Notas iniciais
Boa leitura. Obrigada por lerem a minha fic.

Um barulho incessante perfurava o meu cérebro e me impedia de continuar dormindo. Abri os olhos para a escuridão do meu quarto e olhei para o teto. O barulho continuava, como um sino de uma igreja anunciando as horas, mesmo que todos já as soubessem. Olhei para o despertador e pulei da cama no mesmo instante. As letrinhas verdes e esquisitas me mostravam que já passava das onze da manhã e eu estava deitada.

Ontem a noite foi agitada. Depois que terminei de guardar todas as minhas roupas, livros e dvds, tomei um longo banho, mas não consegui descansar. Aqueles olhos cinzas ainda me assombravam e esse lugar não me fazia sentir em casa, não ainda.

Sai correndo para a sala e percebi que barulho era alguém batendo na minha porta, e quase a derrubando. Chequei meu estado no espelho em cima da mesa de jantar e bufei. A camiseta que eu usava de pijama estava amassada e meu cabelo estava horrível, mas abri a porta desse jeito.

Olívia estava me esperando no corredor. Ela parecia impaciente, mas sua postura melhorou assim que viu meu estado. Ela riu enquanto eu me afastava para ela entrar. Olívia estava vestindo um casaco preto que a até a altura do joelho, um suéter azul marinho, para combinar com a calça escura e botas. Estávamos na primavera, mas aqui nunca fazia totalmente calor.

Olhei para ela curiosa, assim que ela parou de gargalhar.

– Me desculpa. – ela falou, — mas você já deu uma olhada no seu cabelo?

– Já sim, obrigada. – me atirei no sofá e prendi meu cabelo com uma presilha.

– Desculpa se eu a acordei. Eu queria te dar sua parte por ontem. – ela jogou um envelope pardo no meu colo. Dei uma espiada dentro e encontrei várias notas de cem dobradas.

– Olívia! Não precisa me dar. Isso é muito, eu só quis te ajudar.

– Aceita e não reclama. É mais do que justo. – eu comecei a protestar, mas ela me interrompeu. – Como você me ajudou ontem, eu queria retribuir o favor. Vá se arrumar, nós vamos sair hoje.

– Agora? – perguntei sem animação.

– Sim. – Olívia gesticulou para o quarto. – Cadê aquela garota que estava louca para conhecer a cidade e sair desse apartamento?

– Ela está morta de cansaço por não ter arrumado as coisas de madrugada.

– Ah, vamos. Você me disse ontem que suas aulas começam em breve, então você não vai nem ter tempo de sair. E além do mais, o Jake me falou que podíamos dar uma passadinha no estúdio dele mais tarde. – eu esperava que ela não percebesse minha reação depois dessa frase. Foi como se toda parte do meu corpo que estivesse cansada de repente se acendesse e recuperasse toda a energia que havia perdido.

Olívia não olhou para mim quando eu me arrastei para o quarto, ela apenas sentou no sofá e folheou uma revista.

Olhei para meu armário. Eu precisava fazer compras. As roupas que eu trouxe de casa não eram exatamente apropriadas para o frio que fazia aqui e muito menos para sair em uma das cidades mais elegantes do mundo com uma garota que sabia tudo de moda. Eu estava quase desistindo, quando Olívia gritou para que eu me apressasse. De repente, eu senti uma adrenalina. A vontade de sair para um lugar desconhecido e estranho com uma garota que eu tinha conhecido no dia anterior e mais tarde encontrar um garoto bonito que eu só sabia o nome.

Me enfiei no meio dos meus poucos casacos e tirei de lá um sobretudo que minha mãe tinha comprado para ela há alguns anos, mas nunca tinha usado. Pesquei um suéter verde água no meio das minhas blusas de frio e uma calça jeans azul escuro.

Olhei no espelho e suspirei.

Meu cabelo estava horrível.

Fui até o banheiro e o penteei, fazendo que ficasse mais armado. Peguei um elástico preto e o prendi em um coque alto, deixando a franja solta na frente.

Eu estava apresentável.

Fui até a sala encontrar Olívia e ela estava falando com alguém no telefone. Ela ria de algo, quando ela me viu e gritou um ‘aleluia’. Eu ri e ela desligou o telefone.

– Você está ótima. – ela sorriu. – Onde você quer ir primeiro: No Big Ben? No London Eye? Na Torre de Londres? Pode escolher.

– Primeiro eu quero comer alguma coisa, estou morrendo de fome. – meu estomago roncou enquanto eu falava e Liv deu uma risadinha.

– Está certo então. – Liv respondeu enquanto olhava no relógio. – Mas já são quase meio dia, então os restaurantes estão começando a servir o almoço.

– Tudo bem para mim.

– Ah, eu estava falando com o Jake. Ele pode almoçar com a gente, mas depois tem que ir para o estúdio e nós podemos acompanha – lo, se você quiser.

– Ok. – foi tudo o que eu consegui responder.

No caminho para o restaurante, pude notar que nosso prédio era um dos poucos moderninhos, no meio de tantos outros antigos e nós morávamos mais próximas do centro do que eu pensava. Liv preferiu ir de taxi, porque ela não tinha um carro e demoraria muito até eu aprender o caminho. Estava garoando, mas isso não impediu a população de sair para caminhar nas ruas estreitas, almoçar nos restaurantes caros da cidade e muito menos impediu os carros de saírem para a rua. O trânsito estava terrível. Liv checava seu relógio a cada três minutos e chegou a oferecer dinheiro para o motorista chegar mais rápido.

Quando finalmente chegamos, Liv suspirou de alívio. O táxi estacionou na frente de um prédio de tijolos, como tantos outros ali naquele bairro. Mas na parte de baixo, estava um restaurante simples, no meio de tantos outros requintados. A parede de entrada era preta e tinha um vidro que permitia a vista parcial da parte de dentro. Algumas cadeiras estavam na parte de fora, mas mesmo com o toldo espantando a chuva, as pessoas preferiam comer no coberto. Se eu não soubesse que estava em Londres, poderia confundi – lo com algum tipo de bistrô francês.

Liv e eu entramos no restaurante e pude imediatamente sentir a atmosfera diferente. Pude sentir o calor que emanava do aquecedor, o cheiro de molho que vinha de alguma parte da cozinha nos fundos. Pude ouvir as risadas e conversas das pessoas que ali estavam. Olívia estava falando com o maitrê e ele concordou de algo que ela disse.

Enquanto nos dirigíamos a uma mesa reservada no fundo do salão, uma mulher alta e com pose arrogante veio guardar nossos casacos. Quando o homem mostrou a mesa para Liv, ela fez um sinal afirmativo e ele foi embora.

– Eu sempre peço uma mesa mais reservada quando saio para comer com Jake. Ele não gosta muito de gente e quase sempre alguém o reconhece.

– Ah, certo – respondi enquanto um garçom colocava o menu a nossa frente e perguntava o que queríamos beber.

Liv começou a responder, quando alguém respondeu no lugar dela:

– Vou querer uma água. – pude ouvir Jake Bugg falando atrás de mim.

– Sempre um cavalheiro comigo – Liv bufou enquanto Jake puxava uma cadeira e se sentava entre nós. Ele apenas deu uma risadinha.

– E vocês, senhoritas? – o garçom estava impaciente.

– Vou querer um chá gelado.

– O mesmo para mim. – respondi.

Assim que o garçom se afastou, Liv se virou para o Jake.

– Não vai beber hoje, Mr. Bugg?

– Não posso. Tenho gravação hoje à tarde.

– No estúdio? – perguntei enquanto Liv analisava o menu.

– Sim. A gravadora quer que eu grave um vídeo acústico hoje. – Os olhos de Jake se concentraram em mim como se eu fosse a única coisa no mundo.

– Como está a divulgação do álbum?

– Está indo tudo conforme planejado. Hoje cedo eu dei uma entrevista em um rádio, amanhã é em outro e tenho que ir a um programa de tv. – ele falava como se essas coisas não tivessem a menor importância, como se doesse nele ter que fazer tudo isso.

– Parece importante. – opinei.

– Na verdade, eu acho tudo isso muito chato. Eu não faço música para ganhar fama, ou glória. O que eu mais odeio é ter que conversar com pessoas que eu não conheço fazendo o mesmo tipo de perguntas.

– Como por exemplo: Jake, pode nos falar um pouco mais sobre aquela gata loira que você tem a sorte de ter como amiga? – Olívia imitou a voz anasalada de uma repórter e Jake riu e jogou uma batata, que tinha acabado de chegar, na cara dela.

Quarenta minutos depois, estávamos almoçados e sorridentes, — bem, pelo menos eu e a Liv estávamos. Jake tinha conversado e rido conosco durante o almoço inteiro, mas depois que saímos do restaurante e pegamos um táxi, ele tinha retornado a sua faixada de introvertido.

O estúdio que ele iria gravar a versão acústica de sua música ficava mais afastado da cidade. O lugar era uma casa geminada de pedra e porta de madeira escura e eu nunca falaria que tinha um estúdio lá dentro. Ele pagou o táxi e todas nós descemos. Um cara alto e sério estava parado na porta e sorriu quando viu Jake, que retribuiu o sorriso. Ele nos apresentou e disse que aquele era Gus, o segurança do estúdio.

Nós entramos e eu segurei a expressão de surpresa. Dentro da casa era exatamente o contrário do lado de fora. Enquanto seu exterior era rústico e familiar, no lado de dentro estavam todos os aparelhos tecnológicos e complicados que eu nunca tinha visto, mas que todo estúdio deveria ter.

Jake nos guiou por uma série de corredores estreitos até chegarmos a um quarto amplo e aberto. As cortinas estavam abertas e não tinha nenhum móvel naquela sala, só uma cadeira no centro e um violão encostado na parede. Dois caras estavam perto da porta conversando entre si e ajustando uma câmera. Uma mulher de meia idade estava perto da parede, ajustando sua maleta de maquiagem e um garoto que deveria ter a minha idade estava perto da cadeira ajustando um microfone.

Jake cumprimentou o garoto e o trouxe até nós. Ele era mais alto do que Jake, tinha olhos verdes e o cabelo loiro escuro. O garoto usava óculos grandes e uma camisa xadrex. Ele parecia desconfortável no meio daquelas pessoas.

– Esse é o Will, ele é um dos assistentes a gravadora. Essas são Live e Maya.

Will apertou nossas mãos e voltou ao que estava fazendo. A mulher de meia idade foi até Jake e o fez sentar em um banquinho, para colocar um tipo de pó branco no rosto dele, que segundo ela, não deixava que ele ficasse brilhando na gravação.

Depois de meia hora, duas luzes enormes foram devidamente colocadas na frente da cadeira. Um dos homens, que eu aprendi ser o diretor do clipe, tinha colococado mais quetro cadeiras na sala e ajustado a câmera do outro cara, que era quem ia filmar o vídeo. Jake tinha tirado a sua jaqueta de moletom cinza e a substituído por uma jaqueta de couro. Ele afinava seu violão, quando o diretor pediu para que nos sentasse, porque já ia começar a gravação.

Todos ficaram em silêncio e o diretor falou:

– Jake, quero você olhando para a câmera de vez em quando. Não vire muito o seu rosto, porque a iluminação pode atrapalhar na edição final. Todos em silêncio. Em 3...2...1...

Não existem palavras no vocabulário para o que se seguiu. A voz de Jake era calma e revolta, exultante e extremamente triste, tudo ao mesmo tempo. Enquanto ele cantava sobre um amor não encontrado e um coração partido, eu podia sentir toda a sua angústia, tristeza e solidão. Sua voz fraquejava nos momentos certos e não deixava a desejar. Fechei os olhos e escutei apenas o som de sua voz. Era melancólica e eu tive que me segurar para não levantar da cadeira e ir abraça – lo. Abri os olhos e pude sentir uma lágrima escorrendo na minha bochecha. Virei o rosto e limpei, torcendo para que ninguém tivesse visto. Jake me olhava. Eu podia sentir. Virei para ele e seus olhos prateados me encaravam. Virei para Liv e vi que ela chorava, mas ao contrário de mim, não tentava disfarçar. Jake fazia parecer que estava fazendo a coisa mais fácil do mundo, mas não era. Seus olhos não desgrudaram de mim quando ele tocou o último acorde.

O diretor gritou ‘corta’ e todos no quarto aplaudiram. Jake cantou mais uma vez, para o caso de algum erro na gravação e depois foi dispensado.

– Então, o que acharam? – ele perguntou como se não se importasse, mas sua voz revelava outra coisa.

– Magnifico, como sempre. – Liv gritou e o abraçou.

– Exagerada. – ele reclamou.

– Foi impressionante. Eu nunca tinha visto você cantar.

– Obrigado.

– O que você vai fazer agora? – Liv perguntou enquanto saímos da sala.

– Bom, agora estou louco para fumar. – Jake tirou um isqueiro do bolso de sua jaqueta e acendeu um cigarro.

– Você entendeu o que eu disse.

– Tem uma festa agora à noite. No Club 89 – ele tragava lentamente, como se fosse extremamente prazeroso – vocês podem ir comigo, se não tiverem nada para fazer.

– É claro que vamos – Liv se apressou, enquanto eu começava a negar. – Quem vai estar lá?

– Ah, você sabe. Alguns empresários, famosos dos quais eu não me importo. O de sempre.

– Nós com certeza iremos.

Olívia chamou um táxi enquanto eu pensava no que diria para escapar e Jake me encarava antes de entrar.

Notas finais
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