The Story Never Ends.
24 Tears And Rain.
Notas iniciais
Angeles Saramego.
Eu e German estávamos sentados debaixo de uma árvore sombreira, comíamos maçã caramelada com pipoca enquanto descansávamos e aproveitávamos a companhia um do outro longe da correria que a semana nos oferecia. Minha cabeça repousava sutilmente em seu ombro, ao mesmo tempo que desfrutava do afago que fazia em meu cabelo de forma lenta.
O vento fraco que batia contra a gente me trazia uma sensação de felicidade completa, sentia que nada poderia nos atingir.
— Gostando do passeio, Sra. Castillo?
German me indagou com um sorriso lindo, que logo foi retribuído por mim.
— Estou sim, aqui é maravilhoso. — Virei meu rosto ansiando olhá-lo.
Nossos sorrisos aumentaram, ele segurou meu rosto com a mão livre diminuindo a mínima distância que nos separava, movimentava meus lábios contra os seus num ritmo calmo e cheio de amor. Devido a falta de ar, terminamos o beijo com selinhos sôfregos, não queria separar nossas bocas. Segurei sua mão carinhosamente, entrelaçando nossos dedos.
Ouvimos um chorinho ao nosso lado, e nos separamos preocupados ao olhar o pequeno bebê na cadeirinha que dormia serenamente, ou quase. Com cuidado o peguei no meu colo, embalando-o.
— Shh, calma meu amor. Mamãe está aqui.
Resmunguei para o pequeno enrolado em uma manta azul, ao meu colo que fazia sons de manha. Beijei sua testinha tão alva quanto eu.
— Acho que ele quer o papai, não é filhão?
German brincou com a mãozinha dele, ri enternecida. Ele o pegou dos meus braços com cuidado pra não machucá-lo.
— Vem pro papai garotão. Isso mesmo. — German murmurou balançando com calma o bebê em seus braços. – Não precisa fazer essa cara, Gael, sua mãe tá do seu lado, filho.
Continuou conversando com nosso pequeno que mostrava entender atentamente tudo o que seu pai dizia, era muito esperto para quatro meses, meu coração se aqueceu ao vê-lo tão dedicado ao Gael, fiquei ainda mais enternecida com a cena, eu nem poderia descrever o quanto era grata por ter German, Gael e Violetta na minha vida. Eram meus tesouros mais preciosos.
— O que houve meu amor? Por que nos olha assim?
Suspirei tentando me livrar da emoção da nova vida que construímos desde nosso casamento.
— Porque amo vocês. — Segurei em seu braço. – Amo muito vocês.
— A gente também te ama, minha linda.
Murmurou beijando minha testa, senti uma lágrima descer pelo meu rosto copiosamente.
— Hey, não chora. Prometo que nunca vou te deixar, ok?
“Prometo que nunca vou te deixar.”
“Prometo que nunca vou te deixar.”
“Prometo que nunca vou te deixar…”
…...
Sobressaltei da cama extremamente assustada com o que havia sonhado, quase poderia ouvir nitidamente as palavras de German ecoando pela minha cabeça, meu coração apertava ainda mais me trazendo a sensação de ser esmagado lentamente. Havia ficado mais do que claro que cada dia que eu passava em Buenos Aires serviria apenas para me lembrar de German, e trazer mais dor além das constantes lembranças de um relacionamento que não deu certo e que coloquei todas as minhas expectativas.
Senti meu rosto todo molhado devido as lágrimas que insistiam em invadir meu rosto, passei a mão pelo meu rosto rispidamente limpando qualquer vestígio de choro, fitei o relógio no criado-mudo vendo que marcava exatas sete da matina. Me levantei contra minha vontade e segui até o banheiro realizando minha higiene matinal, após sair do banheiro enrolada na toalha vesti uma lingerie preta e me fitei no espelho de corpo todo, me analisava minuciosamente vendo que essa Angie à minha frente não parecia nada comigo.
Não tinha mais o brilho intenso no olhar, nem vontade de realizar qualquer atividade que fosse, pra mim era como se tivesse perdido a vontade de viver, minha vontade era de passar o dia deitada na cama. German havia acabado com todas minhas forças de querer estar viva.
Olhei para minha barriga que tinha uma leve saliência, com receio levei a mão até meu ventre afagando ali, eu ia ser mãe, a ficha ainda não tinha caído. Esse era o único motivo de ser forte agora, apenas pelo meu bebê que não tinha culpa nenhuma do que houve, ele precisava que eu estivesse bem. Suspirei, com lembranças de ontem apoderando-se de meus pensamentos, era uma ferida aberta que ainda sangrava.
Óbvio que quanto mais eu revivesse o dia de ontem, mais ela doeria e demoraria a cicatrizar. Tenho que esquecer German de uma vez por todas, ia conseguir esse feito nem que fosse a única coisa que eu fizesse.
Balancei a cabeça espantando esses pensamentos, uma ponta de frio percorreu meu corpo, precisava me vestir ou caso contrário acabaria atrasada. Optei por uma blusa de branca de listras pretas com mangas que iam até meu pulso, soltinha pra tentar disfarçar minha barriga, coloquei uma calça jeans justa, calcei coturnos pretos, e por fim, coloquei um sobretudo devido ao frio que fazia em Buenos Aires. Fiz uma maquiagem leve, e peguei minha bolsa preferida colocando tudo que precisaria por hoje.
Saí de casa em jejum, não sentia vontade de comer nada, peguei um táxi que me levaria até uma reunião com o advogado de German, queria resolver logo esse assunto que me deixava tão aflita.
(…)
Estávamos a meia hora na sala de reuniões, tentava escutar atentamente tudo que o advogado de German dizia entretanto minha mente dava voltas, fazíamos toda a transferência do maldito dinheiro de German que havia parado na minha conta bancária de volta pra sua. Analisava meu ex noivo me perguntando o que passava em sua mente nesse momento, se estava tão confuso quanto eu, mas talvez não. Depois de tudo que tinha me dito ontem e me acusado injustamente, com certeza deveria continuar achando que eu o roubei.
Ele não tinha me olhado uma vez sequer, desviava o olhar concentrado sempre para seu advogado ou para os papéis em cima da mesa. Parecíamos que nem nos conhecíamos, nem uma palavra trocada além do necessário, nem um olhar sequer. Eu não sabia quanto tempo mais poderia suportar ficar na mesma sala que German, sem sentir tudo isso. A dor que ele me causou, as lembranças de ontem, tudo.
— Então o Sr. German receberá toda sua fortuna avaliada em 76.3 milhões de euros, para suas respectivas contas dentro de 48 horas úteis, aceitando então, isentar minha cliente, Srta. Angeles de qualquer culpa diante do tribunal federal argentino?
Meu advogado Nathan repetiu confirmando tudo o que foi acordado entre ele e o Dr. Paul, mordi meu lábio inferior ainda intrigada em como esse dinheiro fora parar na minha conta. Alguém que tinha meus acessos conseguiu fazer isso por maldade, porque sabia que iria me separar de German.
A sala foi envolvida por um silêncio constrangedor, German e Dr. Paul se entreolharam como se decidissem, e por fim ele concordou se mostrando receoso com aquela decisão. Era inacreditável como German não me conhecia mesmo, será que ele ainda pensava em me fazer culpada por um crime que eu nunca cometeria?
— Meu cliente concorda. — O advogado de German me encara com frieza.
— Assinem aqui, por gentileza.
Pediu para os dois. Eles assinaram e Nathan voltou o mesmo papel para mim, apontando onde teria de assinar. Assim o fiz um tanto trêmula. Havia me tornado uma massa de sensações insuportáveis.
— Muito obrigado, foi um prazer entrar em acordo.
Ambos apertaram as mãos, sérios. Tudo que eu sabia era que precisava sair daquela sala o mais rápido possível.
— Com licença. — Murmurei com a voz entrecortada.
Pela primeira vez hoje, o olhar de German recaiu sobre mim com preocupação, não me importei e saí da sala com passos apressados. Precisava de um ar. Apoiei minha mão na parede me sentindo fraca, como se a qualquer momento fosse desmaiar. Respirei fundo, sentindo uma dor leve na minha barriga. Não pude evitar de me preocupar com o bebê, era como se fosse perdê-lo ali mesmo.
Continuei apoiada na parede, me repreendendo por ter pensado ontem em um aborto, talvez isso era a consequência do que tinha pensado num momento de desespero, mas não era o que eu queria realmente. Pus a mão sob meu ventre com medo de ter algo errado com meu bebê.
— Angie?
German me chamou com uma ponta de preocupação na voz, será que ele se importava de verdade ou estava aqui por educação?
— O que você quer? — Questionei áspera.
German se aproximou de mim lentamente, suspirou envergonhado.
— Vim ver se você está bem, podemos não estar juntos mas ainda me preocupo com você. — Deu uma pausa, ponderando. — É a tia da Vilu.
Respondeu sério.
Arregalei meus olhos, espantada com sua afirmação.
Não cogitava de maneira alguma em contar pra ele que estava grávida de um filho nosso, por mim German nunca saberia nada o que se diz a repeito do meu filho.
— Eu estou. Já pode ir. — Rebati.
— Não quer ir ao médico saber o que tem?
Seu olhar ainda me examinava com preocupação. Balancei a cabeça negando.
— Eu já sei o que tenho. — Afirmei retirando a mão da minha barriga, envolvendo o sobretudo no meu corpo, como se quisesse esconder o óbvio.
— Não acredito ainda que você acha que fui capaz de…
— Não quero ouvir suas explicações, já vi que está melhor então com licença. — Me interrompeu com rispidez, virando-se pra sair.
Fechei meus olhos atordoada pelo modo rude como me tratou, suas palavras entravam como uma faca em meu interior me perfurando.
— Me desculpa por ter te tratado assim. — Começou com remorso.
Ficamos ali em silêncio por uns instantes, não tinha mais nada a ser falado. Tudo foi dito ontem quando me acusou e rompemos o noivado, entretanto não posso negar o quanto estou sentindo sua falta comigo. Dos seus carinhos, seus beijos, nossas conversas, dos nossos corpos juntos enquanto ele me fazia sua de diversas maneiras, o modo como me amava intensamente.
— Eu voltei com a Esmeralda. — Bombardeou após um tempo.
Tinha como piorar? Nunca uma frase havia doído tanto, entreabri os lábios em busca de ar sentindo minhas pernas fraquejarem novamente, me sentia quebrada em mil pedacinhos.
— Não vai dizer nada?
Mordi o lábio inferior segurando o choro.
— O que quer que eu diga? Quer que jogue flores e perdizes para os dois? Que te dê os parabéns?
German baixou o olhar, pensativo. Inacreditável.
— Te devo os parabéns. — Comecei com uma ponta de sarcasmo. – Parabéns por ter seguido em frente, aliás mais rápido do que eu esperava.
Nossos olhares se encontraram, ambos carregados de tanta dor, que era quase palpável.
— Quero que saiba que não é o único a seguir em frente, estou indo embora do país German.
Pude perceber como tinha ficado surpreso com minha afirmação, o silêncio pairou entre nós novamente. Foram mais alguns segundos, que se assemelharam com horas.
Daria tudo pra saber o que pensava agora.
— A Violetta sabe? — Foi a única coisa que conseguiu perguntar.
O fitei incrédula. Pra ele não fazia nenhuma diferença pra onde eu iria? Eu era uma boba mesmo, German não merecia nenhuma explicação sequer.
— Ainda não.
Murmurei para que apenas ele me ouvisse. Evitei o olhar, sabia que se o fizesse iria cair em prantos na rua mesmo.
— Vamos?
Nathan se aproximou junto com Dr. Paul, me fitando. Balancei a cabeça em concordância o fitando, após dar uma última olhada em German o segui até seu carro.
— Onde quer ficar? — Nathan me tirou de meus devaneios.
Forcei um sorriso.
— No consultório de obstetrícia em Palermo, por favor.
Ele assentiu voltando a atenção para o volante.
— Foi impressão minha, ou já se passou algo entre você e Sr. Castillo? — Questionou com curiosidade.
Fiquei quieta por alguns segundos ponderando se respondia ou não.
— Nós íamos casar. — Me limitei observando a paisagem pela janela.
Notei que ficou surpreso.
— Iam? Não quero ser intrometido, mas vi o modo como te olhou. Ainda te ama.
Brinquei com meus dedos, pensativa. Mesmo que ainda me amasse, não poderíamos mais ficar juntos.
— Nathan, podemos mudar o assunto?
Tentei soar educada, na verdade estava sem paciência pra falar de German e qualquer coisa que o envolvesse agora. Até mesmo com Nath, meu amigo desde a faculdade e advogado há uns anos.
— Sabe que se precisar de qualquer coisa, ainda pode contar comigo, não é? — Me fitou rapidamente ainda concentrado na direção.
— Sei sim, obrigada Nathboy.
Brinquei com seu apelido de faculdade, ele rolou os olhos.
— Pode não me chamar mais assim? É muito vergonhoso.
Nós dois rimos.
— Nada é mais vergonhoso que Angelita.
Caímos na risada novamente, por um segundo vi o olhar de Nathan sobre mim analisando-me bem. Um rubor subiu nas bochechas que esquentaram, limpei a garganta o fazendo olhar pra frente saindo de seus pensamentos. Céus, foi impressão minha ou pairou um clima entre nós?
Espantei esses pensamentos, depois de German eu não queria mais ninguém. Só desejava me concentrar pra cuidar do bebê, era minha missão a partir de hoje.
(…)
Studio On Beat.
Era possível ouvir o barulho da chuva caindo ao lado de fora do Studio, por algum motivo aquilo me deixava mais relaxada, beberiquei meu café quente fitando onde há pouco tempo minha última turma do dia estava. Embora meus pensamentos estivessem vagando na minha própria dor. Doía cada centímetro de mim, ao reviver nossas memórias. Ao pensar que tinha um bebê a caminho que não ia ter o pai por perto, e que me afastaria forçadamente da minha sobrinha, porque ele quis que as coisas fluíssem assim.
Até respirar doía, o que me levava a imaginar que tomei a decisão certa em me mudar pra França. A partir do momento que eu fosse, German não teria mais nenhum tipo de notícia minha. Como se eu nunca tivesse existido em sua vida.
Limpei uma lágrima teimosa que insistia em cair, rolando pelo meu rosto, o que eu faria agora? Tentaria ao máximo contornar essa situação e ser forte, mesmo odiando German, não conseguia imaginar minha vida sem ele ao meu lado. Era muito custoso fazê-lo sem sentir meu coração partir até seu mínimo pedaço. Me detestava por sempre ser tão fraca quando se trata dele. A sensação que eu tinha era de ter levado um soco no estômago, e talvez se tivesse levado um ainda seria menos dolorido do que tudo o que acontecia.
Perdida, as palavras nítidas de German rodeavam minha mente num eco repetitivo. Me sentei na mesa, tonta, envolvendo meus braços em torno de mim em busca do meu próprio refúgio, fechei meus olhos por meros segundos tentando encontrar uma solução para não pensá-lo mais, para tentar fingir que nunca existiu na minha vida.
…..
— Não acredito ainda que você acha que fui capaz de…
— Não quero suas explicações, já vi que está melhor então com licença.
— Me desculpa por ter te tratado assim… Eu vou dar uma nova chance a Esmeralda.
— Não vai dizer nada?
— O que quer que eu diga? Que jogue flores e perdizes para os dois? Que te dê os parabéns?
— Te devo os parabéns… Parabéns por ter seguido em frente, aliás mais rápido do que eu esperava… Quero que saiba que não é o único a seguir em frente, eu estou indo embora do país German.
— A Violetta sabe?
— Ainda não.
…..
— Tia, tudo bem?
Violetta questionou apoiada na parede me observando, sobressaltei assustada. Respirei fundo tentando conter o choro que queria vir a qualquer momento, por que era tão difícil? Como se o destino interferisse na minha vida, entendi que esse era o momento certo de contar para Violetta sobre meus planos daqui pra frente.
Minha sobrinha já estava crescida, sabia tomar suas próprias decisões e logo não precisaria mais de mim. Ela ainda me fitava confusa, esperando a resposta.
— Vem cá, meu amor. — A chamei.
Vilu veio até mim, a envolvi num abraço carinhoso onde ela deitou a cabeça no meu ombro com um semblante murcho. Isso era o que eu menos queria, Violetta envolvida nos assuntos de adultos. Queria que ela ficasse bem, na verdade meu desejo era que as coisas não tivessem prosseguido dessa forma.
— Eu acredito em você tia, sei que você nunca faria aquilo. — Murmurou contra mim.
Afaguei seus cabelos curtos sedosos.
— Não quero que se preocupe com isso, minha princesa. — Beijei sua testa.
Ficamos as duas em silêncio, sabia que pra ela também era uma situação complicada. Eu era uma péssima tia por ter a envolvido nisso, Vilu não merecia sofrer com minhas decisões. Repensei tudo o que diria por uns segundos.
Precisava falar a verdade.
— Vilu, tenho que te dizer algo muito importante.
Afirmei baixo, ela levantou a cabeça ainda me analisando sem entender.
— Pode dizer tia, tem alguma coisa a ver com meu pai ou com o que aconteceu ontem?
Tomei ar, ponderando em como falaria que ia pra outro continente a léguas de distância, procurava as palavras certas pra que não se chateasse comigo, entretanto seria inevitável. Iria ser o melhor para todos.
— Não é nada com seu pai. — A analisei tentando transparecer a calma, e afaguei seu rosto minuciosamente perfeito.
— Eu recebi uma proposta muito boa para trabalhar fora de Buenos Aires.
— Eu fico feliz ao ver que conseguiu superar, mas por que me fala isso?
Fechei meus olhos com força, ela merecia saber a verdade.
— Porque é na França. — Afirmei receosa.
Vilu arregalou os olhos atônita, processando a informação.
— Eu sei que é longe, mas eu vou vir sempre te visitar e vamos nos falar por Skype todos os dias…
— Esquece. — Violetta me interrompeu ríspida. – Você é uma egoísta que só pensa em si mesma, está indo para o outro lado do mundo porque quer se livrar de um problema, mas nem sequer pensou em mim, a sobrinha que você diz amar tanto e que tem como uma filha.
Egoísta? Minha mente deu um nó, ela nunca iria me perdoar por isso.
— Vilu…
Tentei falar com a voz embargando.
— Chega Angie, você disse várias vezes que estaria comigo e mentiu. Não acredito em mais nada que possa sair da sua boca.
Mordi meu lábio inferior com os olhos mareados pelas suas palavras tão duras, era evidente que ia acabar assim.
— Me perdoa, por favor. — Pedi num fio de voz.
Violetta olhou-me uma última vez e saiu da sala rápida, fiquei ali inerte com tudo que havia escutado. As lágrimas se apoderam forte do meu rosto, olhei pra cima e respirei fundo procurando me acalmar, não faria bem pro bebê. Terminar com German estava sendo um processo muito dolorido, mas ouvir Violetta me chamar de egoísta doeu muito mais em dimensões que nem eu poderia descrever, entretanto não poderia privá-la de sofrer. Pedir pra que não sofra, isso sim seria egoísmo quando a dor está nas pessoas para ser sentida.
Engoli em seco, já hesitando se teria tomado realmente a decisão certa. Porém não poderia mudar de ideia agora. Como poderia ir para outro continente deixando Violetta triste comigo? Como poderia tentar ser feliz assim?
German Castillo.
Terminei enfim de me arrumar para uma reunião que teria com advogados e Angeles para a devolução do meu dinheiro, nunca pensei que meu relacionamento com ela fosse terminar dessa maneira. Nós desde ontem estávamos mais distantes que nunca, era impossível algo me fazer voltar atrás para reconsiderar, apesar de que os meses que passamos juntos foram os melhores da minha vida.
Meu olhar foi para o criado-mudo, onde minha aliança de noivado estava repousando sobre ele, e por um segundo eu senti raiva de mim. Como eu pude me enganar tanto? Eu nunca esperei uma atitude dessas da tia de Violetta, a mulher que eu amava mais do que a mim mesmo e a única que eu pensava não está comigo por causa do meu dinheiro. Balancei minha cabeça afastando esses pensamentos deprimentes, saí do quarto indo até a cozinha a procura de algo para comer, a casa estava um silêncio só e provavelmente todos tinham saído. Bebi apenas uma xícara de café fumegante saindo de casa, quando eu fui fechar o portão senti meu corpo se chocando com o de outra pessoa mediana.
— Esmeralda? — Perguntei um tanto surpreso por vê-la ali.
— Ah, oi German. — Respondeu com as bochechas adoravelmente coradas. Sorri de lado. – Me desculpa eu ter batido em você, eu estava meio distraída.
Ela sorriu. Seria uma coincidência?
— Não tem problemas, acontece. — Respondi um pouco desconfortável, eu precisava me desculpar.
— O que houve? Você ficou sério de repente…
— Esmeralda, eu queria te pedir desculpas por tudo. Principalmente por ter desacreditado que poderíamos ter dado certo, e se você quiser… nós podemos, tentar algo. — Falei um pouco incerto, coçando minha nuca.
Esmeralda abriu um sorriso com o olhar brilhando, algo que eu só via quando ela estava comigo.
— Você fala sério?
— Falo. Se não quiser tentar nada agora, eu vou entender e… — Antes que eu terminasse minha frase, Esmeralda envolveu seus braços finos no meu pescoço e me beijou.
Um beijo onde nossos lábios se moviam calmamente, ela tinha um beijo muito bom, mas ainda sim havia um grande problema.
Esmeralda não era a Angie. Angie tinha um beijo capaz de me levar nas nuvens, e poderíamos estar juntos agora se ela não fosse uma irresponsável mentirosa. Como eu sou idiota! Parei de pensar na Angie, até porque eu estava com Esmeralda agora.
Terminamos o beijo com selinhos demorados, ela me olhou acariciando meu rosto.
— Sim, nós podemos tentar algo… — Sorri com sua resposta, ainda segurando em sua cintura fina.
Talvez nós pudéssemos funcionar.
Geral.
Pablo entra na sala dos professores a fim de pegar uns papéis e fica surpreso ao se deparar com Angie apoiada na parede da janela com um olhar perdido. Caminhou até ela, se colocando ao lado da melhor amiga.
— Hey Angie, aconteceu alguma coisa?
Pela sua cara, estava claro que tinha acontecido algo. Angeles mordeu o lábio se forçando a não chorar, lança um olhar cabisbaixo para ele que suspira de antecipação.
— Sim. Está tudo indo de mal a pior. — Murmurou brincando com seus dedos.
Pablo a fitou incentivando-a a continuar.
— Estou pensando em tudo que passei no Studio, em todos os momentos que vivi aqui. Não consigo me despedir desse lugar.
A expressão confusa deu lugar no rosto de Pablo, que se perguntava sobre o que ela falava. Desde que German voltou, andavam distantes.
— Se despedindo do Studio? Como assim? Me explica isso direito.
Angie suspirou antes de continuar, talvez fosse a fazer bem desabafar um pouco com seu melhor amigo. Continuar guardando tudo pra si, só a faria mal.
— German me acusa de algo que seria incapaz de fazer, Vilu está chateada comigo porque estou indo embora pra França, e eu não sei mais o que fazer. Estou muito cansada de tudo, Pablo. — Angeles contou num tom baixo com a voz embolada pela vontade de chorar que a engolfava forte.
Pablo arregalou os olhos atônito ao ouvir que a amiga estava indo embora do país. Mas, por que?
— Não sabia que estava indo embora. O que German fez com você? Ele te magoou?
Ela soluçou fitando o chão, não queria falar sobre o que houve ontem com ele. Queria só esquecer tudo.
— Nós terminamos, pode dizer a vontade que me avisou sobre tudo. Sei que está feliz.
Ele a analisou bem, embora soubesse que provavelmente terminaria assim, detestava vê-la tão triste como hoje.
— O que te leva a pensar que eu vou ficar feliz em te ver assim? Que tipo de amigo você acha que sou? — Pablo segura nas mãos pequenas mãos dela, acarinhando-as. – Está indo embora por causa dele?
Questionou puxando Angie para si, de forma que ficassem abraçados num abraço meio torto.
— Estou indo sim, mas porque recebi uma oferta muito boa, e não porque não tenho me entendido mais com German. — Angie se afastou de Pablo, com os olhos marejados.
— Existem outros motivos que considerei.
— Tipo quais?
Indagou com curiosidade, não era possível que German não soube dar valor a uma mulher tão incrível como ela. Que tinha a destruído de tal forma, que ela nem poderia conversar sem querer chorar. Isso o cortava por dentro porque não poderia fazer nada para curá-la, Angie não merecia nada disso.
— Estou grávida, Pablo. — Revelou direta.
Pablo ficou estático, sem esboçar nenhuma reação. Ia ter sempre um motivo que a ligava a German. Seus olhos desceram até sua barriga, analisando-a. Um silêncio desconfortável pairou sobre os dois, Angeles desviou o olhar buscando um ponto mais interessante em que pudesse fixar-se enquanto seu melhor amigo/irmão digeria a notícia.
— Então você está grávida? — Repetiu desnorteado depois de alguns minutos.
Angeles assentiu voltando seu olhar para ele.
— German sabe que vocês vão ter um filho?
— Não. — Respondeu num sussurro.
— Deixa eu ver se entendi. Por você e German terem rompido o relacionamento, você não vai contar pra ele que está grávida? E acha que está no direito de privar uma criança que não pediu para ser concebida de conhecer o pai?
Angie engoliu em seco com as palavras cruéis de Pablo, mostrando-a a realidade, a dilacerando lentamente. A decisão já estava tomada, não ia voltar atrás. Não era uma decisão que caberia a ele tomar, mesmo sabendo que ele tinha razão em tudo que disse.
— Angie você tem muito motivos importantes para não ir, e se você for vai está cometendo o mesmo erro que ele fez com você e sua mãe durante anos. Não está certo!
— Para Pablo, eu só te peço que por favor não piore mais as coisas. — Sua voz embargou novamente.
O coração palpitava como se fosse sair do peito a qualquer momento, a essa altura não tinha mais nada pra considerar, nem mesmo Violetta conseguiu que mudasse de ideia.
— Preciso ir.
Queria voltar pra sua casa, se jogar na cama e chorar tudo o que segurou durante todo o dia.
— Espera, será que podemos conversar como adultos sobre isso? Sabe que pode me falar o que quiser. — Comentou segurando em seus braços por cima do sobretudo, com delicadeza.
— Eu só quero te ajudar, quero te acompanhar porque é isso que os amigos fazem…Não gosto de ver você assim e não poder fazer nada.
Angie tentou sorrir ao vê-lo assim, embora não quisesse preocupá-lo mais do que já tivesse feito.
— Que tal um café?
Sugeriu com um sorriso, Angeles não costumava rejeitar café e assim quem sabe poderiam pôr as ideias no lugar e pensar com clareza para achar uma solução que a fizesse mudar de ideia.
Ela o analisou cansada, não tinha vontade. Nem para o café, nem para nada.
— Me desculpa Pablo, eu estou exausta. Só quero ir pra minha casa.
Disse com a voz arrastada, e saiu da sala em passos rápidos. Era um assunto no qual não queria tocar mais, quem sabe amanhã fosse um dia melhor para todos. Pablo ficou transtornado ao vê-la tão abalada assim, tinha sido muitas informações pra digerir em uma só conversa.
Sabia que uma hora a perderia, fosse pra German ou pra sua sobrinha, só não aceitava que fosse perdê-la desse modo.
Violetta Castillo.
Depois que saí da sala de Angie, eu fiquei atordoada, não era possível que ela ia me deixar mais uma vez. Mal tínhamos nos encontrado e eu já ia perdê-la novamente, Angie mentiu para mim quando disse que nunca me abandonaria mas na primeira oportunidade de emprego muito longe, ela aceita. Respirei fundo tentando me acalmar, resolvi mandar uma mensagem para Leon e quem sabe pudéssemos conversar um pouco, ele sempre conseguia me distrair.
“Onde você está?”
Ouvi meu telefone vibrar na minha mão, ele não havia demorado a responder.
“Estou em casa minha linda, o que houve?”
Sorri, era evidente que ele sempre sabia o que se passava comigo.
“Preciso de você, me encontra na praça perto do Studio. Vou está te esperando.”
“Ok, já estou indo para lá.”
Guardei meu telefone na bolsa e saí calmamente em direção a praça, observava algumas mães brincando com seus filhos e sorri triste me lembrando da minha tia. Ela era a figura materna mais próxima, e eu a tenho como minha mãe, não queria que ela se afastasse de mim dessa forma. Me sentei em um dos bancos de madeira fitando as graminhas que roçavam no meu calcanhar fazendo cócegas, ouvi passos se aproximando e sorri pensando que era Leon.
— Oi princesa. — Ouvi a voz debochada do Diego. O olhei com raiva e revirei os olhos o ignorando. – Não vai falar comigo, boneca?
Ri debochada, ele era mesmo um insuportável.
— Eu não estou para conversa fiada Diego. — Afirmei rude, ouvi sua risadinha me fazendo ficar ainda mais irritada com ele.
— Nossa tá brava, e eu gosto… — Informou com um sorrisinho malicioso idiota. – O que houve? Se quiser conversar…
Eu ri irônica.
— Será que você sabe conversar por dez minutos, sem me paquerar? — Questionei com ironia, ele me olhou sério mas logo sorriu de lado.
— Por que você não tenta, pode se surpreender. — Gabou-se sentando ao meu lado. Será que eu poderia confiar num completo estranho para desabafar?
Leon estava demorando e eu precisava de conselhos, poderia dar certo. Suspirei antes de começar.
— Bom é que eu tenho uma tia que é como se fosse minha mãe, e eu a amo muito, mas hoje eu fiquei chateada porque ela disse que ia se mudar para a França. — Comecei com cautela. Diego apenas me observava. – E eu não queria que ela fosse, pois é ela quem sempre me apoia em tudo sabe? Angie disse que nunca me abandonaria, e agora vai para o outro lado do mundo.
Diego ainda me fitava.
— Sua tia Angie, é a mesma Angie do Studio? — Me indagou e eu concordei. – Já vi vocês duas juntas, e eu queria ter alguém assim sabe? Mas Violetta, você não acha que se ela te apoia em tudo, talvez agora seja sua vez de apoiá-la? Com certeza você deve ser muito importante para ela, mas ela precisa de um tempo e do seu apoio pois essa não deve ter sido uma decisão fácil. Se você a ama tanto como diz, a deixe ir… deixe ela ser feliz. — Diego me aconselhou sincero.
Ele tinha razão, eu não deveria ter dito aquelas coisas para Angie. Minha tia sempre me apoiou em tudo e agora era a minha vez de lhe dar esse apoio, precisava ir me desculpar com ela. Não posso ser hipócrita e preferir minha tia comigo mesmo estando triste privando-a de buscar a felicidade, por mais que me doa eu no lugar dela faria o mesmo.
— Obrigada. — Agradeci envergonhada, talvez eu o tenha julgado mal. – Você tem razão em tudo que diz, é um ótimo conselheiro.
Diego riu abafado.
— É o que dizem por aí. — Falou convencido e nós dois rimos.
Diego foi se aproximando de mim fazendo meu corpo travar, ele segurou meus braços com uma mínima força, por um segundo meu coração palpitou e eu me afastei.
— Por que recua? Você sabe que quer isso tanto quanto eu… — Diego murmurou contra meu rosto, me deixando sentir seu hálito fresco de menta. Ele sabia o poder que tinha sobre mim.
Eu aproximei nossos rostos e Diego subiu uma de suas mãos acariciando meu rosto, nos olhamos por um tempo antes de ele me beijar, seus lábios se moviam calmos esmagando os meus e me torturando, minhas mãos foram para a sua nuca e nós aprofundamos o beijo deixando-o selvagem. O beijo dele era muito bom, me deixava tão nas nuvens quanto o beijo de Leon. Leon? Ai meu Deus, que merda eu estava fazendo? Traindo alguém que é sempre um doce comigo. Espalmei minhas mãos em seu peito o afastando de forma rude. Diego me olhou confuso.
— O que foi, boneca?
O olhei com culpa.
— Você é um idiota! Isso não podia ter acontecido. — Murmurei me afastando dele.
— Eu não te forcei a me beijar, pelo contrário. — Diego disse sorrindo. Por que diabos eu tinha gostado do beijo dele? Parecia que nossas bocas se encaixavam perfeitamente.
— Quer saber? Me esquece, isso NUNCA mais vai se repetir! — Exclamei irritada dando ênfase no nunca, para ele me entender. Diego ainda me olhava com um sorrisinho sacana, bufei e saí dali o mais rápido possível. O que eu ia fazer agora? Leon nunca me perdoaria.
Saí correndo para a saída da pracinha, já decidida a ir para casa, quando sinto meu corpo esbarrar no de alguém. Levantei minha cabeça, ficando surpresa ao ver Leon ali me segurando.
— Vilu. O que aconteceu? — Perguntou calmo ainda me segurando.
Comecei a normalizar minha respiração ofegante, olhando em seus olhos. Leon nunca faria nada que me magoasse, por que eu me deixei levar pelo Diego? É só eu fingir que nada aconteceu, e tudo entre a gente vai ficar bem, pelo menos era o que eu esperava.
Forcei meu melhor sorriso.
— Nada meu amor, por quê? — Perguntei com todo o cinismo que consegui reunir.
— Você está estranha, e ainda por cima estava correndo. — Me respondeu como se fosse óbvio, eu não podia deixar transparecer meu nervosismo.
— Meu pai acabou de me ligar, quer conversar comigo urgente. — Menti. – Então eu não vou poder ficar, mas amanhã prometo que nós vamos sair. — Falei rapidamente, ele riu e me deu um selinho demorado.
— Ok, pode ir pra casa. — Assenti, trocamos mais um rápido selinho e eu saí rumo a minha casa um pouco mais tranquila.
Aquele beijo que Diego me deu, mexeu com minhas estruturas e de certa forma me deixou abalada. Já vivi dois amores ano passado e foi horrível não conseguir decidir com quem eu queria ficar, não queria reviver isso novamente, mas o que eu pensava que só Leon poderia fazer, o sem noção do Diego também faz e isso me confunde mais do que deveria.
Balancei minha cabeça espantando esses devaneios ridículos, afinal eu sou e sempre vou ser apaixonada pelo Leon.
Mas, será?
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