The Travelmaker
6 Capítulo 6
Notas iniciais
O despertador toca, cada vez mais alto, até o momento em que crio coragem para levantar o braço e desliga-lo. Ao abrir os olhos, que ardem um pouco de sono, me esforço um bocado para levantar da cama quentinha e confortável. São 6 horas da manhã, e hoje é o meu primeiro dia de aula. Uma ansiedade formidável cresce dentro de todo o meu corpo, enquanto me preparo para tomar uma ducha.
Assim que saio do chuveiro, me apresso em secar o cabelo e ondulá-lo da maneira mais rápida possível. Como sempre, uso o mínimo de maquiagem que consigo, apenas para passar a impressão de que tentei realmente me arrumar para o dia. Visto uma calça jeans com alguns rasgos delicados, um cropped branco e soltinho com as mangas bordô, e um tênis todo branco da Adidas. Coloco a pulseira em que está o meu berloque do Brasil, um relógio e, por fim, alcanço a minha mochila. O resultado final me agrada bastante, e eu estou pronta para ir.
— Bom dia, docinho! — A senhora Howard cumprimenta, assim que me vê entrando pela porta da cozinha.
Sorrio gentilmente como resposta. Bacon, ovos e panquecas ocupam todo o espaço do ambiente, fazendo com que a minha barriga implore para que eu os devore. O senhor Howard, Tris, Penny e Fred se juntam a nós para o café da manhã, demonstrando um imenso entusiasmo pela comida, assim como eu. Quando Carmelia insiste para que eu me sirva mais uma vez, não faço nem questão de disfarçar, apenas sorrio e a agradeço. Tudo estava, realmente, uma delícia.
O casal Howard se despede de nós, e caminham juntos até o carro da família, para irem em direção a seus respectivos trabalhos. Quando estou acreditando fielmente na ilusão de que nós pegaremos um dos ônibus amarelos para ir até o colégio, Fred aparece buzinando exageradamente em frente a porta de casa. Nós damos risada, e vamos as três até o seu encontro. A idade legal para dirigir por aqui é 16 anos; então Fred e Penny compraram este carro para o uso dos dois.
O trajeto até a escola é bem agradável. Nós vamos conversando e ouvindo um pouco de música pelo caminho. Ao chegar lá, observo toda a estrutura do lugar. Comparado aos parâmetros de um colégio brasileiro, o Sant Mary High School é até que bem grande; mas em comparação as outras escolas daqui, é relativamente pequeno.
Assim que entramos, Fred encontra os seus amigos do time de Futebol e se junta imediatamente aos garotos. Penny nos indica o caminho até a secretaria – já que Tris e eu ainda temos que assinar alguns papéis e pegar o nosso cronograma de aulas –, e me garante de que irá atrás de mim durante o intervalo, caso não nos encontremos em nenhuma aula até lá; depois disso, ela se despede de nós e vai encontrar algumas amigas.
Por ser alguns anos mais nova, o intervalo de Tris acontece em um horário diferente do nosso. Ela é atendida pela coordenação antes de mim, e logo após pegar o seu horário escolar, deixa a sala, indo em direção ao colégio e sendo guiada por uma menina baixinha – aparentemente da mesma idade que Tris. Sou chamada logo em seguida. Uma funcionária super sorridente, com um pouco de batom nos dentes, me entrega o meu próprio cronograma e pede para que eu assine alguns documentos sobre o intercâmbio. Após mais algumas instruções, ela me assegura de que um Senior – um aluno do último ano – virá para me guiar até as salas de aula das matérias que eu escolhi. A agradeço pela atenção e vou em direção a saída da secretaria.
— Você tá pronta? — Caleb – que estava do lado de fora da sala, escorado no batente da porta – me pergunta.
— Pronta pra quê?
— Eu vou te mostrar o colégio.
Ele fala, dando de ombros, como se fosse meio óbvio. De todas as pessoas possíveis para essa função, eu nunca imaginei que Caleb seria uma das opções escolhidas, e muito menos que ele aceitaria cumprir o papel. Mas sem julgamentos, né? Ele sai andando apressado e eu vou atrás, seguindo os seus passos. Tenho que caminhar bem mais rápido do que o normal para conseguir alcançá-lo. Nós subimos algumas escadas, e eu penso na possibilidade de que ele queira me mostrar os lugares de cima para baixo, mas não é o que acontece, já que Caleb não para de subir.
— Aonde estamos indo, exatamente? — Pergunto, desconfiada.
— Só existe um lugar importante por aqui. O resto você vai acabar conhecendo de qualquer jeito.
Me seguro para não fazer mais perguntas, e até penso em pedir para voltar, já que tenho aula daqui a pouco, mas a minha curiosidade é tão grande, que decido continuar o seguindo, para ver onde isso vai dar.
Nós chegamos a um andar praticamente vazio, exceto apenas por caixas e canos. Quando começo a me perguntar o que diabos nós estamos fazendo aqui, vejo que Caleb está estendendo a mão para me ajudar a subir em uma escadinha de metal. Aceito o auxílio e, novamente, o sigo pelo caminho. Nós subimos até alcançarmos uma espécie de alçapão. Ele abre a entrada sem grandes dificuldades e passa por ela, me ajudando a subir logo em seguida. No momento em que me dou conta de onde estamos, perco completamente o fôlego.
— Uau. — É a única coisa que consigo dizer.
— Eu sei... — Caleb responde, parecendo tão fascinado quanto eu, como se fosse a primeira vez que estivesse aqui.
Nós estamos no terraço do colégio. A vista daqui de cima é realmente de tirar o fôlego, e eu fico sem palavras por um bom tempo, enquanto aprecio a paisagem. Olho para o garoto tatuado ao meu lado, que está com os olhos fechados e com o cabelo bagunçado, por conta da brisa suave de Glendale. Me pego analisando os seus piercings, suas tatuagens, e até mesmo a sua boca. Assim que me dou conta do que estou fazendo, desvio o olhar na hora, provavelmente corando com os meus próprios pensamentos.
— Você vem sempre aqui? — Pergunto para me distrair e ele abre os olhos.
— Sim. Gosto da paz e do silêncio...é bom pra pensar. — Sorrio ao ouvir sua resposta.
— E por que resolveu me mostrar esse lugar? — A esta altura, a distância entre nós já é bem curta. Faço uma brincadeira, para desviar a tensão. — Não me diga que é aqui que você traz todas as suas conquistas!
— Não. — Ele responde, fingindo ter se ofendido com o meu comentário, e então continua, com um sorriso pretensioso no rosto. — Por acaso você acha que faz parte das minhas conquistas?
— Não! — É a minha vez de fingir ofensa. Ele ri, mas se aproxima um pouco mais.
— Se quer saber...você é a primeira garota que eu trago aqui em cima.
Caleb está tão perto de mim, no momento, que o meu coração começa a disparar super rápido. O seu cheiro, mais uma vez, me deixa inebriada; e me faz pensar se o seu beijo também exala um leve toque de hortelã. Ele coloca uma mecha do meu cabelo atrás da orelha, e me encara com os seus olhos verdes e intensos. Fico na ponta do pé, afim de diminuir ainda mais a distância entre nós, e assim que ficamos a centímetros de distância...o barulho alarmante do sinal batendo me faz voltar a realidade.
"Droga", ele sussurra baixinho e nós nos afastamos.
— Ai, meu deus! Temos que voltar, minha aula já começou. E a sua também. Não acredito que eu vou me atrasar logo no primeiro dia de aula!!
Felizmente, ele acha graça do meu pequeno surto por estar atrasada. Nós descemos novamente para os andares regulares e ele me instrui o caminho até a sala em que eu deveria estar. Se despede de mim com um breve "até mais" e então desaparece por entre os corredores.
Sigo as instruções que recebi e – ainda bem – encontro a sala com certa facilidade. O professor não parece nada satisfeito com o meu atraso, mas assim que digo que sou uma intercambista do Brasil, ele parece compreender a situação. Uma pena que, para minha infelicidade, ele faz com que eu me apresente na frente de todos os estudantes e fale um pouquinho de português também. Depois disso, as próximas aulas, até o intervalo, correm muito bem e sem nenhum contratempo, para a minha sorte.
Quando o sinal bate mais uma vez, indicando que já é hora do intervalo, encontro Penny me esperando na porta da sala e sorrio. Nós caminhamos juntas até o refeitório e ao chegar lá, nos sentamos com o seu grupo de amigos. Observo que em uma das mesas mais próximas, algumas pessoas – das quais não conheço – dividem o espaço com Fred, Caleb e a loira bronzeada da festa.
— Penny, quem é aquela garota ali?
— Ah, é a Alison. Ela é líder das animadoras de torcida. — Ela diz, e eu consigo perceber a contorção em seu rosto enquanto fala.
Apesar de sua expressão me intrigar, decido não perguntar mais nada sobre a menina no momento. Nós terminamos de comer tranquilamente e saímos a caminho da nossa próxima aula, que teremos juntas dessa vez. Quando estamos quase alcançando a saída do refeitório, Noah – o garoto que conheci na festa de sábado – me para.
— Aí está você! Te procurei por toda a parte.
— Como assim? — Pergunto confusa e ele ri ao se dar conta do quão estranha a frase saiu.
— Bom, é que eu fiquei encarregado de te guiar pelo colégio. Mas quando cheguei na secretaria, você não estava mais lá. Pensei que pudesse ter se perdido.
A minha expressão de surpresa é bem nítida. Então quer dizer que Caleb não era o guia do qual a moça da secretaria me informara. Por que será que ele se despôs a me mostrar aquele lugar, então?
Fiquei divagando entre os meus pensamentos por alguns instantes, até que Noah tornou a falar comigo, me tirando dos meus devaneios. Conversamos um pouco sobre as minhas aulas e o meu dia até agora, e ele acompanhou Penny e eu até a nossa sala, para depois ir para a dele.
— Ai, meu deus. Noah Cooper está totalmente na sua! — Penny estremece assim que nos sentamos no fundo da sala.
— O quê? Você deve estar doida. — Dou risada de sua teoria maluca, e ela me olha com bastante ceticismo.
— Você sabe que eu estou certa, só não quer admitir.
E então se vira pra frente, exibindo um sorriso triunfante. Eu continuo rindo baixinho de sua insinuação, mas acabo pensando na possibilidade de sua teoria ser real. Noah é um garoto muito bonito, e reparei que por cima de sua jaqueta bomber, ele utilizava uma faixa no braço – o que quer dizer que ele é o capitão do time de futebol. Fico imaginando o quão clichê seria me envolver com ele, já que é exatamente o que acontece em todos os filmes do gênero. Porém, de uma hora para outra, os meus pensamentos me traem e, mais uma vez, eu me encontro pensando no acontecimento de hoje cedo.
Por que será que Caleb me levou até o seu lugar secreto? Ele me disse que nunca foi com outra pessoa até lá. Então, o que isso significa exatamente? Não gosto de admitir para mim mesma, mas a verdade é que esse garoto – todo tatuado e atraente –, que conheço há apenas alguns dias, não sai mais da minha cabeça.
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