The Sound of Winter
2 I: Guerra.
Notas iniciais
“Guerra.”
I: Siegfried.
Porto Real.
Se tinha uma coisa que Siegfried gostava em Porto Real, era de suas mulheres.
Elas não se importavam muito com o nascimento, com o alto nível na Corte do Rei. Se você era bonito, um bom cavaleiro e conseguia esquenta-las devidamente, seja em um quarto ou no caralho a quatro, elas lhe sorriam e atiravam seus decotes por cima das mesas, além de que estavam sempre tentando puxar assunto.
E, é claro que aquilo não seria diferente em uma festa tão gigantesca quanto àquela.
Sedas e veludos, caros ou baratos, rodopiavam belamente por meio da sala do trono. A música feita por cantores de toda Westeros retumbava, uma se misturando à outra, em uma confusão de melodias e palavras. Mulheres feias e bonitas lhe lançavam olhares nada discretos, da qual ele retribuía prontamente. Às bonitas, é claro. No meio do salão, dançavam vassalos, cavaleiros juramentados e esquecidos de seus votos, plebeus e mercenários. Siegfried estava em um lugar de honra da Mesa, na segunda cadeira do lado direito de Shireen.
Sua irmã estava bela como uma menina como ela poderia ficar. O rosto, apesar de mais maduro do que antes, estava comprido. O queixo, quadrado e os olhos grandes e azuis. A escamagris do lado direito de seu rosto deixava-a quase que intimidadora. Apesar disso, fora dito a ela que não se deixasse parecer ingênua perante o reino. Usava um belo vestido amarelo, feito de sedas e fio-de-ouro, que brilhava de maneira leve, enfeitando o corpete que lhe realçava o que tinha de seios. O manto de seu casamento, cinza e brilhante, ostentava o lobo gigante da Casa Stark, e ao seu lado se encontrava Peter, duro como o gelo.
Quando Melisandre lhe disse que Shireen se casaria com um Stark, sentiu-se quase que alegre. Quando criança, Siegfried ia muito ao Norte visitar os Gêmeos de Winterfell, e isso formou uma amizade entre eles. Apenas estranhou o fato de ser como se Peter estivesse sendo entregue à Casa Baratheon, e não o contrário. Quando disse isso à Senhora sua mãe, ela sorriu e disse:
— Nada de leis importam quando temos de seguir o que está predestinado, meu jovem Senhor.
Sua mãe também costumava dizer que os Stark sabiam mais do que ninguém que os ventos que sopram frio são sempre um mal-presságio. Toda vez que o ouvia o lema da Casa, sentia-se estranho e inquieto, como se dedos gelados e frios cutucassem o ponto mais profundo de sua mente.
Curioso, Siegfried observou uma menina ao longe. Cabelos loiros e longos, com enormes cachos lhe caiam até a cintura, tão belos quanto o sol. Sua pele era como porcelana, mesmo ao longe, e o corpete de seu vestido verde-esmeralda lhe acentuava belamente os seios, pelo que conseguia ver. A cintura era fina e delineada, e os quadris se destacavam belamente. Perfeita. Curvou-se para sua mãe, que estava ao lado de Shireen e apontou para a mulher que observava.
— Quem é aquela? — sua voz soara maliciosa, arrastada e preguiçosa. Como se quisesse partir para cima dela mesmo sem saber de que nascimento ela provinha.
Melisandre observou-a atentamente. Estalou a língua, os olhos vermelhos emitindo um estranho brilho curioso.
— Está interessado em uma Lannister, meu Senhor Sieg? — sorriu ao vê-lo se engasgar com o hidromel. — Chama-se Milenna, a Princesa Bastarda. Filha de Cersei e Jaime da ex-Casa Lannister.
— O que faz ela aqui? — perguntou após se recuperar do forte ataque de tosses, com muito custo e a voz soando entrecortada. — Eu pensei que todos os Lannister tivessem sido...
— E foram. Mas não tínhamos o direito de impedi-la de entrar. É um casamento que formará um Rei e uma Rainha, meu Senhor. Todo o mundo pode entrar aqui, e tudo o que podemos fazer é tirá-los se causarem tumulto. — explicou-lhe a Mulher Vermelha, ainda observando a dita Princesa Bastarda. — Ela parece ser realmente muito bela, mesmo ao longe.
— Sim... — sorriu maroto. — Eu volto para arrancar a roupa de Shireen, minha mãe. — e saiu, os cozinheiros trocando e colocando pratos novos na mesa.
Andou com passos indiferentes por meio de toda a sala do trono. Um homem cantava uma música que de tinha criado ele mesmo, pelo que dissera, em homenagem aos noivos: "O inverno no verão”, outro, “O Urso e a Donzela”. Ignorando isso, seguiu em direção a menina Lannister. Estava encostada na parede, em um canto oposto, a pose despreocupada.
Curvou-se debochadamente quando chegou a ela, estendendo uma mão.
— Gostaria de me dar a honra dessa dança? — perguntou a ela, a melodia agora soando bela como se os cantores estivessem entrando em um acordo. Logo, reconheceu que tocavam a música criada pelo tal cantor. Era bonita, afinal.
"Do frio congelante,
Ao gelo cortante,
As garras do verão lhe seguem avante..."
Os olhos incrivelmente verdes lhe analisaram de cima abaixo, parando demoradamente em seus olhos e rosto. Sua expressão se tornou de desdém e nojo enquanto fitava os olhos azuis e profundos de Siegfried.
— Baratheon. — concluiu, por fim, afastando a mão do mesmo com um toque rápido.
— Ora, descobriu isso sozinha? — fez-se de inocente, e foi prontamente ignorado. Siegfried suspirou, vendo que seria difícil. — Sabe, você é ainda mais bonita de perto. Qual o seu nome?
— E porque devo dizer sendo que deve ter perguntado para alguém antes de vir ter comigo? — ela ignorou o elogio que recebeu, e os olhos não perderam o brilho frio que tinham mesmo depois disso. — Faça-me um favor e suma daqui.
— Ora, ora. Estava a me observar também, Lannister? — riu ele.
— Quando alguém praticamente me estupra com os olhos, eu sou obrigada a retribuir o olhar, Senhor.
Siegfried não se impediu de rir. Sentia os olhos frios em seu rosto, perfurando-o, mas ignorou isso. Que tipo de pessoa era aquela? Nunca tinha estado na presença de uma mulher tão cheia de si, com uma língua tão afiada e bonita ao mesmo tempo.
— Você é bem parecida com os Lannister, pequena. — viu um tumulto acontecer em volta dos noivos. — Infelizmente — olhou para ela, sorrindo marotamente e “estuprando-a com os olhos”, parando demoradamente nos seios fartos. — Tenho de tirar as roupas de minha irmã. Desejo vê-la novamente, Princesa Bastarda.
Viu a face bonita ficar rubra de raiva e o ódio brilhar nos olhos verdes antes de sair de perto dela. Pelo visto ela não gosta de ser chamada assim. Por quê será?, pensou irônico. Perto de sua irmã, vassalos bêbados riam e rasgavam os belos tecidos de seu vestido, e ela ria forçadamente, apesar de não parecer. Siegfried aproximou-se e retirou o corpete já meio rasgado, recebendo um olhar cheio de raiva, apesar do sorriso, também forçado, no rosto.
Logo, os noivos eram arrastados pelos corredores até os aposentos do Rei. E é agora que minha irmã se torna mulher, zombeteiro, Siegfried preparou-se para se retirar e buscar uma donzela de bom nascimento. Talvez até mesmo uma bastarda de olhos verdes lhe servisse...
— Meu filho e Senhor — a voz de Melisandre de Asshai lhe veio como um mau-agouro. Seus músculos endureceram. — As chamas.
Nervoso, coçou a sua nuca. Não havia se lembrado de que aquele dia era, como dito por sua mãe, o termino de um século. A maior noite dentre todas em quatrocentos anos, e isso queria dizer que R’llor e suas chamas estavam abertas às belas e doces conversas, cheias de canções e... Não. Definitivamente, não.
— Aquelas chamas me ardem os olhos, Melisandre — resmungou, sem um pingo de humor na voz. — A senhora devia achar algo para se enramar enquanto eu...
Um tapa. Melisandre me bateu. Seu rosto ardia no local onde a palma quente lhe acertou em cheio, preenchendo o corredor com o estalo por longos minutos, e o silêncio prevaleceu por um curto — parecendo longo, apesar disso — período de tempo.
— Não pense que pode algo, Siegfried Baratheon — a voz era como fogo, engolindo tudo em uma fúria sem tamanhos. Não era mais a sutil chama de antes. O rosto parecia diferente... — Insultou o Senhor da Luz. Insultou a mim. Os olhos vermelhos perfuraram os seus próprios. — E aqui, na minha presença, esses direito não provêm de vós.
Fúria. Era aquilo que lhe vinha à mente, e sentiu seu rosto queimar da mesma. Sentimento demais. Ergueu o punho e investiu toda a força que tinha, o que era muito, no soco que daria nela. Quando as mãos dela seguraram o ataque, eram mornas. Segundos depois, gritava de dor enquanto ela lhe torrava a pele.
Quando lhe soltou, o rosto assumira novamente a face de sua mãe. O rubi de seu pescoço brilhava intensamente.
— Meu Senhor Sieg? — perguntou a ele, parecendo ligeiramente confusa. Antes que ele lhe respondesse algo, ela interrompeu-o: — Entendo. Siga-me, Senhor.
Sem escolhas, a única coisa que pode fazer foi seguir a Mulher Vermelha. Vários lances de escadas, descendo, descendo e descendo. A única coisa que faziam era descer. Logo, encontravam-se fora das fortalezas, em um campo aberto e sem arvores por perto. Uma fogueira pequena, mas de chamas intensas e vermelhas brilhava no meio, em um lugar aleatório.
— Olhe-as e diga-me o que vê, meu sangue.
Seus olhos afundaram-se no vermelho do fogo. Por um minuto, a única coisa que aquele ato lhe proporcionou foi um forte lacrimejar de olhos e uma dor de cabeça tremenda. Mas, depois de um tempo, imagens formularam-se muito rebocadas e rápidas, passando como flashes nas chamas. Uma mulher feita de chamas amareladas se enramava com uma outra mulher. Um lobo dançava ao lado de um veado coroado. Viu corvos, rosas e um homem atirando flechas no que parecia ser o Sol. Uma arqueira lutava contra uma alcateia de lobos e uma loba castanha tinha gelo em seus olhos. Um frio quase lhe rasgou a coluna quando a imagem seguinte passou como vento por seus olhos: algo que parecia ser uma mulher feita de neve, vindo em direção às chamas, que resistiam tanto quanto pareciam poder.
Quando contou sobre as imagens à sua mãe, a mesma assumiu a mais séria das expressões e o olhou com olhos que diziam tudo, e sentiam nada. Siegfried não entendia as imagens, mas Melisandre as interpretava e tirava conclusões. Por fim, o que perguntou foi:
— O que elas significam?
O olhar se aprofundou nas chamas, mas suspirou frustrada após isso. Voltou novamente o olhar a Siegfried e ele sentiu o calor dos olhos vermelhos nos seus.
— Guerra.
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