The Story Never Ends.
2 Lights In The Dark.
Notas iniciais
Buenos Aires.
Dias Atuais.
Angeles Saramego.
Acordei ao primeiro toque do insistente despertador, cocei meus olhos rolando na cama quentinha despertando meu desejo de passar o dia todo aqui, deitada. Meu desejo foi se despedaçando quando lembrei que tinha que ir ao Studio dar aulas, eram as últimas semanas de aula antes da amostra que anteciparia as férias de Julho. Levantei preguiçosamente rumando ate o banheiro e fazendo minha rotina matinal, depois de um banho quente saí enrolada na toalha e abri o roupeiro pra pegar uma roupa qualquer, foi então vi bem na prateleira um porta-retrato, sorri triste ao pegá-lo.
Era uma foto minha e de Vilu, eu a olhava todo dia na tentativa de sentir minha sobrinha mais perto de mim, depois que German a levou sempre nós falávamos por Skype, ligação, mensagem, mas não era a mesma coisa, tudo tinha mudado. Fora quando não podíamos nos falar pela terrível diferença de fusos, me enlouquecia tudo isso. Já havia feito seis meses, seis dolorosos meses que German me tirou qualquer vontade de seguir minha vida. Levou a filha consigo para o outro lado do mundo me deixando com a sensação horrível de vazio.
Por esse mesmo motivo eu evitava passar em frente a mansão, porque eu sabia que se o fizesse me desmancharia em lágrimas, e não poderia me dar esse luxo. Tinha que se forte. Ver Vilu por Skype com um semblante triste, cortava meu coração de tantas formas que era impossível imaginar, mas o que mais doía era saber que por hora eu não faria nada. Era uma situação que me deixava de mãos atadas, fechei os olhos evitando chorar tão cedo.
Além de conviver com tudo isso, ainda tinha que juntar os caquinhos do meu coração partido no sentido amoroso, me forcei a esquecer qualquer coisa ou qualquer tipo de sentimento que tivesse por German, entretanto eu os sentia, borbulhando no meu peito gritando por cada poro que queriam sair. E isso era bem mais forte do que o ódio que prometi ter quando ele partiu naquele carro sem nem ao menos olhar para trás, levando ainda minha sobrinha que eu demorei anos pra rever. German nem se esforçou pra lutar por nós, simplesmente se foi porque queria resolver seus problemas assim, fugindo. Confesso que quando o abracei e disse que não queria que ele fosse, pensei que fosse ficar. Que fosse nos dar uma chance de recomeçar sem todas as mentiras, depois tudo nós merecíamos um recomeço. Só que German preferiu se manter inabalável e se esconder no Qatar.
Por algumas vezes desde então, me imaginei com as coisas sendo de outro jeito. Me imaginei sendo a mulher do German, podendo o beijar sem medos e sem culpas por ser a irmã de sua falecida mulher, tia da Vilu.
Mesmo morando aqui em Buenos Aires, meus pensamentos e meu coração estão sempre com eles, isso não mudou. Não posso esquecê-lo de uma hora pra outra, nem esquecer tudo o que tivemos. Estava tão presa nos pensamentos desses últimos meses que ao ouvir meu telefone tocar pulei pra trás com o susto, guardei a foto no roupeiro de novo e fui atrás do meu celular. Ao pegá-lo no criado-mudo ao lado da cama, um sorriso permeou meu rosto ao ver que era uma mensagem da minha sobrinha, não demorei a abri-la.
“Vai vir me visitar agora nas férias? Espero muito que sim!”
Beijos, Vilu.
Li e reli aquela mensagem repetidamente, ela queria que eu fosse pro Qatar? Balancei a cabeça aturdida, um tanto surpresa. Por mais saudades que eu tivesse dela, eu não queria ir pro Qatar agora, não mesmo, eu poderia inventar qualquer desculpa entretanto não queria mentir pra Violetta que me conhece até do avesso. Tinha medo de como seria meu reencontro com German, não sabia o que poderia ocorrer quando o visse. Íamos brigar? Íamos fazer as pazes? Era muito incerto.
Soltei a respiração que nem sabia que prendia, decidindo não responder a mensagem agora, tudo que Vilu não precisava era de falsas esperanças. Balancei a cabeça incomodada comigo mesma e comecei a me vestir, com certeza chegaria um pouco atrasada no Studio.
Violetta Castillo.
3 meses antes.
Já haviam se passado três meses, três longos meses desde que meu pai me trouxe pra cá, três meses desde a partida do dia mais doloroso da minha vida, três meses desde que perdi tudo o que dava cor a minha vida. Todos os meus dias desde que cheguei ao Qatar estavam sendo uma monotonia, passavam lentos e doloridos me lembrando a cada momento que eu pagava agora por ter mentido tanto ano passado, foram tantas mentiras, tantas desculpas. Eu nunca quis magoar meu pai, só queria cantar. E ao final disso eu sinto que foram tantos esforços em vão, tinha perdido tudo o que mais amava. Isso me corroía por dentro, como foi possível as coisas chegarem a esse ponto? Como meu pai não conseguia enxergar o que estava além de sua visão? Como? Eram tantos questionamentos sem respostas.
Estaríamos muito felizes sem nenhum de nós três tivesse mentido tanto, meu pai poderia está junto com minha tia e eu ainda estaria em Buenos Aires. Balancei a cabeça negando, a sensação de perda não saia de modo algum do meu corpo, parecia impregnada na minha mente.
De alguma forma eu sentia muita falta do meu pai, ele não tem sido o mesmo desde que chegou aqui. Estamos afastados, brigamos cada vez, eu deveria me sentir chateada com ele, porém eu sei que ele está num inferno tanto quanto eu. Sei que ele pensa muito na minha tia, e o quanto o custou separar-se dela no dia que viemos embora. Ele a amava, eu sentia isso.
E não tinha coisa mais triste do que duas pessoas que se amam tanto serem cabeças duras ao ponto de ficarem a milhas de distância, não fisicamente mas sim de corpo e alma. Não poderia culpar Angie, vi que ela tentou até o último segundo. Também não queria apontar meu pai como culpado, não podia jogar isso em cima dele.
Suspirei espantando esses pensamentos, a sensação de impotência ia acabar me engolindo de uma vez se ficasse revivendo-a. Não importa quantas coisas diferentes eu tente fazer, ainda sentia uma imensa dor ao lembrar de tudo que ficou em Buenos Aires, meus amigos, Angie, a música e sobre isso eu não poderia perdoá-lo. Saí do meu quarto indo direto até a cozinha, assim que Olga pôs os olhos em mim abriu um sorriso.
— Minha menininha, até que enfim desceu. — Disse apertando minhas bochechas.
Sorri triste.
— Estava cansada de ficar lá em cima, ia acabar sufocada. — Contestei dando ombros.
— Cadê meu pai?
Olhei em volta, tudo estava num silêncio só.
— Saiu com Ramallo para uma daquelas reuniões. Você quer alguma coisa meu amor?
Olga me olhava atentamente, suspirei apertando a bancada.
— Voltar pra Buenos Aires, Olguinha.
Ela fez uma cara desolada, como se fosse chorar possivelmente junto comigo.
— Eu sei meu amor, eu sei. Infelizmente eu não posso fazer nada pra te ajudar nisso. — Me abraçou forte, assenti sentindo meus olhos lacrimejarem.
Nos separamos rápido.
— Sua professora de música ligou e disse que não poderia vir hoje, tudo bem?
Assenti. O que mais poderia dar errado? Harriet era minha professora que vinha me dar aulas particulares de música clássica, era uma das poucas que eu gostava, esse desde que saí de Buenos Aires era o contato mais próximo que tive com a música.
Saí da cozinha indo direto pro imenso piano de cordas, a sensação era a mesma de quando cheguei na Argentina, uma casa com tudo e um enorme vazio, era como se eu fosse uma princesa aprisionada na torre de cristal a léguas onde ninguém nunca poderia chegar para me resgatar. Sentei-me ali e comecei a tocar calmamente a melodia de “Habla Si Puedes”, enquanto tocava sentia uma paz me invadir, era a primeira vez que conseguia tocar algo que não fosse Mozart, Beethoven ou Schubert. Me atrevi também com cantar baixinho o verso de acordo com a melodia, era uma sensação deliciosa, me provou que por mais que tente a música não vai sair de mim assim.
Fui aumentando meu tom de voz aos poucos conforme a música ia exigindo, era libertador poder fazê-lo depois de tanto tempo. Parecia até que meus dedos tinham vida própria, amava a música demais para abandoná-la assim. Envolvida entre letras e melodias cantei a última parte da música, que nem percebi alguma aproximação.
— Acabou o show Violetta, sai daí.
Arregalei os olhos ao ver meu pai parado a minha frente com uma cara nada boa, estremeci só de pensar o que aconteceria agora. Ramallo olhava tudo tão surpreso e assustado, pronto para tentar me salvar, tirei as mãos do piano e ele o fechou rispidamente o fazendo dar um barulho estrondoso.
— Você não pode tirar isso de mim, pai.
Quando foi que havíamos nos distanciado tanto? Tão perto, mas, ao mesmo tempo, era como se tivesse um imenso abismo entre nós. Meu querido pai não fazia menor esforço pra me entender, entender o quanto eu amo a música e o quanto eu preciso dela, era imperdoável.
Ele me olhou nervoso, passando as mãos nos cabelos.
— O que você quer, Violetta? Me diz menina, briga comigo, briga com a nova professora provocando a demissão dela, briga com todo mundo e ainda por cima me desobedece. Me diz o que você tem? — Aumentou o tom, furioso.
Levantei-me do piano encolhida, um nó se formou na minha garganta e meu coração apertou.
— Sinto falta de Buenos Aires. Não queria estar aqui. — Dei ombros com a voz embargada. Uma lágrima solitária rondou meu rosto.
Meu pai suspirou olhando-me.
— Eu sei que você sente falta de Buenos Aires, mas você pode fazer daqui uma nova vida. Tudo que eu quero é que você seja feliz. — Respondeu mais calmo.
Desviei meu olhar pra porta.
— Você não entende mesmo. Estou cansada de brigar com você, não vamos brigar mais por favor. — Pedi chorando copiosamente.
— Vilu, tudo que eu menos quero é ficar assim com você filha. E olha, pra você ver que eu não sou tão chato assim vai ter um evento sobre música no shopping, vai com Ramallo que eu tenho certeza que você vai se divertir.
Arregalei meus olhos, música? Meu Deus eu mal poderia acreditar que teria um contato com a permissão do meu pai.
— Sério?
— Seríssimo! — Ele sorriu.
Pulei em seus braços o abraçando forte, o mais forte que pude enquanto ele me acalentava afagando meus cabelos e beijando minha testa.
— Obrigada, obrigada, obrigada. — Sussurrei.
— De nada filha. Te amo. — Depositou um rápido beijo na minha bochecha.
— Também te amo.
(…)
Dias Atuais.
Completamente animada, era essa a palavra que me definia agora. A partir de hoje só faltariam duas semanas pras férias e o que isso significava? Poderia pedir pra que Angie passasse esse mês todo comigo aqui no Qatar, seis meses tinham se passado desde que cheguei aqui, e isso é a melhor coisa que poderia acontecer comigo. Fechei meu diário com um sorriso que mal cabia no meu rosto, se Angie topasse poderíamos enfim matar toda a saudade que eu estava dela, e colocar todas as novidades em dias.
Ainda eufórica, peguei o celular numa cabeceira e como Angie era a primeira da minha lista de contatos não demorei a escrever uma mensagem perguntando se vinha pra cá, para aumentar mais minha ansiedade Angie estava demorando a responder, o que achei estranho porém resolvi deixar pra lá pois ela poderia estar no Studio. Além de que ainda existia a grande diferença de fuso que fazia nossa comunicação ser reduzida. Guardei o telefone um tanto ansiosa pra contar pro meu pai a notícia, será que ele ia gostar? Um sorrisinho deu lugar no meu rosto pensativo, a resposta era claramente sim, por mais que meu pai tente esconder eu sabia que ele era apaixonado pela minha tia.
Saí do meu quarto cantarolando baixo uma melodia qualquer que não saía da minha cabeça de modo algum, ao chegar na sala encontrei meu pai conversando com Ramallo sobre alguma coisa da empresa, assim que colocou os olhos em mim sorriu grande me convidando pra perto.
— Até que enfim desenfurnou. — Brincou com um sorriso, beijando minha mão.
Sentei-me ao seu lado no sofá.
— Não ligue pro seu pai, Vilu, passa o dia sem te ver e fica doido. — Ramallo o explicou.
Não pude evitar uma risa.
— Escuta filha, você me parece animada. Aconteceu algo que eu não estou sabendo? — Virou-se pra mim com curiosidade.
Ruborizei sob os olhares curiosos de Ramallo e meu pai.
— Bem é que… — Os entreolhei nervosa. — Pedi pra Angie vim passar as férias comigo, aqui em Doha.
Ele pareceu um tanto surpreso, incomodado talvez. Será que não tinha gostado? Pigarreei limpando a garganta para tirá-lo de um breve desvaneio, sorriu amarelo me encarando.
— Se você não tiver gostado eu…
— Não, não foi isso. Só fiquei surpreso com a notícia, é claro que sua tia pode vir. — Informou parecendo… Nervoso? — Quero dizer, se isso faz você feliz… Não tem o porque ela não vir.
O fitei desconfiada, ele se atrapalhou com o nervoso ou foi impressão minha? Segurei um sorriso ao perceber que meu pai ainda amava minha tia, e isso era uma coisa maravilhosa. Infelizmente só seus sentimentos não bastam pra que eles fiquem juntos. Será que eu deveria me meter?
Angeles Saramego.
— Para quem vai participar da amostra eu peço que faça esse movimento com a boca. — Mostrei o movimento para meus alunos que repetiram, continuei. — Que vai relaxar as cordas vocais e dar apoio em notas altas, e para os que não, também preciso que vocalizem assim terão melhor colocação das notas em qualquer música.
Expliquei, eles me olhavam atentos. Fitei meu relógio no pulso.
— Bom, a aula de hoje acabou. Até amanhã! — Me despedi deles com um sorriso.
Me apoiei no piano observando a sala agora vazia, em silêncio. Por hoje não teria mais aulas, também não estava com a mínima cabeça pra voltar pra casa e me afogar em pensamentos sobre minha sobrinha. Era um tiro no pé. Decidi ficar um pouco mais aqui, sentia tanta paz quando estava no Studio, assim aproveitava para analisar o pedido de Vilu.
Quando eu prometi que a visitaria eu não tinha noção que as coisas aconteceriam dessa maneira, eu sei que isso soa totalmente egoísta por está colocando meus motivos a frente dela, mas eu não tinha outra escolha. Não tava pronta pra arriscar encontrar com German novamente, não queria olhar na sua cara depois de meses.
Entretanto apesar de ir pro Qatar ser sem sombras de dúvidas a ideia mais louca que já tomei, eu morria de saudade da minha sobrinha, ela precisava de mim tanto quanto eu dela. Não podia deixar que ela ficasse nas mãos de um pai cego, que faz qualquer coisa pra não ver o que Violetta precisa.
Eu tinha que ir. Mesmo que não falasse o idioma, não conhecesse ninguém, e que fosse a milhas de Buenos Aires. Vilu precisava de mim.
Massageei a têmpora já sentindo dor de cabeça só de pensar nesse assunto, minha mente estava uma desordem total. Balancei a cabeça tentando não pensar em nada que os envolvesse nesse momento, tinha que tentar relaxar e pensar nessa hipótese de ir pro Qatar não era uma boa ideia.
— Angie? — Pablo entrou na minha sala confuso.
Cruzei os braços respirando fundo.
— Oi Pablo, aconteceu algo?
Ele me fitou desconfiado.
— O Antônio está nos esperando pra uma reunião, esqueceu? Temos que ir! — Pablo pegou no meu braço puxando-me.
— Como pude esquecer?
Resmunguei sem acreditar, definitivamente minha mente precisava de um descanso.
(…)
— Mas que coisa Antônio! O nível dos professores aqui cai cada dia mais. Será que você pode reformular a pergunta pra que Angie pudesse responder? — Gregório disse petulante, com um sorrisinho irônico.
Saí do transe e revirei os olhos ao ouvir o comentário maldoso do meu colega, será que Gregório nunca ia mudar? Levantei meu olhar ruborizando ao perceber que todos na sala me fitavam curiosos.
— Me deixem a sós com Angie, por favor. — Antônio pediu educadamente.
Todos os professores saíram da sala, o último a sair foi Pablo que me lançou um olhar de “se liga, Angie” antes de se retirar. Meus dedos se esfregavam um no outro em ritmo frenético, com uma mistura de vergonha e nervoso que não cabia em mim.
— Perdão Antônio, eu sei que estou distraída mas prometo que não vai mais acontecer! Prometo que vou melhorar. — Me pronunciei rápida, tentando me explicar.
Céus que vergonha, nunca tinha me distraído em reunião nenhuma antes. Quer dizer, só uma no ano passado quando soube que German ia levar Violetta.
— Calma querida, não vou te dar nenhuma bronca. Quero apenas conversar com você, será que posso? — Indagou sorrindo fraco. Concordei sorrindo também.
Antônio sentou-se ao meu lado.
— Quer me contar o que está havendo com você? Tenho te notado triste ultimamente e isso tem me preocupado.
Ele afagou minha mão. O fitei um tanto desolada, por alguns segundos. Eu tinha tanto a dizer que tinha medo de me engasgar com as palavras.
— Sabe que pode confiar em mim, não é?
Me incentivou, balancei a cabeça, quieta em concordância. Tomei um trago de ar.
— É que Vilu pediu pra que eu fosse ficar com ela essas férias, e eu não sei o que fazer Antônio. — Murmurei baixo.
— Mas essa é uma boa notícia, porque você está assim?
— Porque mesmo estando morrendo de saudades da minha sobrinha, eu estou com medo de como vai ser meu reencontro com German, depois de tanto tempo eu fico me perguntando como ele se sente por tê-la tirado de mim novamente. Ele sabe o quanto eu e minha mãe sofremos pulando de país em país para encontrá-la e quando a achamos ele a leva para o outro lado do mundo porque não aceita quem ela realmente é. Por medo.
Suspirei tentando manter a calma, entretanto eu ainda tinha que falar mais se não ia explodir. Antônio me observava quieto, como se pedisse pra mim continuar.
— Eu não consigo imaginar com ela está, aliás, eu imagino sim. — Ri cínica. — Trancada, sem amigos, sem poder seguir sua verdadeira vocação. Eu não posso acreditar que German tenha chegado a esse ponto, só que vindo dele eu não espero mais nada. Nada além de sua covardia, do medo do passado e de tentar fugir dos problemas indo pra outro país.
Desabafei elevando minha voz que embargava, assim que fechei a boca me arrependi no mesmo minuto por ter falado tudo que podia e que não podia, praticamente despejei meus problemas pessoais em quem não tinha nada a ver. Droga Angeles! Era melhor fechar a boca antes que falasse mais alguma besteira, vi a cara do Antônio de atônito e comecei a me desculpar atrapalhadamente.
— Perdão de novo, me perdoa. Eu não queria ter jogado tudo em você, e também não precisa se envolver nos meus problemas pessoais…
Corei. Ele me interrompeu, lançando-me um sorriso amigável.
— Eu acho que você deve sim ir visitar sua sobrinha, ela precisa muito de você nesse momento tao delicado da vida. E quem melhor pra acompanhá-la, dar apoio, conversar do que a tia? — Sorri concordando. Antônio tinha razão, não existia ninguém mais importante que minha sobrinha.
— E querida, não vale a pena se estressar com German. Vocês dois são adultos que estavam de cabeça quente, tenho certeza que vão conseguir esclarecer tudo com uma boa conversa, sim?
— Você acha? — Questionei incerta. Antônio balançou a cabeça em sinal de afirmação.
— Acho não, tenho certeza que vocês vão ficar bem.
Sorri me sentindo melhor, mais tranquila quanto a isso até.
— Obrigada por sempre me entender, e está aqui quando preciso.
Me levantei e Antônio repetiu o gesto, com um sorriso amistoso.
— Pode contar comigo sempre que precisar, você é como uma filha pra mim.
Emocionada o abracei forte sendo retribuída. Antônio tinha toda razão, era fora de questão me estressar com German por uma decisão que ele tomou a meses, porém que ainda doía como se fosse ontem.
— Agora tenho que ir falar com o Pablo, reunião de cenografia, se cuida querida. Quero que fique bem. — Depositou um beijo na minha testa. Assenti sorrindo.
Ele saiu da sala dos professores deixando-me ali com meus pensamentos já não tão pesados assim, sentia que havia tomado a decisão certa em ir pro Qatar, afinal, era da minha sobrinha que estávamos falando. Sentei numa cadeira brincando com meus dedos, tudo que eu desejava era que essa situação se resolvesse, quem sabe eu e German até poderíamos ter uma conversa decente?
Sorri triste com o pensamento, precisava esquecê-lo, mas só de imaginar que daqui há alguns dias o encontraria, sentia um frio imenso na barriga. Meus pensamentos foram interrompidos pelo toque exagerado de meu celular, o peguei dentro da bolsa e atendi sem nem olhar quem era.
— Alô?
— Tia?!
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