A marca em meu rosto era apenas uma das minhas deformidades. Emanava perversão e afastava qualquer chance de contato amistoso.

A maior das deformações era a coisa, crescente com o passar dos dias e estimulada pela fome. Meus dias na escola, aos quinze, foram o ápice das consequências de minhas problemáticas, e ninguém ousava aproximar-se da criatura moribunda com a cicatriz bizarra no meio do rosto. Era o início de uma solidão já decretada, que só esperava o momento certo para se manifestar.

Sem companhia minha alma esfriou, meus sentidos adormeceram, e eu perdi aquelas sensações que há tanto tempo haviam sido o alimento do ente vivo em meu interior. Você já sabe disso, é claro, mas é sempre curioso refletir sobre o quanto somos animais dependentes de presença, qualquer uma, um acompanhante que nos permita validarmos a nós mesmos como seres especiais, dignos de estarmos vivos. Sem companhia, que certeza nós temos dessa maravilhosa particularidade que é ser um ser humano?

Imagine só, viver com um animal faminto dentro de si, desesperado para empanturrar-se do fulgor do ânimo de existir, mas recebendo em troca nada além da vazia e gélida solitude.

Aquele animal não estava preparado para morrer. E não iria tão cedo.