The Scientist
30 Donestk III - "O meio do nada contém bastante coisa"
Notas iniciais
03 à 06 de maio.
Floresta e área rural de Donestk, Ucrânia.
–Não podemos ficar mais tempo aqui. É perigoso. –Percy dizia enquanto catava suas coisas e as de Annabeth.
Ela assentiu e o assistiu fazer tudo aquilo enquanto estava sentado num resto do sofá daquela pequena cabana. Seu tornozelo ainda doía e parecia que iria demorar um pouco para sarar, já que a ela em volta dos pontos está bem inchada.
–Acha que vai inflamar? –ela perguntou a Percy.
–Não, tomei as precauções necessárias. –ele foi até ela e levantou delicadamente a sua calça. –O máximo que pode acontecer é doer pra caramba, já que não temos remédios pra dor aqui.
–Doendo já está. Então acho que nada mais pode me fazer mal. – ela sorriu e seu sorriso morreu na metade. Uma fisgada de dor foi do seu pé para o resto do corpo. –Acho melhor não sorrir de novo.
Dessa vez foi Percy que deu um sorriso contido, carregado de pena da namorada.
–Vamos, já está tudo aqui. Ainda bem que não tivemos que jogar nossas roupas fora e que secaram a tempo. –ele olhou pra mochila e para Annabeth. –Vou ter que ganhar um prêmio por carregar tanta bagagem.
–Bom saber que sou um peso pra você.
–De nada, amor.
Percy colocou a alça da pesada mochila sobre o ombro esquerdo e apoiou o corpo de Annabeth no seu ombro direito, ela chutou a porta com a perna boa e a abriu. Logo depois soltou um gemido de dor.
–Maldita corte. –O vento altamente gélido serviu como analgésico e tudo o que ela conseguia ver era branco. –Maldita neve. Tudo tem que dar errado pra gente mesmo?
–Aparentemente sim. –Percy respondeu e a arrastou para fora. –Nossa situação está tão ruim que não sabemos nem pra onde estamos indo.
–Kiev? –ela tentou supor. –Esquece, é vário quilômetros daqui.
[...]
A visão de Percy estava turva e ele não conseguia mais carregar nem a mochila e nem Annabeth. Eles já devia ter se locomovido três quilômetros e ele sentia seu ego inflado por ter conseguido andar tanto naquela situação desconfortável.
–Você é pesada. –ele sussurrou.
–Está me chamando de gorda? –Annabeth quase gritou.
–O quê? Não! Não estou é que...
–Eu sabia que eu havia engordado, mas que tinha ficado obesa. Você poderia arranjar uma forma mais delicada de dizer isso. –ela parecia quase histérica e Percy tinha a impressão que se o tornozelo dela não estivesse doendo tanto, ela iria estar o agredindo.
–Você ficou louca, eu não disse isso.
–Ah, agora eu sou a louca? –ela arqueou as sombracelhas.
Percy tentou manter a pose de que estava calmo e etc. Mas ela havia ficado retardada do nada e aquilo o deixava assustado.
E mais do nada ainda Annabeth começou a rir da cara dele.
–Era brincadeira. –ela continuou rindo. –Não engordei e se tivesse, não daria crise por isso. Sou bem normal até.
–Você é ridícula.
–Au. Vá com calma nas ofensas. –Annabeth se jogou lentamente no chão, ficando sentada sobre a neve fofa. –Dá pra acreditar? O verão chegando para o hemisfério Norte e aqui ainda nevando.
Percy se jogou ao lado dela e começou a sentir uma sensação de desespero. Não sabia onde estava, onde queria chegar e ainda assim precisava salvar o mundo. Passou a mão pelos cabelos que já caiam em seus olhos. Annabeth repousou a cabeça no ombro dele. Depois da conversa que tiveram ela parecia totalmente despreocupada. Percy imaginava o quanto fora bom para ela tirar aquele peso dos ombros. De certa forma, ele jamais poderia voltar a vê-la com os mesmo olhos. Ela mudara demais, sofrera demais. E ele a admirava mais ainda, o que produzia algo inédito a ele: o orgulho de ter uma namorada como ela.
O silêncio se instalou entre os dois. O frio de certa forma os acalmava. Calmaria essa que era tanta, que Percy começou a ouvir um barulho.
–Está ouvindo? –ele perguntou a Annabeth.
–Parece que estão derrubando umas árvores. –ela respondeu. –Vou tentar não condená-los por essa ser uma área rural e eles, possivelmente, precisarem de lenha para a lareira.
–Área rural? De onde tirou isso?
–Uma placa a um quilômetro atrás. Não dei muita importância, já que não vi nenhuma fazenda por aqui. –ela esquadrejou o local com os olhos. –Parece que saímos da área florestal e viemos para a rural, o que de certa forma é bem pior. Já que não estamos em local de guerra, nem urbano. Estamos no meio do nada mais especificamente. Mas acho que ainda em Donestk.
–Meio do nada... E vai ficando cada vez melhor. – Percy murmurou.
E foi só ele terminar de falar, que um pequeno senhor saiu dentre as árvores. Ele tinha os olhos arregalados demais, como se estivesse olhando para dois fantasmas. Percy olhou para Annabeth perguntando via olhar se eles deveriam correr ou pelo menos ficar com medo. Ela balançou levemente a cabeça, não havia perigoso, só um idoso assustado.
–Suponho que vocês falam inglês, certo? –o homenzinho perguntou. –Todos falam inglês hoje em dia.
–Sim, senhor, falamos sim. –Annabeth respondeu com um sorriso.
Percy pôde jurar que vi os olhos do homem se encherem de água.
–O que vocês estão fazendo aqui no meio da nada? –o velho voltou a fazer perguntas.
–Viu? –Annabeth olhou quase satisfeita para Percy. –Eu disse que estávamos no meio do nada, nunca erro localizações.
Jackson revirou os olhos. Annabeth estava com a mania de fazer piadas desnecessárias em momentos desnecessários. Devia ter aprendido com Leo.
–É uma história complicada, senhor. –disse Percy. –Se nos desse a oportunidade de esclarecer melhor e em um lugar que o frio não nos castigue tanto, agradeceríamos muito. Somos de confiança, não vamos lhe fazer mal.
–Você sabe que todas as pessoas suspeitas falam a última frase que você disse, não sabe? –Annabeth o fuzilou com os olhos.
–Tanto faz. Ele precisa saber que somos confiáveis. –ele retrucou.
–Às vezes você é bem burro.
O senhor pigarreou e piscou os olhos preocupados.
–Dá pra ver ao olhar pra vocês que são de confiança. –ele olhou para os lados, como se estivesse com pressa para sair dali. –Escutem, vocês tem medo de passar por alguma situação perigosa?
Percy ouviu aquela pergunta carregada de sotaque ucraniano e sorriu como se estivesse ouvindo o destino contando uma piada irônica.
–Senhor, nós já estamos em uma situação perigosa.
–Pois bem. –o velho assentiu. –Vou levá-los até a minha casa. É um pouco longe, mas se já andaram até aqui com o tornozelo da menina atado e essa mochila pesada, creio que aguentam mais um pouco.
Percy gemeu. Aquilo iria ser um pouco torturante.
[...]
Acabou que nem foi. Eles já estavam chegando à casa que ficava no meio de uma pequena fazenda. O senhor, que havia se identificado como Grigori, estava carregando a mochila pesada no seu carrinho de mão junto com a lenha que havia conseguido enquanto Percy carregava Annabeth.
Grigori constantemente olhava para eles de relance e Percy tinha a impressão de que toda vez que ele fazia aquilo, ele queria chorar.
–Por que esse homem olha para nós como se nos conhecesse? –ele perguntou a Annabeth.
–Talvez nos conheça, talvez os vermelhos tenham espalhado fotos nossas para os moradores daqui e prometido uma recompensa em troca para quem nos achar. – ela suspirou, parecia conformada com a ideia de que eles estavam andando para a morte. –Do jeito que ele olha para nós, como se estivesse com uma pena extrema, bem capaz de não querer nos matar ou nos entregar.
–Não acho que seja pena. –Percy analisou Grigori com atenção. –É tristeza.
–Por que diabos ele estaria triste? Nem ao menos nos conhece.
–Não foi o que você disse a uns momentos atrás.
Grigori deixou o carrinho de mão no chão. E bateu na porta.
–Katerina, abra. Sou eu. –ele pediu e bateu mais duas vezes de modo rápido.
–Droga... código Morse. –Annabeth sussurrou para Percy e o afastou para trás. –Recue.
No momento em que Percy deu passos para trás, a porta se abriu com uma idosa com o semblante desesperado e uma espingarda na mão. Grigori se postou ao lado dela e pegou a espingarda e apontou para os dois.
–Vocês fazem parte deles, não é? –agora sim Percy pode ver que ele estava realmente chorando. –Mandaram atores igualzinho aos nossos filhos somente para nos torturar.
–Do que o senhor está ...
Grigori atirou ao lado esquerdo de Percy, que rapidamente ficou em silencio.
–Eu não quero te fazer mal, rapaz. Diga o que você veio fazer aqui, fizemos tudo o que eles pediram! –os olhos do homem começaram a ficar furiosos.
–O que viemos fazer aqui? Cacete, moço, você nos trouxe aqui. –Annabeth rosnou com raiva e dor pelo o seu tornozelo apoiado a tempo demais no chão. –Nós não fomos enviados por ninguém, estamos sendo perseguidos e da última vez que atuei eu estraguei a peça do jardim de infância. Não vamos fazer mal a você e a sua esposa, mas vejo que o contrário pode acontecer.
A senhora ao lado de Grigori o fez abaixar a arma. Ela olhou tão profundamente para os olhos de Annabeth que a loira quase sentiu sua alma sendo despregada do corpo.
–Ela está dizendo a verdade, Grigori. –disse a senhora. –Olhe para o pé dela, está sangrando. O machucado não é forjado. Os pobrezinhos devem estar fugindo de alguma coisa.
Lá dentro o choro de um bebê se fez audível.
–Olhe só, você acordou o Mikhail!Agora pô-lo para dormir será mais um sacrifício. –ela balançou a cabeça e andou até a casa. –O que ainda está fazendo aí, homem? Largue essa arma e os convide a entrar, o pé da menina está sangrando!
[...]
–Nos perdoe pelo transtorno, a última visita que tivemos não foi muito confortável. –Katerina, a senhora mulher de Grigori estava atando o tornozelo de Annabeth. Dois pontos foram soltos e começaram a sangrar e idosa limpava o local com algo com cheiro de camomila, era tão efetivo que Annabeth já nem sentia mais dor – Esse seu pé está com um machucado bem feio, menina.
Annabeth deu um pequeno sorriso. A mulher não sabia falar tornozelo em inglês e dizia que o pé dela estava machucado, pois também não sabia falar corte.
As coisas se normatizaram e eles estavam na cozinha da pequena fazendo do casal. Grigori, ainda com a arma em punho e uma expressão alerta, estava sentado numa cadeira de balanço com o bebê mais lindo que Annabeth já vira. O idoso era baixo, Annabeth deduziu que não passava dos 1,60. Era careca no topo da cabeça, mas tinha cabelos negros nas laterais. Seus olhos eram de um azul Royal, perturbadores e esplendorosos, assim como o do menininho em seu colo. Apesar dos poucos fios brancos em sua cabeça, dava pra se ver a idade avançada nas rugas no seu rosto e no modo envergado de andar.
Katerina era mais alta que o marido, tinha os cabelos loiros tomados por fios brancos. Os olhos eram verdes e acolhedores e sua face também mostrava marcas da sua idade. Ela estava sendo tão gentil enquanto cuidava do tornozelo de Annabeth sentada e indefesa naquela cadeira caseira feita de madeira, que ela se lembrou da sua mãe cuidando dos joelhos ralados dela durante a infância.
Mikhail era lindo. Seus cabelos tinham cachinhos negros e sua pele era branca como a neve lá fora. Seus olhos eram inteligentes e doces e suas sombracelhas quase que desenhadas, deixava o olhar do pequeno intrigantemente charmoso. As meninas no jardim de infância iriam se apaixonar de primeira por aquele menino, que também parecia com outro menino, que já era bem grande e que faziam todas se apaixonarem por ele: Percy.
Ele coçava o rosto e fazia careta, sua barba crescera ao longo dos três dias que estavam longe de qualquer base amiga. Ele odiava a barba e parecia um incomodo ter que falar com aquilo no rosto.
–Não queremos esconder nada de vocês. Se depois do que eu disser quiserem nos matar ou nos dedurar, por mim tudo. Estou cansado dessa missão mesmo e nem sei como salvar o mundo.
E então ele começou a contar toda a história. A bomba, o tour pela Europa, a missão, os vermelhos, as peças-chaves e como eles foram parar ali. Katerina pegou uma cadeira e ficou ao lado do marido enquanto ouvia. Eles dois não apareciam surpresos com absolutamente nada.
–Então vocês são mais uma vítima. –Grigori disse e baixou a espingarda, jogando-a no chão. –Esses malucos querem destruir o mundo, mas a verdade, garoto, é que eles já destruíram o nosso.
–O que quer disser? –Annabeth perguntou, começando a ficar muito curiosa e com medo da resposta.
–Não sei que coincidência foi essa, menina, mas vocês acabaram de encontrar o próximo lugar a onde queriam chegar. –Katerina respondeu.
Grigori, que parecia ter um vocabulário mais vasto no inglês que a esposa, prosseguiu:
–Nós conhecemos os vermelhos, somos uma espécie de prisioneiros deles. Não podemos sair daqui e sustentamos um dos pilares que o cientista citou. –ele apontou para o chão. –No porão dessa casa tem um arsenal de computadores que a cada mês ele vêm atualizar, acho que isso deve ser a rede de comunicação que Percy disse.
–Ah não. Está zoando, não é? –Percy balançou a cabeça, incrédulo.
–Não sei o que é zoando. –Grigori fez uma careta confusa. –Mas eles não são burros de deixar a peça-chave que mais tem valor para eles logo na capital de um país que tem outros lugares mais bem articulados para se esconder. Se o voo de vocês não tivesse fracassado, a procura iria. Jamais iria ter chegado até aqui.
–Uma zona rural ao lado de uma zona de guerra. –Annabeth pensou em voz alta. –Como não pensamos nisso antes? Aqui é um lugar perfeito, sem falar que ninguém desconfiaria de um casal de idosos com uma criança que moram no meio do nada. Sem querer ofender, é claro.
–Não ofendeu, querida. –Katerina soltou uma risada. –Na verdade nem entendi tudo o que você disse.
–Espere um pouco. –Percy inclinou o corpo para frente na cadeira que estava sentado e pareceu confuso, como se estivesse tentando entender algo que não fora explicado. –Por que vocês dois? E como um casal de idosos tem um bebê de oito meses? E como você sabem tudo isso?
Grigori suspirou e Katerina abaixou os olhos com lágrimas já escorrendo por eles.
–Katerina, meu amor, vá buscar a vodka. –Grigori curiosamente levantou e colocou Mikhail no colo de Annabeth. O menino gargalhou e a abraçou como se não quisesse soltá-la jamais. O idoso sorriu e voltou a se sentar na cadeira de balanço. –Desculpem-me por ter que beber, é que essa história é complicada demais para se contar sóbrio.
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