atônito em relação aos últimos acontecimentos. Ele temia não apenas ter sido roubado, mas sim nunca conseguir recuperar o seu nome. E se talvez, por algum motivo, seu nome tenha voltado para ele, mas não o reconheceu? Como uma pessoa poderia não reconhecer a si mesmo? Embora soubesse que suas dúvidas eram sem sentido, ele as sentia neste momento, e isso era o bastante para atingi-lo ainda mais.
Ele não conseguia entender o motivo pelo qual Amiko o chamou para estar ali, mas enquanto voltavam para a agência, a garota, de uma maneira muito insistente, o fez concordar que daria mais atenção aos trabalhos que ela apresentasse para ele a partir de agora, como se fosse uma espécie de tutor – algo que ele não se considerava digno de exercer, mas acabou cedendo.
Quando voltou para sua sala, começou a se lembrar sobre as fotos, e lembrou-se de algo: Ele havia fotografado o homem parede pela vista de sua janela.
Rapidamente, buscou a câmera e apressou-se a revelar a foto. A câmera que carregava consigo era pequena, se tratava de uma analógica, então ele precisaria revelar aquela imagem, mas não era um problema, pois conhecia o processo muito bem. Para dizer a verdade, pela primeira vez em muito tempo, ele tentava se conter durante o processo, pois tremia feito um amador. Não por medo, mas por ansiedade em ver novamente aquele homem parede. Talvez assim, agora, pudesse reconhecê-lo de alguma forma, ou até mesmo usar a foto para procurá-lo futuramente, pois tinha a certeza de que ele estava ligado com aquilo, de alguma maneira. Inclusive, achava graça no termo “homem parede”, mas decidiu chamá-lo assim, pois ele sempre ficava imóvel, como uma.
Quando já estava nos processos finais, da secagem do material, S. sentia-se atônito, pois sua cabeça já doía de tanto pensar em nomes, então decidiu sair da sala para buscar um café.
Ao sair da sala, percebeu quanto tempo havia passado. Já estava no meio da tarde. Uma ideia maquiavel veio a sua cabeça quando notou que a porta da sala de Amiko estava aberta, e se aproximou. Ela não estava lá. Sua sala era menor que a de S., e um pouco mais bagunçada. Ali havia uma mesa, sua cadeira e um computador um pouco velho. Também um pequeno arquivo e um quadro que parecia uma lousa, com algumas fotos penduradas, e outras espalhadas. Até mesmo no chão havia alguns papéis, um pouco desorganizado. Próximo da janela, do outro lado da sala, havia uma planta média cujo cheiro incomodava S.
Ele se perguntava se algo ali poderia conter o seu nome, mas não se atreveria a mexer naquelas coisas. Exceto por alguns papéis que quase pisou, pois estavam no chão. Quando se abaixou para pegá-los, ouviu uma voz. Era Amiko.
Amiko tomou os papéis de sua mão e os jogou dentro de uma gaveta. Parecia zangada em vê-lo ali.
S. Retornou para a sala de revelação um pouco envergonhado. Era fato de que estava atrás de seu nome, mas era embaraçoso falar sobre isso, ainda mais com uma pessoa como Amiko. Embora não tivessem tanto contato, sabia que ela o via de uma maneira diferente, e por algum motivo, tentava se aproximar agora que precisava. Ele pensou que poderia usar o respeito que ela tinha a seu favor, mas não sabia bem como exatamente poderia fazer isso. Embora possa não parecer, é muito difícil para um homem sem nome tomar posição sobre qualquer coisa que pareça importante em sua vida. Algo o segura, talvez seja a falta de identidade, logo se tornando algo sem personalidade...
Quando retornou para a sala e conseguiu pegar as fotos em mãos, quase caiu para trás: Tudo que havia era um borrão. A foto estava borrada.
S. não entendia. Ele sabia que isso não havia acontecido, pois viu perfeitamente quando fotografou e dado a distância, sua câmera e experiência, sabia que nunca poderia ter tirado uma foto ruim, mas as duas fotos que estavam em sua mão continham um borrão; não estavam focadas. Ele via o muro, e a silhueta do homem parede, mas não conseguia distingui-lo do resto. Então não poderia usar aquela foto para nada.
S. sentiu-se muito frustrado, e resolveu voltar para sua casa. Era hora de encerrar o dia, pois não conseguia pensar em nada além de sua própria situação. Ele deixou uma das fotos na sala de revelação, e a outra carregou consigo. Havia um homem em sua vida que só ele conseguia ver, como se fosse um fantasma que o assombrava. Ele havia perdido o seu nome, e temia se poderia perder algo além daquilo, ainda mais dado sua condição. Algo intransferível lhe foi tomado, e ele culpava totalmente aquele homem por sua situação neste momento. Ele não o conhecia, mas estava certo de que a culpa era dele. Sem sombras de dúvidas, o homem parede era o culpado, e S. o odiava muito neste momento.
Quando saiu da sala, Amiko estava na porta, mas ele não a deu atenção, apenas foi embora e Amiko entrou na sala, pegando a foto que S. abandonou.
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