Um dia, um homem parede fixou residência logo abaixo da janela de S.

Sua presença ali instantaneamente causou uma espécie de incômodo, ainda mais porque para S. aquele era apenas um senhor comum. O pequeno apartamento possuía uma grande janela no cômodo que servia como cozinha e sala, e essa janela dava em uma pequena viela atrás do edifício. De primeiro momento, S. sentiu um arrepio na espinha, o que o fez deduzir que algo estava errado, como se o atraísse. Embora os vidros e as cortinas estivessem fechadas, ele sabia que havia algo ali, e quando abriu, o viu: Um pequeno senhor de rosto senil, com ralos cabelos brancos, imóvel ali, a cerca de três ou quatro metros, e pareceu não se importar quando foi notado. Na verdade, ele nem mesmo olhou para S., o que o incomodou mais ainda.

Embora tentasse ao máximo não olhar para o velho, olhava. Ele lutava contra si mesmo para ignorá-lo, mas era derrotado nesta briga interna. Os primeiros sintomas da presença foram aversão e raiva aquele corpo idoso que se impôs, invadindo seu território.


O primeiro pensamento que teve foi esperar para ver se o senhor ia embora, mas isso não aconteceu, pelo contrário — continuava imóvel, com os braços colados ao corpo e a cabeça levantada, como se esperasse por algo, ou por alguém -, mas esperar justamente na frente daquela janela, para S. parecia ser um dos crimes mais graves, e só isso já lhe causava ódio. Fingir que ele não estava ali ou que fosse invisível não adiantava, pois tinha a certeza de que aquela presença estava ali, ameaçando invadir seu território.

O senhor nem mesmo olhava para ele, mas estava tão perto que decerto conseguia ver de soslaio as movimentações e sentir os olhares nervosos do morador do apartamento, mas não parecia dar importância o bastante para encará-lo de volta.

Embora o homem parede não transmitisse nenhuma emoção ou falasse algo, S. sentia que deveria odiá-lo, e foi o que se pôs a fazer. Definitivamente ele odiava aquele homem desconhecido. O ódio aumentou quando tentou conversar com o cansado zelador do edifício, que após examinar rapidamente, disse que nada podia fazer, pois o velho só era visto daquela janela, e não parecia ser perigoso ou trazer algum tipo de perigo.


Logo ele irá embora, não se preocupe com isso. — Foi o que o zelador disse. — Você já pensou em fechar as cortinas? Se ele realmente estiver aqui para te olhar, isso irá impedi-lo. Apesar que se ele sentir seu desprezo, não vai mais querer estar aqui.

Mas S. não queria fechar as cortinas, ele queria que aquele homem desaparecesse. Por algum motivo, ele se sentia perseguido e ameaçado. Até poderia fechar as cortinas, mas isso significaria deixar o velho ganhar esse embate feito no território de S., e mesmo sem o ver, sabia que o homem estava ali, pois mesmo quando ia para outro cômodo, jurava que conseguia sentir aquela estranha presença na frente de sua janela.

Tamanho foi o seu ódio quando acordou no dia seguinte e o velho ainda estava ali, como se propôs a fazer, da mesma forma que estava no dia anterior, como se não tivesse movido um único músculo.

S. era um fotógrafo urbano, que trabalhava em uma pequena agência no centro da cidade. Enquanto se arrumava para ir ao trabalho, pegou sua pequena câmera e, de relance, como que escondido entre a passagem da porta do quarto para a cozinha, fotografou o homem parede. Nesse momento, o homem parede olhou para ele. Nada disse, nem mudou de expressão, apenas olhou, e seu olhar foi o bastante para fazer com que o sangue de S. subisse à cabeça.


Ele fechou a cortina, pegou o que precisava e saiu do apartamento.

Ele ainda está me incomodando. Livre-se dele, por favor. — Disse ao zelador antes de ir para o trabalho. Eu suponho que você tenha falado que deseja que ele saia, não é? — Retrucou.

Mas não houve uma resposta clara.

No caminho para o trabalho, a cabeça de S. começou a doer de tal forma que o fez até mesmo esquecer o embate que teve com o velho.

S. chegou no trabalho e foi direto para sua sala, buscando um remédio para a cabeça em suas gavetas, mas encontrou cartões de visita, que chamaram sua atenção. Algo estava diferente naqueles cartões, mas ele não conseguia se dar conta bem do que era. Após olhar minuciosamente, notou algo, na verdade, a falta de algo: um nome. Havia o nome da agência e telefone para contato, mas não havia um nome, mesmo havendo espaço para tal informação.

Em sua cabeça ele tinha a certeza de que na última vez que viu esses cartões, eles possuíam seu nome naquele espaço que estava em branco, e sentiu um frio na espinha ao pensar muito na situação, mas não conseguir se lembrar: Qual era mesmo o seu nome?

Então buscou em agendas, anotações, arquivos no computador, até mesmo em sua carteira, atrás de algo que pudesse possuir o seu nome, mas para seu espanto, tudo possuía um espaço em branco. Havia apenas espaços para nomes.


Embora estivesse assustado, tentou manter a calma e entender o que estava acontecendo. Embora não se lembrasse do próprio nome, conseguia lembrar tranquilamente sobre a idade e o local onde nasceu. Também lembrava o nome da agência, seu cargo e comida favorita. E talvez você duvide da capacidade de S. de ter certeza dessas informações, mas ele tinha certeza de que lhe pertenciam, pois quando as repetia em sua mente e até em voz baixa, tinha certeza de que não eram inventadas. Essas informações pareciam certas, pois lhe traziam algo semelhante a uma memória afetiva. Quanto ao nome, podia repetir vários nomes masculinos que lhe vinha à cabeça, mas não sentia pertencer a nenhum.

De primeiro momento pensou estar sofrendo de algum tipo de Amnésia Psicogênica, mas em seu interior, sentia de alguma forma como se tivesse sido roubado.

No corredor da agência que dava para a copa havia um mural com notícias da empresa, e uma lista com o nome de todos que faziam aniversário no mês, mas novamente a confusão ecoava em sua mente, pois nenhum dos nomes novamente parecia lhe pertencer. Quando os repetia para si mesmo, não parecia certo, era como se estivesse tentando roubar o nome de outra pessoa.

Para ele se forçar a pertencer a outro nome o fazia se sentir um animal, que é identificado com o nome de outro por uma criança que está aprendendo a falar. Como quando a criança chama uma raposa de cachorro, ou um gambá de gato. Aqueles nomes não o pertenciam, e tentar caber em qualquer um deles, era como mentir para si mesmo.

Manteve seus olhos fixos no mural por um tempo, esperando forçar, sem sucesso, um nome a lhe pertencer, mas se lembrou de algo. Ele não fazia aniversário naquele mês. Ele se lembrava de que o faria em cinco meses, e essa informação também parecia correta.


Essa busca o deixara, de certa forma, assustado, pois internamente poderia jurar não aludir de amnésia, e sim de algum tipo de roubo, mas... como poderia provar que fora roubado? Como alguém pode roubar um nome? Ele se convenceu de que, aos poucos, se tiver sorte, a informação poderia voltar para ele, pois lhe pertencia. Então se forçou a trabalhar, mas, não conseguiu, pois não poderia ficar em paz após perder o próprio nome. Aqueles cartões de visita sem nome, ou o pior, não encontrar um único documento com um nome o assustara de uma maneira inimaginável, como se estivesse sonhando.


O que seria um homem sem um nome? — Foi a primeira pergunta que se passou pela sua cabeça, mas era muito cedo para qualquer tipo de resposta.

Quando voltou para a frente do quadro e degustou de um gole amargo de café, uma mulher se aproximou.

Bom dia. — Foi o que disse, e foi o bastante para que ele se lembrasse do nome dela. Era Amiko.


Amiko trabalhava a pouco tempo na empresa, cerca de três ou quatro meses. Ela também era fotógrafa, mas não no mesmo nível, talvez fosse apenas uma iniciante ou estagiária. Ele pensou bem a respeito, mas sabia que não poderia simplesmente perguntar qual era o próprio nome – isso a faria questionar sua sanidade.


Ora, você me conhece. Mas é claro. Não conversamos às vezes? Tem razão. Como estão suas fotos? Melhores agora, graças a sua dica. Uma 35mm f/1.8 realmente é melhor para o trabalho que quero fazer agora. É o que você havia mencionado. Para o tipo que você me disse, foi a lente que me veio à cabeça. Ela captura detalhes próximos, mas mantém um campo de visão amplo. Baseado na minha própria experiência, surge uma boa sensação quando vejo fotos tiradas por essa lente. Obrigada por isso!


Por outro momento, S. se viu muito tentado a perguntar seu próprio nome para Amiko, e se segurava muito para não o fazê-lo, pois não sabia como poderia questionar algo assim sem parecer uma brincadeira, mas também sem um toque de afronesia.

Ele decidiu então sair para espairecer e comer algo, para que pudesse se distrair um pouco e começou a andar pelas ruas com sua lente. Tirou três fotos: Prédios altos, pessoas andando e um pássaro voando. Nada que chamasse muito sua atenção o bastante para dizer como trabalho. Era apenas um passatempo; algo com que pudesse distrair a mente, mas na realidade às vezes se sentia prepotente por seu lazer ser também o seu trabalho: ele não sabia muito bem o que era sem uma câmera, mas agora tinha uma noção — Um homem sem nome.

Caminhou até encontrar algo que realmente chamou sua atenção. Era um restaurante humilde, mas não o fotografou. Sua entrada era velha e desgastada de tal forma que o nome estava ilegível na placa acima da porta de entrada. A entrada também estava um pouco suja, mas tinha certeza de que a placa em frente dizia “aberto”, então ele entrou.

Como imaginou, o restaurante não estava cheio – afinal não era muito convidativo -. Era pequeno e possuía apenas uma porção de mesas. Ao todo, devia suportar cerca de 20 pessoas. Junto dele, ali estavam outros três ou quatro homens, espalhados pelo local e em silêncio. Se não fosse o rádio que falhava, aquele lugar estaria completamente silencioso.

S. parou rente ao balcão, esperando ser atendido, mas isso não aconteceu. Ele coçou a garganta, para ver se chamava a atenção de alguém, mas ninguém o notou. Seu primeiro pensamento foi de perguntar em alto e bom tom para todos, mas essa atitude profanaria a esquisita paz que reinava ali, e ele não queria chamar atenção, então se aproximou lentamente do homem mais próximo, e perguntou-lhe baixo se alguém trabalhava ali, mas este homem nem mesmo levantou a cabeça para dar atenção, ou emitiu um único suspiro. Apenas continuou imóvel, de cabeça baixa.

Será que realmente estou dormindo? — Foi o que se questionou, mas não podia ter qualquer certeza sobre isso, pois embora estivesse parado, os olhos estavam abertos.

Tudo que ele sabia era que o homem o ignorava, então por um momento sentiu um calafrio, como se tivesse entrado em um lugar que não deveria. Restaurantes, bares, lanchonetes ou qualquer lugar que venda comida possuem atendentes, e ali não havia nada além de gente esquisita. Sua primeira intuição foi ir embora antes que fosse notado.

Mas já era tarde, e o próximo acontecimento lhe fez suar frio. Ele sentiu uma presença rente a porta, e antes mesmo de olhar, sabia o que estava ali: era o velho que habitava o lado de fora de sua janela anteriormente, mas dessa vez o encarava, com um olhar malicioso.

A princípio, questionou-se sobre a presença daquele homem no recinto. Estava o seguindo? Mas não aparentava ser perigoso. Agora ele podia notá-lo melhor: Era um senhor magro, muito magro. Com cabelos brancos e olhos profundos, que o encarava de uma forma arrepiante. Era como se quisesse dizer algo, mas nada dizia. Não poderia dizer se era o ambiente, ou a surpresa do encontro, mas todo o ódio sentido anteriormente se transformou em medo. A repulsa ainda era clara, mas dada as circunstâncias, o ódio havia virado medo.

A presença daquele senhor ainda era incômoda, mas agora havia algo de errado. Ele não se movia, não piscava, e o observava com um olhar pesado. Não parecia um homem. Parecia... uma parede. Um homem parede. O delírio precipitado fazia certo sentido, pois por mais que tentasse racionalizar, algo não fazia sentido. Ele estava certo de que não ouvira a porta abrir. O homem parede já estava ali. Estava antes dele, sempre esteve ali...


Aquele homem parede estava parado ali a algum tempo, e o que mais assustava S. era o fato de não o notar quando entrou. Quer dizer, S. passou por ali, e sabe que o homem já estava, pois não escutou ninguém entrando depois dele. Com toda certeza, ele já estava ali, olhando... De forma bizarra e assustadora. Por mais que caminhasse um pouco, se movendo no restaurante, ainda era o foco do olhar, mesmo que o homem parede não mexesse efetivamente sua cabeça. Isso fez o medo aumentar ainda mais: Era como se ele se achasse superior, apenas por ter pregado esse susto. Ele tinha plena consciência da situação em que estava, e parecia gostar disso. O que mais assustava S. – e fazia florescer um pouco de ódio — era o fato de que os dois estavam sendo ignorados por todos os presentes, então, aparentemente, na visão dos outros, S. e o homem parede eram iguais.

Enquanto sentia medo, permanecia imóvel, isso é um fato. Não mexia sua cabeça, mas movia os olhos, disposto em olhar. S. se deu conta de que não havia mais motivo para permanecer ali. Na verdade, queria rapidamente sair de perto do homem parede, que agora causava-lhe um medo sem nexo. Permanecer ali parecia uma brincadeira de criança, pois tentava sutilmente sair do campo de visão do homem, mas não conseguia. Também não conseguia fingir que ele não estava ali, pois parecia que, depois de notá-lo, fosse impossível esquecer sua presença, ainda mais quando parecia ser a única, pois o restante das pessoas não havia se movido, emitido som e nem nada, era como se não estivessem ali.

A princípio, relutou sobre sair dali, pois seria necessário passar pela zona de alcance do homem parede para chegar à porta, e seu olhar malicioso ainda o perseguia, causando calafrios. Ansiava sair, mas temia que o homem parede fizesse algo. Novamente, era um medo irracional, como sentir medo de ser agredido por um sem-teto ou por um idoso, e embora fosse o único responsável pela situação e incômodo no momento, para o homem parede, talvez S. não passasse de um objeto de observação, pois desde que foi notado, não se moveu nem um pouco. Apenas olhava, e parecia nem piscar. De certo modo, o jogo havia virado: Quem observava, agora é observado, e nem todo mundo suporta a transição de deixar de ser um observador.

A cena lembrou S. de um documentário visto a um tempo atrás, onde um cervo tenta fugir de um leão. No documentário, acontecia exatamente a mesma coisa: o cervo ficava imóvel, esperando o leão dar o bote, e o leão também ficava imóvel, cauteloso, aguardando o momento certo para isso. Esse tipo de situação pode ser decidida em um milésimo de segundo. Um milésimo de segundo pode, literalmente, mudar o rumo de qualquer coisa no mundo: Uma bola importante de um campeonato, um cientista fazendo uma descoberta crucial em uma experiência de laboratório, ou uma caça perfeita. Ele imaginou que, qualquer passo em falso poderia significar o seu fim, pois o homem parede o atacaria, pulando em cima dele da forma que o medo irracional dizia.

Mas como qualquer medo irracional, permaneceu irracional. Apenas respirou fundo e passou rapidamente, de punhos cerrados, pronto para se defender, mas, indo contra todas as ideias que sua mente lhe pregava, nada aconteceu. O homem parede até mesmo havia desviado o olhar.

Já nas ruas, S. respirava ofegante e só queria voltar logo para seu escritório. Ele ainda não havia recuperado o seu nome, mas algo diferente surgiu em sua cabeça. Uma certeza sem fundamento — até mesmo sem nexo – ligada àquele senhor que ele desconhecia e os últimos acontecimentos: De alguma forma, sentiu que o homem parede tinha algo a ver com sua perda de identidade, e então, chegou em uma conclusão.


Seu nome fora roubado.


Notas finais
Espero que gostem! Postarei capítulos novos semanalmente o/