The Twilight's Mission
3 Prisioneiro
Notas iniciais
Madrugada de sábado — Ostania, Berlint – Jardim: localização desconhecida.
Os guardas corpulentos e armados dos pés à cabeça estavam postados em frente as portas duplas, os rostos como mármore frio, petrificados naquela expressão séria e indiferente. Yor ergueu uma sobrancelha com superioridade, uma mão na cintura enquanto a outra segurava os pulsos algemados de Twilight que permanecia calado e curvado a sua frente, o rosto escondido pelos cabelos volumosos.
— Eu tenho realmente que me apresentar? – A mulher debochou, o olhar preguiçoso passeando entre os guardas.
Um deles, o moreno com os olhos pequenos crispou os lábios.
— Não fomos informados sobre seu acesso, Thorn Princess. – Ele desviou os olhos para Twilight que permanecia de cabeça baixa, mexendo os braços vez ou outra e rosnando baixo quando Yor puxava as algemas com rispidez. O guarda ergueu uma sobrancelha, curioso. – Nem que traria visita.
O sorriso felino e perigoso que se abriu nos lábios de Yor fez o guarda franzir o cenho, um arrepio involuntário percorrendo sua espinha. Apesar da fisionomia delicada e do corpo curvilíneo não exibir tantos músculos, o homem sabia que não deveria subestimar as habilidades de uma das melhores assassinas do Jardim. Ela não conseguiu o título que tinha à toa.
Yor escondia bem sua apreensão por baixo dos movimentos firmes e sorrisos estoicos, o sentimento verdadeiro visível apenas nos dedos trêmulos que apertavam a pele de Loid como uma forma de se manter estável. Os dedos de Loid roçaram a palma dela levemente e Yor respirou fundo, o olhar não se desviando dos guardas.
— Ele? – Yor ergueu o queixo na direção de Twilight com desinteresse e alargou o sorriso. – É um presente para o chefe. Tenho certeza de que ele vai apreciar bastante. Então que tal me deixarem passar logo, rapazes?
O outro guarda, loiro e com o maxilar quadrado, encarou Twilight com interesse renovado.
— Quem...?
— Deixem-na entrar.
A voz firme e autoritária soou abafada pela porta, mas audível o suficiente para os guardas se empertigarem de repente. Yor ergueu as sobrancelhas, divertida diante da reação dos homens que não perderam tempo em puxar as portas de madeira maciça deixando a passagem livre para a mulher e seu prisioneiro.
Twilight caminhou com dificuldade fingida ainda sentindo o olhar dos guardas sobre si enquanto Yor o empurrava com uma força moderada, tudo pelo bem do teatro. O aroma de flores irritou seu nariz e as luzes fortes fizeram o homem piscar antes que pudesse analisar o local com calma.
Era uma estufa. Total e completamente uma estufa.
Loid segurou a risada pela ironia da situação.
O teto do local era completamente de vidro deixando as estrelas visíveis, a luz da lua superada pela iluminação exagerada do lugar. O pólen das flores parecia flutuar pelo local dando uma tonalidade amarelada ao ambiente. As milhares de flores coloridas enchiam cada metro quadrado do lugar deixando livre apenas o caminho que ligava a porta até o centro da estufa que era composto por um coreto de teto baixo e estrutura vitoriana, o ferro branco era coberto por trepadeiras e rosas vermelhas.
Próximo às escadas da pequena estrutura antiga estava um homem curvado, o chapéu escondia seu rosto, mas era possível ver os membros longos e magros que mal enchiam a roupa de jardinagem.
O som da tesoura podando as roseiras era o único que impedia o silêncio completo.
Os segundos se prolongaram e Loid controlou a raiva por ter que se submeter ao capricho infantil daquele desgraçado. Ele quer nos fazer esperar, como um rei e seus súditos. Apenas a mão de Yor ainda quente sobre sua pele o vazia manter a postura submissa e derrotada. O homem finalmente deixou a tesoura de lado, limpou as mãos no avental e se ergueu. Os membros finos se moviam de uma forma elegante enquanto ele analisava os dedos em busca de alguma sujeira. Era alto e sério, o rosto magro e afiado nos cantos. Os olhos castanhos encaravam Yor e Twilight com um desinteresse fingido, mesmo que o brilho faminto não escapasse totalmente. Tinha o ar de alguém cauteloso e que confiava mais na sua mente que em seu corpo.
Um ar de cientista louco.
O sorriso largo que ele abriu apenas confirmou a primeira impressão de Twilight.
— Vejo que suas ideias tolas de desistência foram esquecidas. Fico feliz. – O Lojista tinha os olhos incisivos sobre Yor, o sorriso preso no rosto com escárnio. – É sempre um prazer ter você de volta, querida.
Twilight quase podia sentir o desconforto emanando da mulher as suas costas, mas ela interpretou seu papel com louvor.
— Bem, você tinha razão. Eu sou boa demais no que faço. – Ela respondeu com amargura, como se estivesse realmente arrependida de um dia ter pensado em se afastar daquela vida. – Sou melhor como Thorn Princess do que como Yor.
O sorriso do Lojista se alargou em deleite. Twilight nunca quis tanto socar alguém na vida.
— Sempre soube que faria a escolha certa. – Então ele finalmente baixou os olhos para Twilight, as sobrancelhas se erguendo levemente. – E vejo que trouxe companhia...
Yor sentiu o estômago embrulhar ao ver o interesse faminto nos olhos do Lojista, mas manteve a expressão impassível e deixou um sorriso maldoso se desenhar em seus lábios, agradecendo por Loid não poder ver seu rosto naquele momento.
— Na verdade, um presente. – Ela acariciou discretamente a nuca de Twilight, um pedido de desculpa silencioso antes de jogá-lo para frente, a expressão de nojo surgindo rapidamente em seu rosto, uma substituta para a dor que ela lutava para não deixar transparecer. Ela manteve o queixo erguido, lutando contra seus verdadeiros sentimentos. – Apresento a você o famoso agente Twilight!
Os olhos do Lojista triplicaram de tamanho. Ele deu um passo à frente quase hipnotizado ao ouvir o nome, o brilho maníaco nos olhos. Twilight ainda se recuperava da queda repentina quando ergueu os olhos para ver a aproximação do homem. As mãos algemadas deixavam seu equilíbrio precário, mas ele firmou o corpo e trincou o maxilar quando a mão do Lojista se prendeu como garras sob seu queixo.
— Como...como conseguiu essa proeza? – O homem parecia descrente, virando o rosto de Twilight de um lado a outro como se analisasse um produto raro. – Entenda, não estou duvidando de sua capacidade, querida, mas esse é um feito surpreendente até mesmo para você.
É agora, Yor pensou sem tirar a expressão debochada do rosto.
— Acho que a ideia dele de “manter os inimigos mais perto ainda” foi bem infeliz. – Ela deu de ombros, os punhos cerrados ao ouvir a risada rouca do Lojista. – Ele se aproximou de Loid como um amigo de trabalho chamado Frank, mas comecei a suspeitar de algumas ações dele e passei a segui-lo discretamente. Ele conseguiu me despistar muitas vezes, mas três dias atrás eu peguei o encontro dele com uma mulher, provavelmente outra espiã, e ela acabou soltando o famoso codinome no meio da conversa. Depois disso, foi fácil pegá-lo de surpresa e fazê-lo confessar. Ele pode ser bom com disfarce, mas deixa bastante a desejar em luta corporal.
Ela inclinou a cabeça significativamente na direção de Twilight, enfatizando o estado machucado dele e o Lojista soltou o rosto do homem, um sorriso satisfeito nos lábios. Yor nunca o vira tão exultante.
— Não esperava menos da minha melhor assassina! – O homem riu, enebriado. Ele ergueu os olhos para Yor, o sorriso paternal e estranhamente carinhoso. – Prometo compensá-la com férias estendidas depois de uma captura tão esplêndida, mas tenho um último trabalho para você antes disso.
O Lojista se aproximou de Yor, a mão ossuda repousando no ombro dela. A mulher conteve um estremecimento. Como eu admirava tanto esse homem? Como não percebi antes quem ele realmente era?
— O cliente pediu nosso melhor assassino nisso e pagou adiantado. – O Lojista continuou, alheio a repulsa de Yor com seu toque. – Pretendia passar as informações amanhã, mas como me fez essa belíssima surpresa...os planos serão adiantados.
Ele sorriu uma última vez para ela e se afastou, estalando os dedos. As portas duplas voltaram a se abrir.
— Deixei a pasta com todos os detalhes no meu escritório. Você sabe o caminho.
Twilight sentiu o coração acelerar com as palavras do Lojista, contendo o sorriso que queria despontar em seus lábios. Ele está a mandando direto para onde queríamos. Perfeito! Yor quase podia sentir a excitação de Loid mesmo que o corpo dele continuasse imóvel e curvado, arfando de tempos em tempos. Ela não desviou os olhos do Lojista, mas sentia seu pulso acelerado. Tudo cooperando tão bem para o nosso plano que chega a assustar...
— Você sabe que eu gostaria de passar todos os detalhes por mim mesmo, não é? – O homem prosseguiu, um olhar de desculpas para Yor, a cabeça inclinada na direção de Twilight. – Mas não posso abandonar nosso ilustre...convidado.
— Eu entendo perfeitamente. – Yor assentiu e se curvou em respeito, os olhos se desviando para Twilight rapidamente, a garganta seca e o peito acelerando de preocupação por deixar o homem que ama as sós com o assassino.
Não, ele é um espião e sabe se cuidar. Eu confio nele e preciso fazer minha parte do plano.
Só fique bem, Loid. Fique vivo até eu voltar.
Eu te amo...
Ela manteve as palavras presas na garganta, torcendo para que Loid apenas soubesse, apenas sentisse. Então as portas da estufa se fecharam quando Yor saiu a passos largos pelo corredor, decidida a virar aquele lugar do avesso em busca dos arquivos que impediriam o fim do mundo enquanto a estática ecoava em seu ouvido, a conversa particular entre Loid e o Lojista sendo sua companheira a cada passo.
[...]
Twilight respirou fundo, ainda ajoelhado, quando o som das portas duplas se fechando ecoaram às suas costas.
Fique bem, Yor, ele pensou como uma prece. Fique viva.
Os passos do líder do Jardim eram ritmados e lentos e ele esperou minutos antes de parar em frente a Twilight, prendendo os dedos firmemente em sua gola e o erguendo do chão com violência.
— Agente Twilight! Estou a sua procura há tanto tempo que o seu nome se tornou quase uma lenda por aqui. — O homem rosnou ameaçador, o hálito direto no rosto de Twilight que estava a centímetros do seu. — Admito, você é bom, mas ninguém consegue fugir para sempre.
O espião ergueu o queixo, altivo, e fixou o olho bom no rosto do Lojista, um sorriso de escárnio se abrindo lentamente enquanto imitava a voz de Frank com maestria.
— Não tão bom quanto você que conseguiu enganar a própria morte.
O Lojista ergueu as sobrancelhas, a única expressão de surpresa que permitiria mostrar, então riu alto como se aquela não passasse de uma boa conversa entre amigos.
— Então você sabe sobre meu pequeno truque? — Ele soltou Twilight e se afastou um passo, a mão sob o queixo com ar pensativo. — Na verdade, é um alívio. Estaria bem decepcionado se o espião mais procurado do mundo não tivesse feito a lição de casa sobre mim. Me sinto honrado, Twilight.
E o homem se curvou como uma reverência jocosa e caminhou de volta para o coreto, os passos deliberados que irritaram Twilight ainda mais. Não tenho tempo para essa palhaçada! Ele mexeu as mãos, sentindo o metal das algemas arranhando seu pulso, e avançou um passo, incisivo.
— Onde estão os arquivos da Operação Geistig?
O Lojista parou sua caminhada, o corpo se retesando, a cabeça se movendo de um lado para o outro lentamente.
— Eu imaginei que a sujeira que aqueles imprestáveis deixaram iam trazer consequências mais cedo ou mais tarde. — A voz dele soava amarga e furiosa, seu rosto ainda escondido dos olhos de Twilight. — Mas não esperava que me trouxesse logo você, Twilight. Então foi por isso que se aproximou da Thorn Princess? Por isso ficou tão descuidado?
Ele se virou, os olhos escuros queimando sobre o prisioneiro, um sorriso exultante nos lábios finos, a voz divagando em uma conversa consigo mesmo.
— Mas é claro que você veria o potencial do projeto e foi exatamente por isso que eu tive de pegá-lo de volta, não podia arriscar que meu trabalho brilhante caísse nas patas de vocês, porcos de Westalis. — Ele se aproximou de Twilight, a raiva crua emanando em cada passo, o dedo em riste de forma desleixada. — Os líderes idiotas da Ostania não encontraram quem pudesse me substituir, mas não podia arriscar com Westalis. Vocês parecem ser um país um pouco mais…inteligente.
— Você deve ter passado tempo demais morto, longe demais do mundo moderno… — Twilight debochou, a sobrancelha erguida apesar de no fundo estar levando a sério cada palavra daquele homem. – Eles não tentaram substituir ninguém. O projeto foi cancelado depois de todas as cobaias terem sido um fracasso.
O Lojista encarou Twilight com pena e paternalismo, como um adulto observando uma criança inocente.
— O projeto foi cancelado depois que uma das cobaias funcionou bem demais e acabou destruindo os laboratórios. — Ele explicou calmamente, se deliciando com o olhar levemente surpreso de Twilight. — Eles me taxaram de louco, bipolar, exatamente por eu ver poder onde eles só viam um fracasso. Eles queriam cachorrinhos treinados que soubessem fazer truques. Eu queria uma matilha selvagem que transbordasse poder. Adivinha quem foi o vitorioso?
O sorriso largo, o olhar psicopata. Twilight sentiu o sangue gelar.
— Se funcionou então onde estão as cobaias?
— Oh, muitas delas morreram, é verdade, mas algumas escaparam depois do estrago que aquela pirralha causou. O incêndio tomou proporções gigantescas e me deu uma bela cicatriz. — Ele ergueu levemente a manga comprida da camisa de jardinagem deixando à mostra uma cicatriz enrugada e escura que ia do pulso e subia, sumindo por baixo da roupa. O homem bufou, soltando a manga com rispidez. — Eu já sabia dos planos do governo de me afastar do projeto e me fazer sumir do mapa, então usei o acidente como uma oportunidade e sumi nos meus próprios termos.
Ele apertou os punhos, a cabeça inclinada como se mergulhasse numa lembrança antiga.
— Foi fácil desaparecer e assistir tudo dos bastidores, você não é o único bom com disfarces. — Ele encarou Twilight com deboche logo voltando a deixar a fúria queimar nos olhos. — Percebi que eles até tentaram me substituir, mas muitos dos cientistas que trabalhavam no projeto morreram no acidente e os poucos que restaram se aposentaram ou fugiram. Mas nenhum deles conseguiria fazer o que eu fiz em tão pouco tempo! Os arquivos salvos sobre o Geistig não valem nada sem alguém que entenda como colocá-lo em prática.
Twilight revirou os olhos discretamente. Egocêntrico…
— Então por que você decidiu roubá-los agora? Acredite, eu saberia se o governo ostaniano estivesse com planos de retomar essa operação macabra.
Então os olhos do Lojista pareceram ainda mais brilhante como se estivessem ansiando por aquela pergunta desde o início.
— Porque se eles colocassem a mão em uma das cobaias sobreviventes, tudo seria diferente. Principalmente se fosse a cobaia mais poderosa, a causadora do fatídico incêndio. — Ele sorria como um maníaco, os olhos fixos no rosto de Twilight. — Eu mesmo passei todos esses anos procurando-a, mas a pestinha teve sorte demais. Até agora.
Twilight franziu o cenho, confuso, o que só alegrou ainda mais o homem a sua frente. O espião sentiu sua espinha arrepiar, um mal pressentimento.
— Que cobaia?
— A cobaia 007. — O Lojista falou simplesmente, o sorriso malicioso ainda nos lábios. — Mas talvez você a conheça por outro nome: Anya Forger.
Twilight sempre foi bom em esconder seus sentimentos, manter na superfície apenas a mesma expressão indiferente e séria que sua profissão pedia.
Mas não daquela vez.
O nome o atingiu em cheio como uma bala atirada contra seu coração. Ele deu um passo cambaleante para trás, o ar se prendendo na garganta e os olhos arregalados na direção do psicopata que gargalhava.
Yor não parecia nada diferente. Ouvindo toda a conversa pelo PEI, a assassina vasculhava o escritório do Lojista com rapidez e precisão, em busca dos arquivos ou qualquer coisa que desse uma pista de onde eles poderiam estar. Então o nome de sua filha ecoou naquela voz que fazia seu sangue gelar e tudo parou. Ela largou os papéis que segurava, as mãos tremendo e o corpo travado no lugar. O coração parecia ter afundado em direção aos pés.
E tudo o que podia fazer era ouvir.
— Talvez você não deva tê-la conhecido por tanto tempo, mas é fácil perceber como aquela pirralha tem algo de…diferente. — O Lojista continuou. — Eu mesmo vi isso naqueles olhos grandes e verdes quando a encontrei pela primeira vez. Ela estava na rua com a mãe. Eu estava em busca de novas crianças, tanto para o Jardim como para a Operação Geistig, e a mãe dela parecia feliz em se livrar da pirralha. Ela era nova demais para ser treinada como assassina, então seguiu para meu outro projeto e acabou sendo a melhor escolha que fiz em muito tempo. A cobaia 007 foi um verdadeiro sucesso!
Twilight ainda se sentia anestesiado, mas finalmente achou sua voz que saiu rouca e trêmula.
— O q-que ela podia...o que ela pode fazer?
Os olhos castanhos do Lojista pareceram se afiar como os olhos de um gato.
— O principal objetivo de toda a Operação: telepatia. Ler mentes e controlar mentes. Os poderes das cobaias anteriores não foram completamente inúteis, mas nenhuma nunca chegou ao que realmente queríamos. Numa guerra os segredos são o maior perigo para uma nação e os pensamentos estão ali, desprotegidos para alguém que saiba como alcançá-los. A cobaia 007 foi a prova que o projeto era um sucesso, ela seria o meu maior troféu…
Então o homem trincou o maxilar, os olhos desviando do rosto de Twilight para encarar as flores ao redor como se elas fossem as únicas a lhe transmitir paz no meio da fúria que cintilou em seus olhos.
— Até a desgraçada me trair. Ela sempre foi teimosa e geniosa mesmo com a pouca idade. Não sei o que diabos ela fez, mas quando percebi o médico que cuidava dela estava com os olhos vidrados no nada parado no meio da cozinha, o cheiro de gás empesteando o ar e um isqueiro aceso na mão. Tudo explodiu em segundos. O fogo se alastrou rápido demais com a circulação de ar automática no subterrâneo, todas as celas se abriram e o caos reinou.
Silêncio. O Lojista respirando fundo, furioso ao lembrar de tudo o que perdeu naquele dia. Twilight com os olhos vidrados no chão, o pensamento voltado para sua filha e tudo o que ela passou.
— Depois disso ela sumiu do mapa, talvez ajudada por uma das cobaias mais velhas, sei lá. — O Lojista continuou, os dedos brincando distraídos com as pétalas de uma orquídea branca. — Passei todos esses anos procurando-a e já tinha me convencido que ela tinha mesmo morrido no incêndio até decidir ficar de olho na Thorn Princess depois dela vir com essa história de casamento e qual não foi minha surpresa ao descobrir que a tal filha de Loid Forger era a minha querida cobaia 007!
Loid ergueu os olhos de repente com a satisfação que ouviu na voz do Lojista, os punhos cerrando nas costas ao perceber como ele soava faminto.
— Tentei tê-la de volta, mas aquele idiota do Forger tá sempre por perto e a escola Éden tem visibilidade e segurança demais. A oportunidade não surgia e eu não podia correr o risco de alguém reconhecê-la, então o melhor era conseguir os arquivos que possuíam o passo-a-passo perfeito para estudar minha cobaia e fazer outros como ela.
Loid já sentia o entorpecimento pela recente descoberta dando lugar a pura raiva ao saber que sua filha estava na mira daquele assassino por tanto tempo. Ele arreganhou os dentes, os olhos queimando sobre as costas do homem.
— Onde você os colocou?
O Lojista se ergueu, o olhar divertido sobre Twilight.
— Eu seria idiota de revelar algo assim, mas…você vai morrer no fim de tudo isso de qualquer forma. Talvez mereça um último desejo… — Então ele se aproximou de Twilight, as pernas longas o levando para perto do prisioneiro em meros três passos. Ele desceu o rosto para o ouvido direito dele, o mesmo que continha o PEI, como se fosse contar um segredo, e sussurrou: — Eu os destruí.
Twilight piscou, os braços dormentes e o corpo retesado.
— O que?
— Eu os destruí. Viraram pó! Não queria que mais ninguém roubasse meu trabalho como aqueles políticos imbecis tentaram fazer. — O Lojista sorria, o rosto ainda colado ao ouvido do espião. — Eu disse, o projeto foi ideia minha então sei de cor tudo que preciso para criar uma "Anya 2.0". Só preciso conseguir a original…e isso já está sendo providenciado. Os arquivos eram desnecessários para mim.
Twilight forçou as algemas, o corpo tremendo de ódio enquanto seu peito disparava em puro terror. Ele jogou a cabeça para frente tentando acertar o Lojista que desviou com facilidade, a risada enfurecendo o espião ainda mais.
— Se você tocar nela eu juro…
— Então você também caiu nos encantos da pirralha? — O desgraçado debochou ajeitando a lapela da blusa com displicência. — Não consigo entender, aquela menina é um demônio.
Twilight avançou, amaldiçoando suas mãos presas por não poder esganar aquele filho da mãe.
— Não fale dela, seu maldito!
O Lojista assentiu como se acatasse a um bom conselho.
— Você tem razão, que falta de educação a minha! Transformei nossa pequena conversa em um monólogo chato, perdoe um pobre solitário. — Ele pousou a mão sobre o peito em falso arrependimento. — Sua vez então. Que tal começar por seu nome verdadeiro?
Twilight rosnou e chutou rápido acertando de raspão a perna do Lojista. O homem saltou para trás como um acrobata profissional e parou com a sobrancelha erguida.
— Bem, eu tentei. Deveria ter aproveitado a chance de uma última conversa já que mortos não falam. — Ele analisou as unhas e passou as mãos nos cabelos cor de areia, o chapéu jogado num canto devido ao movimento repentino para escapar do chute de Twilight. — Eu realmente pensei em te entregar ainda vivo já que só me interesso pela recompensa, mas agora você sabe dos meus planos. Não posso correr o risco daqueles desgraçados da polícia secreta descobrirem sobre a cobaia 007.
Como um raio o Lojista avançou na direção de Twilight desferindo um soco com precisão. Apesar de algemado, o espião desviou no último segundo, se arrastando para o lado e se esquivando para trás do chute que o Lojista deu em seguida. Twilight sempre foi conhecido por atacar primeiro, mas ali ele mal conseguia se defender. Tentou chutar as pernas do lojista que desviou com rapidez, mas o espião acabou se desequilibrando já que não tinha o apoio das mãos. Com um chute giratório o Lojista atingiu o rosto de Twilight que caiu de joelhos, cuspindo sangue nos ladrilhos claros da estufa.
— Você é mesmo bom, mas entenda: fui eu quem treinou a Thorn Princess e todos os assassinos desse lugar. Mas se orgulhe, você me fez suar um pouco.
Twilight tentou se levantar, mas a mão do Lojista se fechou em seu pescoço, dificultando a respiração e o forçando a erguer a cabeça. A luz forte do lugar criava uma espécie de auréola macabra sobre a cabeça fina do Lojista enquanto Twilight o observava de baixo conseguindo apenas se concentrar no pouco ar que entrava pela garganta e nas palavras que o homem murmurou.
— Mas antes de te matar quero saber quem é o verdadeiro Twilight. — Os dentes brancos e caninos afiados ficaram à mostra e Twilight ainda tentou se debater, sem sucesso. O Lojista baixou a voz, o aperto aumentando no pescoço do espião. — Ou você acha mesmo que eu acreditaria que essa é a sua cara verdadeira?
Indefeso como nunca se sentira em toda a sua vida como espião e seu plano tendo ido por água abaixo, Twilight ainda tentou com o resto de forças afastar o rosto, mas era tarde demais. Num movimento rápido, o Lojista enfiou as unhas sob pele falsa do pescoço de Twilight e puxou para cima, levantando a carne sintética com facilidade e revelando o rosto anguloso e colérico de Loid Forger por baixo.
O Lojista arregalou os olhos, a expressão sempre controlada, desabando em pura perplexidade enquanto a máscara de Frank caia num canto qualquer.
— Você?
Então o PEI caiu do ouvido de Loid, rolando como uma bola até os pés do Lojista que finalmente uniu os pontos, a expressão de espanto logo se tornando ódio frio e descontrolado.
— Por que todos sempre resolvem me trair? — Ele parecia estar lamentando para si mesmo até voltar os olhos ferozes para o dispositivo a seus pés. — Você tinha um futuro brilhante, Thorn Princess. Agora vai morrer como a vadia que é.
— Yor, sai daí! Agora! — Loid gritou logo antes do Lojista pisar sobre o PEI e acionar os guardas que entraram impetuosamente na estufa.
— Soem o alarme para todos os assassinos! Eu quero a Thorn Princess morta e quero a cabeça dela como prêmio.
[...]
—Merda!
Yor vociferou arrancando o PEI de seu ouvido no momento que o grito aflito de Loid foi interrompido pela estática maldita e então o silêncio. Ela saiu do escritório do Lojista desde o momento que ouviu a confissão debochada sobre a destruição dos tais arquivos que ainda procurava feito uma idiota.
Mas tudo piorou ao saber que ele planejava raptar Anya.
Ela caminhava apressada pelo corredor sem se importar em disfarçar o ódio que sentia ao esbarrar em assassinos pelo caminho, ignorando qualquer saudação enquanto focava apenas em destruir aquele desgraçado que planejava usar sua filha como um rato de laboratório, quando congelou ao ouvir os sons de luta pelo comunicador e então a voz espantada do Lojista ao revelar o rosto de Loid.
E então o caos irrompeu.
Ela mal tinha guardado o PEI quando sentiu alguém chutar suas costas enquanto o alarme de invasão soava irritantemente em todas as partes do local, a voz mecânica ecoando "matem a Thorn Princess" incansavelmente.
Era só o que faltava!
Ela sentiu o ar ser expulsado de seu corpo com violência enquanto se abaixava para desviar de um soco vindo de um cara que surgiu a sua frente. Dando uma rasteira no atacante às suas costas, Yor retirou uma das agulhas do cinto e lançou-a contra o homem a sua frente que desviou a arma com uma de suas adagas, mas não foi rápido o suficiente para fugir da sequência de socos que ela desferiu. Ele caiu inconsciente no chão do corredor e Yor pegou uma das adagas, pronta para matar os dois idiotas ali mesmo, mas os olhos de Loid surgiram na sua mente como em um passe de mágica e ela bufou.
—Não seja um monstro, não seja um monstro.
Então apenas desferiu um golpe na garganta daquele que ainda gemia, deixando-o inconsciente também, e voltou a correr em direção à estufa.
Por pouco tempo, já que logo um trio surgiu por uma das esquinas assim como mais dois no fim do corredor.
Yor revirou os olhos, rosnando de impaciência.
— Certo, venham logo, idiotas.
Suas agulhas dançavam por carne, sangue respingava em seu rosto e ela lutava para deixar todos ainda respirando. Ou o mais próximo possível disso.
Adagas, espadas, pistolas, cimitarras. A variedade de armas usadas era imensa, mas nada com o que Yor já não tivesse lidado ou treinado. Ela desviava dos golpes como uma dançarina em um espetáculo, uma facilidade e desenvoltura que invejava, algo que para ela era tão automático quanto respirar.
Depois de longos minutos de um avanço lento pelo corredor, sempre interrompido por uma nova onda de assassinos tentando matá-la, Yor alcançou as portas duplas da estufa deixando uma trilha de corpos inconscientes às suas costas. Cansada, sangrando e totalmente furiosa, a mulher apagou os dois guardas com a força do ódio que parecia ser seu único combustível depois de tudo. Ela passou por cima dos corpos desmaiados e abriu as portas com violência no exato momento em que um som alto e explosivo soou.
Um tiro.
Yor paralisou na entrada, os olhos arregalados diante da cena a sua frente.
Loid surpreendentemente conseguiu passar os braços para frente do corpo e, ainda algemado, tinha as mãos pousadas no pescoço do Lojista. Ele tinha lutado com tudo de si apesar da desvantagem, mas naquele momento seu corpo estava estranhamente desequilibrado e os olhos vidrados e fixos no rosto do homem a sua frente.
Seu abdômen pressionado contra a arma que o Lojista ainda segurava firmemente, o dedo no gatilho que acionara a pouco.
Yor sentiu o chão sumir sob seus pés quando seu cérebro lento finalmente entendeu o que aquilo significava.
O que aquele desgraçado tinha feito ao seu marido.
— Não. NÃO! LOID!
Fale com o autor