Um cara engraçado me apresentou o Lobo. Tinha um nome esquisito, não vale a pena mencionar agora. Era uma daquelas pessoas simpáticas que parecem mergulhar nos seus problemas e mover montanhas para lhe ajudar, mas nem mesmo elas acreditam que podem fazer isso. Muito pior: elas não querem realmente fazer isso.
Não parecia ter medo da minha cicatriz, ou da escuridão esquisita que havia detrás de meus olhos. Em vez disso, aproximou-se e ofereceu ajuda. Um novo brinquedo que andara passando pelas mãos pecaminosas dos jovens suburbanos. Chamavam-no de Lobo. Era um minúsculo comprimido azul ciano, e o cara me deu um pacote com três deles por um preço razoável. Nunca entendi sua generosidade, mas suponho que, na adolescência, existam sempre amigos para tratar de perversão.
O Lobo não se comparava a qualquer cerveja barata ou vodka de teor alcoólico exorbitante. Havia poder trincado naqueles comprimidos, um poder que penetrava meus ossos e fazia-me enxergar o mundo em cores neon vívidas, brilhantes e esperançosas. As ruas cinzentas moviam-se sob meus pés como se atendessem aos meus comandos, os edifícios curvavam-se à minha presença. Toda a atmosfera transformava-se em pura droga, esperando para ser aspirada e preencher meu corpo de adrenalina e dopamina. Era o paraíso para o monstro em minha alma, o estado de glória que a aberração podia alcançar, sem me machucar no processo.
Mas não duraria para sempre.
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