The Story Never Ends.
26 Tell Me It's Over.
Notas iniciais
Angeles Saramego.
Revirei na cama inquieta demais, pela milésima vez fitei monotonamente o despertador em cima do criado mudo marcando quase meia noite, droga! Por que isso acontecia comigo? Por que eu não conseguia dormir? Cada parte do meu corpo clamava por um pouco de descanso que fosse, eu necessitava até mesmo para a saúde do bebê, inspirei fundo revirando de novo e de novo. Revivendo a cada instante German nitidamente em minhas lembranças, o pai do filho que eu estava carregando em meu ventre. Fazia desesperadas tentativas para esquecê-lo a qualquer custo, esquecer que algum dia já existiu um “nós”, entretanto, por ironia do destino, parecia cada vez mais impregnado em mim. Em cada poro meu. Estava mais que decidida a esquecer German, virei novamente na cama com um pouco de brutalidade até, sentia-me fadigada mental e fisicamente.
Cada pensamento nele que eu tinha, me levava a ter mais certeza da decisão que tomei, o melhor para todos nesse momento era que fosse embora para França, não poderíamos mais viver nessa incerteza constante.
Nem sequer Violetta poderia viver assim, entre dois adultos que viviam em contínuo conflito. E mais uma vez eu me sentia uma péssima tia por envolvê-la em toda essa confusão desgastante entre mim e German. Antes que pudesse seguir meus pensamentos atordoados, escutei o som da campainha forte me fazendo sobressaltar por um susto. Movi minha cabeça em negação pensando ter escutado coisas, em definitivo necessitava de uma boa noite de sono para me recuperar. Mais uma vez a campainha toca, me sentei na cama assustada perguntando-me quem poderia ser a essa hora da madrugada.
Rolei os olhos aborrecida, travava uma luta interna comigo mesma entre ir ou não ver quem veio aqui a essa hora, infelizmente a curiosidade que habitava em mim foi mais forte que minha razão e não demorou para que eu me visse na situação de levantar da cama quentinha e vestir um longo hobby preto de seda o fechando em torno da minha cintura com um laço frouxo e desarrumado. Saí do quarto lépida e desci as escadas apressadamente quase que tropeçando em meus próprios pés.
— Já vai!
Avisei com um médio grito irritado ao ouvir o trinar insistente da minha campainha, sem me preocupar com minha aparência, destranquei a porta abrindo-a. Não pude evitar a surpresa ao ver German parado ali na minha porta, meus olhos correram por cada milímetro seu o analisando, estava lindíssimo como sempre. A poucos centímetros de mim pude sentir seu perfume inconfundível, embriagando-me. Adorava seu cheiro, poderia reconhecê-lo apenas por seu perfume.
Espantei esses pensamentos bobos, evitando pensar essas baboseiras, acima de tudo German me magoou de mais. Não poderia me deixar levar só porque estava aqui à minha frente, meia noite. Notei seu olhar comedido em meu rosto parecendo analisar-me minuciosamente também, me sentia desconfortável com o silêncio ensurdecedor instalado entre nós. Como eu gostaria de saber o que passava em sua cabeça nesse momento, um nervoso bombardeou todo meu corpo deixando-me abalada por sua presença, entreabri os lábios sugando o ar lentamente como se eu tivesse desaprendido a fazer algo tão simples e involuntário. Por Deus, eu estava sonhando ou German realmente estava na minha frente?
— German o que está fazendo aqui? — Quebrei o maldito silêncio o encarando.
Ele baixou o olhar sobre minha indiferença, como se pensasse numa resposta cabível para me dar. Minha respiração descompassou e me senti perdendo o controle de mim mesma ao contemplá-lo.
— Precisava ver você, não sei... precisava saber se estava bem. – Respondeu finalmente partindo um silêncio entre nós.
Meu coração acelerou diante da afirmação.
Sua voz soou firme, entretanto notei um detalhe diferente. Estava bêbado, pude sentir o cheiro fresco e forte de tequila em seu hálito que batia contra meu rosto. Suspirei ante seus olhos castanhos, fitando-me como se empenhasse-se em ler meus pensamentos, definitivamente não sabia o que dizer.
— German...
Comecei tentando encontrar argumentos plausíveis. Um motivo que me fizesse acreditar em suas palavras, que mais me parecia o destino tentando me pregar uma peça com a mesma pessoa. German levou sua mão até meu rosto afagando suavemente a bochecha com a ponta de seu polegar, fechei brevemente os olhos aproveitando seu carinho delicioso, embora soubesse que não real. Nada daquilo era, parecia que eu sonhava com tudo.
Que tudo aquilo era o efeito da bebida agindo sobre ele.
— Eu já vou indo... foi um erro ter vindo te procurar.
Murmurou com a voz arrastada, enquanto que com a mão livre metia-a sem seu bolso da calça jeans que usava pegando a chave de seu carro mal estacionado à frente de minha casa. Mordi meu lábio inferior, não poderia deixá-lo ir assim, e se acontecesse algo? Repreendi minha mente maldosa com esse tipo de devaneio. Eu só não queria deixá-lo sair assim pelas ruas agitadas de Buenos Aires a essa hora, se algo ocorresse me culparia para sempre.
German virou-se pronto para sair, respirei fundo, sentindo-me responsável por ele e resolvi deixar de lado tudo que estava ocorrendo entre nós nesses últimos dias sendo duramente repreendida por meu consciente. Agora ele era apenas o pai da minha sobrinha e que necessitava ajuda. Segurei em seu forte braço rápida, obrigando-o a parar antes que saísse.
— Espera! – Pedi quase que em súplica. — Pode ficar aqui por essa noite, tenho medo de você sair assim.
Afirmei com sinceridade o observando, as palavras saíram mais leves do que imaginei. Sabia que poderia me arrepender disso amanhã, mas agora isso não importava muito. German necessitava de cuidados, principalmente para não preocupar a filha. E por último, eu o amava demais para permitir que saísse bêbado com um carro por as ruas movimentadas da cidade a esse horário.
— Tem certeza? – Sua voz grave inundou meus ouvidos retirando-me de meus devaneios.
O olhei mais uma vez, não dava mais para ter incertezas. Soltei a respiração que nem eu sabia que prendia, confirmando com a cabeça. Dei espaço para que entrasse na minha casa, sendo elevada aos mais extremos de meus sentimentos, céus, ia ser uma longa noite. Entrei em casa fechando a porta, e o seguindo copiosamente, German parou apoiando-se na bancada da cozinha com sua feição máscula contorcida numa careta.
— O que houve? – Me aproximei dele, preocupada.
Ouvi um suspiro vindo de sua parte.
— Minha cabeça está literalmente explodindo.
Resmungou num murmúrio baixo, massageando as têmporas. Cruzei meus braços o encarando firme, refletindo no que poderia ser bom para alguém que bebeu além da conta. Talvez um banho gelado? Sim, talvez funcionasse para aliviar a dor, sempre vejo essas técnicas em filmes. Tinha que funcionar agora.
— Imagino que sim, mas a dor que você está sentindo agora talvez nem se compare com a ressaca de amanhã.
Comecei em baixo tom. German respirou fundo praguejando coisas que eu não conseguia entender.
— Acho que um banho gelado pode ajudar a aliviar sua dor, e pode tirar um pouco da sua embriaguez. Que tal? – Questionei séria.
German assentiu com um bico como se fosse uma criança pequena, quase quis sorrir, até levar outra dura repreensão da minha deusa interior por estar me deixando levar por todas as sensações que ele causava em mim.
— Vem. Vou te levar até o quarto de hóspedes.
O chamei quase que pausadamente. Não sabia exatamente se está em quarto com German nesse momento era o mais seguro. Deixei que fosse na minha frente por já saber onde era, ia meio que cambaleando, porém tentava manter seus passos firmes. Ao entrarmos no quarto, logo tratei de pegar uma toalha limpa para ele no roupeiro esforçando-me ao máximo para controlar meus pensamentos desordenados.
— Merda de botões! – Reclamou zangado.
Virei-me surpresa o observando por meros segundos lutando para abrir os botões da camisa social de linho que usava, dando-lhe um charme a mais. Coloquei a toalha em cima da cama, voltando minha atenção para ele. Aproximei-me novamente sentindo o calor de seu corpo envolver-me lentamente, respirei fundo empenhando-me em acalmar meu coração. Sua respiração batia contra meu rosto me mostrando o quanto estávamos próximos... até demais, pude sentir seu hálito de tequila embriagando-me.
Dei um passo para trás ruborizando forte, e por conta da baixa luz felizmente não foi possível que ele percebesse esse detalhe.
— Quer ajuda?
Indaguei o fitando. German confirmou com a cabeça, sua expressão séria denunciava que algo e não tão bom ele pensava.
Levei minhas mãos um pouco trêmulas, pelo ato, até a barra de sua camisa, evitando para seu rosto, comecei a abrir cada botão de sua camisa. Engoli em seco ao sentir meus dedos entrarem num leve contato com sua pele quente que ia ficando exposta à medida que a camisa abria, revelando-me seu físico. Todo meu corpo se arrepiou com aquele contato tão mínimo.
Pude sentir minhas bochechas pegarem fogo pelo que fazia, procurava qualquer canto para olhar que não fosse German com seu olhar cheio de algo que eu não sabia decifrar, estava num momento vulnerável, e eu... bom, eu estava magoada com ele, embora houvesse prometido para mim mesma que não me lembraria disso enquanto estivesse cuidando-o.
Afastei-me dele limpando a garganta num pigarreio.
— Vou preparar o banho, com licença.
Avisei já me preparando para sair de sua vista e me esconder por alguns minutos que fosse no banheiro.
— Fica aqui... por favor. – Suplicou. — Quero que me ajude.
Sua voz enrolou-se um pouco. Balancei a cabeça em confirmação, virando-me novamente para ele que estava sem camisa. Céus, isso ia ser muito difícil. Era como se Deus tivesse tirado essa noite para me testar. German abriu bruscamente seu cinto, o retirando sem paciência, sem precisar que eu o ajudasse retirou a calça ficando apenas com uma boxer preta que evidenciava todos seus atributos, e eu os conhecia perfeitamente. Umedeci meus lábios me refreando.
Mordi meu lábio novamente, tentada com o que via mesmo que ver não fosse minha intenção. Era demais para mim. Senti uma queimação abaixo do meu ventre, conhecia essa sensação que senti muitas vezes com ele. Entretanto preferi ignorá-la. Toda minha mente alertava-me que eu só iria cuidá-lo. Apenas. Droga, mil vezes droga. Como German mexia com todo meu psicológico assim? Como? O levei até o banheiro cuidadosamente, acendi a luz e me dirigi até o box pondo a temperatura do chuveiro no modo desligado para que a água saísse gelada e amenizasse o álcool em seu organismo.
Liguei o chuveiro no máximo, pondo German debaixo dele com um pouco de custo devido ser muito maior e mais forte que eu, todo seu corpo cálido arqueou-se ao entrar em contato com a água gelada. Ele segurava em meus braços apoiando-se em mim para não cair contra o box liso, enquanto eu me dedicava a escapar dos respingos de água que vinham duramente em minha direção. German me fitou, tinha o mesmo olhar carinhoso de quando ainda éramos noivos. Meu corpo vibrou ao analisá-lo. Eu o queria, isso era incontestável. Não poderia mentir para mim novamente, cada célula minha ainda gritava por ele, e vê-lo assim em baixo do chuveiro não ajudava em nada. Notei sua pupila castanha dilatada fitando-me com desejo. Merda! Corei com meus próprios pensamentos proibidos.
Inesperadamente, German puxa meus braços de forma que eu entrasse na água junto com ele, arregalei os olhos ao sentir meu corpo arrepiar entrando em contato com o seu todo molhado, sentia muitas coisas ao mesmo tempo. Ofeguei presa entre seus braços fortes, ele habilidosamente girou meu corpo de forma que eu ficasse presa entre seu corpo e a parede gélida, a água gelada caia entre nós mas isso parecia não ser nada perto da temperatura de nossos corpos unidos.
Puxei ar na tentativa de controlar as emoções que me invadiam, seus olhos castanhos me encaravam firme hipnotizando-me. Confesso que fiquei perdida naquele mar de chocolate que me conduzia para longe da realidade, ia ficar com raiva por isso, queria muito sentir raiva de German por literalmente ter me puxado para um banho frio, entretanto não consegui ao vê-lo com um mínimo e charmoso sorriso de lado.
— German... o que está fazendo? –Perguntei num sussurro espantado ainda presa em seus braços fortes, ávida por suas respostas.
A intensidade de seu olhar deixava minhas pernas bamboleadas, umedeci os lábios talvez pela milésima vez essa noite, eu sabia que se quisesse sair já teria me soltado, mesmo que para alguém que bebeu muito, German tinha bastante força.
— Eu te amo Angeles, não consigo te esquecer. – Afirmou sério.
Arregalei os olhos surpreendida com sua resposta, meu coração batia tão aceleradamente que parecia que iria sair do peito a qualquer momento, German sorriu levando as mãos para meu rosto afagando lentamente minhas bochechas. Sua mão esquerda foi rápida ao retirar alguns fios teimosos e molhados que caiam e grudavam em meu rosto. Não pude conter um sorriso leve que saiu involuntariamente, o acompanhando.
— Não posso perder você de novo... não vou correr esse risco.
Murmurou contra mim, embora estivesse sobre o efeito do álcool suas palavras saíram sinceras, eu as conhecia. Sabia bem quando eram verdadeiras, e nesse momento ele foi. Suspirei, entendia o quão errado era estarmos juntos novamente depois do que houve, porém eu precisava dele, nem que fosse por essa noite sequer, nem que me arrependesse amanhã. Nada mais importava, a não ser o agora.
German concluiu minha linha de pensamento terminando com a mínima distância que nos separava beijando-me faminto, movendo sua boca bruscamente contra a minha de forma lenta e tomando tudo o que podia, saudade, paixão e desejo nos envolviam numa aura quente.
Retribuí à altura tudo o que ele queria, perdidamente apaixonada por ele, senti sua língua massagear a minha numa tortura deliciosamente demorada, prolongando a sensação do nosso prazer. Gemi baixo entre seus lábios sentindo seu corpo contra o meu, queria aproveitar cada segundo do pecado que era beijar German. Minha mão emaranhou-se em seu cabelo, brincando com os fios por entre meus dedos e os bagunçando ao meu gosto. German separou-se de mim devido à falta de ar, seus lábios ávidos trilharam um caminho desde a ponta do meu queixo até meu pescoço distribuindo mordiscadas por toda aquela extensão esbranquiçada. Fechei os olhos erguendo meu pescoço dando permissão para fazer o que quisesse ali.
Sua mão segurava meu rosto firme, massageando sensualmente meus lábios com seu polegar, instigando-me. Apenas suspiros de puro prazer vindos de mim eram ouvidos misturando-se com o barulho do chuveiro, e a água caindo contra nossos corpos. Sua mão livre foi ágil ao ir de encontro com o laço do meu hobby o desfazendo, cravei minhas unhas em seus músculos apertando seus braços. Céus como eu queria que German fosse meu, mas não dessa maneira, onde na manhã seguinte ele não ia lembrar de nada e tampouco se enojaria por termos nos separado.
Com a realidade caindo como um balde de água fria sobre mim, me afastei de German perante seus olhares de protesto, não poderíamos seguir com isso. Ainda não queria que ele soubesse que estava grávida e muito menos que algo prejudicasse a saúde do bebê, não sabia do que poderia se lembrar amanhã.
— Desculpa mas... não podemos fazer isso. – Informei evitando o olhar, se o fizesse iria ficar da cor de um pimentão.
Céus, teríamos transado mesmo se caso eu não tivesse o parado? A resposta veio alta clara quando notei a falta que meu corpo sentia do toque de German, de seus beijos, de tudo que o envolvia. Desliguei o chuveiro, entregando a toalha felpuda para ele e saí do box apressadamente. Minha mente insistia em me questionar como ia olhá-lo agora, porque depois de tudo o que houve eu era uma fraca. Completamente sem autocontrole.
Fui até meu quarto em passos largos, fitei-me no espelho de corpo todo observando meu estado, em como me deixei levar por German e suas palavras mais uma vez. Tratei imediatamente trocar de roupa para não ficar gripada, pus uma calça de moletom velha e uma blusa de frio larga para disfarçar minha barriga, e pus também meias quentinhas nos pés para me esquentar ao máximo. Também peguei para German um conjunto de pijama que havia deixado aqui em casa antes de tudo ocorrer.
Levei a roupa dele até meu nariz, aspirando seu cheiro, o cheiro que eu tanto amava. Ele era claramente meu veneno, tão viciante como um narcótico, quanto mais me fazia mal, mas eu o queria. Tangi tais pensamentos estúpidos, e saí do meu quarto indo em direção ao quarto de hóspedes vendo-o sentado na cama com uma expressão cansada.
O entreguei seu conjunto de pijama que ele pegou em silêncio das minhas mãos vestindo-se, evitei a todo custo olhá-lo para não cair em tentação, saí novamente do quarto direcionando-me a cozinha a fim de um chá de camomila para me relaxar, a cada vez que pensava no que aconteceu no banheiro meu corpo todo mortificava dividindo-se em felicidade e algo parecido a desaprovação por ter retribuído seu beijo quando havia prometido a mim mesma que iria esquecê-lo.
Ao colocar o chá na xícara, uma dúvida martelou insistente em minha cabeça. Será que Violetta sabe o que está acontecendo?
Torci a boca numa careta ao imaginar que provavelmente não, e talvez seja melhor assim, minha sobrinha não merece se envolver em mais um problema de adultos, tudo que eu queria era que curtisse essa nova fase da sua vida. Bebi um gole do chá fumegante, esquentando-me por dentro nessa madrugada fria e resolvi ir para meu quarto tentar descansar um pouco que fosse, já que dormir, mais uma vez seria um feito impossível.
Ao passar no corredor para ir até meu quarto, vi a luz do quarto de German acesa, por educação resolvi passar lá para desejar-lhe boa noite. Me aproximei vendo-o sentado na cama mexendo em seu celular enquanto murmurava insatisfeito com algo que não pude entender.
— Já vou indo German, se precisar de mim estou no quarto ao lado.
Informei forçando um mínimo sorriso, German voltou sua atenção para mim e sobressaltou da cama desequilibrando-se por milésimos de segundos.
— Espera Angie, fica aqui comigo... preciso de você.
Engoli em seco diante da sua afirmação. Minha mente processou por um segundo seu pedido, não ia fazer tão mal assim passar mais um tempo em sua companhia e aproveitá-la, já que amanhã provavelmente tudo voltará ao seu devido lugar.
Entrei no quarto bebericando meu chá, dei a volta na cama sentando-me ao seu lado e deixando que minha xícara ainda quente repousasse sobre o criado-mudo. O observo sem expressões e German me observa de volta com um sorriso de canto que me faz derreter por dentro. Liguei a televisão pondo num filme qualquer para distrair-nos.
— Está melhor?
Desfiz o silêncio, chamando sua atenção.
— Estou sim, você está cuidando muito bem de mim.
Ruborizei ficando mais uma vez naquela noite sem palavras. No decorrer do filme, German põe sua cabeça no travesseiro que repousava em meu colo, levantei minhas mãos espantada com sua atitude, nervosa mordi meu lábio sem saber onde exatamente colocava minhas mãos, no fim acabei pondo uma em cima de seu ombro e com a mão livre fiz carinho em seus cabelos negros sedosos agora quase secos.
German virou-se para mim envolvendo um de seus braços na minha cintura num abraço desengonçando, me fitando.
— Você não faz ideia do quanto senti sua falta.
Dito isso, depositou um beijo em minha barriga deixando-me sem reação. Fiquei estática na cama, travada com aquele gesto tão simples e de grande significado, me afligi ao indagar-me se ele sabia que estava grávida, respirei fundo acalmando-me, era uma coisa que só poderia saber amanhã. Não iria me preocupar por hora com uma hipótese infundada.
Yo sé que deberia odiarte
Y no se odiarte
Me dueles más y más te necesito
Esto está escrito
Tus mentiras me hacen mucho mal
Pero siento tanto que te quiero igual
Yo sé que deberia odiarte
Y no se odiarte...
Está ali com ele me fazia sentir ainda mais culpada, por mais uma vez preferir ignorar minha razão e dar um espaço para escutar meu coração que se sentia completo ao seu lado, mesmo tendo consciência de que poderia magoar-se novamente, senti que todo meu corpo se aqueceu com somente a possibilidade de tudo se resolver entre a gente. Fitei German que já dormia tranquilamente ainda abraçado a mim, tinha que ir para meu quarto tentar dormir também pelo menos um pouco que fosse. Levantei-me com cuidado para não o acordar evitando fazer qualquer mínimo barulho, embora tivesse certeza que a essa altura do campeonato não acordaria mais até amanhã.
Caminhei lenta para meu quarto, extremamente cansada, deitei na cama fixando os olhos no despertador que marcava duas e quinze da manhã, encolhi-me na cama afagando vagarosamente minha barriga, aos poucos fui deixando-me vencer pelo cansaço e não tardei a dormir.
(...)
Fitei meu reflexo produzido para um dia cheio, no espelho uma última vez antes de sair do quarto, por força maior resolvi passar no quarto onde German estava e para meu espanto continuava dormindo em um sono profundo todo espalhado pela cama de casal, talvez fosse melhor assim. Não tinha cabeça para conversar sobre o que houve ontem, e nem sei se queria tocar nesse assunto. Na verdade, torci mentalmente para que não lembrasse nem do beijo e nem de nada se assim fosse possível. Desci as escadas e fitei meu relógio de pulso, como ainda tinha um tempo livre antes de ir para a consulta, resolvi preparar um desjejum para German pois com certeza estaria de ressaca.
Optei por preparar apenas para ele, suco de laranja e torradas, procurei dentro da estante por uma caixinha média onde guardava todos os remédios e tirei de lá duas aspirinas para que amenizasse sua dor de cabeça. Aproveitei e peguei um pedaço de papel qualquer escrevendo-lhe um pequeno bilhete. Meu lado sensato questionou-me o motivo de estar tão dedicada em falar com ele de algum modo, revirei os olhos amaldiçoando minha consciência que sempre tinha razão em tudo.
“Preparei seu café, acredito que tenha acordado com um pouco de dor de cabeça então deixei aspirinas na bancada. Bom apetite.
Angie S.
Li e reli várias vezes torcendo o rosto numa careta ao ver o modo atencioso como tinha lhe escrito, irritada, deixei o papelzinho perto do suco e saí sem comer nada. Queria sair antes que acordasse, já que não sabia como iria olhá-lo depois de ontem mediantes as últimas e incômodas situações recentes. Com certeza seria estranhíssimo.
Fui andando calmamente até o consultório da doutora Elis, sentia o vento frio de Buenos Aires bater contra mim enquanto espairecia um pouco, fechei os olhos pensando no motivo de tudo ser tão complicado entre nós, certamente não estávamos destinados a ficar juntos como por tantas vezes acreditei. E pela enésima vez desde que me acusou, a proposta de ir para França pareceu ainda melhor e mais tentadora, me animei de poder reconstruir minha vida em outro lugar bem distante de Buenos Aires, distante de German e de tudo que me fazia mal. E principalmente de poder criar meu filho em paz, isso era o que eu mais queria no momento.
(...)
Dra. Elis passava um gel gélido na minha barriga com um delicado volume, movendo um aparelhinho por toda ela me fazendo acompanhar cada movimento seu com curiosidade.
— Angie eu preciso que se cuide bastante, não quero que faça esforços ou atividades que exijam demais. – Dra. Elis começou analisando-me minuciosamente.
— Tem que lembrar que agora não é só você, tem um bebê a caminho que precisa dos cuidados da mãe mesmo ainda na barriga. Sem contar que tem que se alimentar melhor, fazer atividades físicas leves...
Continuou. Sorri concordando.
— Estou me cuidando, doutora. Não tenho feito muitos esforços.
Me defendi. Dra. Elis estreitou seu olhar para mim.
— Não falo apenas de esforços físicos meu bem, falo de desgastes emocionais como estresse, nervosismo, preocupações... tudo isso precisa ser evitado agora para não prejudicar o bebê. – Explicou compassada.
Baixei meu olhar sentindo-me arrependida por não me cuidar como deveria.
— Angie eu sei que é complicado por ser tudo muito novo, mas você precisa pisar em ovos ainda mais agora que está indo para o terceiro mês. Está saindo do que chamamos de zona de risco, ou seja, se conseguir chegar no terceiro mês as chances de que perca o bebê diminuem consideravelmente.
— Se tiver um quadro grave de alguma desses sintomas que eu citei, poderá perde-lo e nós não queremos que isso aconteça, está bem?
Eu não queria perder essa criança, havia sido a única coisa boa que tinha ficado da minha relação com German. Era um pedacinho nosso.
— Eu prometo que vou me cuidar mais. – Murmurei forçando um sorriso.
Dra. Elis assentiu e continuou a fazer meu ultrassom, meus olhos vidram-se no monitor acompanhando tudo, embora parecesse mais um borrão ainda sim era possível ver que tinha um serzinho que crescia dentro de mim e sem dúvidas eu já o amava demais.
— Quer ouvir o coraçãozinho do bebê hoje?
Indagou com um sorriso de canto. Assenti emocionada.
— Não sabia que isso era possível agora...
Comentei com a voz embargada pelo sentimento de emoção. Dra. Elis fez sinal positivo com a cabeça.
— É sim. Normalmente é possível escutar a partir do vigésimo segundo dia de gestação, mas algumas mães só conseguem escutar depois. – Explicou sobre minha expressão confusa.
Sorri com sua afirmação. Ela mexeu em um aparelho ao meu lado, ficamos em silêncio enquanto ela movia o aparelhinho pela minha barriga, não demorou para que eu escutasse as batidas fortes de seu coraçãozinho. Respirei aliviada por saber que apesar de tudo, meu bebê estava bem e só isso importava.
Mordi o lábio inferior segurando algumas lágrimas de felicidade que queriam saltar dos meus olhos, era o melhor som que existia, a ficha finalmente havia caído de que realmente eu ia ser mãe. Era o melhor sentimento que poderia existir, o mais puro e mais bonito que crescia comigo a cada segundo. E tudo isso só servia para aumentar a vontade de pegá-lo no colo, sentir seu cheirinho, estar com ele o acompanhando em todas suas fases.
Por um momento, me senti chateada, ao pensar que nessa primeira consulta German não estava comigo para comemorar algo tão lindo como o crescimento do nosso filho, estaria sendo hipócrita se dissesse que não o queria aqui ao meu lado, para acompanhar-me nessa fase incrível. Me satisfiz ao imaginar sua reação, estaria babando tanto quanto eu pelo nosso bebê.
— Parabéns Angie, seu bebê está saudável e dentro do que esperamos para quem está no comecinho do terceiro mês.... mas isso não significa que deve relaxar, agora preciso que redobre seu cuidado.
Ela estreitou o olhar, me lançando uma piscadela cúmplice, sorri assentindo observando-a retirar o gel da minha barriga.
— Obrigada, de verdade. – Me levantei daquela espécie de maca, arrumando meu vestido. — Vou me cuidar mais, prometo.
— Eu sei que sim. – Divertiu-se.
— Aqui estão algumas vitaminas que preciso que tome, são essenciais para o bebê. – Entregou-me uma receita, assenti atenta. — E isso é o cartão de uma amiga obstetra que mora na França, diga a ela que eu te indiquei.
Tirou de seu jaleco rosa um cartãozinho todo decorado em prata, e o entregou para mim. “Dra. Kate Beaumont – Obstetra Materno Fetal”
— Ela vai adorar cuidar da sua gravidez.
Sorri de lado, ainda atenta.
— Obrigada por tudo, não sei nem como agradecê-la.
Ela segurou em minhas mãos, com um sorriso amigável.
— Se cuidando já é um bom começo.
Nós rimos. A abracei rapidamente, e me retirei da sala.
German Castillo.
Ao abrir os olhos os fechei de imediato incomodado com a forte luz do sol que invadia o quarto, minha cabeça pesava tanto ao ponto de parecer que iria explodir a qualquer momento, céus... que merda tinha acontecido comigo ontem? Quando meus olhos finalmente se acostumaram com a claridade pude observar onde estava, eu reconhecia muito bem aquele quarto. Por que raios estava na casa da Angie? Minha cabeça latejava só de tentar imaginar todas as possibilidades, e todas elas eram um erro enorme.
Fitei o despertador ao meu lado que indicava o quão tarde era, tratei de me levantar ignorando todos os sinais que meu corpo pedia para voltar até cama e caminhei até o banheiro pronto para me vestir. Precisava sair daqui o mais rápido possível. Após vestir a mesma roupa de ontem, resolvi passar no quarto de Angie mesmo sabendo que seria impossível ela ainda está dormindo a essa hora. Abri a porta de seu quarto fitando atento tudo impecavelmente arrumado e como previsto, nenhum sinal dela por aqui. Melhor assim, não saberia como a explicar o porque de tudo isso, a única coisa que sabia era de que teríamos que conversar.
Desci as escadas de dois em dois, checando o telefone, ligações perdidas da Vilu e do Ramallo. Merda, o que explicaria pra minha filha? Não poderia dizer que pensei em toda a situação desgastante com sua tia e que saí pra espairecer em um bar. Revirei os olhos, sendo convencido por minha consciência que seria melhor conversar com ela pessoalmente, instantaneamente, meus olhos bateram na mesa toda arrumada para o café. Caminhei até lá, percebendo a presença de um papelzinho ao lado do suco. Li algumas vezes tudo que estava escrito por ela em sua belíssima caligrafia, talvez tenha se sentido tão estranha quanto eu e por isso saiu antes. Um sorriso involuntário surgiu em meu rosto, só de pensar que ela ainda se importava, mesmo que minimamente.
Geral.
Angeles tinha um olhar perdido na sala dos professores, sentada numa cadeira com o queixo apoiado em suas mãos pequenas repensava sobre tudo que vinha acontecendo, havia chegado o momento que imaginou não acontecer tão cedo. Reviveu cada segundo desde que pôs seus pés no Studio pela primeira vez, até hoje, o dia em que apresentaria sua demissão a Antônio, a quem tinha como um pai. Suspirou segurando as lágrimas, nunca ia esquecer de nada que viveu aqui, foram momentos únicos e especiais que levaria em seu coração para onde fosse.
A partir daqui, sua vida mudaria radicalmente e analisando brevemente, não sabia se estava pronta para essas mudanças como achava estar. Requereriam uma grande mudança da sua parte.
Ouviu o som da porta se abrindo revelando Antônio que a fitava com um sorriso carinhoso, saiu do transe retribuindo tal gesto.
— Desculpe a demora, querida. – Explicou-se. — Tive que terminar uns relatórios da viagem dos meninos, mas já estou aqui. Sobre o que queria conversar?
Angeles engoliu em seco, observando profundamente o senhor a sua frente. Não pôde evitar a tensão que já tomava conta de cada pedaço seu. Brincou com seus dedos, sem saber como realmente começaria essa conversa.
— Antônio, eu...
Começou procurando as palavras certas para dizer o queria. O mais velho lançou-lhe um olhar incentivador.
— Quero apresentar minha demissão do Studio.
Antônio retirou os óculos surpreso, e Angie suspirou repreendendo-se pela sutileza.
— Me desculpe falar assim, eu realmente não queria que tudo acontecesse dessa forma. Aceitei a proposta de Henry, e me mudo próxima semana. – Tentou se justificar ao ver que o homem havia ficado sem reação.
— Eu só... não posso mais ficar em Buenos Aires, preciso de um tempo.
Angeles tinha um nó imenso em sua garganta, desviou o olhar lépida para o teto onde engoliu qualquer choro eventual que pudesse ocorrer, só não queria preocupá-lo. Antônio assentiu com a respiração lenta, mesmo sendo que ele quem tivesse a indicado para o trabalho, não esperava que fosse tão rápido.
— Algo me diz que trabalho não é o único motivo para você está indo agora, aconteceu mais alguma coisa querida?
Questionou a analisando, notava o quanto parecia estar sendo difícil para ela se afastar. Angie respirou fundo, cabisbaixa, ponderando o que responderia. Tinham acontecido tantas coisas, que decidiu que seria melhor não o preocupar mais.
— Não aconteceu nada... – Forçou um sorriso sem muitas emoções.
— Só tenho urgência em ir para começar e também gostaria de ficar mais perto da minha mãe, já que Vilu está tão crescida....
Riu nervosa com sua própria desculpa, no fundo tinha verdades ali. Antônio assentiu, mesmo sentindo que aquilo não era tudo que ela queria falar, resolveu deixá-la à vontade.
— Tudo bem, eu acredito em você... – Sorriu pondo os óculos. — Sabe que se precisar de alguma coisa, qualquer coisa mesmo, pode contar comigo está bem?
Angeles mordeu os lábios segurando o choro ao máximo, seus olhos antes tão intensos agora se encontravam tristes e mareados. Esforçava-se a todo custo para não chorar, não queria chorar mais.
— Sei sim... – Respondeu com a voz embargada.
— Obrigada por tudo Antônio!
Angie foi até o senhor, o abraçando forte, Antônio segurou as lágrimas a abraçando também. A conhecia desde pequena e viu sua evolução até se tornar essa mulher forte e independente que lutava por seus sonhos. E agora via ela indo embora. Detestava despedidas e essa mais ainda, era como se estivesse perdendo sua filha.
— Estou muito feliz por ver você lutando pelos seus sonhos, por ver que se tornou uma mulher incrível. – Afagou os cabelos sedosos de Angeles, que deixou uma lágrima solitária cair de seu olho. — Mas confesso que estou triste, além de perder a melhor professora do Studio, ainda vou perder minha filha de consideração.
Seu coração se aqueceu com as últimas palavras de Antônio.
— Não vai não, nunca vai me perder Antônio. Você é como um pai para mim, e eu só tenho a agradecer, por tudo...
(....)
German entra no Studio procurando atentamente a sala de Angeles, precisava conversar com ela, tinha repensado muitas coisas. Ao encontrar sua sala, seu corpo todo fica imóvel quando ele a vê pela vidraça, tinha uma expressão pensativa no rosto e tocava teclado, poderia ouvir a melodia triste que saía das notas que ela tocava habilidosamente pela porta que se encontrava aberta. Tomou uma grande respiração criando coragem, andou alguns passos entrando na sala.
Angie sente todo seu corpo mortificar ao ver German na sua sala, já não tinha sido o suficiente ontem? Sua mente deu um nó, certamente não teria mais nada para conversar com ele.
— O que faz aqui?
Indagou, embora não quisesse seu tom de voz saiu rude. Fechou os olhos por breves segundos, estes que a fizeram lembrar do beijo que trocaram ontem no chuveiro. German coçou a garganta, retraindo-se com a frieza de sua ex noiva. Examinando-o agora, sentiu-se estúpida por ter considerado qualquer possibilidade de relacionamento com ele novamente.
— Acho que precisamos conversar...
Afirmou inquieto. Angeles segurou seu lado sarcástico.
— Acho que não temos nada para conversar German, tudo já ficou bem claro. – Expressou-se rude.
Não era um momento que tinha muita paciência, ainda mais para German. Queria evitar qualquer contato com ele agora.
Ele lamentou silenciosamente.
— Tudo bem. Só queria agradecer pelo que aconteceu ontem e...
Antes que German continuasse, tratou de o interromper.
— Você é o pai da minha sobrinha, de qualquer forma é melhor esquecer tudo o que houve, as coisas entre nós já estão complicadas demais...
Cruzou os braços inquieta. Ele assentiu. Angie tinha razão, o melhor para todos seria esquecer.
— Tem razão, com licença.
German sai de sua sala enquanto ela o observa dura, respira fundo entendendo que tinha tomado a atitude certa dessa vez. Já se magoaram o bastante.
Angeles Saramego.
A visita de German por certo deixou-me abalada, fiquei estática mirando o lugar para onde antes ele se encontrava, minha consciência confortava-me explicando pela enésima vez que eu tinha tomado a decisão certa. Baixei minha cabeça entrando numa luta interna comigo mesma, e pela primeira vez no dia me permitir chorar copiosamente toda a dor que me assolava, por tudo o que acontecia entre mim e German, pelo quão difícil estava sendo tentar me manter forte o tempo todo.
Deixei que meus dedos brincassem pelas teclas do teclado soando uma melodia triste, que parecia refletir tudo o que sentia agora, em contrapartida, me vi irritada comigo mesma por me abater tão facilmente.
— Droga! Eu sou um desastre....
Bati minhas mãos com força desnecessária nas teclas, causando um som nada agradável. Limpei com rispidez algumas lagrimas teimosas que insistiam em cair.
— Falando sozinha tia?
Violetta questionou entrando na sala repentina. Sobressaltei assustada, forçando um sorriso.
— Oi meu amor, pensava e voz alta... – Respondi sem graça. Violetta analisou-me desconfiada. — E você o que faz aqui mocinha?
Mudei sua atenção, minha sobrinha se aproximou.
— Estava chorando? — Perguntou confusa.
Ela era muito esperta, óbvio que perceberia.
— Não, não. – Neguei.
— Quero que fique bem, Angie. — Minha sobrinha me envolveu num abraço, retribui aquele abraço acarinhando seu cabelo curto.
– Te amo.
— Eu também te amo. Muito. – Murmurei calma e nos afastamos.
— Infelizmente já tenho que ir, você vai ficar bem?
Questionou atenta as minhas expressões. Segurei em sua mão pequena, afagando-a.
— Vou sim. — Falei me despedindo de Vilu com um beijinho em sua bochecha corada.
Ela sorriu e saiu da minha sala.
Fiquei ali brincando com as teclas do meu teclado até ouvir uma música muito alta, olhei confusa ao redor procurando de onde vinha esse som. Eu conhecia aquela melodia.
Saí da minha sala e seguindo a música que ficava mais alta a cada passo que eu dava. Até que entrei no Zoom, vendo a turma de Violetta, incluindo minha sobrinha no palco ao som da melodia de Algo Se Enciende. Abri a boca em surpresa, com a emoção me consumindo lentamente.
— Si te sientes perdido em ningún lado, viajando tu mundo del pasado. Si dices mi nombre, yo te iré a buscar… — Violetta cantou sorrindo me olhando emocionada.
— Si crees que todo está olvidado, que tu cielo azul está nublado. Si dices mi nombre, te iré a encontrar.
Leon junto de mais alguns alunos meus continuaram a cantar, eu não consegui evitar de sorrir e cantar baixinho também já sentindo meus olhos lacrimejarem.
Enquanto os alunos cantavam e eu os observava orgulhosa/ emocionada, Violetta desceu e veio até mim me abraçando forte, retribui seu abraço percebendo que ela chorava em alguns versos da música. Não demorou muito para Antônio, Beto, Gregório e Pablo se juntarem a nós também cantando a letra da música, os alunos desceram do palco fazendo um círculo e me deixando no centro.
Todos batiam palma já quase no último verso da música, Antônio me deu um abraço orgulhoso, Gregório me abraçou rapidamente, assim como Beto que começou a chorar; eu ia sentir tanta falta daquilo. Pablo sorriu e veio me abraçar fortemente.
— Você é meu melhor amigo. Vou sentir muita falta sua. — Murmurei escondida em seu abraço, passando a mão em meu rosto banhado pelo choro.
Meu rosto a essa altura, se encontrava completamente vermelho e banhado por lágrimas.
— Eu também vou sentir muita falta de você para alegrar meus dias, cuida bem do meu afilhado. — Resmungou ainda me abraçando. Ele beijou minha bochecha e nos soltamos.
Vilu veio me abraçar novamente, assim como todos os alunos que eu tanta amava.
— Cuando estamos juntos, podemos soñar. Podemos sonãr. — Vilu cantarolou a última parte chorosa.
Sorri e me separei dos meus alunos, exceto de Violetta que continuava me abraçando pela cintura. Eu nunca fui boa com despedidas, talvez dessa vez eu nem quisesse me despedir.
Esse lugar, essas pessoas, esses alunos eram minha vida inteira.
— Eu falei para o pessoal que você ia embora, e nós preparamos isso. Foi de coração, tia. — Vilu disse manhosa com um sorriso emocionado. Beijei carinhosamente sua testa.
— Você é a melhor professora que tivemos...
Fran disse carinhosamente com um sorriso emocionado, igual a todos.
— Nós esperamos que você seja muito feliz lá na França! — Leon murmurou também sorrindo.
Todos concordaram com sorrisos.
— Gostamos muito de você, Angie. — Naty afirmou vindo me dar um abraço.
Olhei para todos, que pareciam tão emocionados quanto eu.
— Gente, muito obrigada por esse momento tão especial. Vocês são a turma mais talentosa com quem tive o prazer de trabalhar, e eu amo muito vocês... — Afirmei com a voz embargada.
Todos aplaudiram vindo me dar um forte abraço coletivo.
Eu achava que estava pronta para uma despedida, mas será que eu deveria mesmo ir para a França depois de tudo isso?
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