O suicídio pareceu a alternativa mais certeira, aos meus dezesseis anos. Magnífica a maneira como exterminar a própria existência surgiu para mim como uma forma infalível de extinguir o horror que se abrigava em meu interior, ainda que eu não soubesse se era o que, de fato, ocorreria.

De algum jeito quase sobrenatural, o suicídio me encantou com suas promessas de fuga espontânea e alívio imediato. Havia uma longa lista de possibilidades, e matar a mim mesmo figurava entre a última; mas brilhava tanto, por que diabos a maldita brilhava tão mais fortemente do que as outras, eu jamais vou descobrir. Fazia-me ter a imensa vontade de experimentá-la antes de tentar qualquer outra, e o perigo daquela atração me apavorou.

A dor já consumia meu espírito quando subi a um dos mais altos andares do primeiro gigante de concreto que avistei a caminho da escola. Posicionei-me nas bordas da janela, e encarei os minúsculos carros traçarem seus percursos e os pedestres caminharem, preocupados com seus próprios demônios internos que ainda não os comiam vivos.

Um dos meus sapatos tocou a parede áspera do prédio. Mais um, bastava mais um e eu estaria livre. Pude sentir a coisa confusa em meu interior, emaranhando-se entre as poucas sobras de comida que ainda restara. Sussurrou alguma coisa que não ouvi direito. Um pedido de socorro, pensei. Talvez um suspiro de conformação.

Mas ele dissera outra coisa.

Ela ficará sozinha.

Parei antes de mover a outra perna para fora da janela.

Ficará sozinha, pois terá perdido os dois filhos. Não vai aguentar.

Foi o suficiente para eu desistir da ideia.