The Scientist
31 Donestk IV - "Quase clones"
Notas iniciais
06 à 14 de maio
Área Rural de Donestk, Ucrânia.
–Não é a toa que ele parece gostar tanto de você. –disse Katerina a Annabeth enquanto voltava com a vodca e um retrato nas mãos. –Você é igualzinha a Anastácia, nossa nora, mas dele.
Annabeth estava com Mikhail suspenso em frente ao seu rosto e fitando os seus olhos. O menino sorriu com uma das mãos na boca e as perninhas balançando no ar. Os olhos azul Royal estavam tão felizes que chegando a dar... Pena. Ele realmente acreditava que ela era a sua mãe.
–Não olhe pra mim assim, moleque. –ela disse ao menino que sorria. –Não sou sua mãe. –ele estendeu os braços curtos e ela o aninhou em seu peito. Aquilo produziu uma sensação estranha, era como se ela tivesse que protegê-lo e fazê-lo feliz a qualquer custo. –E o seu nome é muito estranho, apesar do significado bonito. Vou te chamar de Mika, ok? É mais descolado. -Mika fechou os olhos e começou a dormir nos braços de Annabeth. Ela deduziu que aquilo fosse um sim.
Katerina entregou o retrato nas mãos do marido que limpou as lágrimas do rosto com o pano de prato que estava na mesa ao seu lado. Annabeth achou aquilo deselegante, mas se lembrou que tinha o costume de vomitar em qualquer lugar do seu apartamento quando ficava bêbada. Decidiu não julgá-lo.
–Petro era o meu filho. Era militar Ucraniano, fuzileiro do quinto regimento do exército, mas teve que ser afastado por causa de uma fratura na perna durante um treinamento nessa mesma floresta a qual vocês atravessaram. O exército o aposentou, nenhuma força armada em nenhum lugar do mundo gosta de soldado defeituoso, ainda mais meu filho que começou a mancar e que não conseguia mais dobrar a perna direita. Correndo numa guerra seria inútil. –Grigori contava a história olhando fixamente para Percy, aquilo estava o assustando pelo visto. –Então ele passou a trabalhar no serviço de inteligência ucraniano, junto com o embaixador em Moscou. E foi lá que conheceu Anastácia, ou Ania, para os mais íntimos.
Grigori virou a foto e Percy e Annabeth soltaram um arquejo juntos. Ela podia jurar que se não estivesse com Mika no colo, iria cair da cadeira da forma que pudesse. Annabeth e seu namorado eram os fantasmas daqueles que estavam no retrato.
A foto mostrava Petro, o filho do casal, com uma mulher ao seu lado. O rapaz vestia terno e um sobretudo bege desbotado por cima. Seus cabelos eram cacheados igualmente aos de Mika, ele parecia gostar deles ao vento caindo em seus olhos, militares, geralmente, os têm cortados bem curtos. Ele era muito branco assim como o filho, o sorriso não mostrava os dentes, mas passava uma mensagem que podia ser “vou te matar lenta e dolorosamente” ou “sim, moça, é você mesma que eu quero, sei que me quer também só por causa desse olhar”. Os olhos eram azuis como os do pai e do filho, e ele era tão alto que quase não coube na foto. Annabeth achou parecido com Percy, pelas mesmas expressões faciais, e agora entendia porque Grigori o olhava tanto.
Mas a mulher ao seu lado era surrealmente parecida demais com ela. Era como se estivesse se olhando no espelho. Tinha os mesmos cabelos loiros, só que com cachos perfeitos e mais bonitos, os olhos cinza, o sorriso perspicaz e ela arriscou que tivesse até a mesma altura. Ela apoiava uma mão do peito de Petro, enquanto a outra o abraçava. Atrás estava a praça vermelha, um dos pontos turísticos russos, em Moscou.
–Os dois morreram, só pra constar. –disse tristemente Katerina.
–Ah não, pobrezinho. –Percy olhou com penalidade para Mika. –Ele acha que os pais voltaram. Por isso sorriu tanto ao olhar para Annabeth, ele deve achar mesmo que é a mãe dele.
–Não resta dúvidas que pensa isso, meu rapaz. –Katerina andou até Annabeth e pegou Mika dos seus braços. –Faz apenas três meses que os pais dele se foram, deve estar bastante feliz. Ele está até sorrindo enquanto dorme – ela o enrolou em uma manta e o olhou com um sorriso. –Vou aproveitar essa felicidade toda e colocá-lo pra dormir no seu berço.
Katerina subiu as escadas da casa e Grigori voltou a contá-los a história.
–Com a guerra separatista, o embaixador saiu da Rússia e voltou para cá. A Ucrânia tinha que permanecer unida e autônoma e sem o presidente pró Rússia. Isso já vinha acontecendo há quatro anos sem os holofotes mundiais e antes da queda do avião da Malaysia Airlanes. Foi então que Petro e Ania vieram morar aqui. Aqui ele pôde ter um pouco de paz enquanto monitorava com os seus computadores lá embaixo todo o leste do país.
–Mas os computadores não eram dos vermelhos? –Annabeth fez a pergunta interrompendo o velho.
–Deixe eu terminar, menina. –ele pediu e prosseguiu: -Petro tinha uma casa com uma fazenda de quintal, uma esposa tão adorável que eu e minha mulher a tomamos como filha e tinha também uma vontade insaciável de fazer algo para ajudar a Ucrânia no conflito. Foi aí que ele conheceu um homem chamado Cronos, que entrou em contato por uma das linhas dele. – o corpo de Grigori se contorceu de raiva, o nome Cronos parecia deixá-lo furioso. –Cronos propôs um acordo com Petro: Ele lhe dava informações preciosíssimas vindas da Rússia e a única coisa que Petro devia fazer era ligar uma linha do homem para alguns pontos da Europa.
–Deixe-me adivinhar: Seu filho aceitou. –Percy deduziu.
Grigori bebeu metade da vodca da garrafa num gole só. Aquilo deixou Annabeth com inveja, ela tomava cinco shots e já ficava andando bamba, enquanto o velho parecia completamente normal.
–Aceitou, aquele idiota. E continuou o maldito acordo até descobrir que Ania estava grávida que, curiosamente, foi na mesma época que descobriu todos os planos de Cronos e suas malditas maricas vermelhas. –mais um gole. Esse veio acompanhado de uma lágrima que escorreu pelo rosto do idoso. –Ele fez uma reunião de família e nos contou tudo. Logo depois disse para Cronos que iria ter que parar de mandar as mensagens, nem todo a ajuda que ele estava dando valeria a pena para o meu filho ajudar a começar uma terceira guerra mundial.
O velho apontou para a janela, claramente tentando mostrar um ponto lá fora. Annabeth sorriu ao ver que ele estava começando a ficar embriagado, ele não era de ferro, afinal.
–Foi bem ali perto do batente da porta que aquele verme ameaçou o meu filho. Foi sim, eu vi. –as palavras eram agora pronunciadas balbuciadas. –Disse que se ele parasse de mandar as mensagens teria que matá-lo e a sua família também, já que sabíamos todos daquele planos.
–Posso adivinhar toda a história daqui? –Percy interviu.
–Não, Sherlock. Deixe-o terminar de contar a história. –Annabeth o silenciou.
–Não perguntei nada a você, Watson. –Percy devolveu a ironia.
–Quem é Sherlock e esse tal de Watson? –Grigori franziu o cenho. –Bem, de qualquer forma, eu deixo o garoto tentar adivinhar o que aconteceu.
Percy olhou para Annabeth com sua melhor expressão de satisfação e ela se limitou a revirar os olhos.
–Petro fingiu aceitar, senhor Grigori. –Percy começou a contar sua versão dos fatos. –Mas como sabia que sua esposa estava grávida apenas tentou ganhar tempo para encontrar uma situação melhor, mas... não achou. E continuou tentando mesmo cinco meses após Mikhail ter nascido
–Não, não achou e você acertou. –Grigori completou. –Depois que Mikhail nasceu, Petro cortou as linhas de Cronos, que voltou aqui irado e pediu a senha dos computadores para reiniciar as linhas. Petro não deu e Cronos atirou nele, bem entre a costela e o coração, bem na frente de Ania. Eu e Katerina estávamos daqui de dentro ouvindo tudo. Ania deu a senha a Cronos, que atirou nela logo em seguida. Mikhail não parava de chorar no meu colo. Cronos arrobou a porta somente com uma mão, aquele desgraçado, e olhou para mim e minha mulher e a criança chorosa.
“Vou deixá-los vivos para vigiar o lugar para mim. São confiáveis porque são velhos demais para saberem mexer em computadores. Se me trapacearem, eu volto aqui e mato esse pirralho chorão, entendido?”
–Foi exatamente isso que Cronos disse, com todas as letras. –Grigori terminou a história olhando para a garrafa de vodca vazia. –Eles voltam aqui uma vez por mês liderados por aquele espantalho loiro, o tal do Octavian, para reajustar os computadores. Daqui a três semanas devem voltar. E eu me sinto um marica por não poder fazer nada e viver escravo deles. Meu netinho e minha esposa são escravos da vontade daqueles vermes.
O silêncio depois das últimas palavras do velho foi cortante. Annabeth até ficou feliz por sentir que ele já estava um pouco bêbado, devia doer demais contar aquilo sóbrio, como o mesmo disse. Devia doer demais para Katerina ouvir aquilo de novo também, por isso decidiu subir. Annabeth levantou da cadeira com dificuldade e andou até a frente do senhorzinho a sua frente.
–Senhor Grigori, olhe para mim. –ela pediu e assim fez o homem. –Me dê duas semanas e eu vou resolver tudo para o senhor. Você disse que em três semanas eles estarão aqui, pois bem, quando chegarem vão ter uma surpresa. –ela estendeu a mão e olhou firme nos olhos do homem. –Palavra de uma militar dos Estados Unidos da América à um pai de um militar ucraniano: seu neto não crescerá um escravo.
[...]
Percy odiava crianças. Elas eram barulhentas, inconvenientes e faziam suas necessidades em horas importunas. Mas ele estava apaixonado por Mika. O menino não fazia nada daquilo e parecia se interessar tanto por ciência quanto ele. Durante toda aquela semana, Mika serviu de "assistente" para Percy enquanto ele trabalha nos computadores do porão e finalizava a fórmula para o vírus.
O porão virou uma espécie de casa para ele e Annabeth. Aquele era o lugar que Petro e Ania moravam, então tinha de tudo, menos cozinha, mas eles usavam a de cima. Era um lugar comum, com uma cama de casal ao lado dos computadores e um banheiro no final do lugar. Percy não sabia como eles conseguiam viver ali, já que só tinha luz elétrica naquele cômodo iluminado por uma única lâmpada, pois o resto da luz da casa apenas servia para os cinco computadores e um gerador enorme que os alimentava.
Percy ajeitou Mika no seu colo e passou as mãos no cabelo.
–Mika, acho que vou ter que migrar da bioquímica para a física, acha que vai dar merda? –ele falou com o menino que o olhava curioso e depois se tocou de algo: -Merda! Merda é palavrão. Não conte a ninguém que te ensinei isso, você não ouviu isso de mim.
Mikhail continuou a morder o seu soldadinho de brinquedo. Ele não iria dizer nada, é claro, só tinha oito meses e só sabia engatinhar e chorar. A segunda coisa ele não fazia muito, principalmente quando estava com Percy. A ideia de que ele realmente achava que Percy fosse seu pai, deixava o cientista transtornado. Como ficaria o menino depois que ele e Annabeth partissem?
–Associação em paralelo. –ele se agachou mexendo em um fio do computador e segurando o bebê na outra. –Talvez eu possa ligar a internet do computador 1, que apenas mantém a linha dos vermelhos, para o 5, que contem os arquivos. Assim, eu posso usar o 5 para me comunicar com o Leo. Só preciso ligar a rede de um no outro sem causar um curto circuito.
Percy emendou os fios que tinham as mesmas voltagens e depois de dois minutos viu que o computador 5 já estava dando rede.
–Um prêmio para mim que consegui fazer isso com uma criança nos braços. –ele levantou Mika acima da sua cabeça. O pequenino gargalhou. –Você é um ótimo parceiro, rapaz. Talvez eu volte aqui para te contratar quando a missão acabar. –e piscou um olho para Mikhail, que tentou fazer o mesmo, só que sem sucesso e tirando uma gargalhada do mais velho.
Percy baixou o Skype e tentou se conectar com a conta de Leo. A internet oscilava um pouco, mas ele estava confiante que assim que Valdez visse as ligações perdidas, iria contatá-lo. Era apenas aguardar.
–Agora vamos lá pra cima, Mika. Tenho que achar a minha namorada.
[...]
Percy estava sentado nos degraus da escada de madeira da varanda enquanto escrevia na sua caderneta. Havia conseguido, tudo que podia fazer para criar a cura para aquele maldito vírus estava ali. Ele só achava que talvez faltasse alguma coisa e tinha um medo imensurável de que aquilo falhasse. Mas era tudo o que ele podia fazer e que fez.
–A caneta vermelha, companheiro. –pediu a Mika que estava sentado em uma das suas pernas e só tinha uma caneta em suas mãos, que ao comando de Percy, estendeu o braço para entregá-lo. Percy sorriu. –Você é esperto demais pra ter apenas oito meses. Muito obrigado, segure essa caneta azul para mim. –e ele lhe entregou a azul.
Mika deu um gritinho e pareceu querer voar do colo de Percy ao olhar para frente. Era a reação que ele tinha toda vez que via Annabeth. Ela vinha andando a passos largos carregando um carrinho de mão com lenha e leite, devia ter ordenhado as vacas que ficavam no extremo norte da fazenda junto com Grigori, que estava ao seu lado carregando uma caixa com o que parecia ser peixe.
–Ele deve ter levado a menina para pescar. –Katerina surgiu na porta com chocolate quente nas mãos e uma mamadeira. –Tome e dê a Mika, por favor. Ele parece ficar extremamente obediente com você.
Grigori e Annabeth chegaram até eles. Ela exibia um sorriso orgulhoso, mas ainda andava maçando, o que significava que seu tornozelo havia parado de doer, mas ainda era um incomodo quando firmado por muito tempo com força no chão.
–O velho pesca tanto quanto o seu pai, Percy. Fomos a uma lagoa aqui perto e se ele não tivesse poupado a vida dos peixes, iria pescar todos lá. –Ela disse.
Grigori bufou como se soubesse que é mesmo assim tão bom.
–Vai ficar parado aí, rapaz? –ele indagou a Percy. –Deixe de ser marica e vá ajudar a sua garota com a lenha!
Annabeth desatou a rir e Katerina repreendeu o marido. A loira pegou Mika, que estava tomando a sua mamadeira, caderneta do colo de Percy e o copo de chocolate quente das mãos do namorado, tomando um gole logo em seguida.
–Você não ouviu? Pegue a lenha, seu Marica!–ela fingiu gritar com Percy, imitando de uma forma ridícula o pequeno velhinho. –Ajude a sua namorada e não fique escrevendo nessa caderneta idiota como se fosse um marica. Seu marica!
Ela repetiu o que parecia ser a palavra favorita de Grigori, o que deixou o velho orgulhoso. Segundos depois ela entrou junto com Katerina e Mika. Percy estava irritado por ser chamado de marica e por ter que ficar com aquele velho rabugento. Mas também estava feliz, principalmente, porque Annabeth parecia feliz.
[...]
–Ele está demorando demais a responder, Percy. –Annabeth disse olhando para o computador. –Já mandei mensagem para o email de Thalia, ela respondeu dizendo que vem de Moscou para cá com Nico o mais rápido que puder.
–Valdez nunca demorou tanto assim, deve estar ocupado com algo. –ele bufou. –De qualquer modo, diga a Thalia pra contatar a CIA e dizer que estamos bem, mas que precisamos de reforços para sair daqui.
–Sim, vou fazer isso. Não se esqueça de passar tudo desse computador para Leo. Ainda precisamos saber a exata localização da bomba.
–Já fiz isso. -Percy suspirou. -Espero que Thalia e Nico cheguem aqui antes que os vermelhos saibam que nós estamos mexendo com a peça-chave deles. Temos que manter essa família a salva tanto quanto a nós mesmos.
Annabeth olhou para Percy e ele parecia preocupado e... Lindo. Ela não conseguiu parar de admirá-lo, era belo demais para uma pausa. A barba se fora, na primeira oportunidade Percy a tirara do rosto; os cabelos continuavam do mesmo jeito e bagunçados. As roupas de Petro que o casal lhe dera ficaram um pouco folgadas, já que o homem era quase vinte centímetros maior que Percy e com muito mais músculos. Mas a calça de moletom cinza só o deixava sexy pendurada na cintura com a blusa branca por cima. Annabeth vestia uma blusa de manga longa e calças jeans que pertenciam a mãe de Mika, não achava que estivesse esplendorosa.
Os dois estavam sozinhos no porão, o que a fez pensar em um momento mais intimo a sós.
–Percy, eu vou tomar banho, não quer vir comigo? –ela perguntou parecendo a garota mais inocente do mundo.
Os olhos verdes que olhavam para o chão enquanto estava pensando seja lá o que, a fitaram. Ele parecia um predador nato e aquilo a fez ficar molhada. Aquele olhar era extremamente sexy.
–Mas é claro que vou, não está pensando que sou um marica, não é? –ele disse brincalhão.
–Ah, claro que não. Gostaria apenas de que me lembrasse de que não é mesmo. –ela retrucou e tirou a blusa deixando apenas o sutiã a mostra que logo tratou de tirar. –Faz um tempo que não me dá esse privilégio. –e jogou o sutiã na direção dele.
Percy pegou-o em suas mãos e rosnou indo atrás dela até o banheiro.
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