Notas iniciais
Último cap! Espero que gostem!

— Não. NÃO! LOID!

Yor gritou a plenos pulmões enquanto o corpo de Loid tombava para trás, sua cabeça pousando sobre as flores e fazendo o pólen dourado flutuar como uma nuvem. Lágrimas desciam incontroláveis pelo rosto da assassina e ela sentia que seu coração tinha simplesmente sumido do peito, apenas um vazio tenebroso ficando em seu lugar. Ela quis correr em direção ao seu amado, sacudi-lo, beijá-lo, qualquer coisa que o fizesse voltar para ela, mas o som da arma sendo destravada fez Yor desviar os olhos do homem caído entre as flores para aquele que ela faria questão de matar com as próprias mãos.

Ela sentiu seu corpo ferver, a dor e a raiva se misturando em uma só e os instintos assassinos sendo os únicos que comandavam seu corpo. O Lojista descarregou a arma em tiros precisos, cada bala voando na direção de Yor com o intuito de atingir partes vitais do corpo.

Isso se ela não estivesse se desviando com a maestria de uma acrobata.

O último tiro restante ainda raspou em seu braço fazendo um filete de sangue escorrer até a ponta dos dedos. O vermelho vivo pareceu atiçar ainda mais seu ódio. Ela segurou as agulhas douradas com firmeza e saltou na direção do Lojista, o salto fino se fincando no chão com uma força que poderia partir metal. O homem se esquivou e logo voltou à posição de combate, jogando a arma vazia na direção da assassina que desviou sem dificuldade e logo atacando-a sem dó com socos e chutes, os golpes amparados pela sua pupila que o conhecia bem demais.

Eles pareciam os parceiros perfeitos de uma dança mortal.

Quando bloqueou um chute que acertaria sua cabeça, o Lojista encarou os olhos vermelhos da mulher com desamparo.

— Você era perfeita! Minha herdeira natural! Como pode jogar tudo isso fora por causa de um homem e ainda por cima um espião inimigo? Eu me enganei, achei que você fosse mais esperta!

Yor soltou a perna das mãos dele aproveitando o giro para entrar numa rasteira que não teve sucesso. Ela desviou de um gancho de direita e se afastou alguns centímetros, os dentes rangendo.

— Eu nunca fui sua herdeira! Eu fui seu brinquedo, sua serva fiel, destruindo todos que você queria. Você me usou, me corrompeu…

— Eu salvei você! — O homem rosnou desviando de uma das agulhas que Yor lançou e acabou se cravando no coreto com força. Ele sorriu maldosamente. — Se não fosse por mim você ainda estaria vivendo dos restos de lixo e da pena dos outros, cadela desgraçada!

— E eu pago o preço desse salvamento com sangue e mortes, presa a esse pacto invisível por escolhas que fiz quando era uma criança faminta. — Yor respondeu amarga, atacando com a última agulha restante e sentindo-a escapar de sua mão quando o Lojista atingiu seu pulso sobre o músculo específico que deixou seu braço dormente. Ela rosnou de fúria, o braço esquerdo pendendo inútil ao lado do corpo. — Minha família me libertou.

Os dois agora se rodeavam na base do coreto, as flores sendo as únicas espectadoras daquele espetáculo. Yor tentou se esquivar do ataque dele, a perna erguida para substituir o braço impotente, mas ela sentiu seu pé ser puxado e o Lojista a atingiu no estômago. Ela caiu e os dois rolaram pela calçada de ladrilho chegando à base da grama, o cheiro das flores fazendo o nariz de Yor coçar. Ela sentiu o peso do homem sobre si, imobilizando suas pernas e apertando seu pescoço em um estrangulamento. Os olhos castanhos que ela sempre achou tão sábios e, as vezes, até carinhosos agora eram pura maldade e morte.

— Sua família de mentira te condenou, menina tola! Você podia ter tudo, mas se deixou levar por algo idiota como o amor. — Ele apertou os lábios, o rosto pétreo e decepcionado, as mãos se fechando cada vez mais na garganta da mulher que permanecia estranhamente imóvel abaixo de si apesar dos olhos vermelhos expressarem toda a sua indignação e fúria. Ele suspirou. — Bem, você fez sua escolha. Adeus Thorn Princess.

Então ele se inclinou colocando toda a força nos braços, empenhado em ver a centelha de vida escapando dos olhos de Yor.

A assassina controlava os sons de engasgo, os olhos fixos no rosto do homem enquanto seus sentidos estavam voltados para algo totalmente diferente.

Só mais um pouco…

Isso!

O Lojista sorria de forma melancólica, os dedos longos já brancos de tanto apertarem, a certeza de que ela não aguentaria muito mais quando viu os olhos dela revirando nas órbitas.

Mas o som de carne se rasgando o fez parar.

E então tudo pareceu anestesiado antes da dor excruciante emanar por seu corpo como fogo.

Os olhos chocolates se arregalaram, as mãos se afrouxando, a boca aberta em espanto com um filete de sangue escorrendo entre os lábios e descendo pelo queixo.

— Fique sempre de olho nas mãos. — Yor sussurrou rouca, a voz ecoando na estufa silenciosa como uma canção de ninar, morna e melodiosa enquanto o corpo do homem oscilava sobre si e tombava de lado com a tesoura de poda cravada entre as costelas. — Achei que fosse mais esperto de seguir o próprio conselho.

Ela se sentou ofegante quando o peso sumiu de cima de si e voltou os olhos impassíveis para o homem que ainda respirava ao seu lado, tão fraco que era quase inexistente. O som parecia engasgado e a cada expiração mais sangue escorria do peito, encharcando o metal da tesoura com o líquido vermelho e viscoso. Os lábios dele abriam e fechavam, a voz já perdida no meio da enchente de sangue que descia por sua boca. Yor se ajoelhou lentamente ao lado dele, os olhos voltados para aquele rosto tão fino e delineado, as curvas precisas que Yor sempre gostou tanto de admirar, principalmente nos raros momentos em que ele sorria.

Naquele momento as expressões sempre calculadas e imperiosas jaziam esquecidas, o rosto tomado pelo terror da morte que se aproximava.

Seu mestre. Seu pai. Seu carcereiro. O homem que mudou sua vida.

Agora apenas menos um assassino no mundo.

Ela suspirou quando o homem ofegou uma última vez, a respiração sumindo completamente.

— Adeus senhor Müller. — E ela fechou os olhos do morto que estavam abertos, opacos, encarando o vazio da noite.

Sua última visão sendo sua preciosa estufa.

Yor encarou o corpo por segundos antes de se voltar para o mais importante: Loid. Ela correu, o braço esquerdo voltando com os movimentos aos poucos enquanto o sangue do raspão no outro braço já estava quase totalmente estancado. Ela saltou sobre o corpo do Lojista e correu pelos ladrilhos, os pés derrapando quando parou bruscamente ao lado de Loid.

Ele permanecia do mesmo jeito: imóvel, o rosto pálido, os cabelos loiros com sangue seco na raiz contrastando com as flores brancas que formavam uma coroa ao seu redor, os olhos fechados.

O aspecto de alguém sem vida.

— Loid! Amor! N-Não pode fazer isso comigo! — Ela se inclinou sobre ele, as lágrimas borrando a visão e os soluços fazendo seu corpo inteiro sacudir. Ela tentou massagem cardíaca, as mãos pressionando o peito dele em movimentos rítmicos enquanto ela tentava ouvir a respiração. — Vamos lá! Acorde, amor! Por favor! Precisamos voltar para a Anya! Você tem que acordar!

Yor tentou uma última vez, mais forte, soprando o ar para dentro do corpo dele por entre os lábios com tanto afinco que realmente acreditou que pudesse funcionar.

Então esperou.

E esperou.

E ele continuou tão imóvel quanto antes.

Tudo nela desabou.

— Meu Deus, não! L-Loid! — Ela caiu sobre o peito dele, os dedos apertando a blusa rasgada na altura do coração, as lágrimas lavando seu rosto e caindo sobre o corpo dele incontrolavelmente. — Eu preciso de você! E-Eu te amo tanto! Céus, i-isso não pode ser verdade. Por favor, não pode! V-Volte, volte pra mim!

— Cuidado com o que deseja, assassina. — A voz fraca não passou de um sussurrou, mas se sobressaiu aos soluços de Yor como o som mais perfeito que ela poderia ouvir: a voz de Loid. — Tem certeza de que quer esse mentiroso de volta?

A mulher se ergueu de um sobressalto, os olhos arregalados ainda cintilando com as lágrimas não derramadas, mesmo que nada pudesse impedir sua visão naquele momento: Loid com os olhos azuis cansados, mas abertos, a cabeça de lado para poder olhá-la com carinho enquanto seu sorriso perfeito se desenhava naqueles lábios.

Acima de tudo, Loid vivo.

— L-Loid? — Ela não acreditava nos próprios olhos, o peito apertado em angústia, apreensiva, sem saber se aquilo era puro delírio de sua mente amedrontada. Mas o braço de Loid se moveu lentamente e tocou o joelho dela, os dedos fracos apertando levemente aquele pouco pedaço de pele despido, mas foi o suficiente para a eletricidade percorrer os corpos e Yor finalmente perceber que aquilo era real. — V-Você tá vivo?

Ele trincou os dentes quando seu sorriso se alargou.

— Não vai se livrar de mim tão fácil, senhora Forger. Agora pode me soltar dessas algemas? Quero beijar minha mulher em liberdade!

Então ela gargalhou em meio às lágrimas, procurando as chaves e logo abrindo as algemas e lançando-as em um canto qualquer. Loid alisou os pulsos machucados, mas abriu os braços quando Yor se lançou sobre ele, os braços se apertando no pescoço dele, o corpo colado ao dele buscando sentir seu calor, distribuindo beijos sobre aquele rosto pálido que tanto amava. Ela se afastou alguns centímetros quando ouviu um gemido vindo dele, os olhos arregalados ao perceber que o machucara.

— Não se preocupe, apesar de me salvar da morte, essas coisas não amortecem todo o impacto das balas. — Loid explicou com a voz rouca. — A dor e o trauma de levar um tiro ainda é o mesmo.

Yor ergueu uma sobrancelha confusa até Loid erguer lentamente a base da sua camisa onde, pouco acima do cós da calça, enrolado em seu abdômen estava uma espécie de placa esponjosa e rígida que rodeava toda a região. O material era estranho e quase da cor da pele dele, indo da calça até pouco acima do umbigo. No centro, quase chegando na região desprotegida, um buraco de bala se destacava, preto e com o projétil ainda alojado em algum lugar lá dentro. Yor estava espantada e se xingando mentalmente por não ter percebido que, apesar do ferimento mortal, Loid não sangrou em nenhum momento, o que só podia significar que ele tinha algum truque na manga.

Mas quem poderia julgá-la por perder a razão diante de tudo aquilo?

Ela suspirou tocando a placa no tronco dele com admiração.

— Um colete que para balas. Céus, vocês, espiões, e suas invenções milagrosas.

Loid tocou a mão de Yor que ainda repousava sobre seu corpo, os olhos ainda vagos, mas parecendo cada vez mais desperto.

— O pessoal da agência chama de ABE: Armadura Blindada Esponjosa, mas gostei mais do nome que você deu.

Yor revirou os olhos, o sorriso preso nos lábios como se fosse eterno.

— Qual o fetiche de vocês por siglas?

Loid gargalhou, ou tentou porque logo o som se transformou em um gemido sofrido, os olhos cerrando e os lábios se apertando.

— Por favor, me lembre de não repetir essa experiência.

— Se você fizer algo assim de novo, eu faço questão de te partir ao meio!

Loid abriu os olhos, um sorriso sacana se abrindo.

— O que aconteceu com o "preciso de você, amor"?

Yor sentiu as bochechas queimando, mas continuou o encarando com uma careta de raiva.

— Idiota!

Ele respirou fundo e empurrou o corpo lentamente até que estivesse sentado, a careta de dor em cada movimento. Então ele suspirou e sorriu, puxando Yor para um beijo rápido, mas não menos arrebatador.

— Eu também te amo e não sei viver sem você.

Yor sentiu o peito dar uma cambalhota com a declaração tão intensa de Loid e logo estava beijando-o mais uma vez, colocando todo o amor, a saudade e o medo que sentiu de perdê-lo no toque quente dos lábios.

Mas o momento não durou tanto quanto eles gostariam.

Yor se afastou rapidamente quando percebeu o som de passos. Ela se ergueu num salto, fechou as portas duplas da estufa e usou uma das ferramentas de jardinagem, uma espécie de enxada, para bloquear a porta.

— Temos que ir! Agora!

Loid, que conseguiu se levantar com certa dificuldade, encarava Yor com o cenho franzido, os olhos vasculhando tudo ao redor, o corpo cansado e machucado se enchendo da adrenalina que uma fuga milagrosa sempre causava em si.

— Nenhuma chance da gente sair por onde entramos?

Yor cruzou os braços, uma sobrancelha erguida.

— Só se estiver disposto a enfrentar um bando de assassinos pelo caminho e talvez, só talvez, chegar ao fim do corredor com vida.

Loid olhou pro próprio estado acabado e bufou.

— Certo, plano B. — Ele apontou para o teto de vidro. — Sabe onde isso vai dar?

Yor encarou Loid, confusa, e olhou para o teto de vidro.

— Um prédio abandonado, duas ruas atrás do beco que a gente entrou.

— Perfeito.

Yor sentiu a porta vibrar às suas costas, os gritos irados dos assassinos. Seu corpo vibrou com o choque dos punhos e armas contra a porta. Que bom que o Lojista sempre foi paranóico com a proteção dessa estufa. Ela se afastou da porta quando um palavrão soou por trás da madeira. Seus olhos voltaram para Loid que olhava do chão para o teto com uma concentração intensa.

— Terceiro quadrado de vidro à esquerda do centro. — Loid murmurava para si mesmo, sua concentração inabalável apesar do perigo à espreita. Ele era o melhor em trabalhar sob pressão. — Cinco metros do chão ao teto, mais ou menos. É, talvez suporte. Tem que dá certo…

— Do que diabos você tá falando? — Yor rosnou, os olhos preocupados na direção da porta que rangia a cada ataque. Pelas vozes Yor identificou cinco, talvez seis assassinos. — Como pretende escapar pelo teto? Não sei você, mas ainda não aprendi a escalar paredes feito uma aranha!

Loid sorriu para ela e piscou maroto.

— Não vai ser necessário.

Então ele apertou a fivela do cinto e num piscar de olhos uma corda fina ejetou do local subindo pelo ar e se prendendo firmemente no centro da cúpula do telhado de vidro. A corda vibrou um pouco antes de Loid segurá-la com força, tencionando-a firmemente. Yor piscou, embasbacada.

— Então nem tudo do Bondman é mentira. — Ela encarou Loid com um olhar divertido. — Espera quando a Anya descobrir que você é o Bondman da vida real.

Loid estalou a língua, sério de repente.

— Talvez ela já saiba.

Yor crispou os lábios lembrando das palavras do Lojista sobre sua filha. Ela se aproximou de Loid e tocou seu braço delicadamente.

— Nós vamos conversar com ela e esclarecer tudo, mas temos que ir rápido. Se o Lojista estava falando sério, provavelmente mandou alguém atrás dela.

Loid assentiu, os olhos brilhando de fúria ao imaginar sua filha capturada por um dos capangas daquele desgraçado. Ele apertou a corda e puxou, testando a firmeza e ficando satisfeito com o resultado. Ele encarou Yor e fez um floreio.

— Primeiro as damas.

— Tem certeza que uma corda fina assim vai suportar nos dois?

—E la é feita de uma fibra especial, não se preocupe. — Ele puxou Yor para os seus braços com um movimento rápido, deixando um beijo estalado naqueles lábios grossos e tentadores. — Estarei bem atrás de você!

Yor sorriu mesmo com toda a loucura da situação. Estando com Loid ela poderia sorrir até se estivesse à beira da morte. Então ela segurou a corda, puxou-a um pouco e finalmente iniciou a longa subida. Seu pé se enroscava na corda para criar apoio enquanto ela puxava o corpo para cima pouco a pouco. Sentir os sons e respirações de Loid abaixo deixavam seu coração bem mais tranquilo, incentivando-a a subir mais e mais. No meio do caminho até o teto, a corda já oscilando de um lado a outro pela própria gravidade, eles ouviram o som da porta se abrindo com violência.

— Ali estão eles!

Yor ainda tentou olhar para baixo, os assassinos como pontos pretos se movimentando loucamente pela estufa. Então um tiro soou, raspando seu rosto e levando um pedaço do seu cabelo.

— Não olhe para baixo! — Loid gritou por cima dos sons de balas que ficavam cada vez mais fortes.

Yor acelerou a escalada. Sentiu um tiro atingindo a parte de trás de sua perna de raspão o que fez seu corpo desequilibrar por segundos. Não posso cair! Estou perto demais! Vamos lá! Vamos!

Ela se forçou os últimos centimetros até o topo e quando sua mão finalmente tocou o vidro frio ela suspirou.

— Chegamos!

— Tente quebrar o vidro mais frágil, terceiro quadrado a sua esquerda, contando do centro.

Yor não questionou e apenas se segurou na corda tentando chocar a ponta do salto contra o vidro que Loid indicara. Mas ela afastou os pés rapidamente quando mais tiros se chocaram no vidro criando diversas aberturas, como uma boca com dentes aleatórios em falta. Yor riu de sua sorte.

— Acho que assassinos não são tão espertos assim…

Ela ouviu a risada de Loid abaixo, mas não perdeu tempo. Se espremeu contra uma abertura perto do centro e o frio da noite estrelada fez seu corpo estremecer. Então ela se ajoelhou pronta para puxar Loid para a segurança quando ouviu o grito dele e o som de corda se partindo. Seus instintos foram mais rápidos que seu próprio pensamento e ela se esticou pela abertura segurando a ponta de corda cortada pelo tiro, salvando Loid de uma queda para a morte certa. O espião girava no ar, abalado e respirando fundo, os olhos arregalados na direção da mulher que chiava com o esforço de manter a corda estável.

— Minha heroína! — Loid murmurou quando Yor finalmente conseguiu puxar a corda e ajudou o homem a passar pela abertura no exato momento que um tiro estourou mais um vidro perto deles.

— Será que você pode parar de tentar se matar por um segundo? — Yor resmungou jogada no chão frio e ofegando. — Desse jeito vou ficar com os cabelos brancos bem antes dos trinta!

Loid gargalhou e tossiu, o corpo também jogado no chão empoeirado, no pequeno espaço entre o teto de vidro da estufa (que ali por fora era opaco e não revelava nada do que havia no subterrâneo) e a parede precária daquele prédio caindo aos pedaços.

— Juro que não faço de propósito!

Yor franziu o cenho na direção do homem que apenas encolheu os ombros numa falsa inocência. Ela se ergueu, o arranhão no braço voltando a arder com a diminuição da adrenalina assim como o raspão na perna. Esticou a mão na direção de Loid que aceitou a ajuda de bom grado.

— Vamos antes que nos encontrem.

Loid se apoiou nela forçando o corpo exausto a dar um passo de cada vez. Eles saíram do prédio para o silêncio da noite, os passos arrastados contra o asfalto sendo o único som. Loid encarou Yor de relance que o firmava com a mão em sua cintura.

— Com a morte do Lojista, como vai ficar o Jardim?

Yor suspirou, o ar saindo visível como fumaça enquanto encarava a rua à frente.

— Algum dos assassinos vai subir ao poder pela força e seu primeiro decreto será me matar. — Ela apertou Loid contra si quando percebeu que o homem protestaria. — Mas não se preocupe, apenas o Lojista sabia minha identidade secreta.

Loid franziu o cenho, os olhos azuis escuros de preocupação.

— Sua aparência não é tão diferente como Thorn Princess. Se algum deles ver você vai reconhecê-la na hora!

Ela ergueu os lábios com divertimento.

— Eu sei me cuidar, Twilight. — Então ela usou a mão livre para erguer a mecha de cabelo que fora cortada durante a luta com o Lojista e inclinou a cabeça. — Mas um corte e uma cor não seria nada mal. O que acha? Prefere ruiva ou loira?

Loid bufou e puxou mais a mulher contra seu corpo enquanto seguiam lentamente pela madrugada.

—Eu prefiro você viva. — Ele murmurou, o peito leve ao perceber que aquele pesadelo tinha chegado ao fim.

Ou ao menos ele esperava que sim.

[...]

Manhã do dia seguinte — Ostania, Berlint — Parque central.

Loid e Yor observavam Anya brincar com Bond pela grama, a risada alegre da garota fazendo os dois sorrirem feito bobos por fora enquanto a ansiedade os corroía por dentro.

Aquele era o momento de saber a verdade.

Anya parecia alheia à preocupação dos pais já que eles mantinham os pensamentos longe das revelações feitas pelo Lojista na madrugada anterior. O que não foi tão difícil de fazer depois de tudo que aconteceu quando chegaram em casa, machucados e exaustos.

A porta estava intacta, mas eles perceberam o trinco da janela avariado e pequenos detalhes pelo apartamento que passariam despercebidos por alguém comum, mas não um espião ou uma assassina: o tapete amarrotado, a mesa levemente fora do lugar, a sujeira de terra no corredor e o urso favorito de Anya, senhor Quimera, caído sobre o colchão de forma desleixada. Acima de tudo Bond que permanecia escondido sob a cama e correu feliz e ansioso quando percebeu a chegada dos donos, uma das patas mal encostando no chão e pelos faltando na parte do pescoço.

Yor, abraçando Bond enquanto o cão choramingava baixo, encarou Loid com os olhos queimando em fúria.

— Aquele miserável! Se Anya não estivesse com Becky…

Loid pousou as mãos sobre os ombros dela deixando um beijo calmo sobre os cabelos da mulher, buscando acalmar sua própria irritação.

— Mas ela estava. Graças aos céus, ela estava. — Ele acariciou Bond que se sentou em seus pés, o rosto peludo voltado para cima como se implorasse por algo. Loid suspirou, coçando atrás das orelhas do cão. — É, Bond, temos que nos mudar.

O cão uivou como se compreendesse a aprovasse a decisão.

Era seis da manhã quando eles despertaram do cochilo de duas horas que permitiram aos seus corpos cansados, os dois jogados de qualquer jeito sobre a cama de Loid com Bond a seus pés. Eles cuidaram dos ferimentos da melhor forma possível e Loid entrou em contato com sua chefe marcando um encontro urgente para dali a meia hora enquanto Yor se encarregava de empacotar tudo no apartamento. O encontro se deu num esconderijo abaixo de uma padaria a apenas três quadras do apartamento dos Forger.

— Espero que tenha boas notícias para estar solicitando minha presença às seis e meia da manhã. — A mulher comentou séria, a roupa e cabelo sempre impecáveis apesar dos olhos demonstrarem o sono recente. Ela deu um gole no café e indicou que Twilight começasse.

Então ele respirou fundo e contou tudo: Sobre a missão ao Jardim, os arquivos destruídos e o porquê dele precisar que a Wise conseguisse um novo apartamento para ele naquele mesmo dia.

— Sua filha é uma das cobaias? — A chefe estava de olhos arregalados, o café esfriando entre os dedos, totalmente esquecido diante da surpresa da revelação. — Twilight isso é sério. Precisamos levá-la e…

— Ninguém vai tirar Anya de mim. — O homem rosnou, exaltado, o que fez a mulher afastar o corpo, espantada com a reação forte daquele que sempre foi um exemplo de controle. Twilight suspirou, as mãos espalhando as mechas loiras em desordem. — Desculpe, chefe, mas não vou permitir que levem Anya. Ela é minha filha e eu ficarei de olho nela e em seus poderes. E isso não está aberto para negociação.

A mulher crispou os lábios, o olhar intenso sobre seu antigo aprendiz que parecia decidido a ponto de passar por cima de qualquer ordem para manter a menina. Ela tinha que admitir, estava orgulhosa da autoridade imponente que via nele. Ele evoluiu muito. Merece um voto de confiança.

— É uma situação perigosa, Twilight. — Ela explicou, apesar de saber que ele não cederia. — Você será responsável por ela e por qualquer problema que ela possa causar. Percebe isso?

— Claro, é isso que os pais fazem de qualquer forma. — Ele rebateu com ar impertinente o que fez a mulher sorrir.

— Sendo assim, está autorizado a manter a garota contanto que nos relate qualquer anormalidade que possa causar riscos. E fique ciente: se ela demonstrar qualquer tipo de ameaça a outros ou a paz entre os países, não importa o que você diga ou faça, ela vai ser detida.

Twilight permaneceu imóvel por segundos, mas acabou assentindo contrariado diante do olhar incisivo da mulher. Ela se ergueu e jogou o copo no lixo.

— Convenientemente, o único que poderia reviver os experimentos macabros está morto, então manteremos essa informação sobre a cobaia 007 em total sigilo, entendido?

— Sim, senhora. Obrigado, chefe.

A mulher dispensou o agradecimento com um aceno indiferente da mão e caminhou até a saída, os saltos finos ecoando como trovão no minúsculo espaço até pararem de repente.

— Aliás, avise sua esposa assassina para se manter na linha a partir de agora. E que se ela decidir mudar de ramo, daria uma espiã esplêndida. — Ela não se virou, mas conhecia Twilight bem demais para saber que uma perplexidade contida estaria estampada em seu semblante. Sorriu. — Você achou mesmo que eu não descobriria, garoto?

A risada espontânea dela ecoou na cabeça de Loid até ele voltar para casa, espantado por algo tão inusitado vindo de sua chefe. Yor ainda guardava as coisas da cozinha nas caixas de transporte quando Loid chegou contando tudo o que se passara e ficou ainda mais perplexo por Yor pensar seriamente na proposta de sua chefe.

O casal tinha acabado de empacotar as armas e equipamentos de espionagem quando receberam a mensagem com seu novo endereço. Yor encarou o endereço, um local afastado e conhecido pela segurança e discrição.

— Eficientes. — Ela comentou, admirada.

— Bem, agora só falta uma coisa. — Loid falou e os dois se encararam em compreensão mútua.

A conversa com Anya.

Loid conseguiu avisar aos Blackbell para deixarem Anya no parque central de Berlint avisando que eles fariam um piquenique e estariam à espera dela lá. A ideia de procurar um lugar que a menina adorava para terem aquela conversa foi de Yor como uma forma de deixá-la mais confortável e Loid não poderia concordar mais.

Porque no fundo ele se sentia culpado de certa forma.

Anya nunca falara nada sobre sua "condição" por que não confiava neles? Não se sentia segura? Achava que eles a abandonariam como a mãe biológica fizera?

Que belos pais eles eram para que sua filha os temesse assim!

E mesmo não expondo em voz alta suas preocupações, Yor conhecia-o bem demais.

— Não preciso ter telepatia para saber o que você está pensando, Lottie. – A mulher sussurrou, os olhos ainda voltados para Anya que jogava uma bola para Bond buscar. – Não é culpa sua se ela manteve segredo por tanto tempo. Pensa nos adultos desprezíveis que sempre a machucaram, em como ela só foi usada e quando você a adotou ela deve ter sentido esperança, mas então descobriu que era apenas parte de uma missão. É difícil confiar depois de tudo isso.

Loid gemeu, a cabeça caindo sobre os joelhos, as mãos apertando a toalha quadriculada de piquenique sob si.

— Então é sim culpa minha. Merda. Tantas vezes que pensei nela apenas como um meio para um fim, como algo descartável. – Ele apertou os cabelos, uma forma inconsciente de se punir. – Eu não me perdoaria, Yor. Como ela pode fazer o mesmo?

Yor afastou as mãos de Loid tomando o rosto angustiado dele entre seus dedos e o fazendo olhar em seus olhos.

— Owen, você mudou. Eu mudei. Anya nos mudou para melhor. Bastar deixar que ela leia isso em nossa mente, que ela veja nossa sinceridade por si mesma. – A voz dela era como música, suave e firme, deixando todo o corpo de Loid mais leve. – Ela tem um coração enorme e nos ama. Tenho certeza de que irá nos perdoar.

Loid assentiu, um sorriso pequeno surgindo em seus lábios que se refletiu no rosto de Yor. Eles se afastaram, Loid recuperando a compostura no momento que Yor chamou por Anya. A menina veio saltitando com Bond em seu encalço, uma felicidade espontânea e despreocupada até ver o rosto dos pais. Ela se sentou sobre a toalha de piquenique, os olhos desconfiados encarando o semblante triste do pai.

— Anya fez alguma coisa errada, papi?

— Não, querida. – Yor respondeu, seu sorriso carinhoso crescendo diante da preocupação sincera da menina. – Você não fez nada de errado. Nós só...

— Anya, nós... – Loid começou, mas se calou assim que percebeu a postura de Anya mudar drasticamente.

A menina ficou ereta, os olhos arregalados e marejados alternando entre o pai e a mãe, a boca aberta e trêmula quando seu poder finalmente ativou e ela pode ler a mente dos pais. Ela se ergueu num salto como se fosse fugir a qualquer momento.

— P-Papi e mami s-sabem sobre o poder da A-Anya?

O casal permaneceu imóvel diante da reação tão aterrorizada da menina. Eles mal respiravam como se qualquer movimento brusco fosse fazê-la desaparecer para sempre. Os olhos verdes e cheios de lágrimas de Anya se fixaram no pai e Loid assentiu calmamente.

— Sim, nós sabemos.

A menina deu um passo para trás, as mãos apertando o pelo de Bond que permanecia fiel ao seu lado, as lágrimas caindo desenfreadas pelo rosto. Ela fungou alto, o corpo tremendo com o choro.

— Por favor, papi, não manda a Anya de volta pro orfanato! Eu juro que vou ser boazinha! Juro que vou usar meu poder pro bem, como um espião de verdade, e vou ajudar a trazer a paz mundial e nunca mais vou colar nas provas. Só não me manda de volta, por favor, e-eu quero muito ficar com vocês porque a mami é tão legal e cuida de mim e o papi também me deixa ver o Bondman e me deu o Bond e sempre dá os melhores beijos de boa noite. Anya não vai ser um monstro, juro que não. Por favor, por favor, deixa a Anya ficar...

Os lamentos sofridos da menina se perderam no peito de Loid quando este a puxou para si em um abraço apertado, o corpo sacudindo com os soluços de Anya que apertava a blusa do pai como se ele fosse sumir se ela o soltasse. Loid não conseguia falar, apenas balançava o corpo de Anya, ninando-a calmamente enquanto Yor acariciava os cabelos dela com carinho.

— Querida, quem disse isso? – Yor murmurou baixo sem parar de acariciar os cabelos de Anya. – Quem disse que você é um monstro?

— O velho do lab...labotorio. – Ela respondeu, a voz abafada no peito de Loid, a cabeça se movendo de um lado para o outro. – Anya não queria machucar ninguém, só fez o que o menino mandou.

— O que ele mandou? – Loid perguntou em um sussurro, os braços rodeando Anya quando a menina ficou ainda mais tensa em seu abraço.

— Ele disse pra eu fazer o médico brincar com fogo porque assim todo mundo ia embora de lá. – Anya afastou o rosto encharcado do corpo de Loid, os olhos verdes brilhando enquanto o encarava. – Eu queria ir embora porque eles me machucavam muito, me picavam com agulha e me prendia no quarto escuro se eu demorava pra ler a mente de alguém. Eu tinha muito medo do velho, ele era o mais malvado.

O Lojista, Loid pensou com o sangue fervendo, aquele desgraçado!

— Então o médico brincou com o fogo como a Anya mandou, mas aí tudo explodiu e o menino me levou pra fora de lá e me deixou na frente do orfanato e foi embora. – Anya continuou, enxugando os olhos e fungando, os dedos ainda apertando a blusa de Loid, mas o rosto erguido para encarar os pais. – No orfanato eles não me furavam, mas batiam muito e quando uma mulher veio buscar a Anya foi o dia mais legal de todos! Anya quis mostrar a ela o que podia fazer porque tava tão feliz por sair do orfanato, mas a mulher ficou com medo e chamou a Anya de monstro igualzinho o velho e devolveu ela pro orfanato. E muita gente veio buscar a Anya, mas sempre me levavam de volta pro orfanato, mesmo eu nunca mais mostrando meus poderes, eles sempre me mandavam embora.

Então ela apertou as mãos uma na outra e os olhos pareceram dobrar de tamanho quando mirou os olhos azuis de Loid e depois as írises vermelhas de Yor com súplica e terror.

— Porque ninguém gosta da Anya? Eu sou malvada, papi? Desculpa, desculpa, Anya não vai ser malvada nunca mais.

— Não, filha, você não é malvada e nunca foi um monstro. – Loid segurou o rosto de Anya, as bochechas sendo espremidas com carinho enquanto ele falava o que vinha em seu coração, os olhos verdes dela enchendo seu peito de puro amor. — Você é maravilhosa e seu poder é algo bom, não ruim. Monstros são as pessoas que te machucaram e eu e a sua mãe nunca mais vamos deixar ninguém fazer mal a você.

As lágrimas de Anya voltaram a descer, mas dessa vez um sorriso grande de admiração se abriu no seu rosto.

— Papi chamou Anya de filha.

Loid sorriu com o coração transbordando de afeto e beijou a testa de Anya.

— Porque é isso que você é: minha filha. Hoje e para sempre. – Ele encostou a testa na dela e sussurrou como um segredo. – E se não acredita basta ler minha mente.

Anya, ainda temerosa, ergueu as mãos para acariciar o rosto do pai e seu poder ativou fazendo-a entender todo o amor que ele sentia por ela e seus planos de ficar com ela mesmo depois da missão. Com ela e com Yor. A menina arregalou os olhos, afastando o rosto do pai e voltando os olhos para mãe, percebendo na mente dela o mesmo amor incondicional e o desejo de ficar naquela família para sempre. A emoção da menina naquele momento só não foi maior que a surpresa ao perceber suas teorias caindo por terra.

— Então a mami sabe que o papi é espião e o papi sabe que a mami é assassina?

— Ex-assassina. – Yor corrigiu, erguendo o queixo com orgulho.

Anya fez um muxoxo.

— Nada legal. – Anya sorriu com a exasperação que surgiu no rosto da mãe e voltou os olhos para Loid, a cabeça inclinada em confusão. – Mas você não tá com raiva da mami? E você não tá zangada com o papi?

Loid sorriu puxando Yor para perto e deixando um beijo casto nos cabelos dela, para deleite da mulher que se aconchegou no ombro dele com os olhos sapecas voltados para a filha.

— A gente se entendeu, mas eu ainda vou ter que fazer muitas massagens e comidas picantes para reconquistar sua mãe. – Loid falou o que fez as duas gargalharem. Então ele apertou Anya, chamando sua atenção. – E você, mocinha, que sabia dos nossos segredos desde o início… por que nunca contou nada?

Anya encolheu os ombros, envergonhada.

— V-Vocês ficavam mentindo e se Anya falasse algo vocês iam saber dos meus poderes e eu tinha tanto medo que o papi me mandassem embora! Eu quero ser espiã como você, papi, e ajudar a salvar o mundo e também aprender muitos golpes legais com a mami. Não quero ir embora, não quero ficar longe de vocês nunca, nunca, nunca!

— Você nunca mais vai voltar para aquele orfanato. – Yor afirmou séria, os olhos intensos sobre Anya para que cada palavra ficasse firmada na menina como uma verdade irrefutável. – Você é nossa filha e nada mais vai mudar isso!

— Yor está certa, amor. – Loid completou, puxando Anya para um abraço duplo, o braço de Yor se enroscando no seu às costas de Anya enquanto a menina se aconchegava entre seus corpos com os braços apertando os pescoços dos dois contra si. – Você não precisa ter medo, nunca mais. Vamos proteger você de tudo, eu prometo. Nós...te amamos muito, filha. Desculpe se fiz você acreditar que não era amada, se meus pensamentos te magoaram.

Loid ouviu a menina fungar em seu ouvido, mas a voz saiu firme em meio a uma risada de pura alegria.

— Desculpo tudo, tudinho, papi. Também amo vocês um montão! Vocês são os melhores pais do mundo todinho! Melhores até do que um pacote grandão de amendoim!

Loid ergueu uma sobrancelha em descrença. Certo, ela já está exagerando!

— Não é ex..exa...espagero, papi! – A menina respondeu imediatamente como se Loid tivesse dito em voz alta. — É verdade, verdadeira!

O homem arregalou os olhos, surpreso. Céus, nunca vou me acostumar com isso!

— Vai sim, papi! – Anya respondeu de novo se afastando dos pais apenas para olhar seus rostos espantados. – Você acaba acostumando. E sim mami, eu sempre vi tudinho que você pensou desde o começo: como você planejou matar qualquer um que ficasse no meu lugar na escola; como pensou em me ensinar matemática subtraindo corpos no lugar de maçãs porque você achava bem mais fácil assim; como pensou que beijar o papi pela primeira vez ia ter gosto de limão, mas teve gosto de hortelã e você passou muitos dias só pensando nisso; como fica imaginando rasgar a blusa do papi sempre que ele tá cozinhando, mesmo a Anya não entendendo porque ia fazer isso já que...

— C-Certo, certo, já entendi. – Yor esticou a mão para os lábios de Anya rapidamente, o rosto tão vermelho quanto um tomate enquanto a risada de Loid ecoava. – Céus, Anya, você precisa aprender a controlar esse poder. Tem certas coisas que criança não deve ver na cabeça de um adulto!

— Desculpa, mami. – A menina suspirou, arrependida. – Mas Anya não sabe fazer isso.

— Então vamos descobrir, juntos. – Loid respondeu com um sorriso acolhedor. – Você vai aprender a controlar, Anya. Vamos te ajudar com isso.

— Sério, papi? Legal demais! – Ela se jogou nos braços dos pais mais uma vez para logo em seguida se afastar com o cenho franzido, os olhos se desviando para Bond que permanecia deitado ao lado da família com a barriga para o ar e os olhos atentos sobre a conversa. – Será que a gente pode ajudar o Bond também?

Yor ergueu uma sobrancelha, confusa.

— O Bond?

— É, porque ele vê o futuro. – Anya falou simplesmente, saindo dos braços dos pais e pegando um sanduiche da cesta de piquenique.

O casal se encarou lentamente e voltaram os olhos para Anya, as vozes espantadas saindo em uníssono.

— O que?

A menina engoliu um pedaço de sanduiche, trocou um olhar cúmplice com o Bond e os dois suspiraram ao mesmo tempo.

— Essa vai ser uma história bem grande!

Então ela viu as orelhas de Bond tremerem e logo uma imagem surgiu na mente dele, se refletindo na dela como um espelho: Uma foto pendurada na sala de estar da casa que mostrava toda a família; os pais abraçados e sorrindo com os olhos brilhando de amor; Loid com um braço ao redor dos ombros da esposa enquanto segurava uma Anya mais velha e de sorriso grande no braço livre enquanto tinha Bond sentado ao seus pés com a língua de fora e uma postura de lorde; Yor com os cabelos curtos reclinada contra o corpo do marido com um braço rodeando a cintura dele e o outro segurando um bebê enrolado numa manta azul, apenas os cabelos loiros aparecendo. A visão sumiu num piscar de olhos e Anya se viu novamente no parque com os olhares perplexos dos pais ainda sobre si.

Ela sorriu, um sorriso carregado de segredos e Bond latiu ao seu lado.

— Uma história grande, mas com um final feliz demais!

Notas finais
É isso! Até logo!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!