Aos catorze anos, eu enxerguei a coisa pela primeira vez.

Ela se fortalecia durante o meu sono, revigorava-se com o ódio pelo meu repouso e pelo desejo por novas sensações para saciar sua fome. Eu a via durante meus sonhos, mas sempre disforme, uma figura desproporcional e oculta sob as sombras de minhas incredulidades e receios.

Enxerguei-a claramente durante uma briga exaltada com o meu irmão mais velho.

Chegara mais uma vez bêbado em casa, durante a madrugada, vomitando no chão e esgoelando palavras sem sentido. Quando conseguia construir uma frase, gritava um insulto para a nossa mãe, e a xingava com o ódio tempestuoso que eu via ser encoberto cuidadosamente quando ele estava sóbrio. Era sempre a bebida que libertava o monstro.

Ele culpava a mãe pelo divórcio, como se ela devesse gostar de apanhar do pai para que ele pudesse viver a sua fantasia insana de família perfeita. Não éramos uma família perfeita, e nossa mãe não deveria sofrer por isso, então me pus em seu caminho assim que ele investiu contra ela. O golpe veio certeiro e veloz, carregado de raiva reprimida e imprevisto pelo menino de catorze anos que ainda esperava achar algum vestígio de humanidade restauradora entre o coração amargo e escuro do irmão.

Ele usou a garrafa para me acertar, e a última coisa que escutei antes de chegar ao chão foi o grito angustiado da minha mãe. Enquanto agonizava sobre o piso, e sentia cada ínfima gota de sangue escapar do corte brutal desferido em meu rosto, eu vi a coisa em total estado de esplendor, delineada perfeitamente sobre a escuridão da minha mente e permitindo-se ser vista pela primeira vez em catorze anos.

Era a imagem mais terrível que meus olhos já haviam encontrado, e eu berrei tão fortemente que, alguns torturantes minutos depois, podia ver as portas de vidro do hospital abrirem-se depressa para me deixar entrar. Minha mãe atribuíra o grito à dor causada pelo ferimento, mas meu íntimo guardava a verdadeira razão da aflição.

Semanas passaram-se após o ocorrido, e meu irmão partiu para viver com uma de nossas muitas tias, afastado. Eu não suspeitava que houvesse qualquer culpa restante em seu âmago degenerado, mas saber que o sujeito estava longe me confortou de uma maneira inusitada. Ele partira, mas a marca saliente e aterradora que deixara ainda estava ali.

E o que quer que estivesse dentro de mim havia a usado para ficar mais feroz.