The Travelmaker
5 Capítulo 5
Notas iniciais
A minha presença em frente a porta do armário é finalmente notada pelo menino que beijava Fred, o fazendo dar um pulo de susto. Os dois, imediatamente, se voltam para mim, com o rosto todo vermelho. Fred começa a balançar a cabeça freneticamente.
— Não é o que você tá pensando, Bel. Eu juro!
— Ai, meu Deus! Me desculpem, de verdade. — Respondo – provavelmente tão vermelha quanto eles – e saio de lá correndo, o mais rápido que posso.
Fred me chama algumas vezes enquanto corro, mas prefiro ignorar e fingir que não é comigo. Nunca passou pela minha cabeça que ele pudesse sentir atração por rapazes. Agora estou me sentindo completamente culpada por ter invadido uma intimidade tão privada quanto aquela. Será que alguém, ao menos, já sabe disso? Se não, ele deve estar realmente chateado comigo. De qualquer forma, decido que vou guardar o seu segredo só pra mim.
Subo as escadas, desistindo de encontrar o banheiro no andar de baixo, e vou em direção ao meu quarto. Observo os rastros de água que vou deixando pelo caminho e me distraio com esse pensamento. Olhando para baixo, acabo trombando com alguém no corredor e caindo com força no chão.
— Ai! Você deveria olhar por onde anda. — Caleb, que estava saindo do quarto de Fred, diz para mim com certa ironia, dando risada do meu tombo. — Você tá bem?
— Acho que sim... — Ele me oferece a mão para me ajudar a levantar, mas ao tentar fazer isso, solto um resmungo involuntário de dor. — Bom, talvez eu tenha torcido o tornozelo.
— Vem cá.
Caleb me pega no colo pela segunda vez no dia, sem nem ao menos esperar pela minha confirmação – como sempre. Consigo sentir o seu cheiro amadeirado e com um leve toque de hortelã, bem de perto dessa vez, apesar do cloro da piscina minimizar um pouco do aroma. Ele pergunta aonde fica o meu quarto e assim que o indico com a cabeça, me leva até ele. Gentilmente, me deposita sobre a cama e desaparece pela porta. Me pego pensando se ele não vai mais voltar, mas no momento seguinte, Caleb reaparece segurando uma caixa de primeiros-socorros.
— Foi só uma torcidinha de leve, não precisa se preocupar. — Tento tranquilizá-lo um pouco. Da onde será que ele tirou tudo isso?
— É melhor prevenir do que remediar, né? — Ele comenta, piscando pra mim. — Fred sempre guarda um kit desses no quarto...por causa do futebol.
Como se pudesse ler os meus pensamentos, Caleb responde o meu questionamento sobre a caixa. Eu me limito a apenas acenar positivamente com a cabeça em resposta. Nós ficamos em silêncio por algum tempo, enquanto ele espalha uma espécie de pomada sob o meu tornozelo. Decido puxar um pouco de assunto afinal, para quebrar o gelo.
— Acho que vou precisar de um desses no meu quarto. Aparentemente, estou sempre me esbarrando com você por aí. — Dou risada e ele me acompanha.
— Pois é...e ao que se parece também, um de nós acaba sempre estando, misteriosamente, quase sem roupa durante essas situações.
Os olhos verdes de Caleb, quase que completamente preenchidos por sua pupila, percorrem o meu corpo intensamente de cima a baixo. Me esforço ao máximo para não corar, mas sei que, provavelmente, devo estar falhando gloriosamente neste momento. Ao me lembrar de que estou usando apenas um biquíni e nada mais do que isso, me apresso em cobrir-me com o meu quimono encharcado.
— Ei, eu não estava reclamando, tá bom? — Ele avisa, quando me vê jogando a roupa por cima do corpo, gargalhando da forma apressada e desajeitada com que faço isso.
Dou um tapinha de leve em seu braço. É um pouco estranho o modo como ele age de forma tranquila e alegre quando estamos a sós, mas se transforma em alguém super sério e reservado quando está rodeado de pessoas. No fundo, acho que até gosto de me sentir como alguém com quem ele se sente confortável de estar por perto.
Caleb se levanta da cama e começa a andar por todo o espaço do quarto. Quando o seu breve tour chega ao fim, após ter feito uma análise detalhada do cômodo, ele para em frente ao porta retrato em cima da minha escrivaninha. A pergunta que me faz, acaba me pegando um pouco de surpresa. "Esses são os seus pais?". Eu respondo, confirmando, e o observo olhar melancolicamente para a foto. Acabo comentando com ele o quanto estou sentindo saudades de casa e dos dois. A partir daí, damos início a uma longa conversa sobre a minha família, o Brasil, e a minha vida de uma forma geral.
Depois de um bom tempo conversando – que se pareceram mais como segundos –, nós descemos novamente para o primeiro andar. Caleb vai embora, assim como a maioria das pessoas da festa, e nós, meros moradores desta casa revirada de cabeça para baixo, começamos a limpar e organizar toda a bagunça. Quando finalmente conseguimos dar uma ajeitada nas coisas, ainda que uma parte do caos tenha ficado para amanhã, Fred me puxa de canto, fazendo com que eu me sinta realmente nervosa.
— Bel, será que a gente pode conversar? — Ele parece um pouco aflito.
— Olha, Fred, eu te garanto que se for sobre o que eu vi hoje mais cedo, você não tem com o que se preocupar. A minha boca é um túmulo e eu... — Sou interrompida antes que consiga terminar a frase. Fred me segura pelas mãos.
— Só me escuta. Por favor.
Faço que sim com a cabeça, me arrependendo profundamente por ser tão tagarela assim. Ele me guia até o seu quarto, e ao chegarmos lá, faz menção para que eu me sente de frente para ele na cama. Precipitada como sempre, me adianto em pedir desculpas por ter sido tão intrometida; mas ele me assegura de que não há motivos para isso, e de que não está nenhum pouco chateado comigo.
Fred me conta que toda a sua família já sabe, exceto pelo pai biológico. Ele não tem ideia de como vai fazer para contar para ele. Em relação ao nosso pequeno incidente da festa, Fred me explica que nenhum de seus colegas da escola tem a miníma noção também. Ele não se sente confortável o suficiente para se abrir com mais ninguém ainda, principalmente por fazer parte do time de futebol. Tem medo de que isso mude a visão dos garotos sobre ele e faça com que o excluam do time, simplesmente por ser gay.
Nós nos abraçamos por um tempinho, e eu dou risada da forma como ele me acusa de ser uma grande molenga por estar emocionada com o seu relato.
— Vou estar aqui por você. Onde e quando precisar, tudo bem? — Prometo para ele, que aperta a minha mão com mais força.
O dia seguinte, quando enfim terminamos de deixar a casa toda em ordem, acaba se tornando bastante agradável. Nós quatro nos alimentamos com as sobras de pizzas e passamos a tarde toda vendo filmes bobos e engraçados, enquanto fazemos a nossa skincare. Quando o sol, finalmente, decide se pôr, o senhor e a senhora Howard retornam, exalando uma felicidade sem fim. Nós todos jantamos ao redor de uma pequena fogueira no jardim, e comemos marshmallows como nos filmes norte-americanos dos quais eu assistia sem parar. Porém, assim que o fogo da uma leve vacilada, me despeço do grupo, com a intenção de ir dormir o mais cedo possível.
Me esforço bastante para manter os olhos fechados. Conto carneirinhos, invento uma fic sobre a minha própria vida, e até tento fazer com que o meu cérebro desligue de uma vez só. Sem sucesso. Acho que estou muito animada para dormir. Tento me concentrar em um ponto fixo do teto, para não deixar a ansiedade me atingir. E então, falhando mais uma, me sento na cama e alcanço o meu diário de viagem, com a intenção de extravasar em palavras tudo aquilo que estou sentindo agora. É amanhã. Isso está realmente acontecendo. Amanhã é o primeiro dia de aula do meu intercâmbio. Não consigo nem imaginar o que vem pela frente...
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