A criatura dentro de mim sorriu quando percebeu que ainda podia se alimentar. Não das sensações, não dos meus júbilos. De mim.

Podia senti-la absorvendo meus órgãos, nutrindo-se da minha carne e tornando-me um hospedeiro ideal para sua sobrevivência nefasta. Uma sensação de pânico e temor apoderou-se de mim, um desgosto profundo e violento invadiu minha alma, condenada a possuir consciência de que estava sendo devorada aos poucos.

E no auge de sua fúria, a coisa ria enquanto comia, ignorante de que matava o próprio abrigo que a alimentava.

Entre todas as convicções que adquiri, a mais pertinente é a de que não há como descrever esse sentimento de ser desfeito enquanto vivo, não importa o quanto se tente: o terror é impiedoso.

O passar do tempo fez-me sentir o mais vazio ser humano ainda vivo. Antes sem a companhia de uma alma vizinha, naquele momento nem mesmo a minha sobrevivia para aquecer a crisálida de gelo que crescia em meu interior, rasgando cada parte da minha essência, e mantendo a criatura faminta viva.